Instalações, fluxo operacional e risco de contaminação
Uma certeza de 10 em cada 10 especialistas em food safety é que contenção de pragas não depende apenas de um bom programa implantado. Mesmo usando armadilhas modernas, iscas e praguicidas com alta qualidade, ferramentas de IA e desinsetização em rotina adequada, as condições estruturais e sanitárias são extremamente impactantes sobre a penetração e abrigo de pragas.
Dentre as atividades desempenhadas por uma boa empresa controladora de pragas, uma das mais significativas para redução de riscos é o diagnóstico de riscos e vulnerabilidades. Entretanto, em muitos casos, as recomendações para contenção registradas nesses diagnósticos tem pouca ou nenhuma adesão pelo estabelecimento produtor de alimentos.
Expectativa desequilibrada
Muitos gestores industriais são bastante rigorosos (com toda razão) sobre a performance da empresa controladora contratada, exigindo os melhores resultados para contenção de roedores, moscas, carunchos, formigas, pombos, baratas e outros. Contudo, suas expectativas repousam apenas sobre o método químico ou a quantidade de armadilhas, além da qualidade da formulação e a capacidade de análise do relatório de tendências.
Quando o Responsável Técnico ou Gestor da empresa controladora expõe condicionantes para assegurar um ambiente 100% livre de pragas, em alguns cenários ocorre uma rejeição ao acolhimento das vulnerabilidades apontadas. Situações óbvias como portas mantidas abertas, limpeza deficiente em linhas de produção, ausência de rotina para remoção de resíduos em estruturas suspensas, falta de telas em telhados, são negligenciadas diariamente, com efeito direto sobre a presença de pragas, sem nenhuma chance de intervenção pela equipe controladora.
Onde o design falha?
Existem centenas de hipóteses de falhas nas quais erros de projeto na edificação, construção inadequada do equipamento, rotina de limpeza insuficiente ou o fluxo produtivo equivocado foram favoráveis a infestações. Vamos compartilhar apenas 3 cases neste artigo para ilustrar onde falhou e como foi possível corrigir.
- Envasadora de leite em pó com carunchos: um equipamento todo construído em inox, aparentemente impenetrável para qualquer contaminante, com limpeza rigorosa. Improvável qualquer contaminação. Na sala de envase, com 4 linhas usando envasadoras semelhantes havia uma armadilha para Lasioderma serricorne, que por vários meses não apresentava captura ou tinha no máximo 2 capturas por mês. De uma semana para outra bate mais de 30 insetos capturados. Alerta aceso. Tem infestação. Mas onde? Parem o envase (deixando PCP alucinado) e vamos investigar. Abre forro, olha painéis elétricos, inspeciona paletes e de repente nota-se 1 lasioderma saindo de um pequeno buraco em uma das colunas que sustentava a envasadora. Chama manutenção, desmonta tudo e descobre-se que dentro das colunas inoxidáveis houve acúmulo de leite em pó (provavelmente por vários meses), e se formaram colônias do caruncho, a poucos centímetros do enchimento das latas. Solução? Nova rotina de limpeza periódica e isolamento dos buracos nas colunas.
- Goteira de moscas: em uma fábrica de rações um dos filtros de mangas do sistema de aspiração apresentava falhas de manutenção, resultando em vazamento de insumos sobre o telhado da fábrica, tudo apontado em relatório de vulnerabilidades. Na maior parte do ano era só alimento para pombo e naquela indústria eram bastante tolerantes com as aves. Mas quando chegou a época de chuvas, aquela montanha de insumos acumulados umedeceu, houve fermentação e se tornou criatório de moscas. Resultado? Larvas de moscas “gotejando” do telhado sobre a linha de produção, além das milhares de moscas adultas diariamente em voo ou pousadas na área de fabricação. Solução? Manutenção no sistema de aspiração e limpeza regular do telhado. Talvez alguns pensem: não seria mais simples apenas aplicar inseticidas sobre o telhado? Logicamente é uma ideia razoável, mas o efeito é paliativo.
- Baratas nas masseiras: Em uma área de masseiras para biscoitos foram identificadas pequenas baratas (Blattella germanica) se movimentando em paredes e tubulações. Em uma primeira inspeção pareciam apenas indivíduos isolados, possivelmente carreados por contaminação cruzada em paletes de insumos. Foi realizado tratamento localizado durante uma parada de final de semana. No entanto, na segunda-feira estava um caos. Dezenas de baratas brotando de dentro das máquinas, possivelmente afetadas pela aplicação da formulação. Uma das linhas (eram 4) foi interrompida e mobilizada equipe de manutenção para desmontar a máquina. Atrás das carenagens das masseiras (que nunca eram desmontadas) havia dezenas de baratas. Uma infestação que possivelmente se formou silenciosamente ao longo de meses. Solução? Parar todas as 4 linhas (com atraso em toneladas de produção) para desmontar, limpar e realizar aplicação. Em seguida implantar uma rotina mensal de desmontagem, inspeção e tratamentos localizados.
Há um elemento comum nesses 3 relatos (que também estão em outras centenas): resíduos escondidos em áreas aparentemente inofensivas, que foram negligenciadas.
Expectativas ajustadas
A construção de equipamentos para produção de alimentos precisa considerar acesso para higienização na equação. E a rotina de inspeção e higienização precisa parar de focar em piso e paredes. Tem muita sujeira escondida. Locais como calhas elétricas, forro e estruturas de telhados são sistematicamente negligenciadas, convidando populações de roedores, insetos e pássaros a uma acomodação privilegiada, sem a menor chance de intervenção pelos profissionais controladores de pragas.
A análise de riscos do programa de controle de pragas deve alcançar estes locais e calibrar as rotinas de vigilância e controle pra manter o alerta ligado aos gestores industriais, e adicionalmente propor intervenções mais assertivas, para que o profissional controlador de pragas deixe de ser só um checador de armadilhas.
3 min leituraInstalações, fluxo operacional e risco de contaminação Uma certeza de 10 em cada 10 especialistas em food safety é que contenção de pragas não depende apenas de um bom programa […]











