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Uso de cannabis em animais de produção: as pesquisas atuais e o impacto em bem-estar animal e segurança de alimentos

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A entrevista deste artigo é com Diogo Vitorino da Silva (foto), que é médico veterinário com uma experiência vasta e riquíssima em alimentos, sendo mestre em Saúde Animal, Produção e Meio Ambiente, além de especialista em Defesa Sanitária Animal.

Com mais de 15 anos de atuação na indústria, ele já passou pelas áreas de P&D, Qualidade e Assuntos Regulatórios em frigoríficos de bovinos e suínos. Além disso, é um excelente palestrante, realiza treinamentos corporativos a líderes e equipes, onde dissemina seu conhecimento esbanjando carisma e competência.

Conversar com ele é ter verdadeiras aulas, e quando ele comentou sobre o tema da cannabis, eu de pronto tive a ideia de compartilhar com vocês aqui no Food Safety Brazil. Ele topou na hora e inclusive sugeriu algumas perguntas cirúrgicas, como vocês podem ver na entrevista abaixo.

 1- De onde surgiu o insight e o seu interesse para estudar o uso do óleo de cannabis na produção animal e no bem-estar dos animais?

Foi a partir de uma experiência pessoal que surgiu o interesse por discutir o papel da cannabis na produção animal. O convite para conhecer uma associação canábica em Marília, SP, trouxe a oportunidade de acompanhar de perto todo o processo do plantio à colheita e à formulação de medicamentos destinados ao uso humano e animal.

Durante uma conversa com o farmacêutico da associação, veio o insight: se o óleo de cannabis poderia contribuir para o bem-estar humano, por que não explorar seu potencial também para o bem-estar animal? Essa reflexão abre espaço para uma discussão técnica e científica sobre como compostos da cannabis podem ser aplicados na produção animal, seja para reduzir o estresse, melhorar a saúde intestinal ou até mesmo diminuir a necessidade de antimicrobianos.

2- Quais você considera as principais limitações enfrentadas pela pesquisa e aplicação da cannabis na produção animal, incluindo os preconceitos sociais e os desafios regulatórios que ainda precisam ser superados?

O principal ponto a destacar é a questão regulatória, tendo em vista que não há produtos derivados de cannabis aprovados como ingrediente alimentar ou aditivo para animais.

Nos EUA, é proibida a inclusão de THC e CBD (tetrahidrocanabinol e canabidiol) como ingredientes porque são considerados compostos farmacológicos. Isso significa que qualquer uso de cannabis ou canabinoides em rações ou dietas animais ainda carece de regulamentação específica, testes de segurança e aprovação oficial antes de ser recomendado para produção de alimentos.

Outro ponto importante é o obstáculo cultural: o preconceito. Muitas vezes, a cannabis é associada exclusivamente ao uso recreativo, o que gera resistência social e desconfiança por parte de consumidores e até de profissionais da área. Esse estigma dificulta a aceitação de pesquisas sérias e atrasa a adoção de soluções inovadoras.

3- O que as pesquisas de cannabis nos revelam sobre seu uso em animais de produção?

O uso de cannabis na produção animal é uma fronteira promissora, mas deve ser tratada com rigor científico. Não se trata de uma tendência imediata, mas de um campo de estudo que precisa ser explorado com responsabilidade, para garantir segurança, bem-estar animal e transparência ao consumidor.

 4- Com todo o seu conhecimento sobre o tema, acha que o uso de cannabis na produção de carnes é viável?

Penso que o uso direto de Cannabis sativa na produção de carne ainda é uma área emergente, com estudos iniciais focados no uso de subprodutos do cânhamo industrial (variedade com baixo teor de THC). Porém, é importante ressaltar que já há pesquisas avaliando o efeito sobre a nutrição, desempenho e bem-estar animal, não tendo aplicações consolidadas e nem regulamentadas para uso direto na produção.

 5- Há algum benefício já comprovado do CBD no bem-estar animal?

Estudos experimentais têm indicado que o uso do CBD pode trazer benefícios relacionados ao bem-estar animal em suínos. Portanto, é relevante aprimorar essas pesquisas uma vez que o bem-estar impacta diretamente a qualidade de carcaça e a aceitação do consumidor.

6- Podemos dizer que a cannabis será usada para “produzir carne melhor” no futuro?

Precisamos evoluir com as pesquisas para que possamos afirmar, mas sabemos até o presente momento que os componentes funcionais da cannabis promovem uma melhoria no bem-estar animal e no desempenho nutricional. Mas precisamos comprovar a eficiência, segurança, ausência de resíduos e a viabilidade econômica, sempre sob a luz da legislação.

7- Quais partes da planta têm sido estudadas para uso na alimentação animal?

O farelo e as folhas de cânhamo que são ricos em proteína, fibras e lipídios. Alguns estudos também avaliam o uso de compostos bioativos como o canabidiol (CBD).

 8- Pensando em segurança de alimentos, há riscos de resíduos nos produtos finais?

Esse é o principal ponto de atenção. Canabinoides como THC e CBD podem se acumular nos tecidos animais, especialmente se usados de forma contínua ou sem controle.

Temos estudos em cursos investigando resíduos em carne e leite, mas enquanto não houver regulamentação clara e dados robustos sobre segurança, o uso comercial permanece proibido em diversos países.

 9- Quais são os efeitos do CBD sobre saúde, bem-estar e desempenho?

Embora a pesquisa em produção de carne ainda seja incipiente, alguns estudos (e análises de especialistas) sugerem que canabinoides como CBD (canabidiol) podem impactar positivamente:

– Apetite e conversão alimentar em suínos, levando a melhor desempenho produtivo (ganho de peso, eficiência alimentar);

– Efeitos calmantes e redução de estresse, o que pode melhorar o bem-estar animal em sistemas intensivos ou durante transporte.  Fatores que, por sua vez, influenciam a qualidade final da carne;

– Potencial para melhorar aspectos comportamentais e de bem-estar animal, fatores cada vez mais valorizados pelos mercados consumidores.

10- Para finalizar, qual mensagem você deixaria para o público técnico sobre esse tema?

O uso da cannabis na produção animal é um campo emergente e promissor, mas que ainda está em fase inicial de investigação científica. No entanto, é importante reconhecer que os dados disponíveis ainda são limitados e que não existem produtos aprovados para uso direto em dietas de animais de produção em muitos países. Por isso, qualquer avanço nessa área precisa estar sustentado em pesquisas robustas, regulamentação clara e, sobretudo, na garantia da segurança do alimento e da proteção ao consumidor.

A mensagem que fica é de cautela e esperança: a cannabis pode se tornar uma ferramenta valiosa para uma pecuária mais sustentável e centrada no bem-estar animal, mas o caminho passa necessariamente pela ciência, pela transparência regulatória e pelo diálogo aberto com a sociedade.

 Gostaram do tema? Esse é o primeiro artigo sobre uso de cannabis para animais de produção, mas há posts sobre outros usos:

Segurança de alimentos e cannabis: fabricantes criam normas próprias enquanto as leis não chegam;

– FDA alerta sobre uso do Delta-8 tetraidrocanabinol em alimentos

Segurança dos alimentos que contém maconha como ingrediente;

Preferências dos consumidores, padrões de consumo e a segurança dos alimentos

Sobre bem-estar animal, acessem aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem: Kindel Media

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Parece, mas não é – casos graves de fraudes em polpa de açaí

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Um dos alimentos mais saborosos, desejados e nutritivos originário da região Norte do Brasil, e que se popularizou nacional e internacionalmente — o açaí — veio acompanhado não apenas dos benefícios do seu consumo, mas, infelizmente, do aumento dos registros de fraudes. Essas fraudes consistem em adicionar ingredientes de baixo custo para simular a consistência cremosa e a quantidade de polpa de açaí, visando lucro financeiro.

As formas utilizadas vão desde o inofensivo acréscimo de outros ingredientes alimentares até substâncias tóxicas e perigosas para a saúde humana — muitas vezes desconhecidas pela população, em razão do pouco conhecimento sobre a produção e o beneficiamento da polpa da fruta.

Antes de listar os materiais que os fraudadores geralmente utilizam, é preciso entender a forma de comercialização deste valioso alimento.

Para ser comercializada, a polpa de açaí deve seguir os parâmetros estabelecidos pela legislação. A Instrução Normativa nº 37/2018 (MAPA) determina os parâmetros de identidade e qualidade do suco e da polpa de frutas. Ela pode ser classificada da seguinte forma:

  • Polpa de açaí fino (ou popular/Tipo C): Apresenta teor de sólidos totais (conteúdo de açaí) entre 7% e 9%. É a menos densa.
  • Polpa de açaí médio (ou regular/Tipo B): Possui teor de sólidos totais entre 11% e 14%, oferecendo densidade e sabor moderados.
  • Polpa de açaí grosso (ou especial/Tipo A): Contém teor de sólidos totais acima de 14% (podendo chegar a 40–60 g/100 g em polpas puras) e tem aparência muito densa e sabor intenso.

Levando em consideração que, quanto maior a consistência, maior é o preço cobrado — ou seja, geralmente o açaí grosso é mais valorizado que o açaí fino —, na maioria das vezes a fraude ocorre pela adição de ingredientes que aumentam a consistência.

Além disso, a cor característica do açaí é o roxo violáceo; no entanto, o produto pode apresentar alteração de cor, ficando marrom principalmente devido à oxidação — um processo natural de degradação dos pigmentos (antocianinas) causado pela exposição ao ar (oxigênio), à luz e ao calor. Esse fenômeno indica perda de nutrientes e deterioração do produto.

A seguir, estão os ingredientes já identificados e registrados em denúncias e notificações à Vigilância Sanitária:

  • Liga neutra: apesar de ser um ingrediente amplamente utilizado na fabricação de sorvetes, ocorre fraude quando a liga neutra é usada para mascarar diluição, ou seja, para esconder que o produto contém menos açaí do que deveria. Ela é adicionada ao açaí fino para fazê-lo parecer açaí grosso.
  • Farinha de mandioca: normalmente a farinha d’água (mais fina) é adicionada ao açaí já batido para engrossar a textura, aumentar o volume sem usar mais fruto e reduzir os custos de produção. Quando hidratada, deixa o açaí mais pastoso e opaco, simulando um açaí mais grosso. É um ingrediente barato e abundante na região Norte e pode enganar consumidores desatentos. Esse tipo de fraude reduz o valor nutricional do açaí e pode gerar contaminação cruzada caso a farinha esteja mal armazenada e ainda mascarar a deterioração do produto.
  • Trigo: assim como a farinha de mandioca, o trigo também é usado para engrossar o açaí, embora seja uma prática menos comum. A farinha de trigo fina pode deixar o açaí mais pastoso. Esse tipo de adulteração é perigoso para celíacos (pessoas intolerantes ao glúten), pois o ingrediente é adicionado de forma ilegal e não aparece no rótulo.
  • Papel higiênico: o papel higiênico já foi citado em denúncias como uma forma extrema e criminosa de fraude no açaí. Isso ocorre porque o papel é composto de celulose, que ao ser desintegrada em água pode gerar uma textura espessa, tentando imitar a consistência do açaí grosso. Os riscos incluem a introdução de microrganismos patogênicos, resíduos químicos e tintas. Pode causar infecções gastrointestinais, intoxicações e até contaminação fecal.
  • Acetona: é um solvente industrial inflamável, tóxico em altas concentrações e proibido em alimentos. É capaz de alterar artificialmente a cor, aumentar a fluidez e simular rendimento de polpas de baixa qualidade. Seu uso pode causar irritação gastrointestinal, intoxicação e danos ao fígado e aos rins, além de risco severo para crianças. Qualquer uso em alimentos é crime sanitário.
  • Corante: infelizmente, essa é uma das fraudes mais comuns, pois o consumidor associa cor roxa intensa à qualidade. Quando o produtor possui lotes com coloração inadequada (muito claros, castanhos ou oxidados), pode usar corantes para padronizar tudo como “roxo homogêneo”. Alguns fraudadores adicionam corantes artificiais (roxos ou vermelhos usados em sucos e refrescos) e, em casos mais graves, tintas não alimentícias, para simular a cor natural quando o açaí está diluído, oxidado ou vencido.
  • Embalagem: a fraude pode ocorrer pela falsa indicação de teor de sólidos superior ao verdadeiro (ex.: rotular como 14% quando na prática é 8%), pela falsificação de rótulos ou pelo uso de embalagens imitando empresas registradas — como ocorreu em um caso registrado no Mato Grosso, em 2024.

Como identificar se o açaí foi adulterado

  • Textura: açaí grosso é cremoso, mas não deve parecer “papa” nem ter consistência de mingau. Textura muito lisa e fina, sem fibras típicas, também indica adulteração.
  • Sabor: o açaí legítimo tem sabor característico da fruta. Polpas adulteradas têm sabor e aroma reduzidos.
  • Cheiro: cheiro azedo pode indicar mistura com outras substâncias ou início de deterioração.
  • Preço: compare valores entre fornecedores. Preços muito abaixo da média são um sinal de alerta.
  • Cor: cor excessivamente roxa, muito uniforme ou artificial. Quando diluído em água, deve ficar marrom-arroxeado, e não violeta vivo.
  • Rotulagem: rótulos mal impressos, borrados ou sem informações obrigatórias. Marcas muito baratas ou desconhecidas vendidas como “premium” também merecem atenção.

Diante da variedade de fraudes que podem comprometer a qualidade, a segurança e até a saúde do consumidor, torna-se indispensável desenvolver uma postura vigilante ao adquirir e consumir polpas de açaí. A adulteração desse produto representa um risco sanitário e um crime contra o consumidor. Por isso, ao identificar qualquer irregularidade na textura, cor, cheiro, sabor, preço ou rotulagem, é fundamental interromper o consumo imediatamente, registrar evidências como fotos e vídeos e denunciar aos órgãos fiscalizadores, como o PROCON e a Vigilância Sanitária.

Fiquem atentos e alertas: nem tudo é o que parece, especialmente quando se trata de um alimento tão importante e saboroso quanto o açaí.

Leia também:

Os cuidados com a produção do açaí

É seguro tomar açaí?

Food Fraud: a perigosa realidade da fraude de alimentos

Imagem: Nicola Barts

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Panetone além da receita: segurança de alimentos entre a tradição e o controle

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Nos últimos anos, tornou-se quase consenso a frustração com muitos panetones disponíveis no mercado. Rótulos atrativos, promessas generosas e, ao abrir a embalagem, um produto quase sempre seco, pouco aromático, recheio em pouca quantidade ou mal distribuído e distante da expectativa criada. À primeira vista, parece apenas um problema de qualidade sensorial.

Essa percepção, aliás, não me surgiu apenas como consumidor, mas a partir de uma inquietação prática: a decisão de tentar fazer o próprio panetone, buscando resgatar sabor, textura e aroma que pareciam ter se perdido nos produtos comerciais. Ao mergulhar no processo, ficou evidente que o desafio ia muito além da receita.

Quando se observa o panetone com mais atenção, percebe-se que ele é muito mais do que um doce sazonal: trata-se de um alimento fermentado, complexo e sensível, no qual segurança de alimentos e qualidade caminham lado a lado.

Panetone: um produto de risco subestimado

Apesar de sua aparência simples, o panetone reúne características que exigem atenção redobrada. A fermentação é longa, a formulação é rica em açúcar e gordura, há uso de ovos e o processo envolve intensa manipulação manual. Além disso, a produção costuma ser sazonal, concentrada em períodos curtos, o que aumenta a pressão por volume e reduz a margem para erros.

Esse conjunto de fatores cria um ambiente propício para falhas de controle, especialmente quando boas práticas são negligenciadas em nome da tradição ou da pressa. O resultado pode não ser apenas um panetone sensorialmente ruim, mas também um produto instável do ponto de vista sanitário.

Como conduzir corretamente

A produção segura de panetones começa com a aplicação consistente das Boas Práticas de Fabricação. Isso inclui controle rigoroso de higiene dos manipuladores, organização do fluxo de produção para evitar contaminação cruzada e atenção especial ao armazenamento de ingredientes sensíveis, como ovos, manteiga e frutas cristalizadas. Mesmo em pequena escala, o processo deve ser planejado para minimizar manipulações desnecessárias e respeitar tempos e temperaturas previamente definidos.

Fermentação: entre o encantamento e a falsa sensação de segurança

A fermentação é um dos grandes diferenciais do panetone, mas também uma das etapas mais mal compreendidas. Nos últimos anos, fermentações naturais ganharam protagonismo, muitas vezes associadas automaticamente à ideia de alimento mais seguro ou mais saudável.

O levain, obtido a partir da fermentação espontânea de farinha e água, é uma cultura viva composta por leveduras e bactérias ácido-láticas. Quando bem conduzido, contribui para maior complexidade aromática, leve acidez e melhor estrutura da massa. A partir dele, pode-se desenvolver o lievito madre, fermento natural sólido, com menor produção de acidez e maior força fermentativa, adequado para massas ricas em açúcar e gordura, tal qual é o panetone.

Do ponto de vista da segurança de alimentos, no entanto, é importante reforçar: fermentação natural não é sinônimo de proteção automática. Embora a redução de pH e a competição microbiana possam inibir determinados microrganismos, esses fatores não substituem controle de tempo, temperatura, higiene e manejo adequado da cultura. Quando mal conduzida, a fermentação deixa de ser aliada e passa a representar um risco.

Como conduzir corretamente

O manejo seguro do levain e do lievito madre exige rotinas bem definidas de alimentação, uso de água potável, utensílios higienizados e controle de temperatura durante a fermentação. Monitorar sinais sensoriais (aroma, crescimento e textura) e, sempre que possível, parâmetros como pH, ajuda a garantir estabilidade microbiológica. Culturas com odor desagradável, crescimento irregular ou excesso de acidez devem ser descartadas, não “recuperadas”.

Umidade e atividade de água: o equilíbrio entre maciez e segurança

Um dos grandes desejos do consumidor é um panetone úmido, macio e aromático. Sensorialmente, isso faz sentido. Tecnicamente, porém, esse é um ponto crítico.

A atividade de água (aw) do panetone encontra-se próxima ao limite que permite o crescimento de bolores e leveduras. Pequenas variações no processo, seja na formulação, no tempo de forno, no resfriamento ou na embalagem, podem comprometer a estabilidade do produto. Panetones excessivamente secos perdem qualidade sensorial, mas panetones úmidos demais, sem controle adequado, tornam-se um ambiente favorável ao desenvolvimento de mofo (bolor), muitas vezes invisíveis nas fases iniciais.

Aqui, segurança de alimentos e qualidade deixam de ser conceitos paralelos e passam a ser interdependentes.

Como conduzir corretamente

O controle adequado da umidade começa no forno, com tempo e temperatura suficientes para garantir a estrutura e reduzir a atividade de água sem ressecar o produto. O resfriamento deve ser rápido e em ambiente controlado, evitando condensação. A embalagem precisa proteger contra reumidificação e contaminação ambiental, e a definição da vida útil deve considerar testes práticos, mesmo que simplificados, para observar crescimento de bolores ao longo do tempo.

Panetones recheados: quando o risco se multiplica

A tendência dos panetones recheados, com cremes, ganaches, trufas e outras variações, trouxe novos desafios. O recheio passa a ser um novo ponto crítico do processo, alterando significativamente a atividade de água, a microbiota e a vida útil do produto.

O uso de ingredientes lácteos, ovos e chocolates exige controle rigoroso de temperatura durante o preparo, enchimento e resfriamento. Além disso, a vida útil percebida pelo consumidor nem sempre corresponde à vida útil real do produto, especialmente quando não há estudos de shelf life ou quando a comercialização ocorre de forma informal.

Ignorar esses fatores é assumir riscos desnecessários, tanto do ponto de vista sanitário quanto legal.

Como conduzir corretamente

Recheios devem ser preparados com ingredientes seguros, manipulados sob controle de tempo e temperatura e aplicados apenas após adequado resfriamento do panetone. É fundamental reduzir ao máximo o tempo de exposição do produto em temperatura ambiente e revisar a vida útil sempre que um recheio é incorporado, tratando o panetone recheado como um produto diferente do tradicional.

Artesanal não é ausência de controle

Um dos equívocos mais comuns é associar produção artesanal à inexistência de controles. Na prática, o que diferencia um panetone artesanal seguro de um produto problemático não é a escala, mas o rigor no processo.

Boas Práticas de Fabricação, controle de tempo e temperatura, higiene de manipuladores, armazenamento adequado de matérias-primas e embalagens corretas são requisitos mínimos, independentemente do volume produzido. Produzir menos não elimina a responsabilidade; apenas muda a forma de controle.

A segurança de alimentos, nesse contexto, não engessa o processo artesanal, ela o sustenta.

Como conduzir corretamente

Mesmo produções artesanais se beneficiam da padronização mínima de procedimentos. Registros simples de preparo, fermentação, forneamento e validade ajudam a identificar falhas e melhorar a consistência do produto. Treinar quem participa da produção, ainda que informalmente, é parte essencial da entrega de um alimento seguro.

Não quero fazer panetone: o que observar ao comprar um produto artesanal?

Nem todo consumidor deseja, ou pode, se dedicar à produção de um panetone. O processo é longo, exige paciência, controle e, muitas vezes, infraestrutura que nem todos têm. Ainda assim, a busca por panetones artesanais cresce a cada ano, impulsionada pela decepção com produtos industriais e pela valorização do feito à mão.

Nesses casos, alguns pontos de atenção ajudam o consumidor a fazer escolhas mais seguras:

  • Transparência sobre ingredientes: informações claras sobre a formulação, especialmente quanto ao uso de ovos, laticínios, chocolate e conservantes, indicam seriedade no processo.
  • Tipo de fermentação utilizada: seja fermento biológico comercial ou fermentação natural, o importante é que o produtor saiba explicar o método adotado e seus impactos no produto final.
  • Presença de recheios: panetones recheados exigem maior controle de processo. É importante que o produtor informe o tipo de recheio e oriente corretamente sobre conservação e consumo.
  • Prazo de validade coerente: durabilidades excessivamente longas para produtos artesanais, especialmente sem conservantes, devem ser vistas com cautela.
  • Orientações de armazenamento: produtores responsáveis informam como conservar o produto após a compra, inclusive após aberto.
  • Embalagem adequada quando o produto é entregue embalado: o panetone deve estar protegido contra contaminação, umidade excessiva e danos físicos. Embalagens improvisadas ou sem vedação comprometem a segurança do alimento.
  • Informações obrigatórias de rotulagem: mesmo em produções artesanais, o consumidor deve ter acesso às informações básicas: 

– lista de ingredientes

 – identificação de alergênicos (como ovos, leite, soja e derivados)

 – advertência sobre a presença de glúten

 – tabela nutricional

 A ausência dessas informações limita a escolha consciente e pode representar risco à saúde.

  • Aspecto visual do produto: excesso de umidade superficial, recheios vazando ou sinais de mofo, ainda que discretos, são indicativos de falhas de processo.
  • Coerência no discurso: alegações como “100% natural” ou “sem risco” sem explicação técnica não substituem controle e responsabilidade.

Quando tradição, técnica e segurança se encontram

O panetone carrega memória afetiva, simbolismo e tradição. No entanto, tradição sem controle se apoia na sorte. E segurança de alimentos não pode depender dela.

O panetone de qualidade nasce do cuidado com a receita, do respeito ao tempo e do domínio técnico do processo. O panetone seguro para consumo nasce do entendimento de que fermentação, umidade, recheios e manipulação precisam caminhar sob controle constante.

Essa compreensão ficou ainda mais clara ao levar o processo para dentro de casa, produzir o próprio panetone e compartilhá-lo com amigos e familiares. Mais do que o resultado sensorial (sabor, textura e aroma), a experiência reforçou que segurança de alimentos não é um conceito distante da prática cotidiana. Ela está presente nas pequenas decisões, no cuidado com cada etapa e na responsabilidade de oferecer um alimento seguro a quem se senta à mesa conosco ou a quem presenteamos com gêneros alimentícios.

No fim, segurança de alimentos não reduz a magia do panetone. Ela é o que permite que essa magia se repita, ano após ano, com qualidade, confiança e responsabilidade.

Nota do autor

As receitas utilizadas ao longo dessa experiência fazem parte desse aprendizado e podem ser compartilhadas com quem tiver interesse em se aprofundar no processo. Basta solicitar por mensagem, deixando seu melhor e-mail para envio da resposta.

Que este período de festas seja marcado por boas escolhas, mesas compartilhadas com segurança e alimentos que tragam não apenas sabor, mas confiança.
Boas festas e um excelente 2026! 

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Vai ter uvas-passas na sua ceia de Natal?

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Aproxima-se o período de festas de fim de ano, e com ele as polêmicas uvas-passas. Com elas funciona assim: ou se ama ou se odeia. Mas aqui trago uma outra perspectiva para essa discussão: do ponto de vista de segurança de alimentos, elas são mesmo seguras?

O principal vilão: micotoxinas

A presença de micotoxinas, e mais especificamente da ocratoxina A, é a principal razão para remessas de uvas-passas serem impedidas de acessar o mercado europeu. Isso porque o processo de secagem de uvas para obtenção das passas, na maior parte das vezes, ocorre por exposição ao sol. Tais condições favorecem o desenvolvimento de fungos produtores de toxina, principalmente a ocratoxina A (OTA). Diversas notificações do sistema RASFF (Rapid Alert System for Food and Feed) da União Europeia demonstram a sua alta ocorrência, além de evidências de recolhimento pelo MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) no Brasil, em 2023 e em 2022, quando uvas-passas que seriam utilizadas para produção de panetones foram apreendidas.

Perigos microbiológicos

Apesar da baixa atividade de água após o processo de secagem, alguns microrganismos se mantêm viáveis até obter condições favoráveis para proliferação. Entre eles, nos preocupam os famosos patógenos Salmonella, E. coli e Listeria monocytogenes. Como exemplo, entre 2008 e 2009, mais de cinquenta pessoas foram reportadas com salmonelose, das quais 21 tiveram que ser hospitalizadas, todas relacionadas ao consumo de frutas secas.

Os pesticidas

O processo de secagem, com a redução do teor de água, acaba por aumentar o teor de resíduos de pesticidas presentes na fruta. Além disso, após a secagem é comum o uso da técnica de fumigação para garantir a ausência de pragas nos frutos secos, interrompendo ciclo de insetos que poderiam se desenvolver. Com base nisso, as uvas-passas estão entre as frutas mais contaminadas do mercado, segundo o EWG’s Shopper’s Guide to Pesticides in Produce.

Existem notificações do RASFF citando resíduos dos pesticidas clorpirifós e procimidona acima do lime aceitável, o que evidencia a ocorrência de tal perigo para esse tipo de fruta processada. Além disso, em 24 de novembro desse ano, a Alemanha reportou outro alerta de pesticidas acima dos limites em uvas-passas.

Os mais comuns: perigos físicos

Pequenas surpresas normalmente acompanham as frutas secas, incluindo aqui a uva-passa. Esses perigos podem ser a presença de pedrinhas, fragmentos da planta como galhos e hastes, inclusive insetos mortos. O processo de secagem acaba por deixar as frutas expostas a pragas, como os insetos. O mais comum para uvaspassas são fragmentos de galhos e areia.

Além disso, a infestação por insetos é comum durante o armazenamento da fruta seca. Eles são atraídos pelo alto teor de açúcar, associado ao alto longo período de armazenamento e falhas no programa de controle de pragas do local e na cadeia logística.

Nesta etapa, as condições da cadeia de abastecimento contribuem para o aparecimento ou desenvolvimento de alguns desses perigos, principalmente o armazenamento e distribuição a granel. Isso se deve à exposição ao ambiente, bem como aos instrumentos de manipulação. Isso também se aplica ao armazenamento nos locais de venda ao consumidor final e, até mesmo, em casa.

Relatos de casos

A visibilidade destes casos é maior nos Estados Unidos e Europa, mas não significa que a ocorrência no Brasil é menor. O sistema de alerta da Europa (RASFF), bem como a sistemática definida pelo FDA nos Estados Unidos, garantem a robustez da rastreabilidade e divulgação. Além disso, a Europa possuiu um sistema agressivo de controle de fronteira, com programas de coleta bem administrada com fiscalização.

No Brasil, a maior parte das frutas secas ou desidratadas típicas de Natal, como passas, damasco, figo e tâmara, é importada. No caso das uvas-passas, isso se deve às condições de cultivo das variedades específicas. Assim sendo, a cadeia de distribuição tende a incluir transportes de longo prazo e seus riscos associados, além de incrementar dificuldades na rastreabilidade.

Apesar dos programas de controle de fronteira no Brasil pela VIGIAGRO (MAPA), nem todos os lotes são fiscalizados, havendo margem de risco devido à característica de amostragem e capacidade dos órgãos fiscalizadores na realização de testes, além dos custos a eles relacionados.

Gerenciamento de riscos

Todos esses riscos são gerenciáveis na cadeia de produção e distribuição. Na indústria de alimentos trabalhamos com a aplicação de medidas de controle e monitoramento, a partir de um plano de análise de perigos, os quais podem ser minimizados ou controlados.

Além disso, o processo de fiscalização reforça a importância das indústrias e importadoras da aplicação das medidas de controle em todas as etapas da cadeia de distribuição, evitando perdas de produto e reputação da marca, além do impacto à saúde de seus consumidores.

Mas e agora, estou seguro consumindo o famoso arroz com passas de Natal?

Bem, as uvas-passas têm riscos conhecidos, em especial os relacionados a micotoxinas. As frutas secas exigem controle rigoroso da matéria-prima, do processo de secagem, armazenamento e distribuição. Os órgãos reguladores continuam cumprindo o seu papel de fiscalização nas condições atualmente disponíveis.

Dessa forma, nós, enquanto consumidores, devemos priorizar o uso de marcas reconhecidas por seu padrão de qualidade, de forma a ter maior garantia de que o clima permanecerá festivo após o Natal.

Com isso, me conte aqui: você é do time #compassas ou #forapassas?

Boas festas!

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O alerta da Anvisa e o perigo dos microplásticos em produtos de confeitaria: brilho de verdade é segurança!

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Recentemente, a Anvisa reforçou um alerta que merece atenção de todos os que produzem, manipulam ou comercializam alimentos: plásticos não são, e nunca foram, ingredientes alimentares! É um esclarecimento muito importante porque trata do perigo dos microplásticos em alimentos.

O polipropileno micronizado (PP) é uma substância plástica presente em alguns glitters e pós “decorativos” vendidos como se fossem comestíveis. Embora tenham aparência atraente e sejam amplamente usados para dar brilho a bolos, doces e sobremesas, esses produtos podem conter microplásticos. E o risco vai além da estética: quando ingeridos, essas micropartículas podem provocar irritações gastrointestinais, inflamações e efeitos cumulativos no organismo.

As Instruções Normativas nº 211/2023 e nº 286/2024 são claras: somente corantes e aditivos alimentares listados pela Anvisa podem ser utilizados em produtos de confeitaria. Ou seja, qualquer insumo que não conste nessas listas — mesmo que seja vendido como “glitter comestível” ou “pó decorativo” — não pode ser usado em alimentos.

Garantir a segurança dos alimentos depende de boas práticas e de uma análise crítica dos insumos utilizados. Para evitar riscos, vale seguir algumas orientações:

  • Compre apenas insumos registrados como alimentícios, de fornecedores confiáveis e com regularização sanitária;
  • Leia sempre o rótulo completo — não confie em embalagens sem CNPJ, validade ou lista de ingredientes;
  • Treine sua equipe para reconhecer a diferença entre produtos “decorativos” (de uso externo) e aqueles realmente comestíveis;
  • Em caso de dúvida, procure orientação técnica junto a um responsável pela qualidade, consultor ou autoridade sanitária.

A Anvisa cumpre seu papel ao estabelecer normas e publicar listas oficiais de aditivos e ingredientes permitidos. Porém, a responsabilidade pela aplicação dessas regras é de quem produz, manipula e comercializa alimentos. Conhecer a legislação e aplicá-la corretamente é parte essencial da cultura de segurança dos alimentos.

No fim das contas, o alimento só deve “brilhar” se for seguro. Segurança dos alimentos é respeito à saúde de quem confia no seu produto — e isso é o que realmente faz uma confeitaria se destacar.

Veja também outros posts já publicados por aqui sobre o perigo dos microplásticos:

Microplásticos aumentam resistência de bactérias e preocupam cientistas

Nova página do FDA: o que precisamos saber sobre microplásticos e nanoplásticos em alimentos

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Microplásticos são encontrados no coração humano, e agora? 

Microplásticos e nanoplásticos em alimentos: como o apoio à ciência auxilia profissionais a avaliar um novo perigo

Temos que nos preocupar com o risco de nanoplásticos na alimentação?

Imagem: Moose Photos

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A ração do seu cachorro pode estar deixando sua família doente

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Trinta e duas pessoas hospitalizadas. Oito internações. Bebês e idosos entre as vítimas. E tudo começou com algo aparentemente inofensivo: a ração do cachorro.

O perigo escondido na tigela

Um surto de Salmonella no Canadá acendeu o alerta vermelho: ração e petiscos contaminados estão adoecendo famílias inteiras. O pior? Seu cão pode parecer perfeitamente saudável enquanto espalha a bactéria pela casa.

Os números que assustam

O Surto
Dados reais
Infectados
32 pessoas confirmadas
Hospitalizados
8 casos graves
Vítimas
De bebês a idosos de 87 anos
Casos ocultos
Para cada 1 reportado, há 26 não diagnosticados

Como você está se contaminando sem saber

Você não precisa comer ração para ficar doente. A infecção acontece de formas surpreendentemente simples:
  • Aquele carinho no cachorro? Suas mãos ficam contaminadas
  • A lambida carinhosa no rosto? Bactéria diretamente na sua boca
  • Lavar a tigela do pet na pia da cozinha? Contamina tudo ao redor
  • Tocar na ração? Depois você leva a mão à boca
Cães podem eliminar Salmonella nas fezes e saliva por até 7 dias, mesmo sem sintomas. E aí, o que pode acontecer? A famosa e conhecida CONTAMINAÇÃO CRUZADA.
Produtos recolhidos: verifique AGORA
Marcas Puppy Love e Puppy World recolheram petiscos de carne, frango e cordeiro vendidos de fevereiro a outubro de 2025. Se você tem esses produtos em casa, jogue-os fora imediatamente.

Sintomas: quando procurar ajuda

A Salmonela ataca rapidamente (6 a 72 horas após contato):
  • Febre alta e calafrios
  • Diarreia intensa (pode ter sangue)
  • Vômitos e cólicas violentas
  • Dor de cabeça súbita
Grupos de alto risco: crianças pequenas, idosos, grávidas e pessoas com imunidade baixa podem ter complicações graves.

As 4 regras de ouro para proteger sua família

1 – Lave as mãos sempre

Depois de tocar na ração, no pet ou nas fezes. Sem exceções. Use água e sabão por 20 segundos.

2 – Separe tudo

Tigelas e utensílios do pet são exclusivos. Nunca os lave junto com a louça da família.

3 – Armazenamento inteligente

Ração longe da comida humana. Longe do alcance de crianças. Sempre fechada.

4 – Cuidado com a comida crua

Dietas cruas para pets são bombas-relógio de bactérias. A FDA já alertou: cozinhar é a única forma segura.
O que fazer AGORA

1 – Verifique se há produtos recolhidos em casa

2 – Crie uma rotina de higiene rigorosa

3 – Ensine as crianças a lavar as mãos após brincar com o pet

4 – Considere mudar para ração de marcas com histórico limpo

A tigela do seu cachorro não deveria ser uma ameaça à sua família, mas a realidade é que pode ser. Proteja quem você ama com informação e atitude.

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Cartilha ensina a cuidar dos alimentos dentro de casa

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Devo lavar os ovos antes de colocá-los na geladeira? E a carne, por que não posso descongelar fora da geladeira?

Estas e outras dúvidas certamente passam pela cabeça de muitas pessoas na hora de armazenar ou de preparar os alimentos em casa. A boa notícia é o lançamento de um guia prático, que esclarece estas e outras dúvidas rapidamente. Trata-se do Manual Prático: Como Cuidar dos Alimentos Dentro de Casa, de autoria de Carina Moro Benis, disponível gratuitamente aqui.  

Carina (foto) tem graduações em Tecnologia de alimentos e em Nutrição e atualmente é doutoranda do programa de Ciência de Alimentos da Universidade Estadual de Londrina. O blog conversou com ela para saber mais detalhes deste projeto.

Como surgiu o manual

Durante sua dissertação de mestrado, Carina participou de um projeto de implantação de boas práticas de manipulação de alimentos na merenda escolar de Londrina, PR. Nesse período, teve início a pandemia de Covid-19, e todos os alunos atendidos pelo projeto, assim como boa parte da sociedade, passaram a permanecer em casa.

Nesse contexto, surgiu a oportunidade de avaliar, por meio de um questionário, como as famílias desses alunos cuidavam dos alimentos em casa. “A partir das respostas, percebi que existiam muitas dúvidas e práticas incorretas de manipulação, oferecendo risco à saúde de um público que, em grande parte, era vulnerável”, diz a autora. “Diante dessa realidade, pensei em criar um material didático e acessível, que pudesse orientar as famílias sobre como garantir alimentos seguros dentro de casa, prevenindo doenças transmitidas por alimentos e água”, complementa.

O manual traz informações práticas para todas as etapas da manipulação de alimentos, incluindo higiene pessoal e da cozinha, escolha, higienização e armazenamento dos alimentos, preparo e pós-preparo, prevenção da contaminação cruzada, uso de detergentes, manejo do lixo doméstico, leitura de rótulos e verificação da validade dos alimentos.

“Neste manual, tomei muito cuidado para orientar de forma simples, evitando polêmicas e explicações longas. O objetivo é atingir não apenas as famílias que participaram da pesquisa, mas também qualquer outra pessoa que o consultar, ajudando a tornar o cuidado com os alimentos mais seguro e parte do cotidiano”.

Carina agradece a participação das professoras Wilma Spinosa e Fernanda Bana, coordenadoras do projeto, de Rafael Françoso, que cuidou da parte gráfica e de Humberto Soares, pela colaboração geral.

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Ketchup, mostarda e mel: o que realmente precisa ir à geladeira?

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Entre ciência, legislação e boas práticas, descubra quando a refrigeração é obrigatória e quando é apenas uma questão de qualidade. Quem nunca discutiu sobre onde guardar o ketchup? Ou se a mostarda precisa mesmo ficar na geladeira depois de aberta? Embora pareçam dilemas domésticos, essas perguntas têm base científica sólida — e entender o comportamento microbiológico por trás dos condimentos é fundamental tanto para quem trabalha na indústria quanto para quem atua em serviços de alimentação ou simplesmente é dona de casa.

Aqui vai um insight importante: a recomendação “refrigerar após abrir” não está necessariamente ligada apenas à segurança microbiológica, mas também à preservação da qualidade sensorial. Produtos como molhos, geleias e manteigas têm características que dificultam o crescimento microbiano: baixa atividade de água (aw), alta acidez (pH baixo), presença de sal, açúcar ou conservantes naturais, além de terem passado por processos térmicos para eliminar patógenos.

Esses fatores, isolados ou combinados, tornam a maioria dos condimentos estável à temperatura ambiente — ao menos do ponto de vista da segurança de alimentos. O que se perde fora da geladeira, na maioria das vezes, é a cor, sabor e textura, não a inocuidade. Como explica a professora Abby Snyder, da Universidade Cornell:

“Microrganismos deteriorantes podem até se desenvolver, mas raramente os patogênicos. O principal risco é sensorial, não sanitário.”

O que dizem as normas legais brasileiras?

A RDC 727/2022 da ANVISA regula a rotulagem de alimentos embalados e estabelece que as condições de armazenamento devem constar no rótulo quando necessárias para garantir qualidade e segurança. Para quem trabalha com food service, a RDC 216/2004 determina que produtos prontos para consumo sejam mantidos sob condições que previnam contaminação. Mas atenção: isso não significa que tudo precisa estar refrigerado. A IN 161/2022, que estabelece padrões microbiológicos, reconhece que produtos com pH ácido e alta concentração de sal ou açúcar são naturalmente mais estáveis, tendo critérios menos restritivos.

E aqui entra um conceito fundamental: a tecnologia de obstáculos (hurdle technology). A RDC 331/2019 classifica alimentos com pH abaixo de 4,5 como ácidos, de baixo risco para patógenos como Clostridium botulinum. Quando combinamos acidez com baixa atividade de água (aw < 0,85 já inibe Staphylococcus aureus), criamos barreiras que tornam o produto microbiologicamente seguro sem refrigeração.

Na prática: cada condimento é um caso

  1. Ketchup é provavelmente o exemplo mais emblemático. Com pH em torno de 3,9 e aw entre 0,93-0,97, ele é naturalmente estável. É por isso que restaurantes o deixam fora da geladeira sem causar surtos de DTA. A refrigeração aqui é puramente para manter cor e sabor vibrantes por mais tempo. Conforme a RDC 216/2004, não há restrição para manter sachês individuais em temperatura ambiente no food service — desde que protegidos de luz e calor excessivo.
  2. Mostarda é ainda mais impressionante. Com pH entre 3,5-4,5 e compostos antimicrobianos naturais (isotiocianatos), ela é praticamente autoconservante. Como diz Brandon Collins, sommelier de mostarda: “É antibacteriana, então nada pode realmente crescer nela.” A geladeira apenas preserva aquele ardor característico que se perde com o tempo. Microbiologicamente falando, pode ficar na despensa sem preocupação.
  3. Mel é o campeão da estabilidade. Com aw de aproximadamente 0,6 e mais de 65% de açúcares redutores, é um ambiente hostil à vida microbiana. A IN 11/2000 do MAPA nem exige refrigeração — aliás, refrigerar mel é um erro comum que acelera a cristalização. Mas atenção ao alerta do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria: nunca ofereça mel a bebês menores de 1 ano, devido ao risco de esporos de Clostridium botulinum. Outra informação importante: o mel de abelhas nativas (sem ferrão) tem um teor mais elevado de umidade e precisa, sim, ser mantido sob refrigeração.
  4. Maionese comercial é interessante porque muda de status. Fechada, fica em temperatura ambiente graças ao pH 3,8-4,2 e à pasteurização. Aberta, precisa ir para a geladeira — não tanto pelo risco microbiológico (o pH ácido protege), mas porque o calor desestabiliza a emulsão. E aqui vai um ponto crítico da RDC 216/2004: maionese caseira com ovos crus é proibida em estabelecimentos comerciais justamente pelo risco de Salmonella.
  5. Molho de soja tradicional, com 15-18% de sal e processo fermentativo natural, dispensa refrigeração. Mas cuidado com versões “light” reduzidas em sódio — essas podem precisar de frio; sempre confira o rótulo.
  6. Geleias, doces em pasta e compotas, apesar da alta concentração de açúcar e pH ácido, devem ir para a geladeira após abertura para evitar fungos na superfície.

Contaminação cruzada, o verdadeiro vilão

Aqui está o segredo que muita gente ignora: mesmo produtos microbiologicamente estáveis podem ser comprometidos por manipulação inadequada. Utensílios úmidos ou sujos, armazenamento em ambientes incorretos (com condensação) — tudo isso introduz microrganismos que não deveriam estar ali. Para a indústria e para o food service, implementar POPs claros e treinar equipes sobre contaminação cruzada é tão importante quanto escolher a temperatura de armazenamento.

Para quem formula e fabrica

Se você trabalha com desenvolvimento de produtos, sabe que estudos de vida de prateleira não são opcionais. Análises microbiológicas, avaliação sensorial, monitoramento de pH e aw, testes de desafio microbiano (challenge test) — tudo isso justifica aquela frase no rótulo. A rastreabilidade completa, incluindo condições de armazenamento por lote, não só facilita recalls como demonstra comprometimento com a qualidade. E lembre-se: a declaração no rótulo não é só para cumprir tabela — ela orienta o consumidor e protege sua marca.

O que levar dessa discussão?

Produtos com pH < 4,5 e/ou aw < 0,85 são microbiologicamente seguros à temperatura ambiente. A refrigeração, nesses casos, é aliada da qualidade, não da segurança. Mas isso não significa negligenciar o frio — ele retarda oxidação, preserva compostos voláteis e mantém a experiência sensorial que o consumidor espera.

A conformidade com a RDC 727/2022 e outras normas não é burocracia: é gestão de risco baseada em ciência. E a maior lição? Refrigerar o que é necessário é prudência. Refrigerar o que não precisa é zelo. Saber a diferença é o que separa profissionais preparados de quem apenas segue instruções.

Como sempre dizemos: a manipulação higiênica após a abertura é mais crítica que a temperatura de armazenamento. Use colheres limpas e secas, mantenha embalagens bem fechadas, e eduque equipes e consumidores sobre boas práticas. Isso, sim, faz a diferença.

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Nutrigenômica e Segurança de Alimentos: quando a promessa de saúde vira excesso

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Hoje parece impossível ir ao mercado sem encontrar embalagens estampando frases como “rico em ferro”, “fonte de cálcio” ou “enriquecido com vitaminas do complexo B”.

Somado a isso, cresce o consumo de suplementos multivitamínicos e packs prontos, muitas vezes sem orientação profissional.

O resultado? Uma equação perigosa: nutrientes essenciais sendo consumidos muito além da quantidade recomendada.

A nutrigenômica, ciência que estuda como nutrientes interagem com nossos genes, mostra que cada pessoa responde de forma diferente aos alimentos. Mas na prática, estamos vivendo o oposto da personalização: uma avalanche de fortificação industrial mais a suplementação indiscriminada que ignora a individualidade e empurra muitos para o risco da hipervitaminose.

Neste artigo você vai entender:

  • Como a nutrigenômica se conecta à segurança de alimentos;
  • O impacto da fortificação em larga escala nos industrializados;
  • A sobreposição com suplementos e os riscos do consumo desenfreado;
  • Como fazer escolhas mais seguras e conscientes no dia a dia.

O que é nutrigenômica

A nutrigenômica busca compreender como genes e nutrientes interagem. Ela abre caminho para dietas personalizadas, adaptadas ao DNA de cada indivíduo. Mas enquanto a ciência caminha nessa direção, o mercado de alimentos e suplementos empurra a população para o excesso padronizado.

A nutrigenômica emergiu no início dos anos 2000 com o avanço das tecnologias de sequenciamento genético, possibilitando compreender como as variações no DNA influenciam a resposta individual aos nutrientes. Inicialmente focada em pesquisas laboratoriais, a área vem evoluindo para aplicações práticas, como dietas personalizadas, que buscam otimizar a saúde e prevenir doenças através da alimentação alinhada ao perfil genético de cada indivíduo. Este avanço tecnológico permitiu ampliar a compreensão da interação gene-nutriente, marcando uma revolução na ciência nutricional.

O boom da fortificação industrial de alimentos

Farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico, leite “rico em cálcio e vitamina D”, cereais matinais “fortes em vitaminas”, bebidas lácteas com adição de zinco… A fortificação tem sua importância na prevenção de deficiências de nutrientes na população (exemplo clássico: redução da anemia com a fortificação de farinhas).

Mas quando somamos todos os produtos que consumidos diariamente, biscoitos, achocolatados, pães, bebidas, a ingestão de micronutrientes pode ultrapassar com facilidade a Ingestão Diária Recomendada (IDR).

Algumas variações genéticas comuns ilustram o impacto dessa individualidade alimentar. Como exemplo, polimorfismos no gene MTHFR (metilenotetrahidrofolato redutase) podem influenciar a metabolização do ácido fólico, essencial para prevenir defeitos congênitos em fetos. Pessoas com variantes menos eficientes desse gene podem necessitar de diferentes formas ou quantidades de folato. Outro exemplo é a intolerância à lactose, genética e comum, que determina a capacidade de digerir o açúcar do leite. Além disso, variações que afetam o metabolismo da cafeína, do álcool e do sódio podem modificar os riscos de consumo padrão desses componentes em alimentos industrializados. Ignorar essas diferenças, especialmente quando há uma fortificação padronizada, pode levar a efeitos adversos para muitos indivíduos.

Suplementos + alimentos industrializados = sobreposição perigosa

Fonte: https://www.elfarmaceutico.es/formacion-investigacion/salud/beneficios-usos-micronutrientes_152213_102_amp.html

Agora imagine esse cenário:

  • Café da manhã com cereal enriquecido, leite fortificado e suco adicionado de vitamina C;
  • Almoço acompanhado de um multivitamínico “para garantir energia”;
  • Pré-treino com pack de cápsulas contendo as mesmas vitaminas já presentes nos alimentos.

Essa sobreposição silenciosa pode levar a quadros de excesso, muitas vezes confundidos com “sintomas vagos” como dor de cabeça, enjoo, fadiga e que em casos mais graves evoluem para problemas hepáticos, renais e até malformações em gestantes (ex.: excesso de vitamina A).

O que a ciência e a toxicologia mostram

  • Vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K) acumulam-se no organismo, aumentando risco de intoxicação.
  • Minerais em excesso (ferro, zinco, selênio) podem causar desequilíbrios e interações negativas com medicamentos.

Dados da OMS mostram aumento global de casos de hipervitaminose em países onde a suplementação cresce junto com a indústria de alimentos fortificados. No Brasil, embora faltem dados oficiais consolidados, estudos regionais e relatos emergenciais indicam um aumento no consumo indiscriminado de suplementos vitamínicos e multivitamínicos, muitas vezes sem acompanhamento profissional. Pesquisa da Sociedade Brasileira de Nutrição realizada em 2023 apontou que cerca de 40% dos adultos entrevistados fazem uso habitual de suplementos, muitos combinando esses produtos com alimentos industrializados fortificados, potencializando riscos de hipervitaminoses. Casos clínicos frequentes relatam sintomas inespecíficos como fadiga, dores de cabeça e náuseas, que podem estar associados ao consumo excessivo desses micronutrientes.

Interações pouco discutidas

Além do excesso, há outras interações:

  • Vitamina K interfere em anticoagulantes;
  • Ferro reduz absorção de antibióticos;
  • Zinco atrapalha alguns anti-hipertensivos.

Essa informação raramente aparece de forma clara nos rótulos, o que torna ainda mais difícil para o consumidor comum avaliar riscos.

A regulamentação atual da Anvisa exige informações sobre composição nutricional e advertências básicas, mas ainda carece de regras específicas sobre alertas para a sobreposição de nutrientes oriundos da combinação de alimentos fortificados e suplementos. A rotulagem raramente informa sobre o risco potencial de toxicidade por consumo concomitante, dificultando a avaliação consciente do consumidor. Além disso, a ausência de padronização nessas informações aumenta o desafio para profissionais de saúde no acompanhamento dos casos de excesso nutricional.

A nutrigenômica nos lembra que não existe “dose padrão” de saúde.

Cada organismo responde de forma única, mas a realidade atual é que estamos expostos a uma combinação de alimentos industrializados fortificados e suplementos com micronutrientes em quantidades padronizadas que muitas vezes ultrapassam os limites seguros individuais.

Informação e acompanhamento profissional são fundamentais para transformar a promessa de saúde em benefício real, e não em excesso perigoso.

Fonte: https://drauziovarella.uol.com.br/alimentacao/como-ler-os-rotulos-de-alimentos/amp/

Antes de colocar no carrinho ou engolir uma cápsula:

  1. Olhe o rótulo: veja se o alimento já contém vitaminas e minerais adicionados.
  2. Some o todo: considere não apenas o suplemento, mas todos os industrializados que consome.
  3. Evite duplicar: packs + multivitamínicos + produtos fortificados = risco de excesso.
  4. Informe seu médico ou nutricionista sobre suplementos e alimentos enriquecidos que consome.
  5. Desconfie de promessas milagrosas de energia ou imunidade em cápsulas.

O futuro da nutrigenômica aponta para avanços digitais que prometem revolucionar o acesso à alimentação personalizada. Aplicativos de dieta baseados em perfis genéticos, alimentos personalizados impressos em 3D e o uso crescente de inteligência artificial para combinar dados genéticos, hábitos e preferências são tendências já em desenvolvimento. Além disso, acredita-se que regulamentações mais rígidas, alinhadas ao avanço da ciência, irão exigir maior transparência nas informações oferecidas ao consumidor. Essas inovações poderão tornar a promessa da nutrigenômica em benefícios concretos, minimizando riscos e potencializando a saúde de forma individualizada.

Compartilhe este artigo com quem você sabe que consome suplementos juntamente com muitos produtos industrializados. Informação é prevenção.

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A mágica tábua de descongelar alimentos: mito ou solução?

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Você sabe qual temperatura ideal para armazenar os alimentos prontos para o consumo? Existe uma faixa de temperatura conhecida como Zona de Perigo, na qual a temperatura é ideal para o crescimentoQuem nunca saiu correndo para trabalhar e esqueceu de tirar a mistura do freezer que atire a primeira pedra!

A correria do dia a dia muitas vezes nos leva a buscar atalhos pouco recomendados para descongelar alimentos: deixá-los sobre a pia, na varanda ou até mesmo usando água quente. Mas aqui vai o alerta: esses métodos não são nada seguros. Quando a parte externa da carne atinge temperaturas acima de 5°C, ela entra na temida zona de perigo (entre 5°C e 60°C). Nessa faixa de temperatura, bactérias patogênicas como Salmonella e E. coli podem dobrar de população a cada 20 minutos — e o pior: isso acontece mesmo que o centro da peça ainda esteja congelado. Deixar um alimento nessa zona por mais de 2 horas é como abrir as portas para uma festa de microrganismos indesejados.

Nos últimos tempos, as redes sociais foram invadidas por um novo “truque de cozinha”: a tábua de descongelar alimentos. Ela chama atenção pelo aparente poder de agilizar o processo, mas será que funciona mesmo? E o mais importante: é um procedimento seguro?

Essas tábuas são feitas de metais como alumínio ou cobre, conhecidos por sua altíssima condutividade térmica. Sabe aquela sensação de encostar numa colher de metal ‘gelada’ versus numa de madeira? A colher de metal parece muito mais fria, certo? Isso acontece porque o metal “rouba” o calor da sua mão muito mais rápido.

Com a tábua é o inverso: ela capta o calor do ambiente e o transfere rapidamente para o alimento congelado, enquanto dissipa o frio que vai sendo liberado durante o degelo. É como se a tábua funcionasse como uma “ponte expressa” para o calor.

Comentário técnico: A condutividade térmica mede a capacidade de um material transferir calor. Os números impressionam: o alumínio conduz cerca de 205 W/m·K, enquanto a madeira conduz apenas 0,15 W/m·K. Isso significa que o alumínio transfere calor mais de 1.300 vezes mais rápido que a madeira! Por isso essas tábuas realmente aceleram o processo comparadas a um prato ou tábua comum.

A física também ajuda a explicar o fenômeno. Segundo as leis da termodinâmica, quando dois corpos com temperaturas diferentes entram em contato, há sempre um fluxo espontâneo de calor do mais quente para o mais frio, até que se atinja equilíbrio térmico. É exatamente isso que acontece quando colocamos uma peça congelada sobre a tábua metálica.

Comentário técnico: A primeira lei da termodinâmica (conservação de energia) mostra que a energia não se cria nem se destrói, apenas se transforma — no caso, o calor do ambiente flui através do metal até o alimento. A segunda lei explica que esse fluxo de calor sempre viaja naturalmente do corpo mais quente para o mais frio, nunca o contrário (a menos que haja trabalho externo, como em geladeiras).

Aqui vem a parte importante: esse ganho de tempo não elimina o risco microbiológico. A tábua funciona à temperatura ambiente, o que significa que o alimento passa parte do tempo exposto exatamente àquela zona de perigo que mencionamos no início.

E tem mais: carnes moídas são ainda mais críticas nesse cenário. Enquanto um bife inteiro tem bactérias apenas na superfície externa, a carne moída tem uma área de exposição centenas de vezes maior. Durante a moagem, qualquer contaminação superficial se distribui por toda a massa, criando inúmeras “portas de entrada” para microrganismos. É por isso que carnes moídas exigem cuidado redobrado no descongelamento e devem ser consumidas mais rapidamente.

Organizações como a Anvisa (RDC nº 216/2004, que estabelece procedimentos operacionais padronizados para serviços de alimentação) e o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) são categóricas: o método mais seguro continua sendo o descongelamento sob refrigeração, com a geladeira ajustada abaixo de 4°C.

Pode parecer menos prático — e realmente é mais demorado —, mas é a única forma de garantir que todo o alimento permaneça fora da zona de risco do início ao fim do processo, preservando tanto sua qualidade quanto a segurança de alimentos.

E se eu REALMENTE precisar usar a tábua?

Bem, a tábua de descongelamento pode até ajudar em situações emergenciais ou quando você quer dar aquele “empurrãozinho” inicial no degelo. Se for usar, siga estas orientações:

  • Tempo máximo: não deixe o alimento mais de 30-40 minutos em temperatura ambiente, mesmo na tábua
  • Espessura ideal: funciona melhor com peças finas (bifes, filés, hambúrgueres) — peças grandes continuam demorando
  • Vire o alimento: para descongelar uniformemente dos dois lados
  • Higienização: lave a tábua com água quente e detergente após cada uso;
  • Cozinhe imediatamente: assim que descongelar, leve direto ao preparo
  • Nunca use para carne moída: o risco é alto demais

Quadro comparativo dos métodos de descongelamento

Método Vantagens Riscos/Desvantagens Indicação
Geladeira (< 4°C) Seguro, preserva qualidade, evita multiplicação de patógenos Mais lento, exige planejamento (8-24h dependendo do tamanho) Melhor opção para carnes, aves, pescados
Água fria corrente (embalagem fechada) Mais rápido que a geladeira (1-3h), mantém alimento fora da zona de perigo Requer atenção constante e troca de água a cada 30 min Útil em emergências
Micro-ondas (defrost) Muito rápido (minutos), permite preparo imediato Pode cozinhar partes externas de forma desigual; precisa cozinhar logo após o descongelamento Somente quando vai direto ao fogo/forno
Tábua de descongelamento Mais rápido que deixar em prato comum; prático em bancada Funciona à temperatura ambiente, expõe ao risco microbiológico; não serve para peças grandes Apenas como complemento ou pré-descongelamento rápido de peças finas
Temperatura ambiente (pia/varanda) Nenhuma vantagem real Risco altíssimo de contaminação; método completamente inseguro Nunca recomendado

A conclusão sincera

No fim das contas, a velha tática da vovó continua vencendo: tirar a carne do freezer na noite anterior e deixar descongelando na geladeira. Chatinho? Talvez. Dá mais trabalho lembrar? Com certeza. Mas é seguro? Absolutamente.

A tábua de descongelamento não é exatamente um mito — ela realmente acelera o processo graças às propriedades físicas do metal. Mas também não é a solução mágica que dispensa planejamento. Quando o assunto é segurança de alimentos, não existe atalho milagroso: tempo e temperatura continuam sendo os fatores decisivos.

Pense assim: você pode até usar a tábua para dar uma “adiantada” em situações de aperto, mas jamais como método principal. O planejamento simples de transferir os alimentos do freezer para a geladeira algumas horas antes continua sendo o caminho mais inteligente — e o único que garante que você e sua família comam com tranquilidade.

Afinal, a pressa pode até ser inimiga da perfeição, mas quando falamos de segurança de alimentos, ela é inimiga mesmo da sua saúde.

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