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Panetone além da receita: segurança de alimentos entre a tradição e o controle

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Nos últimos anos, tornou-se quase consenso a frustração com muitos panetones disponíveis no mercado. Rótulos atrativos, promessas generosas e, ao abrir a embalagem, um produto quase sempre seco, pouco aromático, recheio em pouca quantidade ou mal distribuído e distante da expectativa criada. À primeira vista, parece apenas um problema de qualidade sensorial.

Essa percepção, aliás, não me surgiu apenas como consumidor, mas a partir de uma inquietação prática: a decisão de tentar fazer o próprio panetone, buscando resgatar sabor, textura e aroma que pareciam ter se perdido nos produtos comerciais. Ao mergulhar no processo, ficou evidente que o desafio ia muito além da receita.

Quando se observa o panetone com mais atenção, percebe-se que ele é muito mais do que um doce sazonal: trata-se de um alimento fermentado, complexo e sensível, no qual segurança de alimentos e qualidade caminham lado a lado.

Panetone: um produto de risco subestimado

Apesar de sua aparência simples, o panetone reúne características que exigem atenção redobrada. A fermentação é longa, a formulação é rica em açúcar e gordura, há uso de ovos e o processo envolve intensa manipulação manual. Além disso, a produção costuma ser sazonal, concentrada em períodos curtos, o que aumenta a pressão por volume e reduz a margem para erros.

Esse conjunto de fatores cria um ambiente propício para falhas de controle, especialmente quando boas práticas são negligenciadas em nome da tradição ou da pressa. O resultado pode não ser apenas um panetone sensorialmente ruim, mas também um produto instável do ponto de vista sanitário.

Como conduzir corretamente

A produção segura de panetones começa com a aplicação consistente das Boas Práticas de Fabricação. Isso inclui controle rigoroso de higiene dos manipuladores, organização do fluxo de produção para evitar contaminação cruzada e atenção especial ao armazenamento de ingredientes sensíveis, como ovos, manteiga e frutas cristalizadas. Mesmo em pequena escala, o processo deve ser planejado para minimizar manipulações desnecessárias e respeitar tempos e temperaturas previamente definidos.

Fermentação: entre o encantamento e a falsa sensação de segurança

A fermentação é um dos grandes diferenciais do panetone, mas também uma das etapas mais mal compreendidas. Nos últimos anos, fermentações naturais ganharam protagonismo, muitas vezes associadas automaticamente à ideia de alimento mais seguro ou mais saudável.

O levain, obtido a partir da fermentação espontânea de farinha e água, é uma cultura viva composta por leveduras e bactérias ácido-láticas. Quando bem conduzido, contribui para maior complexidade aromática, leve acidez e melhor estrutura da massa. A partir dele, pode-se desenvolver o lievito madre, fermento natural sólido, com menor produção de acidez e maior força fermentativa, adequado para massas ricas em açúcar e gordura, tal qual é o panetone.

Do ponto de vista da segurança de alimentos, no entanto, é importante reforçar: fermentação natural não é sinônimo de proteção automática. Embora a redução de pH e a competição microbiana possam inibir determinados microrganismos, esses fatores não substituem controle de tempo, temperatura, higiene e manejo adequado da cultura. Quando mal conduzida, a fermentação deixa de ser aliada e passa a representar um risco.

Como conduzir corretamente

O manejo seguro do levain e do lievito madre exige rotinas bem definidas de alimentação, uso de água potável, utensílios higienizados e controle de temperatura durante a fermentação. Monitorar sinais sensoriais (aroma, crescimento e textura) e, sempre que possível, parâmetros como pH, ajuda a garantir estabilidade microbiológica. Culturas com odor desagradável, crescimento irregular ou excesso de acidez devem ser descartadas, não “recuperadas”.

Umidade e atividade de água: o equilíbrio entre maciez e segurança

Um dos grandes desejos do consumidor é um panetone úmido, macio e aromático. Sensorialmente, isso faz sentido. Tecnicamente, porém, esse é um ponto crítico.

A atividade de água (aw) do panetone encontra-se próxima ao limite que permite o crescimento de bolores e leveduras. Pequenas variações no processo, seja na formulação, no tempo de forno, no resfriamento ou na embalagem, podem comprometer a estabilidade do produto. Panetones excessivamente secos perdem qualidade sensorial, mas panetones úmidos demais, sem controle adequado, tornam-se um ambiente favorável ao desenvolvimento de mofo (bolor), muitas vezes invisíveis nas fases iniciais.

Aqui, segurança de alimentos e qualidade deixam de ser conceitos paralelos e passam a ser interdependentes.

Como conduzir corretamente

O controle adequado da umidade começa no forno, com tempo e temperatura suficientes para garantir a estrutura e reduzir a atividade de água sem ressecar o produto. O resfriamento deve ser rápido e em ambiente controlado, evitando condensação. A embalagem precisa proteger contra reumidificação e contaminação ambiental, e a definição da vida útil deve considerar testes práticos, mesmo que simplificados, para observar crescimento de bolores ao longo do tempo.

Panetones recheados: quando o risco se multiplica

A tendência dos panetones recheados, com cremes, ganaches, trufas e outras variações, trouxe novos desafios. O recheio passa a ser um novo ponto crítico do processo, alterando significativamente a atividade de água, a microbiota e a vida útil do produto.

O uso de ingredientes lácteos, ovos e chocolates exige controle rigoroso de temperatura durante o preparo, enchimento e resfriamento. Além disso, a vida útil percebida pelo consumidor nem sempre corresponde à vida útil real do produto, especialmente quando não há estudos de shelf life ou quando a comercialização ocorre de forma informal.

Ignorar esses fatores é assumir riscos desnecessários, tanto do ponto de vista sanitário quanto legal.

Como conduzir corretamente

Recheios devem ser preparados com ingredientes seguros, manipulados sob controle de tempo e temperatura e aplicados apenas após adequado resfriamento do panetone. É fundamental reduzir ao máximo o tempo de exposição do produto em temperatura ambiente e revisar a vida útil sempre que um recheio é incorporado, tratando o panetone recheado como um produto diferente do tradicional.

Artesanal não é ausência de controle

Um dos equívocos mais comuns é associar produção artesanal à inexistência de controles. Na prática, o que diferencia um panetone artesanal seguro de um produto problemático não é a escala, mas o rigor no processo.

Boas Práticas de Fabricação, controle de tempo e temperatura, higiene de manipuladores, armazenamento adequado de matérias-primas e embalagens corretas são requisitos mínimos, independentemente do volume produzido. Produzir menos não elimina a responsabilidade; apenas muda a forma de controle.

A segurança de alimentos, nesse contexto, não engessa o processo artesanal, ela o sustenta.

Como conduzir corretamente

Mesmo produções artesanais se beneficiam da padronização mínima de procedimentos. Registros simples de preparo, fermentação, forneamento e validade ajudam a identificar falhas e melhorar a consistência do produto. Treinar quem participa da produção, ainda que informalmente, é parte essencial da entrega de um alimento seguro.

Não quero fazer panetone: o que observar ao comprar um produto artesanal?

Nem todo consumidor deseja, ou pode, se dedicar à produção de um panetone. O processo é longo, exige paciência, controle e, muitas vezes, infraestrutura que nem todos têm. Ainda assim, a busca por panetones artesanais cresce a cada ano, impulsionada pela decepção com produtos industriais e pela valorização do feito à mão.

Nesses casos, alguns pontos de atenção ajudam o consumidor a fazer escolhas mais seguras:

  • Transparência sobre ingredientes: informações claras sobre a formulação, especialmente quanto ao uso de ovos, laticínios, chocolate e conservantes, indicam seriedade no processo.
  • Tipo de fermentação utilizada: seja fermento biológico comercial ou fermentação natural, o importante é que o produtor saiba explicar o método adotado e seus impactos no produto final.
  • Presença de recheios: panetones recheados exigem maior controle de processo. É importante que o produtor informe o tipo de recheio e oriente corretamente sobre conservação e consumo.
  • Prazo de validade coerente: durabilidades excessivamente longas para produtos artesanais, especialmente sem conservantes, devem ser vistas com cautela.
  • Orientações de armazenamento: produtores responsáveis informam como conservar o produto após a compra, inclusive após aberto.
  • Embalagem adequada quando o produto é entregue embalado: o panetone deve estar protegido contra contaminação, umidade excessiva e danos físicos. Embalagens improvisadas ou sem vedação comprometem a segurança do alimento.
  • Informações obrigatórias de rotulagem: mesmo em produções artesanais, o consumidor deve ter acesso às informações básicas: 

– lista de ingredientes

 – identificação de alergênicos (como ovos, leite, soja e derivados)

 – advertência sobre a presença de glúten

 – tabela nutricional

 A ausência dessas informações limita a escolha consciente e pode representar risco à saúde.

  • Aspecto visual do produto: excesso de umidade superficial, recheios vazando ou sinais de mofo, ainda que discretos, são indicativos de falhas de processo.
  • Coerência no discurso: alegações como “100% natural” ou “sem risco” sem explicação técnica não substituem controle e responsabilidade.

Quando tradição, técnica e segurança se encontram

O panetone carrega memória afetiva, simbolismo e tradição. No entanto, tradição sem controle se apoia na sorte. E segurança de alimentos não pode depender dela.

O panetone de qualidade nasce do cuidado com a receita, do respeito ao tempo e do domínio técnico do processo. O panetone seguro para consumo nasce do entendimento de que fermentação, umidade, recheios e manipulação precisam caminhar sob controle constante.

Essa compreensão ficou ainda mais clara ao levar o processo para dentro de casa, produzir o próprio panetone e compartilhá-lo com amigos e familiares. Mais do que o resultado sensorial (sabor, textura e aroma), a experiência reforçou que segurança de alimentos não é um conceito distante da prática cotidiana. Ela está presente nas pequenas decisões, no cuidado com cada etapa e na responsabilidade de oferecer um alimento seguro a quem se senta à mesa conosco ou a quem presenteamos com gêneros alimentícios.

No fim, segurança de alimentos não reduz a magia do panetone. Ela é o que permite que essa magia se repita, ano após ano, com qualidade, confiança e responsabilidade.

Nota do autor

As receitas utilizadas ao longo dessa experiência fazem parte desse aprendizado e podem ser compartilhadas com quem tiver interesse em se aprofundar no processo. Basta solicitar por mensagem, deixando seu melhor e-mail para envio da resposta.

Que este período de festas seja marcado por boas escolhas, mesas compartilhadas com segurança e alimentos que tragam não apenas sabor, mas confiança.
Boas festas e um excelente 2026! 

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Vai ter uvas-passas na sua ceia de Natal?

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Aproxima-se o período de festas de fim de ano, e com ele as polêmicas uvas-passas. Com elas funciona assim: ou se ama ou se odeia. Mas aqui trago uma outra perspectiva para essa discussão: do ponto de vista de segurança de alimentos, elas são mesmo seguras?

O principal vilão: micotoxinas

A presença de micotoxinas, e mais especificamente da ocratoxina A, é a principal razão para remessas de uvas-passas serem impedidas de acessar o mercado europeu. Isso porque o processo de secagem de uvas para obtenção das passas, na maior parte das vezes, ocorre por exposição ao sol. Tais condições favorecem o desenvolvimento de fungos produtores de toxina, principalmente a ocratoxina A (OTA). Diversas notificações do sistema RASFF (Rapid Alert System for Food and Feed) da União Europeia demonstram a sua alta ocorrência, além de evidências de recolhimento pelo MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) no Brasil, em 2023 e em 2022, quando uvas-passas que seriam utilizadas para produção de panetones foram apreendidas.

Perigos microbiológicos

Apesar da baixa atividade de água após o processo de secagem, alguns microrganismos se mantêm viáveis até obter condições favoráveis para proliferação. Entre eles, nos preocupam os famosos patógenos Salmonella, E. coli e Listeria monocytogenes. Como exemplo, entre 2008 e 2009, mais de cinquenta pessoas foram reportadas com salmonelose, das quais 21 tiveram que ser hospitalizadas, todas relacionadas ao consumo de frutas secas.

Os pesticidas

O processo de secagem, com a redução do teor de água, acaba por aumentar o teor de resíduos de pesticidas presentes na fruta. Além disso, após a secagem é comum o uso da técnica de fumigação para garantir a ausência de pragas nos frutos secos, interrompendo ciclo de insetos que poderiam se desenvolver. Com base nisso, as uvas-passas estão entre as frutas mais contaminadas do mercado, segundo o EWG’s Shopper’s Guide to Pesticides in Produce.

Existem notificações do RASFF citando resíduos dos pesticidas clorpirifós e procimidona acima do lime aceitável, o que evidencia a ocorrência de tal perigo para esse tipo de fruta processada. Além disso, em 24 de novembro desse ano, a Alemanha reportou outro alerta de pesticidas acima dos limites em uvas-passas.

Os mais comuns: perigos físicos

Pequenas surpresas normalmente acompanham as frutas secas, incluindo aqui a uva-passa. Esses perigos podem ser a presença de pedrinhas, fragmentos da planta como galhos e hastes, inclusive insetos mortos. O processo de secagem acaba por deixar as frutas expostas a pragas, como os insetos. O mais comum para uvaspassas são fragmentos de galhos e areia.

Além disso, a infestação por insetos é comum durante o armazenamento da fruta seca. Eles são atraídos pelo alto teor de açúcar, associado ao alto longo período de armazenamento e falhas no programa de controle de pragas do local e na cadeia logística.

Nesta etapa, as condições da cadeia de abastecimento contribuem para o aparecimento ou desenvolvimento de alguns desses perigos, principalmente o armazenamento e distribuição a granel. Isso se deve à exposição ao ambiente, bem como aos instrumentos de manipulação. Isso também se aplica ao armazenamento nos locais de venda ao consumidor final e, até mesmo, em casa.

Relatos de casos

A visibilidade destes casos é maior nos Estados Unidos e Europa, mas não significa que a ocorrência no Brasil é menor. O sistema de alerta da Europa (RASFF), bem como a sistemática definida pelo FDA nos Estados Unidos, garantem a robustez da rastreabilidade e divulgação. Além disso, a Europa possuiu um sistema agressivo de controle de fronteira, com programas de coleta bem administrada com fiscalização.

No Brasil, a maior parte das frutas secas ou desidratadas típicas de Natal, como passas, damasco, figo e tâmara, é importada. No caso das uvas-passas, isso se deve às condições de cultivo das variedades específicas. Assim sendo, a cadeia de distribuição tende a incluir transportes de longo prazo e seus riscos associados, além de incrementar dificuldades na rastreabilidade.

Apesar dos programas de controle de fronteira no Brasil pela VIGIAGRO (MAPA), nem todos os lotes são fiscalizados, havendo margem de risco devido à característica de amostragem e capacidade dos órgãos fiscalizadores na realização de testes, além dos custos a eles relacionados.

Gerenciamento de riscos

Todos esses riscos são gerenciáveis na cadeia de produção e distribuição. Na indústria de alimentos trabalhamos com a aplicação de medidas de controle e monitoramento, a partir de um plano de análise de perigos, os quais podem ser minimizados ou controlados.

Além disso, o processo de fiscalização reforça a importância das indústrias e importadoras da aplicação das medidas de controle em todas as etapas da cadeia de distribuição, evitando perdas de produto e reputação da marca, além do impacto à saúde de seus consumidores.

Mas e agora, estou seguro consumindo o famoso arroz com passas de Natal?

Bem, as uvas-passas têm riscos conhecidos, em especial os relacionados a micotoxinas. As frutas secas exigem controle rigoroso da matéria-prima, do processo de secagem, armazenamento e distribuição. Os órgãos reguladores continuam cumprindo o seu papel de fiscalização nas condições atualmente disponíveis.

Dessa forma, nós, enquanto consumidores, devemos priorizar o uso de marcas reconhecidas por seu padrão de qualidade, de forma a ter maior garantia de que o clima permanecerá festivo após o Natal.

Com isso, me conte aqui: você é do time #compassas ou #forapassas?

Boas festas!

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O alerta da Anvisa e o perigo dos microplásticos em produtos de confeitaria: brilho de verdade é segurança!

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Recentemente, a Anvisa reforçou um alerta que merece atenção de todos os que produzem, manipulam ou comercializam alimentos: plásticos não são, e nunca foram, ingredientes alimentares! É um esclarecimento muito importante porque trata do perigo dos microplásticos em alimentos.

O polipropileno micronizado (PP) é uma substância plástica presente em alguns glitters e pós “decorativos” vendidos como se fossem comestíveis. Embora tenham aparência atraente e sejam amplamente usados para dar brilho a bolos, doces e sobremesas, esses produtos podem conter microplásticos. E o risco vai além da estética: quando ingeridos, essas micropartículas podem provocar irritações gastrointestinais, inflamações e efeitos cumulativos no organismo.

As Instruções Normativas nº 211/2023 e nº 286/2024 são claras: somente corantes e aditivos alimentares listados pela Anvisa podem ser utilizados em produtos de confeitaria. Ou seja, qualquer insumo que não conste nessas listas — mesmo que seja vendido como “glitter comestível” ou “pó decorativo” — não pode ser usado em alimentos.

Garantir a segurança dos alimentos depende de boas práticas e de uma análise crítica dos insumos utilizados. Para evitar riscos, vale seguir algumas orientações:

  • Compre apenas insumos registrados como alimentícios, de fornecedores confiáveis e com regularização sanitária;
  • Leia sempre o rótulo completo — não confie em embalagens sem CNPJ, validade ou lista de ingredientes;
  • Treine sua equipe para reconhecer a diferença entre produtos “decorativos” (de uso externo) e aqueles realmente comestíveis;
  • Em caso de dúvida, procure orientação técnica junto a um responsável pela qualidade, consultor ou autoridade sanitária.

A Anvisa cumpre seu papel ao estabelecer normas e publicar listas oficiais de aditivos e ingredientes permitidos. Porém, a responsabilidade pela aplicação dessas regras é de quem produz, manipula e comercializa alimentos. Conhecer a legislação e aplicá-la corretamente é parte essencial da cultura de segurança dos alimentos.

No fim das contas, o alimento só deve “brilhar” se for seguro. Segurança dos alimentos é respeito à saúde de quem confia no seu produto — e isso é o que realmente faz uma confeitaria se destacar.

Veja também outros posts já publicados por aqui sobre o perigo dos microplásticos:

Microplásticos aumentam resistência de bactérias e preocupam cientistas

Nova página do FDA: o que precisamos saber sobre microplásticos e nanoplásticos em alimentos

O perigo dos microplásticos em moluscos bivalves

Microplásticos são encontrados no coração humano, e agora? 

Microplásticos e nanoplásticos em alimentos: como o apoio à ciência auxilia profissionais a avaliar um novo perigo

Temos que nos preocupar com o risco de nanoplásticos na alimentação?

Imagem: Moose Photos

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A ração do seu cachorro pode estar deixando sua família doente

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Trinta e duas pessoas hospitalizadas. Oito internações. Bebês e idosos entre as vítimas. E tudo começou com algo aparentemente inofensivo: a ração do cachorro.

O perigo escondido na tigela

Um surto de Salmonella no Canadá acendeu o alerta vermelho: ração e petiscos contaminados estão adoecendo famílias inteiras. O pior? Seu cão pode parecer perfeitamente saudável enquanto espalha a bactéria pela casa.

Os números que assustam

O Surto
Dados reais
Infectados
32 pessoas confirmadas
Hospitalizados
8 casos graves
Vítimas
De bebês a idosos de 87 anos
Casos ocultos
Para cada 1 reportado, há 26 não diagnosticados

Como você está se contaminando sem saber

Você não precisa comer ração para ficar doente. A infecção acontece de formas surpreendentemente simples:
  • Aquele carinho no cachorro? Suas mãos ficam contaminadas
  • A lambida carinhosa no rosto? Bactéria diretamente na sua boca
  • Lavar a tigela do pet na pia da cozinha? Contamina tudo ao redor
  • Tocar na ração? Depois você leva a mão à boca
Cães podem eliminar Salmonella nas fezes e saliva por até 7 dias, mesmo sem sintomas. E aí, o que pode acontecer? A famosa e conhecida CONTAMINAÇÃO CRUZADA.
Produtos recolhidos: verifique AGORA
Marcas Puppy Love e Puppy World recolheram petiscos de carne, frango e cordeiro vendidos de fevereiro a outubro de 2025. Se você tem esses produtos em casa, jogue-os fora imediatamente.

Sintomas: quando procurar ajuda

A Salmonela ataca rapidamente (6 a 72 horas após contato):
  • Febre alta e calafrios
  • Diarreia intensa (pode ter sangue)
  • Vômitos e cólicas violentas
  • Dor de cabeça súbita
Grupos de alto risco: crianças pequenas, idosos, grávidas e pessoas com imunidade baixa podem ter complicações graves.

As 4 regras de ouro para proteger sua família

1 – Lave as mãos sempre

Depois de tocar na ração, no pet ou nas fezes. Sem exceções. Use água e sabão por 20 segundos.

2 – Separe tudo

Tigelas e utensílios do pet são exclusivos. Nunca os lave junto com a louça da família.

3 – Armazenamento inteligente

Ração longe da comida humana. Longe do alcance de crianças. Sempre fechada.

4 – Cuidado com a comida crua

Dietas cruas para pets são bombas-relógio de bactérias. A FDA já alertou: cozinhar é a única forma segura.
O que fazer AGORA

1 – Verifique se há produtos recolhidos em casa

2 – Crie uma rotina de higiene rigorosa

3 – Ensine as crianças a lavar as mãos após brincar com o pet

4 – Considere mudar para ração de marcas com histórico limpo

A tigela do seu cachorro não deveria ser uma ameaça à sua família, mas a realidade é que pode ser. Proteja quem você ama com informação e atitude.

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Cartilha ensina a cuidar dos alimentos dentro de casa

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Devo lavar os ovos antes de colocá-los na geladeira? E a carne, por que não posso descongelar fora da geladeira?

Estas e outras dúvidas certamente passam pela cabeça de muitas pessoas na hora de armazenar ou de preparar os alimentos em casa. A boa notícia é o lançamento de um guia prático, que esclarece estas e outras dúvidas rapidamente. Trata-se do Manual Prático: Como Cuidar dos Alimentos Dentro de Casa, de autoria de Carina Moro Benis, disponível gratuitamente aqui.  

Carina (foto) tem graduações em Tecnologia de alimentos e em Nutrição e atualmente é doutoranda do programa de Ciência de Alimentos da Universidade Estadual de Londrina. O blog conversou com ela para saber mais detalhes deste projeto.

Como surgiu o manual

Durante sua dissertação de mestrado, Carina participou de um projeto de implantação de boas práticas de manipulação de alimentos na merenda escolar de Londrina, PR. Nesse período, teve início a pandemia de Covid-19, e todos os alunos atendidos pelo projeto, assim como boa parte da sociedade, passaram a permanecer em casa.

Nesse contexto, surgiu a oportunidade de avaliar, por meio de um questionário, como as famílias desses alunos cuidavam dos alimentos em casa. “A partir das respostas, percebi que existiam muitas dúvidas e práticas incorretas de manipulação, oferecendo risco à saúde de um público que, em grande parte, era vulnerável”, diz a autora. “Diante dessa realidade, pensei em criar um material didático e acessível, que pudesse orientar as famílias sobre como garantir alimentos seguros dentro de casa, prevenindo doenças transmitidas por alimentos e água”, complementa.

O manual traz informações práticas para todas as etapas da manipulação de alimentos, incluindo higiene pessoal e da cozinha, escolha, higienização e armazenamento dos alimentos, preparo e pós-preparo, prevenção da contaminação cruzada, uso de detergentes, manejo do lixo doméstico, leitura de rótulos e verificação da validade dos alimentos.

“Neste manual, tomei muito cuidado para orientar de forma simples, evitando polêmicas e explicações longas. O objetivo é atingir não apenas as famílias que participaram da pesquisa, mas também qualquer outra pessoa que o consultar, ajudando a tornar o cuidado com os alimentos mais seguro e parte do cotidiano”.

Carina agradece a participação das professoras Wilma Spinosa e Fernanda Bana, coordenadoras do projeto, de Rafael Françoso, que cuidou da parte gráfica e de Humberto Soares, pela colaboração geral.

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Ketchup, mostarda e mel: o que realmente precisa ir à geladeira?

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Entre ciência, legislação e boas práticas, descubra quando a refrigeração é obrigatória e quando é apenas uma questão de qualidade. Quem nunca discutiu sobre onde guardar o ketchup? Ou se a mostarda precisa mesmo ficar na geladeira depois de aberta? Embora pareçam dilemas domésticos, essas perguntas têm base científica sólida — e entender o comportamento microbiológico por trás dos condimentos é fundamental tanto para quem trabalha na indústria quanto para quem atua em serviços de alimentação ou simplesmente é dona de casa.

Aqui vai um insight importante: a recomendação “refrigerar após abrir” não está necessariamente ligada apenas à segurança microbiológica, mas também à preservação da qualidade sensorial. Produtos como molhos, geleias e manteigas têm características que dificultam o crescimento microbiano: baixa atividade de água (aw), alta acidez (pH baixo), presença de sal, açúcar ou conservantes naturais, além de terem passado por processos térmicos para eliminar patógenos.

Esses fatores, isolados ou combinados, tornam a maioria dos condimentos estável à temperatura ambiente — ao menos do ponto de vista da segurança de alimentos. O que se perde fora da geladeira, na maioria das vezes, é a cor, sabor e textura, não a inocuidade. Como explica a professora Abby Snyder, da Universidade Cornell:

“Microrganismos deteriorantes podem até se desenvolver, mas raramente os patogênicos. O principal risco é sensorial, não sanitário.”

O que dizem as normas legais brasileiras?

A RDC 727/2022 da ANVISA regula a rotulagem de alimentos embalados e estabelece que as condições de armazenamento devem constar no rótulo quando necessárias para garantir qualidade e segurança. Para quem trabalha com food service, a RDC 216/2004 determina que produtos prontos para consumo sejam mantidos sob condições que previnam contaminação. Mas atenção: isso não significa que tudo precisa estar refrigerado. A IN 161/2022, que estabelece padrões microbiológicos, reconhece que produtos com pH ácido e alta concentração de sal ou açúcar são naturalmente mais estáveis, tendo critérios menos restritivos.

E aqui entra um conceito fundamental: a tecnologia de obstáculos (hurdle technology). A RDC 331/2019 classifica alimentos com pH abaixo de 4,5 como ácidos, de baixo risco para patógenos como Clostridium botulinum. Quando combinamos acidez com baixa atividade de água (aw < 0,85 já inibe Staphylococcus aureus), criamos barreiras que tornam o produto microbiologicamente seguro sem refrigeração.

Na prática: cada condimento é um caso

  1. Ketchup é provavelmente o exemplo mais emblemático. Com pH em torno de 3,9 e aw entre 0,93-0,97, ele é naturalmente estável. É por isso que restaurantes o deixam fora da geladeira sem causar surtos de DTA. A refrigeração aqui é puramente para manter cor e sabor vibrantes por mais tempo. Conforme a RDC 216/2004, não há restrição para manter sachês individuais em temperatura ambiente no food service — desde que protegidos de luz e calor excessivo.
  2. Mostarda é ainda mais impressionante. Com pH entre 3,5-4,5 e compostos antimicrobianos naturais (isotiocianatos), ela é praticamente autoconservante. Como diz Brandon Collins, sommelier de mostarda: “É antibacteriana, então nada pode realmente crescer nela.” A geladeira apenas preserva aquele ardor característico que se perde com o tempo. Microbiologicamente falando, pode ficar na despensa sem preocupação.
  3. Mel é o campeão da estabilidade. Com aw de aproximadamente 0,6 e mais de 65% de açúcares redutores, é um ambiente hostil à vida microbiana. A IN 11/2000 do MAPA nem exige refrigeração — aliás, refrigerar mel é um erro comum que acelera a cristalização. Mas atenção ao alerta do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria: nunca ofereça mel a bebês menores de 1 ano, devido ao risco de esporos de Clostridium botulinum. Outra informação importante: o mel de abelhas nativas (sem ferrão) tem um teor mais elevado de umidade e precisa, sim, ser mantido sob refrigeração.
  4. Maionese comercial é interessante porque muda de status. Fechada, fica em temperatura ambiente graças ao pH 3,8-4,2 e à pasteurização. Aberta, precisa ir para a geladeira — não tanto pelo risco microbiológico (o pH ácido protege), mas porque o calor desestabiliza a emulsão. E aqui vai um ponto crítico da RDC 216/2004: maionese caseira com ovos crus é proibida em estabelecimentos comerciais justamente pelo risco de Salmonella.
  5. Molho de soja tradicional, com 15-18% de sal e processo fermentativo natural, dispensa refrigeração. Mas cuidado com versões “light” reduzidas em sódio — essas podem precisar de frio; sempre confira o rótulo.
  6. Geleias, doces em pasta e compotas, apesar da alta concentração de açúcar e pH ácido, devem ir para a geladeira após abertura para evitar fungos na superfície.

Contaminação cruzada, o verdadeiro vilão

Aqui está o segredo que muita gente ignora: mesmo produtos microbiologicamente estáveis podem ser comprometidos por manipulação inadequada. Utensílios úmidos ou sujos, armazenamento em ambientes incorretos (com condensação) — tudo isso introduz microrganismos que não deveriam estar ali. Para a indústria e para o food service, implementar POPs claros e treinar equipes sobre contaminação cruzada é tão importante quanto escolher a temperatura de armazenamento.

Para quem formula e fabrica

Se você trabalha com desenvolvimento de produtos, sabe que estudos de vida de prateleira não são opcionais. Análises microbiológicas, avaliação sensorial, monitoramento de pH e aw, testes de desafio microbiano (challenge test) — tudo isso justifica aquela frase no rótulo. A rastreabilidade completa, incluindo condições de armazenamento por lote, não só facilita recalls como demonstra comprometimento com a qualidade. E lembre-se: a declaração no rótulo não é só para cumprir tabela — ela orienta o consumidor e protege sua marca.

O que levar dessa discussão?

Produtos com pH < 4,5 e/ou aw < 0,85 são microbiologicamente seguros à temperatura ambiente. A refrigeração, nesses casos, é aliada da qualidade, não da segurança. Mas isso não significa negligenciar o frio — ele retarda oxidação, preserva compostos voláteis e mantém a experiência sensorial que o consumidor espera.

A conformidade com a RDC 727/2022 e outras normas não é burocracia: é gestão de risco baseada em ciência. E a maior lição? Refrigerar o que é necessário é prudência. Refrigerar o que não precisa é zelo. Saber a diferença é o que separa profissionais preparados de quem apenas segue instruções.

Como sempre dizemos: a manipulação higiênica após a abertura é mais crítica que a temperatura de armazenamento. Use colheres limpas e secas, mantenha embalagens bem fechadas, e eduque equipes e consumidores sobre boas práticas. Isso, sim, faz a diferença.

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Nutrigenômica e Segurança de Alimentos: quando a promessa de saúde vira excesso

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Hoje parece impossível ir ao mercado sem encontrar embalagens estampando frases como “rico em ferro”, “fonte de cálcio” ou “enriquecido com vitaminas do complexo B”.

Somado a isso, cresce o consumo de suplementos multivitamínicos e packs prontos, muitas vezes sem orientação profissional.

O resultado? Uma equação perigosa: nutrientes essenciais sendo consumidos muito além da quantidade recomendada.

A nutrigenômica, ciência que estuda como nutrientes interagem com nossos genes, mostra que cada pessoa responde de forma diferente aos alimentos. Mas na prática, estamos vivendo o oposto da personalização: uma avalanche de fortificação industrial mais a suplementação indiscriminada que ignora a individualidade e empurra muitos para o risco da hipervitaminose.

Neste artigo você vai entender:

  • Como a nutrigenômica se conecta à segurança de alimentos;
  • O impacto da fortificação em larga escala nos industrializados;
  • A sobreposição com suplementos e os riscos do consumo desenfreado;
  • Como fazer escolhas mais seguras e conscientes no dia a dia.

O que é nutrigenômica

A nutrigenômica busca compreender como genes e nutrientes interagem. Ela abre caminho para dietas personalizadas, adaptadas ao DNA de cada indivíduo. Mas enquanto a ciência caminha nessa direção, o mercado de alimentos e suplementos empurra a população para o excesso padronizado.

A nutrigenômica emergiu no início dos anos 2000 com o avanço das tecnologias de sequenciamento genético, possibilitando compreender como as variações no DNA influenciam a resposta individual aos nutrientes. Inicialmente focada em pesquisas laboratoriais, a área vem evoluindo para aplicações práticas, como dietas personalizadas, que buscam otimizar a saúde e prevenir doenças através da alimentação alinhada ao perfil genético de cada indivíduo. Este avanço tecnológico permitiu ampliar a compreensão da interação gene-nutriente, marcando uma revolução na ciência nutricional.

O boom da fortificação industrial de alimentos

Farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico, leite “rico em cálcio e vitamina D”, cereais matinais “fortes em vitaminas”, bebidas lácteas com adição de zinco… A fortificação tem sua importância na prevenção de deficiências de nutrientes na população (exemplo clássico: redução da anemia com a fortificação de farinhas).

Mas quando somamos todos os produtos que consumidos diariamente, biscoitos, achocolatados, pães, bebidas, a ingestão de micronutrientes pode ultrapassar com facilidade a Ingestão Diária Recomendada (IDR).

Algumas variações genéticas comuns ilustram o impacto dessa individualidade alimentar. Como exemplo, polimorfismos no gene MTHFR (metilenotetrahidrofolato redutase) podem influenciar a metabolização do ácido fólico, essencial para prevenir defeitos congênitos em fetos. Pessoas com variantes menos eficientes desse gene podem necessitar de diferentes formas ou quantidades de folato. Outro exemplo é a intolerância à lactose, genética e comum, que determina a capacidade de digerir o açúcar do leite. Além disso, variações que afetam o metabolismo da cafeína, do álcool e do sódio podem modificar os riscos de consumo padrão desses componentes em alimentos industrializados. Ignorar essas diferenças, especialmente quando há uma fortificação padronizada, pode levar a efeitos adversos para muitos indivíduos.

Suplementos + alimentos industrializados = sobreposição perigosa

Fonte: https://www.elfarmaceutico.es/formacion-investigacion/salud/beneficios-usos-micronutrientes_152213_102_amp.html

Agora imagine esse cenário:

  • Café da manhã com cereal enriquecido, leite fortificado e suco adicionado de vitamina C;
  • Almoço acompanhado de um multivitamínico “para garantir energia”;
  • Pré-treino com pack de cápsulas contendo as mesmas vitaminas já presentes nos alimentos.

Essa sobreposição silenciosa pode levar a quadros de excesso, muitas vezes confundidos com “sintomas vagos” como dor de cabeça, enjoo, fadiga e que em casos mais graves evoluem para problemas hepáticos, renais e até malformações em gestantes (ex.: excesso de vitamina A).

O que a ciência e a toxicologia mostram

  • Vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K) acumulam-se no organismo, aumentando risco de intoxicação.
  • Minerais em excesso (ferro, zinco, selênio) podem causar desequilíbrios e interações negativas com medicamentos.

Dados da OMS mostram aumento global de casos de hipervitaminose em países onde a suplementação cresce junto com a indústria de alimentos fortificados. No Brasil, embora faltem dados oficiais consolidados, estudos regionais e relatos emergenciais indicam um aumento no consumo indiscriminado de suplementos vitamínicos e multivitamínicos, muitas vezes sem acompanhamento profissional. Pesquisa da Sociedade Brasileira de Nutrição realizada em 2023 apontou que cerca de 40% dos adultos entrevistados fazem uso habitual de suplementos, muitos combinando esses produtos com alimentos industrializados fortificados, potencializando riscos de hipervitaminoses. Casos clínicos frequentes relatam sintomas inespecíficos como fadiga, dores de cabeça e náuseas, que podem estar associados ao consumo excessivo desses micronutrientes.

Interações pouco discutidas

Além do excesso, há outras interações:

  • Vitamina K interfere em anticoagulantes;
  • Ferro reduz absorção de antibióticos;
  • Zinco atrapalha alguns anti-hipertensivos.

Essa informação raramente aparece de forma clara nos rótulos, o que torna ainda mais difícil para o consumidor comum avaliar riscos.

A regulamentação atual da Anvisa exige informações sobre composição nutricional e advertências básicas, mas ainda carece de regras específicas sobre alertas para a sobreposição de nutrientes oriundos da combinação de alimentos fortificados e suplementos. A rotulagem raramente informa sobre o risco potencial de toxicidade por consumo concomitante, dificultando a avaliação consciente do consumidor. Além disso, a ausência de padronização nessas informações aumenta o desafio para profissionais de saúde no acompanhamento dos casos de excesso nutricional.

A nutrigenômica nos lembra que não existe “dose padrão” de saúde.

Cada organismo responde de forma única, mas a realidade atual é que estamos expostos a uma combinação de alimentos industrializados fortificados e suplementos com micronutrientes em quantidades padronizadas que muitas vezes ultrapassam os limites seguros individuais.

Informação e acompanhamento profissional são fundamentais para transformar a promessa de saúde em benefício real, e não em excesso perigoso.

Fonte: https://drauziovarella.uol.com.br/alimentacao/como-ler-os-rotulos-de-alimentos/amp/

Antes de colocar no carrinho ou engolir uma cápsula:

  1. Olhe o rótulo: veja se o alimento já contém vitaminas e minerais adicionados.
  2. Some o todo: considere não apenas o suplemento, mas todos os industrializados que consome.
  3. Evite duplicar: packs + multivitamínicos + produtos fortificados = risco de excesso.
  4. Informe seu médico ou nutricionista sobre suplementos e alimentos enriquecidos que consome.
  5. Desconfie de promessas milagrosas de energia ou imunidade em cápsulas.

O futuro da nutrigenômica aponta para avanços digitais que prometem revolucionar o acesso à alimentação personalizada. Aplicativos de dieta baseados em perfis genéticos, alimentos personalizados impressos em 3D e o uso crescente de inteligência artificial para combinar dados genéticos, hábitos e preferências são tendências já em desenvolvimento. Além disso, acredita-se que regulamentações mais rígidas, alinhadas ao avanço da ciência, irão exigir maior transparência nas informações oferecidas ao consumidor. Essas inovações poderão tornar a promessa da nutrigenômica em benefícios concretos, minimizando riscos e potencializando a saúde de forma individualizada.

Compartilhe este artigo com quem você sabe que consome suplementos juntamente com muitos produtos industrializados. Informação é prevenção.

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A mágica tábua de descongelar alimentos: mito ou solução?

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Você sabe qual temperatura ideal para armazenar os alimentos prontos para o consumo? Existe uma faixa de temperatura conhecida como Zona de Perigo, na qual a temperatura é ideal para o crescimentoQuem nunca saiu correndo para trabalhar e esqueceu de tirar a mistura do freezer que atire a primeira pedra!

A correria do dia a dia muitas vezes nos leva a buscar atalhos pouco recomendados para descongelar alimentos: deixá-los sobre a pia, na varanda ou até mesmo usando água quente. Mas aqui vai o alerta: esses métodos não são nada seguros. Quando a parte externa da carne atinge temperaturas acima de 5°C, ela entra na temida zona de perigo (entre 5°C e 60°C). Nessa faixa de temperatura, bactérias patogênicas como Salmonella e E. coli podem dobrar de população a cada 20 minutos — e o pior: isso acontece mesmo que o centro da peça ainda esteja congelado. Deixar um alimento nessa zona por mais de 2 horas é como abrir as portas para uma festa de microrganismos indesejados.

Nos últimos tempos, as redes sociais foram invadidas por um novo “truque de cozinha”: a tábua de descongelar alimentos. Ela chama atenção pelo aparente poder de agilizar o processo, mas será que funciona mesmo? E o mais importante: é um procedimento seguro?

Essas tábuas são feitas de metais como alumínio ou cobre, conhecidos por sua altíssima condutividade térmica. Sabe aquela sensação de encostar numa colher de metal ‘gelada’ versus numa de madeira? A colher de metal parece muito mais fria, certo? Isso acontece porque o metal “rouba” o calor da sua mão muito mais rápido.

Com a tábua é o inverso: ela capta o calor do ambiente e o transfere rapidamente para o alimento congelado, enquanto dissipa o frio que vai sendo liberado durante o degelo. É como se a tábua funcionasse como uma “ponte expressa” para o calor.

Comentário técnico: A condutividade térmica mede a capacidade de um material transferir calor. Os números impressionam: o alumínio conduz cerca de 205 W/m·K, enquanto a madeira conduz apenas 0,15 W/m·K. Isso significa que o alumínio transfere calor mais de 1.300 vezes mais rápido que a madeira! Por isso essas tábuas realmente aceleram o processo comparadas a um prato ou tábua comum.

A física também ajuda a explicar o fenômeno. Segundo as leis da termodinâmica, quando dois corpos com temperaturas diferentes entram em contato, há sempre um fluxo espontâneo de calor do mais quente para o mais frio, até que se atinja equilíbrio térmico. É exatamente isso que acontece quando colocamos uma peça congelada sobre a tábua metálica.

Comentário técnico: A primeira lei da termodinâmica (conservação de energia) mostra que a energia não se cria nem se destrói, apenas se transforma — no caso, o calor do ambiente flui através do metal até o alimento. A segunda lei explica que esse fluxo de calor sempre viaja naturalmente do corpo mais quente para o mais frio, nunca o contrário (a menos que haja trabalho externo, como em geladeiras).

Aqui vem a parte importante: esse ganho de tempo não elimina o risco microbiológico. A tábua funciona à temperatura ambiente, o que significa que o alimento passa parte do tempo exposto exatamente àquela zona de perigo que mencionamos no início.

E tem mais: carnes moídas são ainda mais críticas nesse cenário. Enquanto um bife inteiro tem bactérias apenas na superfície externa, a carne moída tem uma área de exposição centenas de vezes maior. Durante a moagem, qualquer contaminação superficial se distribui por toda a massa, criando inúmeras “portas de entrada” para microrganismos. É por isso que carnes moídas exigem cuidado redobrado no descongelamento e devem ser consumidas mais rapidamente.

Organizações como a Anvisa (RDC nº 216/2004, que estabelece procedimentos operacionais padronizados para serviços de alimentação) e o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) são categóricas: o método mais seguro continua sendo o descongelamento sob refrigeração, com a geladeira ajustada abaixo de 4°C.

Pode parecer menos prático — e realmente é mais demorado —, mas é a única forma de garantir que todo o alimento permaneça fora da zona de risco do início ao fim do processo, preservando tanto sua qualidade quanto a segurança de alimentos.

E se eu REALMENTE precisar usar a tábua?

Bem, a tábua de descongelamento pode até ajudar em situações emergenciais ou quando você quer dar aquele “empurrãozinho” inicial no degelo. Se for usar, siga estas orientações:

  • Tempo máximo: não deixe o alimento mais de 30-40 minutos em temperatura ambiente, mesmo na tábua
  • Espessura ideal: funciona melhor com peças finas (bifes, filés, hambúrgueres) — peças grandes continuam demorando
  • Vire o alimento: para descongelar uniformemente dos dois lados
  • Higienização: lave a tábua com água quente e detergente após cada uso;
  • Cozinhe imediatamente: assim que descongelar, leve direto ao preparo
  • Nunca use para carne moída: o risco é alto demais

Quadro comparativo dos métodos de descongelamento

Método Vantagens Riscos/Desvantagens Indicação
Geladeira (< 4°C) Seguro, preserva qualidade, evita multiplicação de patógenos Mais lento, exige planejamento (8-24h dependendo do tamanho) Melhor opção para carnes, aves, pescados
Água fria corrente (embalagem fechada) Mais rápido que a geladeira (1-3h), mantém alimento fora da zona de perigo Requer atenção constante e troca de água a cada 30 min Útil em emergências
Micro-ondas (defrost) Muito rápido (minutos), permite preparo imediato Pode cozinhar partes externas de forma desigual; precisa cozinhar logo após o descongelamento Somente quando vai direto ao fogo/forno
Tábua de descongelamento Mais rápido que deixar em prato comum; prático em bancada Funciona à temperatura ambiente, expõe ao risco microbiológico; não serve para peças grandes Apenas como complemento ou pré-descongelamento rápido de peças finas
Temperatura ambiente (pia/varanda) Nenhuma vantagem real Risco altíssimo de contaminação; método completamente inseguro Nunca recomendado

A conclusão sincera

No fim das contas, a velha tática da vovó continua vencendo: tirar a carne do freezer na noite anterior e deixar descongelando na geladeira. Chatinho? Talvez. Dá mais trabalho lembrar? Com certeza. Mas é seguro? Absolutamente.

A tábua de descongelamento não é exatamente um mito — ela realmente acelera o processo graças às propriedades físicas do metal. Mas também não é a solução mágica que dispensa planejamento. Quando o assunto é segurança de alimentos, não existe atalho milagroso: tempo e temperatura continuam sendo os fatores decisivos.

Pense assim: você pode até usar a tábua para dar uma “adiantada” em situações de aperto, mas jamais como método principal. O planejamento simples de transferir os alimentos do freezer para a geladeira algumas horas antes continua sendo o caminho mais inteligente — e o único que garante que você e sua família comam com tranquilidade.

Afinal, a pressa pode até ser inimiga da perfeição, mas quando falamos de segurança de alimentos, ela é inimiga mesmo da sua saúde.

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Bebidas adulteradas com metanol: como ocorrem, riscos e como se proteger

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O Food Safety Brazil recentemente postou uma matéria sobre o metanol e bebidas adulteradas. Não obstante, devido ao fato deste assunto (infelizmente) não sair das redes sociais e do imaginário coletivo dos consumidores, resolvemos contribuir com mais um post, com intuito de trazer uma outra abordagem (ou apenas complementar outros posts) sobre este importante tema.

Você sabia que uma única dose de bebida adulterada pode ser suficiente para deixar sequelas irreversíveis, ou até tirar uma vida?

Imagem: O Globo

Somente em setembro deste ano, só na Grande São Paulo, pelo menos três pessoas morreram após consumir bebidas alcoólicas adulteradas com metanol. E outras dezenas acabaram internadas com sintomas graves, como perda de visão, coma e sequelas neurológicas. Este alerta é tão importante quanto urgente. O assunto não é só policial: é saúde pública, confiança do mercado e risco real para quem consome.

Talvez pareça algo distante, restrito a bares suspeitos ou festas clandestinas, mas a verdade é que a fraude pode estar em qualquer copo, em qualquer cidade.

O perigo nem sempre é visível: o metanol é transparente e praticamente não tem odor distinto. Por isso, entenda o que está por trás dessa ameaça.

Neste artigo você vai entender:

  • Como o metanol pode chegar às bebidas
  • Por que sua presença é tão perigosa
  • Como identificar sinais e sintomas em caso de intoxicação
  • O que produtores, comerciantes e consumidores podem fazer para reduzir riscos

Este artigo foi desenvolvido com a colaboração técnica do Dr. Igor Daniel Moreira Ferreira, CRM/ PE 24196, que revisou e contribuiu especialmente para a seção médica sobre toxicologia do metanol e condutas clínicas. A contribuição médica visou garantir a acurácia no detalhamento dos sinais, sintomas e orientações de urgência.

O que é e como o metanol pode chegar às bebidas

Imagem: O Globo

Numa linguagem bem simples, o metanol é um tipo de álcool que não deveria estar em nenhuma bebida. Ele é usado como combustível e solvente, mas quando ingerido pelo ser humano (por ingestão direta, absorção dérmica ou inalação), transforma-se em substâncias altamente tóxicas no fígado, primeiro em formaldeído e depois em ácido fórmico.

Essas substâncias “envenenam” o corpo de dentro para fora: provocam uma forte acidificação do sangue e afetam principalmente os olhos e o sistema nervoso central. É daí que vêm os relatos de pessoas que ficaram com a visão borrada, cegueira permanente ou até faleceram após consumir bebidas adulteradas com metanol.

Fontes naturais e de processo

  • Em frutas como maçãs, uvas e cítricos, a pectina presente nas cascas e polpas pode ser degradada por enzimas (como a pectina metilesterase), naturais da própria fruta ou produzidas por microrganismos presentes no mosto. Essa reação libera metanol, que pode se acumular e ser concentrado na destilação. Em destilados de frutas (ex.: algumas aguardentes frutadas), isso é relevante. Pequenas quantidades podem ser toleradas em processos naturais nos destilados de frutas, mas em níveis elevados são resultado de má prática ou fraude. A quantidade identificada na bebida ajuda a diferenciar se é “natural ou criminoso”.
  • Na cana-de-açúcar, a formação natural de metanol tende a ser menor, mas não é zero, dependendo do processo de matéria-prima e de eventuais contaminações microbiológicas.
  • Cortes de destilação malfeitos: durante a destilação, diferentes frações (“cabeça”, “coração” e “cauda”) concentram compostos distintos. O metanol tem ponto de ebulição mais baixo que o etanol e costuma concentrar-se nas frações de cabeça; se o operador de destilação não faz cortes apropriados ou usa equipamento impróprio, uma fração de metanol pode passar para o produto final. Em operações legais e controladas, as cabeças são descartadas; em operações amadoras ou sem técnica, o risco aumenta.

Adição deliberada de metanol ou álcoois industriais

  • O risco maior vem da adição intencional: uso de álcool combustível como matéria-prima para fabricar bebidas que são vendidas como cachaça, aguardente ou vodca. Esse álcool pode ser diluído em água e até receber óleo fúsel (resíduo de destilação) para simular características sensoriais. Esse tipo de prática não é comprovada em larga escala, mas é tecnicamente possível e representa risco gravíssimo. Só investigações periciais podem confirmar.

Misturar ou reprocessar álcool combustível/industrial para consumo humano é perigoso, ilegal e caracteriza fraude.

Erros e más práticas de armazenamento e manipulação

  • Diluições e reenchimento: abrir uma garrafa, misturar com outra substância e fechar novamente, ou a reutilização de embalagens com produtos de outras origens sem a devida descaracterização de rótulo, podem introduzir contaminantes e fazer com que esse item seja encaminhado para consumo humano, intencionalmente ou não.

Intersecção entre economia informal e crime organizado

  • Em mercados onde há forte pressão por preços baixos, sobra espaço para cadeias paralelas: fornecedores sem nota fiscal, pequenos revendedores, pontos de venda sem controle sanitário. Onde existe essa vulnerabilidade, esquemas criminosos (roubo de álcool, mistura com solventes, revenda em embalagens não identificadas) podem prosperar.

O que o consumidor não vê

  • O problema é que o metanol não altera significativamente o sabor ou cheiro. Muitas vezes, a bebida adulterada parece “normal”. Por isso, a percepção visual e a desconfiança em relação ao contexto de compra são essenciais.

Como identificar e investigar uma suspeita

Sintomas de alerta:

É importante entender que sintomas leves (dor de cabeça, enjoo, tontura) podem ser confundidos com “ressaca”, mas quando aparecem dificuldade para enxergar (visão turva, halos de luz ou neblina) ou alteração na respiração, é sinal de alerta. Nesses casos, não espere melhorar sozinho. Procure atendimento imediatamente e informe que pode ser intoxicação por metanol. Levar a garrafa ou uma amostra da bebida ao hospital pode ajudar a confirmar a causa.

O perigo é ainda maior porque os sintomas nem sempre aparecem imediatamente. Muitas vezes, a pessoa toma a bebida e só depois de várias horas, quando já não relaciona o mal-estar ao que bebeu, começam dores de cabeça, náuseas, tontura e visão embaçada. É o chamado “período de latência”, que atrasa o diagnóstico e agrava os riscos.

Quando a intoxicação evolui, podem surgir sintomas mais graves: respiração acelerada, convulsões, confusão mental, coma e falência de órgãos. É uma situação de urgência médica que exige hospitalização imediata.

Por isso, se alguém apresentar sintomas visuais ou neurológicos depois de consumir bebida alcoólica suspeita, deve procurar atendimento o quanto antes e avisar sobre a possibilidade de metanol, levando consigo, se possível, a garrafa ou amostra da bebida consumida. Isso ajuda a equipe médica a agir rápido, com os tratamentos disponíveis, como uso de antídotos e até hemodiálise, se for o caso.

Para identificação técnica a partir de amostras suspeitas

  • GC-FID / GC-MS (cromatografia gasosa com detector adequado) é o padrão-ouro para quantificar metanol e outros álcoois (etanol, propanol, butanóis e congêneres). A análise de headspace (espaço de cabeça) é recomendada para voláteis em matrizes alcoólicas.
  • Testes rápidos de campo: existem kits colorimétricos e tiras que apontam adulteração grosseira (não substituem GC), úteis para triagem em fiscalização; resultados positivos devem ser confirmados por laboratório credenciado.
  • Análise de congêneres e perfil isotópico: em investigações complexas, técnicas como isótopos estáveis podem ajudar a distinguir etanol produzido por fermentação de etanol industrial, e o “fingerprint” químico revela adulterações intencionais.

O Brasil conta com os CEATOX (Centros de Informação e Assistência Toxicológica), que oferecem orientação imediata para profissionais de saúde e população em casos de intoxicação e suspeitas de intoxicação. O contato pode ser feito pelo telefone 0800-722-6001 (Disque-Intoxicação), disponível 24h em todo o país.

A presença de metanol em bebidas não é um acidente: é o ponto de encontro entre processos mal conduzidos, adulteração criminosa e brechas de fiscalização. A proteção vem de três frentes: produtores responsáveis, fiscalização efetiva e consumidores atentos.

O que produtores, pontos de venda e consumidores devem reforçar

  • Controle rigoroso de fornecedores e notas fiscais.
  • Boas práticas de destilação: descarte de cabeças, controle de temperatura, manutenção preventiva de equipamentos.
  • Rotulagem e rastreabilidade de lotes.
  • Amostragem e ensaios periódicos para parâmetros básicos (teor alcoólico real versus declarado e testes para quantificar metanol).
  • Denúncia e cooperação com vigilância sanitária local quando houver suspeita.
Imagem: IA para o ebook “Do copo ao negócio: guia completo para empreender no mercado de bebidas

O que os consumidores devem observar na bebida antes do consumo

1. Caso compre a garrafa, observe se ela está bem lacrada.

2. Observe se há rasuras ou impressões de baixa qualidade no rótulo. No rótulo, devem constar as seguintes informações:
a. Nome do produto (denominação de venda conforme legislação)
b. Lista de ingredientes (em ordem decrescente de quantidade)
c. Volume (ml, L)
d. Teor alcoólico (quando for bebida alcoólica)
e. Lote (para rastreabilidade)
f. Validade, porém bebidas alcoólicas com 10% ou mais de álcool são isentas de declarar a validade
g. Identificação do fabricante (razão social, CNPJ, endereço)
h. Número de registro da bebida no órgão competente: MAPA para bebidas alcoólicas e grande maioria das outras bebidas (vinho, cerveja, cachaça, sucos industrializados etc.); ANVISA para certas bebidas não alcoólicas (ex.: energéticos, bebidas adicionadas de nutrientes, suplementos líquidos).
i. Advertências obrigatórias (quando aplicável: “Evite o consumo excessivo de álcool” (bebidas alcoólicas), informação sobre presença de glúten (“Contém Glúten” ou “Não Contém Glúten”), conforme Lei nº 10.674/2003 e outras declarações específicas (adoçantes, cafeína, alergênicos, conforme o caso e as normas da Anvisa).

3. Desconfie de bebidas com cor turva, sedimentos estranhos ou odor fora do esperado.

4. Prefira estabelecimentos comerciais formais e marcas de bebidas com procedência clara e conhecidas.

5. Desconfie de preços muito baixos e de bebidas vendidas em embalagens improvisadas, sem identificação ou reaproveitadas.

6. Em festas e pontos turísticos, prefira bebidas lacradas ao invés de porções fracionadas.

7. Ao menor sinal de alteração visual depois de beber, busque atendimento de urgência. Tempo é crítico no tratamento.

8. Consuma com moderação. Além da segurança física, o consumo consciente protege sua saúde em longo prazo.

9. E novamente, em caso de sintomas suspeitos, procure emergência médica imediatamente e acione o CEATOX (0800-722-6001).

Se viu algo suspeito (bebida vendida sem nota, garrafa com lacre rompido, rótulo suspeito e com ausência de informações e pessoas passando mal após consumir bebidas sem identificação), relate à Vigilância Sanitária municipal ou à polícia. Em caso de sintomas (conforme relatados neste artigo) após ingestão, procure emergência e informe que há suspeita de intoxicação por metanol e leve amostra da bebida, se possível.

No fim das contas, a fraude com metanol não é apenas sobre uma bebida adulterada: é sobre confiança. Confiança naquilo que se consome. Confiança no mercado que se frequenta. Confiança de que um momento de lazer não se transformará em tragédia. E, enquanto autoridades ampliam fiscalizações, a conscientização do consumidor é uma das armas mais poderosas contra esse tipo de crime.

Compartilhe este alerta com quem você conhece. E, antes de abrir a próxima garrafa, lembre-se: segurança começa pela escolha consciente.

Nosso agradecimento especial ao Dr. Igor Daniel Moreira Ferreira, cuja colaboração foi essencial para trazer informações médicas seguras e de fácil compreensão a este tema tão sensível.

Leia também:

  • Os perigos escondidos em garrafas e latas de bebidas (https://foodsafetybrazil.org/perigos-escondidos-em-latas-garrafas-bebidas/)
  • Rótulos das bebidas energéticas ocultam, mentem ou não são precisos nos teores de cafeína (https://foodsafetybrazil.org/rotulos-das-bebidas-energeticas-ocultam-mentem-ou-nao-sao-precisos-nos-teores-de-cafeina/)
  • Food fraud: dados históricos (https://foodsafetybrazil.org/food-fraud-dados-historicos-foodsafetybrazil/)

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Cachorro-quente de rua: comer ou não comer? Eis a questão!

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Imagine a cena: você está caminhando pela cidade, sente aquele cheiro irresistível de cachorro-quente no ar, e sem pensar duas vezes, já está na fila do carrinho do tio da esquina. Mas será que é seguro o que você pretende ingerir?

Provavelmente muitas pessoas que não atuam diariamente com segurança dos alimentos simplesmente saboreiem seu cachorro-quente despreocupadamente. No entanto, profissionais da área, que estão familiarizados com os riscos, sabem que um simples cachorro-quente pode trazer uma série de problemas.

Os ingredientes: uma receita para o caos?

1 – Pão

O pão, do ponto de vista da segurança dos alimentos, é intrinsecamente seguro devido à sua baixa atividade de água (Aw), geralmente abaixo de 0,85, o que inibe o crescimento da maioria das bactérias patogênicas.

No entanto, apesar de relativamente seguro, pode conter contaminantes, principalmente fungos. A umidade elevada e a exposição ao ar favorecem o desenvolvimento de espécies como Aspergillus spp., Penicillium spp. e Fusarium spp., algumas das quais são produtoras de micotoxinas, substâncias tóxicas associadas a efeitos adversos na saúde humana.

Para minimizar o risco de contaminação, recomenda-se armazenar o pão em locais secos e arejados, evitar a exposição prolongada ao ar e, se necessário, conservar em refrigeradores ou embalagens adequadas para retardar o crescimento de fungos.

Além disso, a manipulação inadequada pode transformar o pão em um vetor para contaminação cruzada, facilitando a transmissão de Staphylococcus aureus e coliformes fecais, especialmente quando não há higienização correta das mãos e dos utensílios.

2 – Salsicha

A salsicha industrializada já vem cozida, mas isso não significa que ela está livre de perigos.

Se armazenada fora da refrigeração pode servir de substrato para a multiplicação de Listeria monocytogenes, Salmonella spp. e Escherichia coli (E. coli O157:H7).

A temperatura ideal para conservação de embutidos é abaixo de 5°C, mas no carrinho de rua muitas vezes a realidade é outra: são caixas de isopor sem controle térmico adequado, permitindo assim a proliferação bacteriana.

Há ainda um fato interessante sobre salsichas: o nome Clostridium botulinum deriva do latim “botulus” , que significa justamente salsicha. Os primeiros casos documentados de botulismo estavam associados ao consumo de salsichas contaminadas, principalmente na Alemanha do século XIX.

Essas salsichas eram produzidas com o embutimento em tripas naturais e armazenadas em condições anaeróbicas (com pouco ou nenhum oxigênio). Como o Clostridium botulinum é uma bactéria anaeróbia estrita, essas salsichas criavam um habitat ideal. Além disso, o pH neutro ou levemente alcalino e a presença de nutrientes favorecem a multiplicação das bactérias e a produção da toxina botulínica, uma das mais potentes conhecidas.

Esse problema foi reduzido com o avanço das técnicas de conservação, como a refrigeração e o uso de conservantes como os nitritos que inibem o crescimento microbiológico, lembrando que se usado de forma inadequada, os nitritos também são um problema, uma vez que podem ser convertidos a N-nitrosaminas, que são potencialmente carcinogênicos.

3 – Maionese

A maionese caseira, por vezes usada pelos vendedores de rua, pode ser uma bomba-relógio.

A maionese caseira, amplamente utilizada em lanches de rua, apresenta alto risco sanitário, principalmente por ser produzida com ovos crus, uma vez que a Salmonella spp. pode estar presente nos ovos contaminados, causando intoxicações severas.

A Salmonella pode migrar do trato intestinal das galinhas para os ovos através da casca por contaminação externa. Essa contaminação ocorre durante a postura, quando os ovos podem entrar em contato com fezes contaminadas na cloaca ou no ninho. Como a casca possui poros, uma bactéria pode penetrar, especialmente se houver umidade ou rachaduras, atingir a membrana interna e, em alguns casos, a gema, onde pode se multiplicar.

Mesmo as versões industrializadas de maionese precisam ser mantidas refrigeradas para evitar o crescimento de microrganismos patogênicos, porém, num carrinho de hot dog, mantido fora de refrigeração constantemente, a maionese pode se transformar num meio de cultivo. Por isso, pequenos volumes em sachês podem significar menos risco que em bisnagas.

4 – Molho de tomate

Embora o molho de tomate possua pH ácido (em torno de 4,0 a 4,5), o que inibe o crescimento de muitos microrganismos patogênicos, ainda assim pode ser contaminado por bactérias acidotolerantes, como Lactobacillus spp. e Acetobacter spp., além de fungos , como Aspergillus spp., Penicillium spp. e Fusarium spp.

Fungos podem produzir micotoxinas como as fumonisinas e ocratoxinas, que são substâncias tóxicas associadas a potenciais efeitos carcinogênicos, imunossupressores e causadores de danos ao fígado e rins.

Mesmo em molhos industrializados, especialmente os que vêm em latas, embalagens de vidro ou sachês, pode ocorrer crescimento de fungos. Isto ocorre especialmente após a abertura, caso o produto fique exposto ao oxigênio, possibilitando o acesso dos esporos de fungos, e ainda mais se mantido em temperatura ambiente por longos períodos.

Além disso, há o risco de contaminação cruzada se o mesmo utensílio for usado para mexer a salsicha e o molho sem higienização adequada.

Exposição de alimentos ao consumidor em carrinhos

Molhos e outros produtos expostos em carrinhos de cachorro-quente podem, também, permitir o crescimento de Staphylococcus aureus devido à contaminação por contato direto ou indireto.

O Staphylococcus aureus, que naturalmente é encontrado na pele, nariz e garganta, pode ser transferido para os alimentos pelo toque das mãos, máquinas contaminadas ou até por gotículas expelidas ao falar ou espirrar.

O crescimento destes microrganismos ocorre entre 10°C e 45°C, especialmente na faixa de 30°C a 37°C, situação na qual pode se multiplicar rapidamente, principalmente em alimentos ricos em nutrientes, como molhos cremosos e à base de ovos. Se houver tempo suficiente e as condições forem favoráveis, pode ocorrer a produção de toxinas estafilocócicas, que são termoestáveis.

Um outro risco: produtos expostos em carrinhos, invariavelmente estão expostos a insetos carreadores de microrganismos, como moscas e baratas.

Basta uma única mosquinha pousar sobre o alimento para que uma contaminação possa ocorrer, pois durante seus voos, as moscas acabam se alimentando de tudo que é detrito, como fezes, animais mortos e matéria orgânica em decomposição. materiais repletos de microrganismos, inclusive bactérias patogênicas, que vão pegar carona em suas asas e patas até os alimentos.

Se uma mosquinha age como um avião monomotor para carrear microrganismos, uma barata pode ser associada a um Boeing 747, carreando ainda mais microrganismos pelo mesmo mecanismo de contato: detritos – alimentos.

Os perigos invisíveis: falta de higiene e armazenamento inadequado

Além dos perigos microbiológicos específicos de cada ingrediente, há riscos associados às condições de manipulação e armazenamento. Sem lavagens frequentes das mãos, sem superfícies higienizadas e sem equipamentos de refrigeração adequados, o cachorro-quente pode se tornar um verdadeiro festival de bactérias e vírus gastrointestinais.

Se o mesmo pegador é usado para a salsicha crua e a salsicha quente sem limpeza, estamos diante de um exemplo clássico de contaminação cruzada. O mesmo vale para facas, tábuas de corte e até para o manuseio do dinheiro seguido do preparo do lanche.

Alimentos perecíveis precisam de controle rigoroso de temperatura. No caso dos cachorros-quentes de rua, a refrigeração inadequada pode transformar ingredientes aparentemente inofensivos em verdadeiros veículos de intoxicação alimentar.

Outro ponto importante: observe as condições de higiene do vendedor antes de pedir seu lanche. Mãos sujas, unhas compridas e ausência de luvas podem indicar que a manipulação do alimento não está seguindo as boas práticas. E lembre-se: um simples espirro pode disseminar vírus e bactérias pelo seu lanche.

Comer ou não comer?

O cachorro-quente de rua pode ser uma opção saborosa, mas se não for preparado e armazenado sob condições sanitárias adequadas, pode representar um risco significativo à saúde.

Isso não significa que seu consumo deva ser completamente evitado, mas é essencial que o consumidor esteja atento às condições de higiene do local, ao armazenamento dos ingredientes e às práticas do manipulador.

Se for impossível resistir, passe o olhar pelo crivo técnico e prefira barracas que demonstrem boas práticas em segurança dos alimentos, incluindo:

  1. Atendente com mãos limpas, unhas curtas e bem tratadas, e que faça uso de luvas descartáveis quando manipular o cachorro-quente;

  2. Uniformes limpos, touca ou boné para evitar queda de cabelos na comida;

  3. Pães e condimentos armazenados em local seco e protegido contra contaminação;
  4. Separação entre alimentos crus e prontos para consumo, incluindo o uso de utensílios diferentes para manipular alimentos crus e cozidos;

  5. Molhos e ingredientes frescos mantidos em recipientes protegidos e bem fechados;

  6. Alimentos quentes devem mantidos acima de 60°C até o consumo, assim como bebidas e ingredientes refrigerados devem permanecer abaixo de 5°C;

  7. Disponibilidade de água potável para lavagem das mãos e utensílios, com uso de detergente e sanitizante adequado para limpeza das superfícies;

  8. Lixo deve ser mantido fechado, sem acúmulo e descartado corretamente e com frequência. Não deve haver moscas, formigas ou outros insetos rodeando a barraca. Além disso, deve manter a barraca fechada quando não estiver em uso para evitar insetos e roedores;

  9. Pagamentos feitos separadamente da manipulação de alimentos;

  10. Disponibilizar guardanapos e sachês individuais para condimentos.

Seguir esses cuidados reduz os riscos de contaminação e melhora a qualidade, garantindo segurança do cachorro-quente para os clientes.

5 min leituraImagine a cena: você está caminhando pela cidade, sente aquele cheiro irresistível de cachorro-quente no ar, e sem pensar duas vezes, já está na fila do carrinho do tio da […]

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