Em um país de clima tropical como o Brasil, onde em algumas regiões as temperaturas atingem facilmente a marca de 40ºC, buscar alternativas para se refrescar não é uma má ideia. E algo muito comum em nosso país é o consumo de sorvetes, que movimenta um mercado de milhões. Mas o que muita gente não sabe é que existem perigos ocultos nas (para muita gente inofensivas) casquinhas de sorvetes.
A casquinha de sorvete tornou-se um símbolo tão icônico quanto o próprio sorvete. Sua origem remonta ao início do século XX, mais precisamente à Feira Mundial de St. Louis, nos Estados Unidos. Conta a história que um vendedor de sorvete ficou sem recipientes para servir seus clientes em meio ao calor intenso e à grande demanda. Ao lado dele, um confeiteiro sírio preparava uma espécie de waffle fino e crocante. Em um momento de improviso e genialidade, eles decidiram enrolar aquela massa ainda quente em formato de cone e usá-la para servir o sorvete. O resultado não só resolveu um problema imediato, como criou uma das combinações mais queridas do mundo. Desde então, a casquinha deixou de ser apenas um recipiente e passou a fazer parte da experiência — prática, comestível e irresistível, ela transformou a forma como consumimos sorvete e conquistou gerações ao redor do planeta.
Por se tratar de um alimento seco, com baixa atividade de água e não tão crítico como outros alimentos, como carne ou leite, pode-se ter uma falsa sensação de que não há risco algum nas casquinhas de sorvete, porém esse é um ledo engano. Para saber quais perigos existem é importante conhecer um pouco sobre como são feitas as deliciosas casquinhas de sorvetes e quais os principais controles para evitar potenciais perigos.
Matérias-primas
Como para todo produto composto por vários ingredientes, é de suma importância o cuidado com as matérias-primas utilizadas. Assim como para um bolo ter qualidade, não se pode usar farinha de trigo estragada, ovo podre ou leite azedo, da mesma forma uma casquinha de sorvete necessita de matérias-primas bem selecionadas, de qualidade e principalmente seguras para serem usadas e consumidas. Para esse objetivo é necessário realizar a homologação e qualificação dos fornecedores, exigir laudos de qualidade, executar ações preventivas quanto a fraudes, controles no recebimento de cada ingrediente, além de outras cuidados rigorosos para que seja possível evitar qualquer tipo de perigo logo no inicio.
Massa
Nessa etapa, os maiores cuidados são relacionados a prevenção de perigos físicos, pois com a mistura dos materiais durante o preparo da massa pode eventualmente ocorrer contaminação por partículas sólidas das matérias-primas ou do processo, que não são bem-vindas para o produto final. É nessa etapa onde geralmente são usadas as peneiras e filtros capazes de reter objetos indesejados.
Produção
Essa é fase de final das casquinhas de sorvete, onde são assadas e tomam as formas de cone que conhecemos. Já produzidas, elas passam por detectores de metais que identificam e retêm, em caso de incidência, partículas metálicas que podem ser provenientes dos equipamentos. Também nessa etapa as altas temperaturas dos fornos eliminam todos os microrganismos que possam eventualmente se desenvolver nas etapas anteriores.
O maior perigo das casquinhas de sorvete ocorre exatamente após a sua fabricação. O artigoIndicadores gerais de contaminação em casquinhas para sorvete mostra que há um alto índice de contaminação microbiológica nos pontos de vendas. Isso demonstra a importância de orientações quanto ao armazenamento, manuseio do produto e higienização das mãos de manipuladores em sorveterias.
É importante ter conhecimento sobre esses perigos, assim como sobre os cuidados para evitá-los, para que não se retire do povo brasileiro um dos maiores prazeres: deliciar-se tomando um sorvete de casquinha. Estejam atentos aos estabelecimentos que comercializam estes sorvetes e observem os cuidados que tomam.
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Um recall multimarcae de grande escala nos Estados Unidos recoloca um tema incômodo no centro da segurança dos alimentos: perigos físicos continuam capazes de gerar dano ao consumidor, crise reputacional e revisão urgente de controles industriais.
Em 3 de março de 2026, o USDA/FSIS anunciou a expansão do recall da Ajinomoto Foods North America para 36.987.575 libras de alimentos congelados, após a inclusão de 33.617.045 libras adicionais por possível presença de fragmentos de vidro. O caso envolve diferentes marcas e categorias de produtos, incluindo fried rice, ramen e shu mai, e merece atenção não só pelo tamanho, mas pelo tipo de problema que ele sinaliza: quando o controle de corpo estranho falha em um ponto compartilhado do processo ou da cadeia de suprimentos, o impacto deixa de ser local e passa a ser sistêmico.
O que aconteceu no caso Ajinomoto
O recall havia começado em 19 de fevereiro de 2026, quando a empresa recolheu mais de 3,3 milhões de libras de chicken fried rice após quatro reclamações de consumidores relatarem vidro nos alimentos. Em 3 de março, o FSIS informou a expansão do caso para um volume muito maior e para um portfólio mais amplo de itens, envolvendo marcas como Ajinomoto, Kroger, Ling Ling, Tai Pei e Trader Joe’s.
Esse ponto importa porque a expansão de um recall costuma indicar que a investigação encontrou alcance maior do que o inicialmente estimado. Em termos práticos, isso sugere que o problema não estava restrito a um SKU isolado, mas possivelmente relacionado a um insumo, etapa ou condição compartilhada por diferentes produtos. Essa leitura é reforçada por coberturas que apontam as cenouras como origem da contaminação.
Por que este recall é mais relevante do que parece
Perigos físicos às vezes recebem menos atenção do que perigos microbiológicos no debate público, mas isso é um erro operacional. O próprio acervo do Food Safety Brazil destaca que corpos estranhos geram reclamações, publicidade negativa e risco real ao consumidor, além de exigirem seleção adequada de sistemas de inspeção e detecção conforme o processo.
O caso Ajinomoto é relevante porque combina quatro fatores críticos ao mesmo tempo: volume excepcional, múltiplas marcas, múltiplos produtos e um contaminante de alta severidade potencial, já que o vidro nos alimentos pode causar lesões na cavidade oral e no trato gastrointestinal. Para a indústria, isso muda a conversa: não se trata apenas de “mais um recall”, mas de um lembrete de que um desvio físico mal contido pode atravessar contratos, canais, rótulos e mercados.
Onde a indústria costuma falhar em perigos físicos
1. Confiar demais na inspeção final
Detector de metais, raio X, peneiras, filtros e separadores são importantes, mas não compensam um programa fraco de prevenção. O material do IFS citado pelo Food Safety Brazil enfatiza justamente a necessidade de uma abordagem mais ampla, com requisitos legais, avaliação de risco, tecnologias de detecção, prevenção, monitoramento, verificação e validação.
Quando um contaminante como vidro entra no sistema, a pergunta não deveria ser apenas se “o equipamento detectaria?”, mas também “por que o material chegou até aqui?”, “em que ponto ele poderia ter sido barrado?” e “quais produtos compartilharam a mesma rota de risco?” Sem essa lógica, a empresa fica dependente de barreiras tardias.
2. Tratar fornecedor como assunto só de interesse comercial
Se a origem estiver em um ingrediente ou matéria-prima compartilhada, o problema deixa de ser uma falha de linha e vira falha de governança da cadeia. Isso inclui homologação técnica insuficiente, especificações incompletas para perigos físicos, auditorias pouco orientadas a risco e verificação deficiente de mudanças no processo do fornecedor. A escala do recall mostra exatamente por que esse tema não pode ficar restrito ao setor de compras.
3. Subestimar manutenção e integridade de barreiras
O conteúdo do Food Safety Brazil sobre peneiras lembra algo básico, mas frequentemente negligenciado: malhas defeituosas, danos mecânicos, limpeza inadequada e substituições mal controladas podem introduzir ou deixar passar corpos estranhos. Em outras palavras, o sistema de controle físico também pode se transformar em fonte de risco quando não é bem gerido.
Aplicação prática para indústria, qualidade, laboratório, regulatório e gestão
Para a indústria, a lição mais imediata é revisar a análise de perigos com foco em ingredientes e etapas compartilhadas entre famílias de produto. Um recall multimarca mostra que o risco real não acompanha o organograma da fábrica; ele acompanha o fluxo do processo e da cadeia.
Para qualidade e food safety, vale reavaliar se os controles de corpo estranho estão distribuídos de forma coerente entre prevenção, detecção e resposta. Quando toda a confiança recai sobre a última barreira, a organização aceita um risco silencioso de amplificação.
Para laboratório e investigação, o caso reforça a importância de protocolos claros para triagem de reclamações, retenção de amostras, preservação de evidências e rastreio de lotes afetados. Mesmo quando a confirmação analítica do contaminante é complexa, a velocidade da investigação influencia diretamente o tamanho do dano.
Para regulatório e gestão, a principal lição é sobre prontidão de crise. Quanto maior o portfólio e mais distribuída a operação, mais decisivas se tornam a rastreabilidade, a comunicação entre áreas e a capacidade de definir rapidamente o universo potencialmente afetado. O recall da Ajinomoto é um exemplo claro de como uma resposta tardia ou estreita demais pode exigir ampliação posterior, com custo reputacional ainda maior.
O que fazer agora na prática
Revisar a análise de perigos físicos por família de produto
Não basta listar “vidro” como perigo genérico. É mais útil mapear fontes plausíveis, pontos de entrada, barreiras existentes, métodos de verificação e critérios de escalonamento quando o mesmo insumo abastece vários SKUs.
Reabrir a conversa com fornecedores críticos
Ingredientes vegetais processados, misturas prontas, componentes com múltiplos estágios e materiais recebidos já fracionados merecem perguntas mais objetivas sobre prevenção de contaminação física, inspeção, triagem, manutenção e gestão de desvios.
Testar a robustez da rastreabilidade
O caso mostra por que uma empresa precisa saber com rapidez quais produtos, clientes e datas compartilham o mesmo risco. Rastreabilidade “que funciona em auditoria” não é necessariamente rastreabilidade que funciona em recall.
Conclusão
Impacto: o recall ampliado da Ajinomoto mostra como um perigo físico pode sair de um evento aparentemente pontual e alcançar escala sistêmica, com efeito simultâneo em marcas, SKUs e canais.
Recomendação prática: revisar imediatamente gestão de fornecedores, análise de perigos físicos, integridade de barreiras e critérios de investigação quando houver ingrediente ou etapa compartilhada por diferentes produtos.
O que monitorar: novos desdobramentos da investigação oficial, eventual detalhamento adicional da causa raiz e sinais de resposta do mercado para controles de corpo estranho em ingredientes e congelados prontos.
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A região Norte do Brasil possui uma enorme variedade de alimentos nativos da floresta amazônica que ainda não são tão valorizados quanto deveriam ser. Entre tantos alimentos importantes, destaca-se a castanha-do-Pará, também chamada de castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa), uma semente oleaginosa altamente nutritiva e rica em selênio — um mineral essencial com propriedades antioxidantes — além de proteínas, gorduras saudáveis e outros micronutrientes que a tornam um verdadeiro superalimento.
Embora o nome “castanha-do-Pará” seja historicamente o mais conhecido no Brasil, denominações como castanha-do-Brasil ou castanha-da-Amazônia também são amplamente usadas, pois a espécie é encontrada em toda a região amazônica e não apenas no estado do Pará.
A castanha-do-Brasil é um dos maiores produtos extrativistas para fins alimentares no Brasil e é fundamental para a sobrevivência econômica de muitas famílias em áreas rurais e comunidades tradicionais amazônicas.
Por ter alto valor nutricional e internacional, a castanha tem mercado tanto no Brasil quanto no exterior, sendo um produto valorizado em dietas saudáveis e em indústrias de alimentos.
Produção nos estados do Norte
Os estados do Amazonas, Acre e Pará lideram a produção extrativa da castanha no Brasil, representando juntos a maior parte da oferta nacional. Em 2023, o Amazonas foi o maior produtor, com cerca de 11.291 toneladas, seguido pelo Acre com 9.473 toneladas e pelo Pará com 9.390 toneladas. Esses três estados juntos respondem por cerca de 80% da produção nacional.
Essa produção é principalmente extrativista e ocorre em áreas de floresta natural, pois a castanheira leva de 15 a 20 anos para atingir a maturidade e começar a produzir ouriços com castanhas.
O ouriço e a casca
A castanha-do-Brasil é produzida no interior de frutos lenhosos conhecidos como ouriços, que caem naturalmente ao solo durante a época de safra. Um ouriço típico tem formato arredondado, medindo cerca de 10 a 15 cm de diâmetro e pesando até 2,5 kg ou mais. Dentro de cada ouriço estão de 10 a 25 castanhas.
A casca do ouriço é rígida, servindo para proteger as castanhas enquanto o fruto está na árvore. Ao abrir o ouriço, encontra-se uma casca interna muito dura e lenhosa que envolve as amêndoas (as castanhas). Essa casca é extremamente resistente — razão pela qual é necessário uso de ferramentas ou processamento industrial para a retirada das sementes.
Etapas da cadeia produtiva
1 – Coleta e pós-coleta
A coleta do fruto começa quando os ouriços caem naturalmente no chão da floresta, geralmente entre os meses de dezembro e março, coincidindo com a estação mais chuvosa na Amazônia.
Os extrativistas, muitas vezes famílias ribeirinhas ou comunidades tradicionais, percorrem longas distâncias na floresta para localizar e recolher os ouriços no solo. Nessa época, a umidade relativa do ar é muito alta, o que significa que os frutos caídos podem ficar muito úmidos e suscetíveis à ação de fungos e microrganismos.
Após a coleta, os ouriços são levados para locais secos, e as amêndoas (as castanhas) são extraídas manualmente. Neste estágio, a rapidez na retirada da semente é importante para reduzir a umidade e minimizar o risco de proliferação de fungos, especialmente o Aspergillus flavus, que pode produzir aflatoxinas — toxinas altamente carcinogênicas, associadas a riscos de saúde se consumidas em excesso.
2 – Secagem
A secagem é uma etapa crítica para garantir a qualidade microbiológica da castanha-do-Brasil. Ela reduz a umidade e a atividade de água, criando um ambiente desfavorável à proliferação de fungos, bactérias e outros microrganismos que podem comprometer a segurança e a conservação do alimento.
A secagem pode ser feita ao sol, em fornos rotativos ou em sistemas de convecção controlada, dependendo da infraestrutura local. O objetivo é alcançar um teor de umidade seguro para o armazenamento sem comprometer as qualidades sensoriais e nutricionais da castanha.
3 – Seleção e classificação
Uma vez secas, as castanhas passam pela etapa de seleção, que consiste em retirar:
Castanhas mofadas ou com sinais de deterioração, que podem indicar presença de aflatoxinas;
Fragmentos de casca ou pedaços de casca quebrada. As cascas oferecem perigos físicos no processamento porque seus fragmentos rígidos podem danificar equipamentos ou mesmo causar ferimentos se não forem removidos adequadamente.
A seleção pode ser feita manualmente ou com auxílio de equipamentos que detectam peso, cor e tamanho. Esse processo é essencial para garantir um produto final seguro, limpo e próprio para consumo ou exportação.
A castanha-do-Pará tem enormes benefícios nutricionais e econômicos, mas precisa de cuidados específicos durante sua coleta e processamento para garantir qualidade e segurança. O conhecimento sobre esses processos, tão pouco debatido fora da região amazônica, ajuda a valorizar ainda mais esse alimento único.
Você sabia de todos esses cuidados que envolvem a produção dessa castanha tão especial?
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Recentemente, a IFS publicou uma versão atualizada do guia de Diretrizes para um eficaz gerenciamento de corpos estranhos em alimentos.
O documento é extremamente rico e possui informações e conhecimentos valiosos que podem ser usados pelos profissionais no controle de contaminação física nas indústrias de alimentos. Em suas mais de 60 páginas, o documento aborda:
Requisitos legais: descreve os requisitos legais relevantes para materiais estranhos na União Europeia, Estados Unidos e outras regiões;
Gerenciamento de riscos: apresenta uma abordagem de avaliação de risco aplicada especificamente a materiais estranhos (ex.: identificação e origem de perigos físicos, avaliação de probabilidade e severidade, controle de PCC);
Fonte e tipos de contaminantes físicos: aborda características de contaminantes intrínsecos e extrínsecos, como vidro e cerâmica, metal, plástico duro e borracha, madeira, pedras e contaminantes naturais, insetos e pragas e contaminações relacionadas à embalagem;
Tecnologias de detecção e remoção: relaciona as vantagens, limitações e requisitos tecnológicos de detectores de metais, raio-x, separadores magnéticos, filtros e peneiras, e classificadores ópticos;
Prevenção: destaca cuidado para prevenção da contaminação física, como BPF, controles de manutenção, inventário de itens frágeis etc.
Monitoramento, verificação e validação: como gerenciar adequadamente as medidas de controle implementadas.
O guia é gratuito e pode ser acessado diretamente no site da IFS (aqui).
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Aproxima-se o período de festas de fim de ano, e com ele as polêmicas uvas-passas. Com elas funciona assim: ou se ama ou se odeia. Mas aqui trago uma outra perspectiva para essa discussão: do ponto de vista de segurança de alimentos, elas são mesmo seguras?
O processo de secagem, com a redução do teor de água, acaba por aumentar o teor de resíduos de pesticidas presentes na fruta. Além disso, após a secagem é comum o uso da técnica de fumigação para garantir a ausência de pragas nos frutos secos, interrompendo ciclo de insetos que poderiam se desenvolver. Com base nisso, as uvas-passas estão entre as frutas mais contaminadas do mercado, segundo o EWG’s Shopper’s Guide to Pesticides in Produce.
Pequenas surpresas normalmente acompanham as frutas secas, incluindo aqui a uva-passa. Esses perigos podem ser a presença de pedrinhas, fragmentos da planta como galhos e hastes, inclusive insetos mortos. O processo de secagem acaba por deixar as frutas expostas a pragas, como os insetos. O mais comum para uvaspassas são fragmentos de galhos e areia.
Além disso, a infestação por insetos é comum durante o armazenamento da fruta seca. Eles são atraídos pelo alto teor de açúcar, associado ao alto longo período de armazenamento e falhas no programa de controle de pragas do local e na cadeia logística.
Nesta etapa, as condições da cadeia de abastecimento contribuem para o aparecimento ou desenvolvimento de alguns desses perigos, principalmente o armazenamento e distribuição a granel. Isso se deve à exposição ao ambiente, bem como aos instrumentos de manipulação. Isso também se aplica ao armazenamento nos locais de venda ao consumidor final e, até mesmo, em casa.
Relatos de casos
A visibilidade destes casos é maior nos Estados Unidos e Europa, mas não significa que a ocorrência no Brasil é menor. O sistema de alerta da Europa (RASFF), bem como a sistemática definida pelo FDA nos Estados Unidos, garantem a robustez da rastreabilidade e divulgação. Além disso, a Europa possuiu um sistema agressivo de controle de fronteira, com programas de coleta bem administrada com fiscalização.
No Brasil, a maior parte das frutas secas ou desidratadas típicas de Natal, como passas, damasco, figo e tâmara, é importada. No caso das uvas-passas, isso se deve às condições de cultivo das variedades específicas. Assim sendo, a cadeia de distribuição tende a incluir transportes de longo prazo e seus riscos associados, além de incrementar dificuldades na rastreabilidade.
Apesar dos programas de controle de fronteira no Brasil pela VIGIAGRO (MAPA), nem todos os lotes são fiscalizados, havendo margem de risco devido à característica de amostragem e capacidade dos órgãos fiscalizadores na realização de testes, além dos custos a eles relacionados.
Gerenciamento de riscos
Todos esses riscos são gerenciáveis na cadeia de produção e distribuição. Na indústria de alimentos trabalhamos com a aplicação de medidas de controle e monitoramento, a partir de um plano de análise de perigos, os quais podem ser minimizados ou controlados.
Além disso, o processo de fiscalização reforça a importância das indústrias e importadoras da aplicação das medidas de controle em todas as etapas da cadeia de distribuição, evitando perdas de produto e reputação da marca, além do impacto à saúde de seus consumidores.
Mas e agora, estou seguro consumindo o famoso arroz com passas de Natal?
Bem, as uvas-passas têm riscos conhecidos, em especial os relacionados a micotoxinas. As frutas secas exigem controle rigoroso da matéria-prima, do processo de secagem, armazenamento e distribuição. Os órgãos reguladores continuam cumprindo o seu papel de fiscalização nas condições atualmente disponíveis.
Dessa forma, nós, enquanto consumidores, devemos priorizar o uso de marcas reconhecidas por seu padrão de qualidade, de forma a ter maior garantia de que o clima permanecerá festivo após o Natal.
Com isso, me conte aqui: você é do time #compassas ou #forapassas?
Boas festas!
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O post de hoje é uma entrevista com o Dr. Rafael Ribeiro Gonçalves Barrocas, auditor fiscal federal agropecuário do MAPA há 18 anos. Ele é mestre em Gerenciamento da Qualidade de Alimentos pela Wageningen University (Holanda), agrônomo formado pela UFV e coautor do estudo Identificação de perigos biológicos, químicos e físicos em alimentos de origem vegetal: Riscos associados, rotas de contaminação e medidas de controle. Este estudo contém um guia com um mapeamento claro dos principais perigos associados a alimentos vegetais, facilitando a elaboração do plano APPCC e a adoção de medidas preventivas eficazes. Foi apresentado no VII Workshop Food Safety Brazil, em Porto Alegre, RS, em agosto de 2025.
1 – Dr. Rafael, pode nos contar como surgiu a ideia de criar o guia?
A ideia surgiu da constatação da carência, no Brasil, de um material técnico-científico consolidado que auxiliasse o setor produtivo e o serviço oficial na identificação de perigos em alimentos de origem vegetal.
Com o aumento das exigências sanitárias nos mercados internacionais e a necessidade de fortalecer os controles baseados em risco, entendemos que um guia robusto e sistematizado seria uma ferramenta estratégica para apoiar tanto a implantação do APPCC nas empresas quanto a fiscalização oficial, principalmente no escopo do Programa de Segurança de Alimentos de Origem Vegetal (PSAOV) da SDA/MAPA.
2 – Como foi definida a metodologia para avaliação do estudo? Quais os principais critérios para definição dos riscos?
A metodologia adotada envolveu uma extensa revisão bibliográfica nacional e internacional, coleta de dados oficiais de monitoramento (como o PNCRC/Vegetal), consulta a publicações científicas e relatórios de agências reguladoras, como FDA, EFSA, ANVISA e CFIA.
Para definição dos riscos, levamos em conta três critérios principais: a severidade do perigo para a saúde humana, a frequência de ocorrência nas cadeias produtivas brasileiras e o potencial de disseminação ao longo da cadeia alimentar. O material foi estruturado segundo as categorias de perigos (biológicos, químicos e físicos), com detalhamento por produto ou grupo de alimentos vegetais.
3 – Quais foram os maiores perigos encontrados? Em quais alimentos?
Entre os perigos biológicos, destacam-se patógenos como Salmonella spp., Escherichia coli O157:H7 e Listeria monocytogenes, especialmente em hortaliças folhosas consumidas cruas (para mais informações sobre parasitas em vegetais, leia Risco microbiológico de parasitas protozoários em alimentos).
Já nos perigos físicos, fragmentos de vidro, metais e plásticos rígidos foram relatados com frequência em alimentos industrializados. Esses achados reforçam a necessidade de controles integrados em todas as etapas da cadeia, da produção primária ao processamento.
4 – Pensando em avaliação de risco, como os produtores de alimentos podem aproveitar este guia para trazer mais segurança aos processos?
Pequenos e médios produtores, que nem sempre têm acesso a consultorias especializadas, podem usar o material como referência técnica para implementar boas práticas agrícolas, higienização, rastreabilidade e monitoramento ambiental. Além disso, ao incorporar esse tipo de abordagem, os produtores ganham maior previsibilidade nas auditorias e mais competitividade em mercados exigentes.
5 – Quais as principais conclusões do estudo?
A principal conclusão é que a inocuidade de alimentos vegetais depende de uma abordagem integrada e baseada em risco. O estudo mostra que muitos perigos podem ser controlados com medidas relativamente simples, como manejo adequado da água de irrigação, controle de temperatura, capacitação de manipuladores e programas de higiene estruturados.
Também reforça a importância do alinhamento entre setor regulado e serviço oficial, com base em critérios técnicos e objetivos. O guia contribui para esse alinhamento ao oferecer uma base comum de conhecimento.
6 – Pensando no futuro, há planejamento de produção de novos guias para outras categorias de alimentos?
Sim. A equipe técnica da DIPOV/SDA já discute a ampliação do escopo, com foco em alimentos minimamente processados, polpas de frutas congeladas, grãos e sementes destinadas ao consumo humano.
O objetivo é que o guia se consolide como uma referência viva e atualizada dentro do Programa de Segurança de Alimentos de Origem Vegetal (PSAOV) do DIPOV, contribuindo continuamente para elevar o padrão de segurança dos alimentos vegetais no Brasil.
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Estas e outras dúvidas certamente passam pela cabeça de muitas pessoas na hora de armazenar ou de preparar os alimentos em casa. A boa notícia é o lançamento de um guia prático, que esclarece estas e outras dúvidas rapidamente. Trata-se do Manual Prático: Como Cuidar dos Alimentos Dentro de Casa,de autoria de Carina Moro Benis, disponível gratuitamente aqui.
Carina (foto) tem graduações em Tecnologia de alimentos e em Nutrição e atualmente é doutoranda do programa de Ciência de Alimentos da Universidade Estadual de Londrina. O blog conversou com ela para saber mais detalhes deste projeto.
Como surgiu o manual
Durante sua dissertação de mestrado, Carina participou de um projeto de implantação de boas práticas de manipulação de alimentos na merenda escolar de Londrina, PR. Nesse período, teve início a pandemia de Covid-19, e todos os alunos atendidos pelo projeto, assim como boa parte da sociedade, passaram a permanecer em casa.
Nesse contexto, surgiu a oportunidade de avaliar, por meio de um questionário, como as famílias desses alunos cuidavam dos alimentos em casa. “A partir das respostas, percebi que existiam muitas dúvidas e práticas incorretas de manipulação, oferecendo risco à saúde de um público que, em grande parte, era vulnerável”, diz a autora. “Diante dessa realidade, pensei em criar um material didático e acessível, que pudesse orientar as famílias sobre como garantir alimentos seguros dentro de casa, prevenindo doenças transmitidas por alimentos e água”, complementa.
O manual traz informações práticas para todas as etapas da manipulação de alimentos, incluindo higiene pessoal e da cozinha, escolha, higienização e armazenamento dos alimentos, preparo e pós-preparo, prevenção da contaminação cruzada, uso de detergentes, manejo do lixo doméstico, leitura de rótulos e verificação da validade dos alimentos.
“Neste manual, tomei muito cuidado para orientar de forma simples, evitando polêmicas e explicações longas. O objetivo é atingir não apenas as famílias que participaram da pesquisa, mas também qualquer outra pessoa que o consultar, ajudando a tornar o cuidado com os alimentos mais seguro e parte do cotidiano”.
Carina agradece a participação das professoras Wilma Spinosa e Fernanda Bana, coordenadoras do projeto, de Rafael Françoso, que cuidou da parte gráfica e de Humberto Soares, pela colaboração geral.
2min leituraDevo lavar os ovos antes de colocá-los na geladeira? E a carne, por que não posso descongelar fora da geladeira? Estas e outras dúvidas certamente passam pela cabeça de muitas […]
O post de hoje tem um toque macabro e diferente das pautas aqui do Food Safety Brazil. Sabemos dos estragos que as doenças causadas por alimentos provocam no organismo, mas eu nunca havia tido contato com uma abordagem clara da perspectiva da análise de um cadáver.
Auxiliar o médico patologista a descrever esses danos e caracterizar a “causa mortis” é o trabalho de Raiane Priscila, dona do perfil @diariodenecropsiaofc no Instagram. Profissional da área de biomedicina, ela compartilha conteúdos sobre necropsia, anatomia e rotina laboratorial. Ela se tornou popular por mostrar com naturalidade e didatismo o dia a dia de quem atua com cadáveres e análises post-mortem.
Como é possível imaginar, os temas das postagens são tão variados quanto as patologias humanas. As doenças transmitidas por alimentos representam uma pequena parte da rotina destas avaliações dos pacientes encaminhados por hospitais.
O perfil costuma alertar sobre conteúdo sensível, já que lida com imagens reais de cadáveres e procedimentos médicos.
Eu fiz uma curadoria de casos em que os estragos causados por ingestão de alimentos culminaram em óbito. Para quem já se arrepiou e está com receio de abrir os links, explico que nestes posts em particular não há imagens fortes, somente relatos minuciosos sobre órgãos e características dos cadáveres. Também são fornecidas informações técnicas como “local de amostragem” dos corpos para tirar fragmentos para análises laboratoriais.
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Em 2000, na cidade de Santo André (SP), o consumidor Wilson Batista de Rezende comprou uma garrafa retornável de Coca-Cola. Segundo seu relato, ao consumir parte do conteúdo, percebeu que havia um rato dentro do frasco. O episódio, rapidamente noticiado pela imprensa local, transformou-se em um dos casos mais célebres do direito do consumidor brasileiro, não apenas pela repercussão popular, mas pelos anos de debate técnico, judicial e social que se seguiram.
O processo teve início com o ajuizamento de ação de indenização por danos morais e materiais. Wilson alegava ter sido exposto a risco extremo ao ingerir parcialmente o produto e exigia compensação pela falha de segurança. A empresa, por sua vez, sustentou desde o princípio a impossibilidade técnica de contaminação por corpo estranho de grande porte em linha de produção automatizada. Assim começou um embate que atravessou perícias, recursos, disputas midiáticas e, por fim, sentença definitiva em 2025, mais de duas décadas após o fato.
Imagem criada por inteligência artificial – A sombra do rato sobre a garrafa representa, de forma simbólica, o caso em questão.
A versão do consumidor
De acordo com o processo, Wilson teria adquirido a garrafa em estabelecimento regular, devidamente lacrada, e notado sabor e odor estranhos ao consumir. Ao observar contra a luz, teria constatado a presença de um pequeno roedor dentro do líquido. Fotografias foram apresentadas e, segundo os autos, a garrafa foi preservada como prova.
O impacto emocional de situações assim é evidente. Mesmo sem a ingestão integral do corpo estranho, o consumidor é confrontado com a quebra da confiança, aquilo que a doutrina jurídica chama de violação da legítima expectativa de segurança. É natural, portanto, que a versão tenha gerado forte comoção social.
O argumento da indústria
A defesa da Coca-Cola sempre foi pautada em dados técnicos de processo. O envase de bebidas em escala industrial ocorre em ambientes de alta complexidade tecnológica, compreendendo:
Lavagem de garrafas retornáveis em soluções cáusticas a temperaturas elevadas, capazes de remover e destruir matéria orgânica.
Rinsagem e esterilização de garrafas novas com jatos de água tratada e ar filtrado.
Envase em salas com pressão positiva, tubulações sanitárias e tampas esterilizadas.
Inspeção ótica e eletrônica, para detecção de partículas sólidas.
Controle de torque e vedação, além de testes de vácuo e pressão em amostras de cada lote.
Com essas barreiras sucessivas, a tese da defesa foi de que seria praticamente impossível que um animal inteiro atravessasse o processo sem ser destruído ou detectado. Para a empresa, a contaminação teria ocorrido posteriormente, como em situações durante o transporte, armazenagem no ponto de venda ou até mesmo por manipulação fraudulenta.
O papel das perícias
O processo judicial incluiu diversas perícias ao longo dos anos. Os especialistas avaliaram:
Integridade da tampa e do lacre, verificando sinais de violação.
Características do líquido, incluindo pH (tipicamente 2,5 em refrigerantes), presença de CO2 dissolvido e gases de putrefação.
Estado do corpo estranho, observando autólise, fragmentação e tempo provável de permanência.
Cadeia de custódia da amostra, avaliando se houve risco de contaminação posterior.
Os laudos mais recentes reforçaram a impossibilidade técnica de contaminação em linha de produção, convergindo com a tese da defesa. O argumento central foi que um roedor inteiro não resistiria ao processo de lavagem cáustica nem passaria despercebido por inspeções. Além disso, a degradação observada no corpo estranho sugeria tempo de exposição incompatível com o envase.
O desfecho judicial
Após anos de recursos e debates, a Justiça proferiu sentença final em 2025, negando o pedido de indenização. O juiz reconheceu que não havia prova suficiente do nexo causal entre a fabricação e a presença do animal, acolhendo a tese de impossibilidade técnica.
O caso, porém, não deixou de marcar a jurisprudência. Em 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) consolidou o entendimento de que a simples presença de corpo estranho em alimento ou bebida, mesmo sem ingestão, caracteriza dano moral. Essa decisão, em outro processo, fortaleceu a posição do consumidor em casos de risco potencial. Mas no episódio específico de Wilson Rezende, a prova técnica acabou prevalecendo em sentido contrário.
As lições sanitárias e industriais
Do ponto de vista da segurança dos alimentos, casos como este expõem um dilema clássico: a indústria depende de processos de barreira e controle estatístico, mas o consumidor julga pela experiência individual.
Ainda que a probabilidade de falha seja ínfima, a percepção de risco é devastadora para a confiança na marca.
O CDC brasileiro (Código de Defesa do Consumidor) adota a responsabilidade objetiva do fornecedor, ou seja, basta que o produto seja colocado em risco para haver obrigação de reparar. Essa lógica aplica-se em situações em que há corpo estranho inequívoco em garrafa lacrada, sem necessidade de ingerir. Mas também admite a avaliação pericial, que pode afastar o nexo causal, como ocorreu neste caso.
Do lado sanitário, reforça-se a importância da rastreabilidade de lotes e segregação imediata em caso de denúncia; auditorias independentes nas linhas de produção e nos pontos de venda; educação do consumidor sobre canais de reclamação e preservação de evidências e a responsabilidade compartilhada com o varejo, que deve cuidar de armazenagem e exposição.
Entre confiança e expectativa
O episódio do “rato na Coca-Cola” é, no fim das contas, um estudo de caso sobre como indústria, justiça, varejo e consumidor se relacionam em torno da segurança dos alimentos. A fábrica opera com HACCP, BPF e sistemas robustos de segurança; o varejo precisa preservar integridade até a venda; o consumidor espera transparência e previsibilidade; e a Justiça busca equilibrar risco técnico e dignidade da pessoa.
Mais de vinte anos depois, a sentença absolveu a empresa, mas o caso permanece como lição.
Em segurança dos alimentos, não basta ser tecnicamente improvável que algo aconteça. É preciso garantir que o consumidor acredite na integridade do produto. Essa confiança é tão frágil quanto uma garrafa retornável: basta uma fissura para se perder.
4min leituraEm 2000, na cidade de Santo André (SP), o consumidor Wilson Batista de Rezende comprou uma garrafa retornável de Coca-Cola. Segundo seu relato, ao consumir parte do conteúdo, percebeu que […]
Este artigo traz uma reflexão ponderada sobre o crescimento de casos de contaminação por larvas no chocolate. Queremos propor, sempre com positividade e pitadas de bom humor, argumentos para a indústria que se vê pressionada pela imprensa e população, na maioria das vezes de forma infundada, a se responsabilizar por situações que não estão sob seu controle. Entretanto, se aquele que compra começa a prestar atenção ao local onde está a mercadoria, a grande maioria dos problemas já estariam solucionados e os repórteres estariam ocupados em outras tarefas.
Enquanto isso, no programa de auditório
Um apresentador sensacionalista descreve em rede nacional: “o que deveria ser uma experiência sensorial reconfortante se transforma em um episódio asqueroso. O consumidor compra um chocolate e quando desembrulha o perfumado doce, percebe sinais de deterioração e algo se movimentando no meio da sobremesa. Frustração, sentimentos de traição, revolta e até náuseas”.
As redes sociais têm amplificado o relato de consumidores indignados diante dessa desagradável experiência. E alguns podem colocar em cheque a integridade de toda a indústria, como acontece com café e azeite, quando após a ANVISA ou o Ministério da Agricultura reprovarem alguns fabricantes negligentes, paira uma desconfiança sobre cada pacote de café e garrafa de azeite no supermercado.
Mas por qual razão aumenta o relato de larvas no chocolate? Será que a qualidade dos insumos, ou o rigor sanitário dos fabricantes se deteriorou? “A culpa deste vexame é de quem?”, esbraveja o apresentador do programa sensacionalista, sempre com um fundo musical de suspense e comoção barata.
Em casos assim, embora o acusador não determine culpados, o nome da marca escrito na embalagem é o mais exposto. Mas o culpado normalmente está bem longe da portaria daquela indústria. Explico: existem duas razões, mais relacionadas à economia e estratégia de negócio, que entendemos ser as catalisadoras desse aparente caos das larvas nos chocolates. Prepare-se para mandar esse texto para um outro setor da empresa.
Mais pessoas, mais chocolates
A primeira razão é o fenômeno de crescimento na produção e consumo dessa iguaria no Brasil. Em 2022 alcançamos 3,6 Kg por pessoa anualmente, e os alimentos à base de chocolate estão presentes em 92,9% dos lares brasileiros. O mercado brasileiro de chocolate foi estimado em US$ 3,38 bilhões em 2024 e poderá ultrapassar US$ 4 bilhões até 2029.
Em 2023 a indústria produziu 805 mil toneladas de chocolates em variados formatos. Para se ter uma dimensão comparativa desse tamanho, os doces derivados de amendoim, como a popular paçoca, chegam a apenas 11,4% dos lares brasileiros.
Então essa é a primeira resposta: há mais brasileiros consumindo chocolates e, logicamente, há maior exposição desse alimento a riscos de contaminações variadas, com mais pontos de venda e maior desafio logístico e sanitário na distribuição e armazenamento. A contaminação por larvas em chocolate sempre existiu, mas a quantidade de consumidores afetados era menor e a cultura de exposição na internet não existia até alguns anos atrás.
A “traça” do marketing
A segunda razão para o aumento nos relatos tem relação com o modelo de negócio de alguns fabricantes. É a ampliação dos pontos de venda através de franquias ou dispersão em locais menos ortodoxos.
Os franqueados dos fabricantes frequentemente relatam que em algumas épocas do ano recebem compulsoriamente produtos com pouca aceitação pelo mercado local, comprometendo o giro de estoque, e aumentando o tempo de prateleira, o que causa maior exposição a contaminantes e outros efeitos ambientais que podem causar deterioração dos alimentos.
Os pontos de venda, antes focados em padarias, supermercados, “delicatessen”, lojas de departamentos e outros locais com razoável padrão sanitário, têm sido ampliados para postos de combustível, bares, farmácias e locais que algumas vezes têm condições sanitárias comprometidas. Há poucas semanas encontrei chocolate de uma marca nacional sendo exposta ao lado de maços de cigarro em um mercadinho localizado em uma zona rural.
Não queremos aqui fazer juízo de valor sobre qual a melhor estratégia para distribuição e comercialização, mas é inegável que as condições sanitárias no ponto de venda podem contribuir decisivamente para o aumento das contaminações.
Talvez o leitor esteja pensando: “será que esse artigo vai colocar toda a contaminação na conta do local de armazenamento ou venda? A indústria que cresceu nesse volume não tem nenhuma falha?”
Calma. O texto vai melhorar agora.
Fazer chocolate é doce, mas não é mole não
Logicamente não existe nenhum processo produtivo perfeito, e podem existir falhas na indústria de alimentos, mas o que temos observado durante a inspeção e planejamento para contenção de pragas na indústria do chocolate é um rigor sanitário capaz de eliminar quase totalmente os riscos de contaminação por pragas. Desde a seleção de matéria-prima, condições higiênicas da estrutura industrial, climatização (sim, a indústria do chocolate tem bastante controle de temperatura), armazenamento, e inclusive programa de controle de pragas, as avaliações têm revelado cada vez menos risco de uma falha acontecer durante o processo produtivo.
E na dúvida chama o VAR. Aqui mesmo no blog há alguns anos, já houve um excelente artigo esclarecendo sobre larvas nos chocolates, quando o especialista já afirmava: contaminações identificadas mais de 90 dias depois da fabricação, possivelmente foram causadas no ponto de venda ou até na casa do consumidor final. OU SEJA, a culpa não está na linha de produção. Se o nobre consumidor encontrou contaminação com larva viva 4 meses, 8 meses depois da fabricação, não pode ter vindo da fábrica. Portanto, essa é uma oportunidade ímpar do próprio fabricante registrar na sua cadeia de venda e distribuição que eles são tão responsáveis pela integridade dos alimentos quanto o técnico presente na fabricação, ao lado da esteira, vendo as barras passarem.
E TEM MAIS. Seja na imprensa, ou em laudos periciais, especialistas afirmam que predominam contaminações durante as fases de distribuição e armazenamento. Mas também se amontoam decisões judiciaiscondenando fabricantes à indenização de consumidores afetados por contaminações de larvas, mesmo sem culpa comprovada.
Comunicação que informa, conscientiza e posiciona no mercado
Pensando na solução, para todos nós que respondemos pela integridade do alimento produzido, e podemos ter nossa carreira e marca afetadas pela publicização de uma contaminação repugnante de larva, cabe manter os cuidados de boas práticas na fabricação e no armazenamento.
Cuide da sua cadeia de produção. Mantenha uma empresa parceira para controle de pragas que tenha domínio dos “personagens” mais frequentes no cacau e cereais. Embora pareça ser uma afirmação óbvia, a maioria das empresas controladoras de pragas no país é bastante eficiente em alguns animais sinantrópicos mais comuns como ratos, baratas e formigas, mas pouco atentas à biologia e comportamento dos carunchos e traças.
Imagem gerada por AI
Cuide da cadeia de distribuição e vendas. Usar de sanções e multas para vendedores nem sempre funciona no Brasil. E no final quem perde sempre é a marca. Por isso, conscientize seus parceiros de venda através de vídeos e outras publicações (com QRCode nas embalagens), comunicando claramente como deve ocorrer o armazenamento e exposição dos alimentos. Instrua com vídeos públicos o ponto de venda, para que mantenha uma rotina mensal para vigilância e controle de pragas, pois é comum no Brasil o varejo mobilizar controladores apenas quando expostos a uma infestação, ou na hora de renovar o alvará anualmente. Este cuidado não passa despercebido pela imprensa, nem pelo consumidor que percebe maior valor no seu chocolate porque tem mais qualidade (veja no QR Code).
Mesmo que pareça deslocado da sua função, somos uma sociedade de símbolos e relacionamentos. E é por esses motivos que existe toda essa cadeia produtiva para um alimento que é sinônimo de afeto (levemente ameaçado nas últimas semanas por um morango viral). Brasileiro é afetivo. Acredite.
CULTURA DA QUALIDADE? Encaminhe o link desse texto para as áreas de marketing, logística, gerência e/ou diretoria, pois o a mobilização desse time faz toda diferença.
Imagem em destaque gerada por IA (Gemini)
5min leituraEste artigo traz uma reflexão ponderada sobre o crescimento de casos de contaminação por larvas no chocolate. Queremos propor, sempre com positividade e pitadas de bom humor, argumentos para a […]
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