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Kosher e halal: semelhanças, diferenças e aspectos culturais

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Os sistemas alimentares kosher (judaico) e halal (islâmico) são dois dos regimes dietéticos religiosos mais difundidos globalmente.

Apesar de compartilharem princípios fundamentais, como pureza, ética e respeito à vida, cada um possui regras, interpretações e implicações culturais distintas. Este artigo busca esclarecer, de modo acessível, suas convergências, diferenças e relevância para segurança dos alimentos.

Alimentação kosher

O público que consome comida kosher é majoritariamente formado por judeus que veem essa prática como parte de sua identidade religiosa, histórica e comunitária. Mesmo aqueles menos religiosos muitas vezes mantêm hábitos kosher como forma de preservar tradições familiares e memória coletiva.

Kosher significa “apropriado”, “correto” ou “adequado” segundo a lei judaica (kashrut). O termo vem do hebraico kasher, que literalmente quer dizer “próprio para o uso”.

Leia também: A alimentação kosher: origem, tradição e certificação

Nas cidades, é comum que esse público se concentre em bairros próximos a sinagogas, escolas judaicas e mercados especializados, locais onde há disponibilidade consistente de produtos com certificação rabínica. Para eles, comer kosher vai além da alimentação: é reafirmar um pertencimento cultural e religioso.

Kosher compreende um conjunto de normas que determinam quais alimentos podem ser consumidos e como devem ser preparados.

As regras têm origem em textos sagrados, principalmente a Torá e o Talmud e são aplicadas por rabinos e entidades certificadoras, que supervisionam a produção e emissão de selos de aprovação como a OU – Orthodox Union, considerada a maior certificadora kosher do mundo; a OK Kosher Certification, que também possui forte atuação internacional, sendo referência em auditorias rigorosas e certificações industriais de grande escala; e a Star-K Kosher Certification, amplamente respeitada por sua expertise técnica, especialmente em setores complexos como produção farmacêutica, tecnologia alimentícia e ingredientes industriais.

Um dos pilares da alimentação kosher é a separação entre carne e leite: não é permitido consumi-los juntos, cozinhá-los na mesma preparação ou usar os mesmos utensílios, panelas ou superfícies. Isso muitas vezes exige que a casa tenha dois conjuntos distintos de utensílios, um para carne e outro para laticínios. Exemplos típicos: cheeseburger é proibido, enquanto peixe com queijo é aceitável (pois peixe não é considerado carne no kashrut).

As normas também regulam quais animais são “puros”: entre mamíferos, apenas os que ruminam e possuem casco fendido como vaca, ovelha ou cabra são permitidos; porco, coelho, camelo, cavalo e outros estão vedados.

Entre aves, são aceitas galinha, pato, peru, ganso; aves de rapina são proibidas. Em peixes, somente aqueles com barbatanas e escamas (salmão, atum, sardinha) são permitidos; frutos do mar e peixes sem escamas são vetados.

O abate ritual (shechitá) exige que um shojet, pessoa treinada conforme a lei judaica, realize o corte de maneira rápida e precisa, seguido da drenagem completa do sangue, algo essencial já que o consumo de sangue é proibido. Também devem ser removidas gordura proibida (chelev) e partes específicas, como nervos. A carne kosher costuma ser salgada e lavada para garantir que não reste sangue.

No caso de alimentos industrializados, a certificação kosher exige que todos os ingredientes sejam permitidos, que não haja risco de contaminação cruzada com substâncias proibidas, e que todo o processo, da matéria-prima ao envase, ocorra sob supervisão rabínica.

O mercado global de alimentos kosher hoje representa várias dezenas de bilhões de dólares por ano. Segundo estimativas recentes, o valor global desse mercado ficou em aproximadamente US$ 41,68 bilhões em 2024 e está projetado para alcançar cerca de US$ 44,56 bilhões em 2025. Essa escala reflete não apenas o consumo tradicional nas comunidades judaicas, mas também a crescente demanda de consumidores não-judeus interessados em padrões de pureza e rastreabilidade.

Alimentação halal

O público da alimentação halal é mais amplo e diverso, formado por muçulmanos de diferentes origens culturais e níveis de observância religiosa, desde praticantes rigorosos até pessoas que seguem as normas mais por tradição ou costume social. Para esses consumidores, o halal é parte integrante do estilo de vida islâmico, ligado à pureza, disciplina espiritual e obediência aos preceitos da Sharia.

“Halal” significa permitido ou lícito, e seu oposto, “haram”, refere-se ao proibido.

Leia também: A alimentação halal: origem, tradição e certificação

As regras determinam que o alimento só pode ser consumido se estiver livre de substâncias consideradas impuras, e se seu preparo e processamento respeitarem os valores e normas islâmicas.

O segmento halal também possui certificações para garantir que alimentos e produtos sigam as normas da lei islâmica (Sharia), que compreendem desde o abate ritual até ingredientes, higienização e ausência de substâncias proibidas, como álcool e derivados de porco.

Entre os certificadores halal mais importantes estão a JAKIM (Department of Islamic Development Malaysia), considerada uma das autoridades mais rigorosas do mundo; o GCC Accreditation Center (GAC), que valida certificadoras para todo o Golfo Árabe; e o Halal Food Authority (HFA), do Reino Unido, reconhecido globalmente por sua atuação em alimentos industrializados e cadeias de produção.

No caso da carne, o animal deve ser apto (por exemplo, bovinos, caprinos, aves, camelo entre outros) e abatido conforme o rito halal (zabiha). O abate exige que um muçulmano treinado faça um corte rápido no pescoço, recitando a invocação “Bismillah, Allahu Akbar”, e que o animal esteja saudável no momento do abate. O sangue deve ser drenado, embora a remoção de nervos ou gorduras proibidas não seja tão rigorosa quanto no kosher.

Além disso, bebidas alcoólicas, sangue, gelatinas de origem suína e ingredientes ou aditivos de procedência duvidosa são vedados. Qualquer contaminação com tais substâncias torna o alimento haram.

Em produtos industrializados, a certificação halal exige controle da cadeia produtiva, desde a matéria-prima até o envase e transporte, garantindo que ingredientes, utensílios, maquinário e manipulação sigam os padrões islâmicos.

Estimativas recentes apontam o tamanho global do mercado de alimentos halal como extremamente expressivo. De acordo com um relatório da IMARC Group, este mercado foi avaliado em cerca de US$ 2,7 trilhões em 2024, refletindo não apenas o consumo dentro das comunidades muçulmanas, mas também a expansão da demanda por alimentos certificados halal em mercados não-muçulmanos, motivada por fatores como preocupação com higiene, rastreabilidade, qualidade e ética na produção de alimentos.

Semelhanças e diferenças

Apesar de suas origens distintas, os sistemas kosher e halal compartilham pontos essenciais: ambos regulam o consumo de carne exigindo abates rituais, proíbem o consumo de sangue e de carne suína, e exigem certificações que atestem conformidade com normas religiosas.

Além disso, ambos incluem controles rigorosos quando se trata de alimentos industrializados, visando evitar contaminação e assegurar pureza.

Contudo, há diferenças profundas que tornam os dois sistemas não completamente equivalentes. O kosher impõe regras adicionais, como a separação entre carne e leite, a proibição de frutos do mar e a proibição de certas partes do animal. Já o halal costuma ser mais flexível nesses aspectos, mas exige a invocação do nome de Deus no abate e veta álcool e derivados.

A distinção entre utensílios e a complexidade de preparo variam bastante de um sistema para o outro, como indicado na tabela:

Tabela Comparativa: Kosher x Halal

KOSHER HALAL
Origem religiosa Leis judaicas: Torá e Talmud Lei islâmica (Sharia) / Alcorão e Hadith
Abate ritual Shechitá por shojet; corte preciso, sem atordoamento; drenagem + salga do sangue; remoção de gorduras/nervos proibidos Zabiha por muçulmano; corte no pescoço; sangue drenado; não exige salga; invocação “Bismillah” no momento do abate
Carne + leite / mistura de alimentos Proibida mistura de carne com leite; utensílios separados Não há restrição de combinação carne e laticínios
Carnes proibidas Porco, coelho, cavalo, camelo, avestruz e todos os animais que não ruminam ou não têm casco fendido; aves de rapina; grande parte dos insetos Porco e qualquer animal morto sem abate ritual; animais carnívoros ou de presas; animais considerados impuros; alguns insetos (dependendo da escola jurídica)
Frutos do mar / peixes Apenas peixes com barbatanas e escamas; mariscos proibidos Geralmente permitidos todos peixes e frutos do mar
Álcool e intoxicantes Permitidos (desde que produzidos conforme kosher), vinho kosher é regulado Proibido consumir álcool ou produtos que o contenham
Utensílios/ cozinha Utensílios devem ser dedicados (cárneo x laticínios) ou kasherizados; risco de contaminação por absorção Utensílios precisam ser limpos/ separados se usados com produtos haram; regras mais simples
Certificação de produtos industrializados Selo kosher exige auditoria rabínica, rastreabilidade e controle rigoroso dos ingredientes Selo halal exige rastreabilidade, controle de insumos, proibição de álcool e substâncias haram; auditoria islâmica

Para um judeu que segue o kashrut, alimentos halal não são automaticamente kosher. Embora ambos proíbam porco e sangue, o sistema kosher impõe camadas adicionais de regras que o tornam mais restritivo. Por exemplo: o halal não remove partes proibidas pela lei judaica, como o chelev (gordura específica) e o gid hanasheh (nervo ciático), que precisam obrigatoriamente ser retirados no preparo kosher.

Além disso, a carne halal não passa pelo processo de salga e lavagem exigido para remover qualquer resíduo de sangue, nem exige a separação completa entre carne e leite, que impacta toda a cozinha e utensílios.

Da mesma forma, utensílios usados para halal não seguem o processo de kasherização, requisito essencial no kashrut. Por esses motivos, um alimento halal pode ser 100% permitido para muçulmanos, mas ainda assim ser não kosher para judeus, a menos que receba certificação rabínica específica.

Entre muçulmanos, a situação costuma ser mais flexível: alimentos kosher, especialmente carnes, tendem a ser aceitos como halal porque o abate judaico é considerado válido por muitas escolas jurídicas islâmicas ao reconhecer judeus como parte do “Povo do Livro”.

Essa aceitação, porém, não é universal. Produtos kosher que contenham álcool (por exemplo, vinhos kosher ou alimentos cozidos com vinho) tornam-se automaticamente haram. Também há correntes islâmicas que exigem a recitação explícita de “Bismillah” durante o abate, algo que não ocorre na shechitá judaica.

Assim, embora o kosher seja geralmente mais compatível com o halal do que o contrário, a aceitação varia conforme a interpretação religiosa de cada comunidade.

Kosher e halal no Brasil

No Brasil, o mercado kosher é relativamente bem documentado e conta com estimativas recentes de fontes confiáveis. Segundo relatório da consultoria internacional IMARC Group, o segmento movimentou cerca de US$ 477,82 milhões em 2024, com projeção de crescimento para aproximadamente US$ 617,48 milhões até 2033.

Trata-se de um nicho consolidado, presente especialmente em grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro, com expansão impulsionada não apenas pelo público judeu, mas também por consumidores que associam a certificação a rigor, rastreabilidade e segurança dos alimentos.

Entre as certificadoras com maior atuação no país destacam-se BDK do Brasil, Beit Yosef, Star-K e OU (estas duas últimas atuam por meio de representantes e auditorias internacionais).

Já o mercado halal brasileiro ganha cada vez mais destaque, com crescimento expressivo tanto nas exportações quanto na certificação doméstica. Organizações do setor estimam que a indústria halal no país movimente entre US$ 5 a 6 bilhões por ano considerando carnes, derivados e produtos certificados.

O Brasil é um dos maiores produtores globais de carne halal, e uma parcela significativa dessa produção é destinada a mercados internacionais, especialmente países muçulmanos. Movimentações recentes mostram que, entre 2023 e 2024, houve aumento no número de empresas habilitadas para exportação halal, ampliando a diversidade de produtos certificados. No entanto, e isso é comum em mercados em expansão, os dados para o segmento halal ainda variam conforme a fonte e o recorte da pesquisa. As estimativas disponíveis concentram-se em exportações ou em determinados ramos (como proteína animal), o que dificulta obter um valor nacional consolidado para todo o mercado halal doméstico.

Por outro lado, a diversidade de certificadoras e o crescimento da demanda fazem com que o setor seja ativo e promissor. Entre as entidades com maior atuação no Brasil destacam-se certificadoras como CDIAL Halal, FAMBRAS Halal e SIILHALAL, responsáveis pela auditoria e certificação de numerosas unidades produtoras.

Relação kosher, halal e segurança dos alimentos

Do ponto de vista de food safety, tanto o kosher quanto o halal podem agregar valor aos processos de rastreabilidade, controle de qualidade e higiene.

A obtenção dessas certificações exige auditorias periódicas, rastreamento da cadeia produtiva, verificação rigorosa das matérias-primas e validação dos processos industriais, reduzindo o risco de contaminações cruzadas ou do uso de ingredientes proibidos. Muitas empresas que atuam em mercados internacionais adotam certificações halal ou kosher justamente para atender exigências de exportação e ampliar a confiança do consumidor.

É fundamental reconhecer que certificação religiosa não substitui normas técnicas de segurança de alimentos como HACCP, legislações sanitárias, controle de temperatura, higiene operacional, armazenamento adequado e rotulagem conforme requisitos regulatórios.

Kosher e halal atestam conformidade religiosa e oferecem, de forma secundária, uma camada adicional de qualidade e rastreabilidade, mas não garantem por si só ausência de patógenos, estabilidade microbiológica ou boas práticas sanitárias.

Por isso, a plena segurança dos alimentos depende da integração entre esses sistemas religiosos e os padrões técnicos modernos. Em síntese: kosher e halal fornecem um arcabouço valioso de ética, controle e rastreamento, apreciado tanto por consumidores religiosos quanto por mercados globais, mas precisam ser complementados pelas normas e boas práticas de higiene e segurança para assegurar alimentos realmente seguros.

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Indústria 4.0 na Segurança dos Alimentos: por que digitalizar?

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A chamada Quarta Revolução Industrial — ou Indústria 4.0 — já não é uma tendência: é uma realidade que está transformando profundamente a forma como produzimos, controlamos e garantimos a segurança dos alimentos. Tecnologias como Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial, big data e sistemas integrados de gestão estão a revolucionar o setor, automatizando processos, reduzindo falhas humanas e permitindo decisões mais rápidas e baseadas em dados.

Mas se por um lado a digitalização traz enormes oportunidades, por outro exige adaptação, formação e uma visão estratégica. O controle da qualidade, que sempre foi um pilar da segurança dos alimentos, ganha agora novas ferramentas — e novos desafios.

Neste artigo, compartilho como a transformação digital pode (e deve) ser aliada na construção de sistemas mais robustos, eficientes e transparentes. Porque a segurança dos alimentos começa nos dados — mas continua nas pessoas.

Por que digitalizar? Vantagens para a segurança dos alimentos

A digitalização dos processos permite um controle mais rigoroso, em tempo real, e com menos margem para erro humano. Sistemas digitais oferecem:

  • Maior rastreabilidade dos lotes e matérias-primas;
  • Monitorização contínua de parâmetros críticos, como temperatura e umidade;
  • Automação de registros e alertas, reduzindo falhas de preenchimento manual;
  • Análise preditiva, com base em dados históricos, para prevenir contaminações ou falhas de processo.

Tudo isto contribui para aumentar a confiança do consumidor e reforçar a conformidade com certificações como IFS, BRCGS ou ISO 22000.

Desafios da transformação digital no setor alimentar

Apesar dos benefícios, muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para implementar soluções digitais. Entre os principais desafios estão:

  • Custos de investimento inicial em equipamentos e software;
  • Falta de mão de obra qualificada para operar e interpretar dados;
  • Integração difícil com sistemas antigos ou manuais;
  • Resistência à mudança, especialmente em PME ou negócios familiares.

Mas talvez o maior erro na tentativa de digitalização seja impor regras e sistemas sem ouvir quem está no terreno. Quem trabalha diariamente nas linhas de produção, nas salas de embalamento ou nos armazéns tem um conhecimento valioso sobre os processos — e ignorar essa experiência é desperdiçar uma fonte essencial de melhoria.

O que muitas vezes acontece é a criação de estruturas digitais complexas, burocráticas e desajustadas da realidade, que acabam por dificultar mais do que ajudar. Isso gera frustração, resistência e, em muitos casos, faz com que o projeto de digitalização seja adiado indefinidamente ou caia no esquecimento dentro da própria empresa.

A transformação digital só acontece de forma eficaz quando as pessoas são parte do processo desde o início, sendo ouvidas, formadas e envolvidas na construção das soluções. A tecnologia deve servir o processo — e nunca o contrário.

A aceitação da Indústria 4.0 no setor alimentar: estamos preparados?

Apesar do avanço tecnológico, a adesão à digitalização no setor alimentar é desigual. Grandes indústrias têm liderado o movimento, enquanto pequenas e médias empresas ainda enfrentam barreiras.

Segundo estudos europeus recentes, as principais motivações para digitalizar estão ligadas à eficiência operacional, redução de perdas e maior rastreabilidade. Por outro lado, os principais motivos para não avançar são o custo, a complexidade técnica e o receio de depender excessivamente da tecnologia.

Ainda assim, a tendência é clara: quem investe, colhe resultados. E quem adia, corre o risco de ficar para trás — ou falhar em segurança.

Conclusão: digitalizar é inevitável — e benéfico quando bem feito

A Indústria 4.0 não é apenas uma questão de inovação, mas uma exigência para garantir alimentos mais seguros, rastreáveis e sustentáveis. No entanto, a transição deve ser feita com consciência, adaptando o processo à realidade de cada empresa.

Digitalizar não significa perder o controle — pelo contrário, é ganhar mais controle, com dados confiáveis e decisões mais rápidas. Cabe às lideranças reconhecer que o futuro da segurança dos alimentos passa, inevitavelmente, por esta transformação. E quanto mais cedo começarmos, mais preparados estaremos.

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Segurança de alimentos em gastronomia sustentável: lições do Cook for Change 2025

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A segurança de alimentos e a gastronomia sustentável não são conceitos excludentes – pelo contrário, caminham lado a lado na construção de um sistema alimentar mais responsável. Foi com esse olhar que o Food Safety Brazil participou de um evento exclusivo da Sodexo, onde tivemos a oportunidade de conversar com os três chefs brasileiros classificados para a semifinal mundial do Cook for Change 2025, competição global que aconteceu em Chicago entre 17 e 21 de novembro. 

O desafio 

O Cook for Change é uma competição que desafia chefs de 30 países a criarem receitas inovadoras, nutritivas e sustentáveis em apenas 60 minutos. Os pratos devem ser predominantemente à base de plantas, com possibilidade de incluir peixes e frutos do mar sustentáveis, valorizando ingredientes locais e o aproveitamento integral dos alimentos.

Mas como garantir a segurança de alimentos em um contexto que prioriza sustentabilidade, aproveitamento integral e ingredientes não convencionais? Foi exatamente isso que perguntamos à equipe Sodexo.

  • Aproveitamento integral e segurança de alimentos

“Ao trabalhar com o aproveitamento integral dos alimentos – incluindo cascas, talos e outras partes menos convencionais -, quais são os principais cuidados de segurança de alimentos que vocês precisam observar, desde a seleção dos ingredientes até o preparo final?”

R.: Quando falamos em aproveitamento integral dos alimentos, a segurança vem sempre em primeiro lugar. Na Sodexo, o uso de cascas, talos, folhas e sementes segue os mesmos padrões internacionais aplicados às demais etapas de produção. Tudo começa com a seleção rigorosa dos insumos, por isso trabalhamos apenas com fornecedores homologados, assegurando qualidade, rastreabilidade e condições adequadas de produção.

Cada ingrediente passa por protocolos padronizados de higienização com sanificante alimentar, manipulação segura para evitar contaminação cruzada, uso adequado de utensílios e armazenamento em temperatura controlada. 

A garantia da segurança dos alimentos no aproveitamento integral dos alimentos se dá no cuidado, higiene e controle de temperatura para as cascas, talos e partes não convencionais. Ou seja, essas partes não são tratadas como descarte, mas como alimento, do início ao fim do processo.     

  • Controle de tempo e temperatura em receitas sustentáveis

“Considerando que vocês têm apenas 60 minutos para preparar pratos completos à base de plantas, peixes e frutos do mar, como vocês garantem o controle adequado de tempo e temperatura para ter segurança microbiológica, especialmente ao trabalhar com ingredientes de diferentes origens?”

R.: Mesmo em um ambiente de competição, seguimos as mesmas práticas adotadas nas operações da Sodexo. Todos os ingredientes utilizados já chegam armazenados em condições controladas dentro da nossa cadeia homologada, garantindo que estejam em temperatura adequada desde a origem até o momento do preparo.

Durante a prova, aplicamos procedimentos de manipulação segura, segregação de alimentos crus e prontos para consumo, higienização dos alimentos, que inclui a etapa de sanitização de hortifrutis, a contínua higienização das superfícies e utensílios e o monitoramento constante de temperatura. Os chefs utilizam equipamentos adequados para garantir as temperaturas de cocção e resfriamento e asseguram que o preparo siga os procedimentos descritos em nosso Manual de Boas Práticas Sodexo.

Antes do evento, nossas equipes de especialistas técnicos estruturam um fluxo produtivo eficiente e seguro, garantindo que mesmo em apenas 60 minutos o processo siga padrões de qualidade e segurança equivalentes aos aplicados no ambiente operacional. A montagem do prato é rápida, mas a responsabilidade sanitária permanece a mesma desde o campo até o prato final. Inclusive, entre o comitê avaliador temos especialistas em segurança dos alimentos, avaliando o atendimento desses critérios no preparo dos pratos.

  • Rastreabilidade e ingredientes locais

“A competição valoriza o uso de produtos locais e frutos do mar sustentáveis. Como vocês asseguram a rastreabilidade e a procedência segura desses ingredientes, principalmente ao desenvolver receitas que serão replicadas em diferentes operações da Sodexo ao redor do mundo?”

R.: Rastreabilidade faz parte dos princípios globais dos programas de segurança dos alimentos da Sodexo. Trabalhamos exclusivamente com fornecedores aprovados dentro dos nossos padrões, o que garante origem verificada, inspeção sanitária, boas práticas de produção e transporte adequado. Todos os ingredientes utilizados na competição já pertencem a essa cadeia segura e homologada.

Quando um prato criado no Cook For Change passa a ser replicado em outras unidades, ele se transforma em um processo padronizado. Construímos fichas técnicas, determinamos parâmetros de preparo, tempos e temperaturas, padronizamos cortes, fracionamento, armazenamento e métodos de higienização. Dessa forma, conseguimos manter a mesma qualidade, o mesmo sabor e o mesmo nível de segurança em qualquer operação, seja no Brasil ou em outro país.

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Nosso país nas últimas competições

O Brasil tem se destacado na competição, conquistando o primeiro lugar em 2023 e o Top 5 em 2024. Agora, três chefs brasileiros levarão para Chicago não apenas a brasilidade gastronômica, mas também o compromisso com práticas seguras e sustentáveis que podem ser replicadas globalmente.

As receitas criadas na competição precisam ser viáveis para implementação nas operações da Sodexo pelo mundo, o que significa que toda inovação deve estar alinhada com protocolos rigorosos de segurança de alimentos, boas práticas de fabricação e legislações sanitárias de diferentes países.

O Food Safety Brazil seguirá acompanhando essa jornada dos chefs brasileiros e compartilhando insights sobre como a indústria de alimentos pode abraçar a sustentabilidade sem comprometer os padrões de segurança que protegem a saúde pública.

Desejamos sucesso aos nossos chefs na semifinal em Chicago!

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Riscos em segurança dos alimentos: o que causa mortes?

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A segurança dos alimentos é um dos pilares da saúde pública moderna, mas continua sendo um desafio de dimensões globais, estimando-se que, todos os anos, cerca de 600 milhões de pessoas adoeçam após consumir alimentos contaminados, ou seja, 1 em cada 10 habitantes do planeta.

Dessas, aproximadamente 420 mil morrem por doenças transmitidas por alimentos (foodborne diseases) segundo dados da Organização Mundial da Saúde, em 2024.

Esses números revelam uma verdade incômoda: mesmo com avanços em tecnologia, rastreabilidade e boas práticas, a contaminação microbiológica continua sendo o principal risco em segurança dos alimentos, e a causa mais frequente de mortes associadas ao consumo de alimentos.

No entanto, a falta de vigilância epidemiológica padronizada é um dos maiores obstáculos em segurança dos alimentos e na obtenção de dados estatísticos seguros. A maioria dos países, especialmente os de baixa e média renda populacional, não possui sistemas robustos de rastreabilidade ou diagnóstico laboratorial capazes de identificar a origem de surtos.

Além disso:

  • Muitas doenças alimentares têm sintomas inespecíficos, confundindo-se com viroses comuns;
  • Parte significativa das mortes ocorre sem confirmação laboratorial;
  • Os sistemas de notificação diferem em metodologia, cobertura e critérios diagnósticos.

De acordo com o relatório “WHO Estimates of the Global Burden of Foodborne Diseases” (OMS/ FERG, publicado em 2015, com ano-base 2010), as maiores causas de mortalidade global por alimentos contaminados são:

Agente Mortes estimadas (globais) Comentários
Salmonella enterica (não tifoide) ~59.000 Maior carga global de doença; associada a carnes, ovos e produtos crus
Salmonella Typhi (febre tifoide) ~52.000 Grave em países com saneamento precário
Norovírus ~35.000 Causa mais comum de gastroenterite viral; grande volume de casos
Escherichia coli (EPEC/ETEC) 26.000–37.000 Muito comum em países de baixa renda; alta carga em crianças
Taenia solium (tênia do porco) ~28.000 Provoca neurocisticercose; impacto regional grave
Hepatite A (alimentar) ~28.000 Menor incidência, mas alta letalidade em surtos

Em forma de gráfico de Pareto:

  • As barras azuis representam o número estimado de mortes por cada patógeno.

  • A linha vermelha indica o percentual acumulado, evidenciando quais agentes concentram a maior parte das mortes.

Podemos ver que Salmonella enterica (não tifoide) e Salmonella Typhi juntas já respondem por cerca de 40% das mortes globais listadas na tabela (fonte: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26633831)

Embora os números globais de mortes por alimentos contaminados sejam impressionantes, muitos desses problemas poderiam ser significativamente reduzidos com práticas básicas de higiene, saneamento e cocção adequada.

Salmonella enterica (não tifoide) é uma bactéria que causa diarreia, febre e cólicas. Embora possa ser grave, é altamente controlável com cocção completa e higiene na manipulação de carnes e ovos. Suas principais fontes incluem carnes cruas ou mal cozidas, ovos, laticínios não pasteurizados e produtos crus manipulados inadequadamente.

Salmonella Typhi, causadora da febre tifoide, provoca febre alta, fadiga e complicações graves. Diferentemente da Salmonella não tifoide, é transmitida principalmente por água e alimentos contaminados por fezes humanas, sendo mais comum em áreas com saneamento deficiente.

Norovírus é um vírus altamente contagioso que causa vômitos e diarreia. Ele se espalha facilmente por mãos, superfícies e alimentos manipulados por pessoas infectadas. Entre as principais fontes estão frutos do mar crus, saladas e alimentos prontos manipulados sem higiene adequada.

Escherichia coli (EPEC/ ETEC) é um grupo de bactérias patogênicas que provocam diarreia, cólicas e desidratação. Assim como outros patógenos bacterianos, podem ser controladas com higiene pessoal, saneamento e cocção adequada. Seus veículos mais comuns são carnes cruas ou malcozidas, leite cru, água contaminada e vegetais irrigados com água contaminada.

Taenia solium, conhecida como tênia do porco, é um parasita que causa cisticercose, podendo afetar o sistema nervoso e levar à morte em casos graves. É surpreendente que ainda registre alta mortalidade, evidenciando que a prevenção básica, especialmente o cozimento completo da carne de porco, continua crítica.

Por fim, hepatite A (alimentar) é causada por um vírus que provoca inflamação do fígado. Apesar de rara, apresenta alta letalidade em surtos e pode ser prevenida com saneamento adequado, vacinação e higiene durante a manipulação de alimentos. Os alimentos mais associados são frutos do mar crus, alimentos manipulados por pessoas infectadas e água contaminada.

O que chama atenção é que a maioria desses patógenos poderia ser evitada com medidas relativamente simples, como lavar bem as mãos, higienizar utensílios, cozinhar completamente carnes e frutos do mar e evitar a contaminação cruzada. A persistência da Taenia solium, em particular, mostra que mesmo riscos há muito conhecidos continuam a causar mortes quando as medidas básicas de prevenção são negligenciadas.

Vale destacar que esses dados têm cerca de uma década e, desde então, não houve uma atualização integral das estimativas globais. Embora a OMS tenha reafirmado os números em comunicados recentes (2023–2024), a nova edição do relatório do Foodborne Disease Burden Epidemiology Reference Group (WHO FERG, 2ª edição) ainda está em elaboração, sem data confirmada de publicação, mas com previsão de lançamento em breve (WHO FERG 2nd edition).

Além disso, em parceria com o Banco Mundial, a OMS está conduzindo um estudo complementar para estimar o impacto econômico global das doenças transmitidas por alimentos, com base no ônus à saúde pública, sendo que os resultados finais estão previstos para após 2026.

É preciso ressaltar que nem todas as informações sobre doenças alimentares na internet têm base científica. As principais fontes internacionais de dados confiáveis são:

Instituição Conteúdo principal Link
WHO (World Health Organization) Relatórios globais e regionais sobre foodborne diseases www.who.int
FAO (Food and Agriculture Organization) Diretrizes e dados sobre segurança e comércio de alimentos www.fao.org
CDC (Centers for Disease Control and Prevention – EUA) Vigilância de surtos e estatísticas atualizadas www.cdc.gov/foodsafety
EFSA (European Food Safety Authority) Relatórios anuais da UE sobre agentes zoonóticos e surtos alimentares www.efsa.europa.eu
PubMed / PLoS Medicine / Science Direct Artigos científicos revisados por pares www.pubmed.gov

Essas são as fontes primárias mais confiáveis para embasar decisões, treinamentos e auditorias de segurança dos alimentos.

Mesmo em 2025, os microrganismos patogênicos continuam sendo o maior desafio à segurança dos alimentos. Apesar dos avanços tecnológicos e normativos, como HACCP, ISO 22000 e FSSC 22000, a prevenção ainda depende essencialmente de boas práticas, treinamento humano e rastreabilidade eficaz.

Os avanços em tecnologia de alimentos, boas práticas e gestão de riscos (HACCP, ISO 22000, FSSC 22000) reduziram a incidência, mas não eliminaram o problema. A segurança dos alimentos exige esforços múltiplos: multissetorial, multidisciplinar, e claro, multifatorial, dependente de:

  1. Boas práticas agrícolas (BPA) e de fabricação (BPF) – conjuntos de procedimentos preventivos que asseguram que o alimento seja produzido e processado em condições higiênicas e controladas. As BPA atuam na etapa primária, controlando o uso de água, defensivos, solo e bem-estar animal, enquanto as BPF garantem higiene nas instalações, controle de temperatura, prevenção da contaminação cruzada e manutenção dos equipamentos. Juntas, formam a base de sistemas como o HACCP e normas ISO 22000, sendo essenciais para minimizar riscos microbiológicos, químicos e físicos em toda a cadeia produtiva;
  2. Treinamento contínuo de manipuladores – fundamental para reduzir falhas humanas e assegurar práticas seguras na manipulação dos alimentos. Ele capacita os profissionais a compreenderem riscos e adotarem comportamentos corretos, como a higiene pessoal adequada, o uso correto de equipamentos de proteção, o controle de tempo e temperatura e a separação entre alimentos crus e prontos. A formação contínua não apenas cumpre exigências legais, mas cria uma cultura de segurança, transformando cada manipulador em um agente ativo de prevenção;
  3. Rastreabilidade eficiente – sistema que permite identificar e acompanhar um alimento em todas as etapas da cadeia produtiva, do campo ao consumidor. Um sistema eficiente de rastreabilidade possibilita ações rápidas em casos de contaminação ou recall, reduzindo impactos à saúde e à reputação da empresa. Além de atender exigências legais e normativas internacionais, ela reforça a transparência, permite controle de lotes, facilita auditorias e aumenta a confiança entre produtores, distribuidores e consumidores;
  4. Comunicação transparente com o consumidor – componente essencial da segurança dos alimentos, pois fortalece a confiança e a responsabilidade entre empresas e consumidores. Inclui rotulagem clara sobre composição, origem, validade e alergênicos, além de uma postura ética e ágil em situações de risco ou recall. Informar de forma aberta e precisa demonstra compromisso com a saúde pública e contribui para a educação do consumidor, que passa a adotar práticas seguras também em casa, tornando a segurança do alimento uma responsabilidade compartilhada.

Até que novos dados globais sejam publicados, as estimativas de 2015 permanecem a referência mais sólida e cientificamente validada para compreender o panorama mundial de riscos em segurança dos alimentos.

Referências:

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Casos de botulismo infantil nos EUA ultrapassam 100 registros

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A mídia internacional tem destacado uma possível correlação entre o aumento anormal de casos de botulismo infantil nos EUA e o consumo da fórmula infantil ByHeart.

Botulismo infantil é uma forma rara, porém grave, de botulismo que acomete bebês menores de 1 ano, especialmente abaixo de 6 meses, causada pela bactéria Clostridium botulinum. Esta bactéria produz uma toxina capaz de afetar o sistema nervoso do bebê e provocar fraqueza muscular e dificuldade de movimentação. Trata-se de uma emergência médica porque pode comprometer os músculos respiratórios.

Sintomas típicos podem aparecer de forma lenta e progressiva

  • Constipação (o sintoma mais comum e inicial);
  • Fraqueza muscular;
  • Choro fraco;
  • Dificuldade de sugar, mamar ou engolir;
  • Sonolência excessiva;
  • Diminuição dos movimentos;
  • Queda da cabeça (“cabeça mole”).

A ByHeart é uma marca norte-americana de fórmulas premium para bebês, produzidas com ingredientes selecionados e voltadas para pais que buscam uma alternativa de alta qualidade ao leite materno.

No entanto, a relação entre o produto da ByHeart e todos os casos ainda não é comprovada; apenas parte dos bebês adoecidos teve exposição confirmada à fórmula e as autoridades reforçam que a apuração permanece em andamento.

A investigação ganhou força quando o Departamento de Saúde Pública da Califórnia (CDPH) identificou novos casos de botulismo infantil iniciados já em novembro de 2024, que podem, embora ainda sem confirmação, estar vinculados ao atual surto associado à ByHeart.

Até 19 de novembro de 2025, o surto oficialmente reconhecido contabilizava 31 casos distribuídos por 15 estados, todos com início dos sintomas entre agosto e novembro de 2025.

O alerta inicial veio do Programa de Tratamento e Prevenção do Botulismo Infantil (IBTPP), ligado ao CDPH e responsável pelo único tratamento específico para botulismo infantil no mundo.

Com o avanço das investigações, o número de casos tratados pelo CDPH durante o período de aumento subiu de 84 para 107, todos ocorridos entre 1º de agosto e 19 de novembro de 2025.

A contabilização se baseia na administração do BabyBig, o único medicamento específico contra a doença, produzido exclusivamente pelo próprio CDPH. Contudo, nem todos os bebês tratados consumiram fórmula ByHeart, o que reforça que o nexo causal ainda é incerto.

Nos Estados Unidos, o padrão histórico é de menos de 200 casos anuais de botulismo infantil. Já no Brasil, para um comparativo, não há dados consolidados especificamente para essa faixa etária, pois os sistemas de vigilância registram apenas o total geral de botulismo, sem distinguir adequadamente os casos infantis, e a subnotificação dificulta qualquer estimativa confiável.

Além dos registros mais recentes, o CDPH identificou outros seis casos, ocorridos entre novembro de 2024 e junho de 2025, envolvendo bebês que também tiveram algum nível de exposição à fórmula ByHeart. Esses episódios continuam sob investigação, mas ainda não foram oficialmente ligados ao surto atual por terem ocorrido antes de 1º de agosto.

Paralelamente, o advogado Bill Marler, que representa famílias afetadas, afirma que ao menos cinco bebês apresentaram botulismo no fim de 2024 e início de 2025, período anterior ao pico que chamou a atenção do CDPH.

O CDC esclareceu que os esforços federais estão concentrados no aumento incomum após 1º de agosto, enquanto casos anteriores são difíceis de relacionar devido ao tempo decorrido e à baixa probabilidade de que os pais tenham guardado lotes ou embalagens da fórmula.

A situação ganhou novo peso em 19 de novembro, quando a própria ByHeart anunciou que testes independentes confirmaram a presença de Clostridium botulinum em seus produtos. Antes disso, o CDPH já havia detectado a bactéria em uma lata aberta consumida por um bebê adoecido.

A ByHeart anunciou um recall voluntário de dois lotes de sua fórmula infantil “Whole Nutrition Infant Formula” após uma investigação conduzida pelo FDA indicar possível contaminação por Clostridium botulinum.

No comunicado, a empresa explicou que o recall era uma medida de precaução, pois não havia confirmação laboratorial de toxina ou esporos nos lotes fechados naquele momento, mas recomendou que os consumidores interrompessem imediatamente o uso, descartassem ou devolvessem o produto e buscassem atendimento médico se houvesse sintomas compatíveis com botulismo. A ByHeart afirmou estar colaborando integralmente com o FDA e outros órgãos de saúde, realizando testes independentes e reforçando que casos de botulismo infantil são raros e historicamente não associados a fórmulas industrializadas.

Testes adicionais seguem sendo conduzidos por agências estaduais e pela FDA, que está analisando também amostras de latas fechadas. Por segurança, todos os produtos da marca foram recolhidos em âmbito nacional.

Por isso, a Anvisa proibiu no Brasil a importação, venda, distribuição, propaganda e uso da fórmula infantil ByHeart Whole Milk 0–12 meses (720 ml). A agência classificou a decisão como medida preventiva, destacando que a fórmula não possui registro sanitário no país, o que já tornava sua comercialização irregular. Além disso, a Anvisa orientou que qualquer unidade encontrada seja apreendida pelos órgãos de vigilância sanitária e reforçou que consumidores que, porventura, tenham adquirido o produto, devem interromper imediatamente o uso.

A crise também reabriu discussões sobre falhas prévias de segurança na empresa. Relatórios anteriores da FDA já apontavam problemas na instalação de produção, incluindo mofo, insetos mortos, telhados com vazamento e, em 2023, uma carta de advertência pela detecção de Cronobacter sakazakii em produtos da marca, um contaminante de alto risco para fórmulas infantis.

Embora a presença de C. botulinum em lotes da fórmula ByHeart esteja confirmada e parte dos bebês adoecidos tenha consumido o produto, as autoridades ainda não conseguem afirmar que todos os casos do aumento recente estejam ligados à marca.

A investigação continua, e uma correlação definitiva dependerá da análise de amostras, da rastreabilidade dos lotes e da consolidação dos dados clínicos, epidemiológicos e laboratoriais. Até lá, recomenda-se cautela, acompanhamento das atualizações oficiais e rigor no uso de fórmulas infantis de qualquer fabricante.

Referências: 

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Dióxido de titânio nos alimentos: saúde em risco?

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Você já parou para ler os rótulos dos alimentos que consome? Em meio a tantos nomes estranhos, um em particular tem gerado grande debate e preocupação entre cientistas e autoridades de saúde: o dióxido de titânio (TiO2), também conhecido como corante E171. Ele é usado para dar mais brilho e brancura a milhares de produtos, de doces a medicamentos, mas pode estar colocando a sua saúde em risco de formas que só agora começamos a entender.

O que é o dióxido de titânio e onde ele se esconde?

O dióxido de titânio é um pigmento branco, em pó, amplamente utilizado pela indústria alimentícia para tornar os produtos mais atraentes visualmente. Ele pode estar presente em uma vasta gama de itens do nosso dia a dia, como:

  • Doces e guloseimas: balas, chicletes, chocolates e coberturas
  • Produtos de panificação: pães, biscoitos e bolos.
  • Laticínios e derivados: queijos, requeijão e iogurtes.
  • Molhos, sopas e caldos industrializados.
  • Bebidas em pó e cereais matinais.

Além dos alimentos, o E171 também é encontrado em medicamentos (revestindo cápsulas), cosméticos (pastas de dente, protetores solares) e tintas. O problema reside na forma como ele é produzido: uma porção significativa do dióxido de titânio usado na indústria alimentícia está na forma de nanopartículas, partículas ultrafinas que podem se comportar de maneira imprevisível no corpo humano.

Alerta vermelho: os riscos que a ciência aponta

Recentes estudos científicos têm acendido um alerta sobre os potenciais efeitos tóxicos do dióxido de titânio, especialmente quando em sua forma nanométrica. A preocupação é tão grande que a União Europeia proibiu o uso do E171 como aditivo alimentar em 2022.

A ameaça da genotoxicidade

A principal razão para a proibição na Europa foi a conclusão da Autoridade Europeia de Segurança de Alimentos (EFSA) de que não era possível descartar a genotoxicidade do aditivo. Em outras palavras, não há como garantir que o consumo de partículas de dióxido de titânio não danifique o DNA das células, o que, em última instância, pode levar ao desenvolvimento de câncer.

“Levando em conta todos os estudos científicos e dados disponíveis, o Painel concluiu que o dióxido de titânio não pode mais ser considerado seguro como aditivo alimentar. Um elemento crítico para chegar a esta conclusão é que não pudemos excluir preocupações de genotoxicidade após o consumo de partículas de dióxido de titânio”, disse o Prof. Maged Younes, Presidente do Painel de Aditivos Alimentares da EFSA, em 2021.

Desregulação endócrina e o risco de diabetes

Uma pesquisa recente, publicada em 2025 e destacada pelo jornal The Guardian, trouxe novas e alarmantes descobertas. O estudo, conduzido em camundongos, revelou que as nanopartículas de dióxido de titânio podem atuar como um desregulador endócrino, afetando o sistema hormonal intestinal.

Os pesquisadores observaram que o aditivo:

  • Interrompe a resposta hormonal à comida: afeta os hormônios que sinalizam a saciedade e auxiliam na digestão.
  • Desregula os níveis de açúcar no sangue: os camundongos expostos às nanopartículas apresentaram níveis de glicose muito mais elevados.

Essas alterações estão diretamente ligadas a um maior risco de desenvolver obesidade, resistência à insulina e diabetes tipo 2.

Acúmulo no organismo e outros danos

Apesar de a absorção do dióxido de titânio ser baixa, as partículas podem se acumular em diversos órgãos ao longo do tempo, como fígado, baço e intestinos. Estudos também associam o aditivo a outros problemas de saúde, como:

  • Inflamação e lesões intestinais
  • Neurotoxicidade (danos ao sistema nervoso)
  • Imunotoxicidade (danos ao sistema imunológico)

O cenário no Brasil e no mundo: um jogo de espera

Enquanto a União Europeia adotou uma postura de precaução, a situação em outros países, incluindo o Brasil, é mais complexa. Compare os cenários:

  • União Europeia: Proibido como aditivo alimentar desde 2022.
  • Estados Unidos: Permitido. A FDA (agência reguladora dos EUA) ainda considera o aditivo seguro.
  • Brasil: Permitido, mas em reavaliação. A ANVISA incluiu o E171 em sua agenda de reavaliação e, desde 2021, não concede novas autorizações de uso. No entanto, o aditivo continua permitido em 37 categorias de alimentos, aguardando um parecer final do comitê de especialistas da OMS/FAO.
  • Canadá e Reino Unido: Agências reguladoras desses países publicaram relatórios que divergem da conclusão da EFSA, afirmando não haver evidências conclusivas de risco à saúde nas formas e quantidades atualmente consumidas.

Como o consumidor pode se proteger?

Diante da incerteza e das evidências conflitantes, a melhor atitude para o consumidor é a precaução. Aqui estão algumas dicas:

  1. Leia os rótulos: procure por “dióxido de titânio” ou “E171” na lista de ingredientes.
  2. Cobre posicionamento: questione as marcas e as autoridades de saúde sobre o uso deste e de outros aditivos controversos.

Embora a ciência continue a debater o nível exato de risco, as evidências que se acumulam sugerem que o dióxido de titânio é um aditivo desnecessário e potencialmente perigoso.

A decisão da Europa de proibi-lo serve como um forte sinal de que, quando se trata de segurança de alimentos, o princípio da precaução deve sempre prevalecer. Cabe a nós, consumidores, estar informados e fazer escolhas conscientes para proteger a nossa saúde.

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ETO – O uso de óxido de etileno como esterilizante em alimentos

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Nos últimos anos, muitos casos de contaminação de alimentos demonstraram o risco em relação ao uso do óxido de etileno. Esse gás inflamável, conhecido no setor como ETO, pode ser empregado como agente esterilizante. Tal uso se justifica por sua capacidade de inativar microrganismos danificando o seu DNA, sendo esta a mesma propriedade que o classifica como cancerígeno.

ETO e suas aplicações

O óxido de etileno pode ser utilizado na esterilização de instrumentos médicos que não resistem ao calor ou à radiação. Pode também ser aplicado na esterilização de especiarias e vegetais desidratados para reduzir a presença de microrganismos como Salmonella e E. coli, principalmente quando métodos térmicos comprometeriam o aroma, o sabor ou a textura desses produtos.

ETO e sua toxicidade

Porém, os efeitos tóxicos associados ao ETO levaram os órgãos reguladores a reavaliar a sua aplicação no ramo alimentício. Instituições como a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC/OMS) e o National Cancer Institute dos Estados Unidos, classificam o ETO como uma substância carcinogênica. Aqui no Brasil a ANVISA apresenta o mesmo entendimento, categorizando o óxido de etileno como carcinogênico, mutagênico e genotóxico.

ETO e sua regulamentação

Como consequência, a ANVISA proibiu o uso do óxido de etileno em alimentos no Brasil. Além disso, a RDC 826/2023 estabeleceu um limite máximo residual (0,01 mg/kg) para óxido de etileno somado ao 2-cloroetanol, sendo este um valor mais restritivo do que o adotado pela União Europeia. É importante salientar que esse limite serve para monitorar possíveis contaminações não intencionais e não está relacionado a nenhuma aprovação de uso do ETO desde que apresente residual menor que o LMR estabelecido.

ETO em especiarias

Um ponto relevante é que especiarias e ervas secas, por exemplo, apesar de sujeitas às regras sanitárias, são isentas de registro. Isso significa que sua fiscalização ocorre somente após a entrada do produto no mercado, aumentando assim a possibilidade de contaminações passarem despercebidas até sua distribuição e consumo.

Além disso, as características da extensa cadeia de produção dessas matérias-primas favorecem tais vulnerabilidades, como a rastreabilidade limitada e a exportação realizada através de diversos intermediários. É neste cenário que alguns fornecedores acabam recorrendo ao ETO como forma rápida de reduzir cargas microbianas quando as condições de produção não asseguram as boas práticas exigidas.

ETO e casos de recall

Os impactos dessa prática são vistos em escala internacional. Em 2020, sementes de gergelim exportadas da Índia resultaram em um grande recall com impacto mundial, afetando inclusive alimentos infantis. Já no ano de 2022, a Anvisa recolheu produtos da marca Häagen-Dazs do mercado após detecção de derivados de óxido de etileno. Dois anos depois, em 2024, autoridades de Hong Kong relataram novamente presença de ETO em misturas de especiarias provenientes da Índia.

Esses casos moldaram não apenas as regulamentações, como também fizeram com que o mercado passasse a exigir, cada vez mais, declarações formais confirmando a ausência de uso de ETO ou a conformidade com os limites estabelecidos, os chamados ETO Statements. Assim, mesmo onde seu uso em alimentos é proibido, as declarações e monitoramento analítico tornaram-se indispensáveis nos processos de importação, exportação e auditorias de fornecedores.

Em resumo, a discussão sobre o uso do óxido de etileno envolve tanto a necessidade de equilibrar o controle microbiológico dos alimentos como também a proteção à saúde do consumidor. Além disso, a diferença entre legislações internacionais evidencia a complexidade do tema regulatório, como a permissão de aplicações nos Estados Unidos e a restrição completa na União Europeia e no Brasil. Dessa maneira, a exigência de comprovação da não utilização de ETO por meio de declarações e análises segue sendo uma medida essencial para garantir a transparência e segurança de alimentos.

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Rótulo como ferramenta de inclusão social é um caminho a seguir

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Na causa de rotulagem acessível, já temos um caminho a ser seguido, que pode servir de benchmark para outras empresas. A Nestlé, em um projeto denominado “rótulos que falam” torna acessíveis, por meio de aplicativo, todos os produtos do seu portfólio no Brasil, para pessoas cegas, com baixa visão ou não alfabetizadas. É um projeto de inclusão social em parceria com a Alia Inclui, apoiada pela Fundação Dorina Nowill, especializada em acessibilidade visual.

Mesmo com essa ação, ainda há lacunas — estudos apontam que muitas marcas ainda não oferecem rotulagem para pessoas com baixa visão ou cegas: “80% das marcas não incorporam braile ou símbolos táteis em todas as embalagens”.

Para sua abordagem de ESG e segurança de alimentos, essas iniciativas podem ser destacadas como melhores práticas de acessibilidade e inclusão, que somam ao valor da marca, à responsabilidade social corporativa, e à governança para consumidores com necessidades especiais ou analfabetos, aumentando a autonomia dessas pessoas em situações de compra e uso de produtos.

A leitura de rótulos é um componente chave de segurança de alimentos e alimentar (informação nutricional, alergênicos, ingredientes, modo de uso). Tornar essa informação acessível é uma melhoria importante do ponto de vista de inclusão, uma vez que não basta apenas cumprir normas e leis, é preciso considerar também uma experiência de usuário — e há grupos de consumidores que tradicionalmente ficam “fora” da experiência plena.

As iniciativas no mercado trazem componentes tecnológicos com reconhecimento via câmera, comando de voz, chatbot de IA, indo muito além da simples impressão em braile ou letras ampliadas: é digital + assistiva.

Algumas empresas têm o poder de convidar outras a aderir, o que significa que podemos estar vendo um efeito de arraste. Se muitas empresas aderirem, esse tipo de acessibilidade pode se tornar o padrão ou expectativa do mercado. Vamos pensar nisto: se você, leitor,  é das áreas de Regulatórios e/ou P&D das empresas de alimentos, pode antecipar futuras exigências de acessibilidade de rótulos e expectativas de responsabilidade social corporativa.

Para quem lida com sistemas de segurança de alimentos, programas de certificação, HACCP (acessibilidade da informação ao consumidor pode influenciar recall e responsabilidade social) ou de ESG, essa iniciativa pode ser abordada como parte de “inclusão de stakeholders” ou “acessibilidade” na cadeia de suprimentos, ou seja, um aspecto de governança e ética que pode se conectar com relatórios de sustentabilidade ou de diversidade e a “rotulagem acessível” fará parte de cultura inclusiva e segurança do consumidor.

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Proibido lá e permitido aqui: perigos tratados de formas distintas ao redor do mundo

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Já se perguntaram por que não padronizar os perigos em nível global? É preocupante o “Proibido lá, permitido aqui” como se os danos causados pela presença de ingredientes, aditivos ou contaminantes em alimentos respeitassem limites geográficos. Isso ocorre porque além de dietas diferentes de cada sociedade que influenciam os cálculos das doses diárias de certos ingredientes na alimentação, existem linhas de pensamento diferentes sobre a avaliação de risco e margem de segurança. Por último, também existem pressões políticas que têm mais influência que avaliações técnicas. Vamos ver alguns exemplos.

ALERGÊNICOS

A RDC n° 727/2022 traz a relação dos principais alimentos que podem causar alergias alimentares no Brasil e cuja informação é obrigatória nos rótulos. Porém, existem alguns alimentos considerados alergênicos em outros países que não constam na nossa lista. Na União Europeia: aipo, mostarda, tremoço, sulfito, sésamo; no Japão, banana, maçã, laranja, carne bovina e de frango são considerados alérgenos.

Pode ser que futuramente haja alguma mudança, mas nada ainda está definido (veja O futuro da legislação de alergênicos no Brasil: mudanças no horizonte).

MICOTOXINAS

Outra discrepância é a tolerância máxima de micotoxinas em alguns alimentos, determinada no Brasil pela Instrução Normativa ANVISA Nº 160 DE 01/07/2022.  Por exemplo:

  • Aflatoxinas: Brasil permite até 5 µg/kg em cereais, enquanto a UE tolera apenas 2–4 µg/kg – ou seja, os limites da UE são mais restritivos.
  • Aflatoxina M1 no leite: Brasil 0,5 µg/kg (leite fluido), Europa apenas 0,05 µg/kg. A UE impõe um limite 10 vezes mais baixo.

Alguns fungos produzem micotoxinas que são consideradas carcinogênicas tanto ao homem como ao animal (veja Micotoxinas em alimentos são mais comuns do que você imagina!)

CORANTES

Recentemente foi anunciada a proibição do corante vermelho Eritrosina em alimentos nos Estados Unidos. Na decisão, a Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) citou estudos que associam o corante a casos de câncer em camundongos. Este aditivo é utilizado em bebidas, doces, balas, bolos e cerejas em conserva. Aqui no Brasil ainda é permitido, pois de acordo com a ANVISA não foi identificado perigo significativo, no entanto a própria ANVISA emitiu uma nota: “Embora a FDA não mencione a existências de novas evidências e que as evidências conhecidas não levantem preocupação de segurança para consumo humano, a Anvisa estudará as referências científicas da petição apresentada à autoridade americana, motivadora da ação, verificando a existência de justificativa para uma reavaliação.” Sobre esse assunto também vale a pena ler Proibições de corantes alimentares artificiais nos EUA e em outros países).

Esses são apenas alguns dos muitos exemplos que podem ser dados.  Cabe então à comunidade cientifica dos países e seus órgãos reguladores entrarem em consenso para determinar o que é de fato perigoso ou não para que as populações ao redor do mundo não se sintam mais ou menos seguras ao consumir o mesmo alimento, mas em países diferentes. São questões para avaliar, discutir e refletir.

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ESG: como a qualidade e segurança de alimentos contribuem para um futuro mais sustentável

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O conceito de ESG (Environmental, Social and Governance) ganha cada vez mais espaço nas estratégias das indústrias alimentícias, e a área de qualidade e segurança de Alimentos tem um papel fundamental nesse cenário. A integração de práticas responsáveis e sustentáveis ao sistema de gestão da qualidade fortalece o compromisso da empresa com o meio ambiente, a sociedade e a governança corporativa.

No pilar ambiental do ESG, a qualidade e segurança de alimentos contribuem diretamente ao promover o uso eficiente de recursos, a redução de perdas e desperdícios (item inclusive alinhado ao requisito 2.5.16 da FSSC 22000) e o controle rigoroso de resíduos e efluentes. Processos bem definidos e monitorados evitam retrabalhos, descartes desnecessários e impactos ambientais negativos.

No aspecto social, a área de qualidade garante que os alimentos produzidos sejam seguros, íntegros e adequados ao consumo, protegendo a saúde pública e promovendo a confiança do consumidor. Além disso, a capacitação contínua das equipes, o respeito às condições de trabalho e a valorização da cultura de segurança de alimentos fortalecem o engajamento interno e a responsabilidade social da empresa.

Já no pilar de governança, a qualidade e segurança de alimentos asseguram a conformidade com legislações, normas como a FSSC 22000 e requisitos de clientes. A rastreabilidade, a gestão de riscos e a transparência nos processos são elementos essenciais para uma governança sólida e ética — princípios centrais do ESG.

Portanto, investir em qualidade e segurança de alimentos é também investir em ESG. Essa conexão estratégica fortalece a reputação da marca, atrai investidores conscientes e contribui para um sistema alimentar mais seguro, justo e sustentável.

Por Djeane M. S. Fares

Imagem: Markus Winkler

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