9 min leituraO Brasil é um país de dimensões continentais, marcado por uma impressionante diversidade cultural, climática e alimentar. De Norte a Sul, encontramos uma infinidade de hábitos alimentares, ingredientes típicos e formas de preparo que refletem a identidade de cada região. Essa riqueza, no entanto, também traz desafios significativos quando o assunto é a segurança dos alimentos.
Em um território tão vasto, com realidades socioeconômicas distintas e diferentes níveis de acesso à informação, fiscalização e infraestrutura, os riscos associados à contaminação de alimentos se manifestam de diversas formas — desde falhas simples na manipulação até casos graves envolvendo substâncias tóxicas, microrganismos patogênicos e fraudes alimentares.
Os surtos de doenças transmitidas por alimentos (DTA) não apenas impactam a saúde pública, como também revelam fragilidades nos sistemas de controle, na educação sanitária e na responsabilidade de todos os envolvidos na cadeia produtiva, do campo à mesa. Cada episódio carrega lições importantes e evidencia a necessidade constante de vigilância, capacitação e compromisso com a qualidade dos alimentos consumidos pela população.
Este levantamento reúne alguns dos surtos e episódios de contaminação de alimentos mais relevantes e recentes registrados em todos os estados brasileiros, evidenciando suas causas, impactos e contextos. Mais do que relatar eventos, o objetivo é promover reflexão e conscientização sobre a importância da segurança de alimentos em um país tão grande e diverso quanto o Brasil.
Acre
Em 27 de fevereiro de 2026, em Rio Branco, uma família sofreu intoxicação após ingerir uma planta tóxica, com um idoso chegando a ser intubado. A esposa dele e um adolescente de 13 anos também consumiram a planta e precisaram de atendimento médico. De acordo com relatos, o idoso encontrou a fruta no quintal de um vizinho e a levou para casa, onde os demais também a ingeriram. A planta responsável pela intoxicação é a Brugmansia, conhecida popularmente como trombeta-de-anjo. Utilizada como ornamental, possui alto potencial tóxico em todas as partes — flores, folhas e frutos. De acordo com autoridades de saúde, a planta contém substâncias como escopolamina e atropina, que atuam no sistema nervoso central. A ingestão pode causar confusão mental, alucinações, dilatação das pupilas, taquicardia, vômitos e, em situações mais graves, convulsões e até a morte.
Alagoas
Em 2025, uma grave contaminação de ração equina causou a morte de 60 cavalos no estado de Alagoas. A suspeita recaiu sobre a ração da empresa Nutrata Nutrição Animal. Investigações indicaram a presença de alcaloides tóxicos (possivelmente derivados da planta Crotalaria) na ração, resultando em insuficiência renal e hepática nos animais, ocasionando posteriormente a morte. O caso teve repercussão nacional e levou à investigação pelo Ministério da Agricultura e ao recolhimento dos produtos. Apesar de não envolver humanos, esse é considerado o episódio mais grave e emblemático de contaminação alimentar já registrado no Estado, pela escala e impacto.
Amapá
Um dos episódios mais alarmantes descritos em documento encaminhado ao Ministério Público do Amapá ocorreu no dia 23 de novembro de 2025, quando ao menos 21 internos do Instituto Penitenciário do Amapá, em Macapá, passaram mal após consumirem alimentos fornecidos por uma empresa. Os presos apresentaram sintomas como diarreia, náuseas e mal-estar generalizado, compatíveis com intoxicação alimentar. Conforme relatado, a comida apresentava sinais visíveis de deterioração, o que reforça a suspeita de fornecimento de alimentos estragados.
Amazonas
Em julho de 2021, na zona rural da cidade de Manacapuru, 30 casos foram notificados, e um menino de 8 anos morreu por suspeita de intoxicação decorrente do consumo da fruta tucumã. A causa exata da contaminação não foi totalmente confirmada pelos laudos divulgados publicamente, mas a investigação da vigilância sanitária apontou fortes suspeitas de contaminação pela possível presença das bactérias Salmonella e Staphylococcus aureus.
Bahia
Em setembro de 2024, foi registrado em boletim da Secretaria de Estado da Saúde da Bahia, um surto de botulismo nos municípios de Campo Formoso, Senhor do Bonfim e Cícero Dantas. Foram confirmados seis casos, dos quais dois evoluíram para óbito. A suspeita é de que a infecção tenha sido causada por toxina botulínica produzida pela bactéria Clostridium botulinum, presente em mortadela de frango, pois quatro pessoas relataram o consumo na véspera do início dos sintomas.
Ceará
De acordo com os autos do Tribunal de Justiça do Ceará, em 29 de março de 2017, alunos da Escola Estadual Professor Walquer Cavalcante Maia sofreram intoxicação alimentar após consumirem refeições servidas por uma empresa terceirizada, no horário do almoço, no município de Russas. A Vigilância Sanitária Municipal coletou amostras dos alimentos e da água no local de funcionamento da empresa e as enviou ao LACEN (Laboratório Central), que comprovou, em laudo, a contaminação dos alimentos pela bactéria Escherichia coli. No local, também foi observada a falta de profissionais qualificados. Ao todo, 342 pessoas foram expostas ao alimento e 57,6% delas apresentaram infecção alimentar, predominantemente estudantes. Foi identificado que panqueca com molho e guarnições de frango estavam contaminadas. Muitos alunos foram levados para atendimento médico.
Distrito Federal
Em janeiro de 2026, dois bebês foram intoxicados após consumirem fórmulas infantis de uma famosa marca conhecida no ramo alimentício (Nestlé), no Distrito Federal. O incidente ocorreu sete dias após a ANVISA proibir a venda de lotes específicos da multinacional, medida adotada após a empresa iniciar um recall global por risco de contaminação pela toxina produzida por Bacillus cereus.
Espírito Santo
Um surto alimentar ocorrido em Colatina, em 2015, afetou cerca de 40 pessoas após o consumo de lanches em uma lanchonete local. A principal suspeita foi a ingestão de maionese caseira contaminada, possivelmente por bactérias como Salmonella. Os pacientes apresentaram sintomas como diarreia, vômito, febre e mal-estar geral. Muitos precisaram de atendimento hospitalar devido à gravidade dos sintomas. A Vigilância Sanitária interditou o estabelecimento e abriu investigação. O caso chamou atenção porque a venda de maionese caseira já era proibida no município, reforçando a importância do controle sanitário e do cuidado com alimentos de alto risco.
Goiás
Em agosto de 2021, na cidade de Aparecida de Goiânia, 21 pessoas buscaram atendimento médico após apresentarem sintomas de intoxicação alimentar, como náuseas, vômito e mal-estar, depois de consumirem pastel em uma feira livre do município. A Secretaria Municipal de Saúde informou que, como as denúncias ocorreram dias após o consumo (os pastéis eram vendidos aos domingos), não foi possível realizar a coleta de amostras dos alimentos para análise, o que impediu a confirmação da causa específica do surto.
Maranhão
Em outubro de 2024, após exames, a Polícia Civil concluiu que uma bactéria foi a causa da intoxicação alimentar que levou cerca de 150 pessoas à hospitalização após uma festa na Escola Municipal Professora Leda Tajra, na cidade de Alto Parnaíba. O laudo pericial não indicou a presença de metais pesados ou produtos químicos. O bolo servido estava contaminado, sendo caracterizada contaminação cruzada, decorrente de falhas nas Boas Práticas de Fabricação. Foi confirmada contaminação microbiológica, possivelmente por Staphylococcus aureus ou Salmonella, embora o agente específico não tenha sido oficialmente divulgado.
Mato Grosso
Em 1º de dezembro de 2025, 11 estudantes de uma escola municipal em Brasnorte foram encaminhadas ao hospital após consumirem um bolo levado por uma professora. Das 11 crianças, três apresentaram mal-estar devido à intolerância à lactose. As demais tiveram quadros de ansiedade e nervosismo ao presenciarem colegas passando mal. Todas receberam atendimento médico e tiveram alta posteriormente.
Mato Grosso do Sul
Em 2011, o Laboratório Central de Saúde Pública de Mato Grosso do Sul confirmou que a bactéria Staphylococcus aureus foi a causa da intoxicação alimentar de cerca de 180 alunos de uma escola pública em Campo Grande. Os estudantes apresentaram sintomas como vômitos, diarreia e desmaios. Entre as possíveis causas apontadas estavam falhas na distribuição dos alimentos em temperatura inadequada, além de problemas na conservação e no manuseio pós-preparo.
Minas Gerais
Em Minas Gerais, o caso mais famoso foi o que envolveu a cervejaria Backer, localizada em Belo Horizonte, considerado um dos mais marcantes da história recente do estado. O episódio ocorreu entre 2019 e 2020. A cerveja produzida foi contaminada por dietilenoglicol, uma substância altamente tóxica utilizada indevidamente como anticongelante. Dezenas de pessoas foram intoxicadas, com pelo menos nove mortes confirmadas. Diversos pacientes apresentaram sequelas permanentes decorrentes da ingestão da substância.
Pará
Um surto de doença de Chagas aguda em Ananindeua, no início de 2026, resultou em pelo menos quatro mortes e 14 casos confirmados até o fim de janeiro, superando o total de óbitos dos cinco anos anteriores na região. A transmissão ocorreu predominantemente por via oral, associada ao consumo de açaí artesanal contaminado pelo protozoário Trypanosoma cruzi. As autoridades intensificaram a fiscalização e as orientações de higiene.
Paraíba
Em 15 de março de 2026, mais de 100 pessoas procuraram atendimento médico em unidades de saúde no município de Pombal após consumirem alimentos em uma pizzaria da cidade. Uma mulher de 44 anos morreu. Os sintomas incluíam náuseas, vômitos, dores abdominais, diarreia e mal-estar. A Vigilância Sanitária identificou irregularidades como presença de insetos, condições inadequadas de conforto térmico, equipamentos oxidados e reaproveitamento de recipientes. Em 28 de março, o LACEN confirmou alta contaminação por Staphylococcus aureus e Escherichia coli nas amostras coletadas.
Paraná
Um surto de intoxicação alimentar por toxina estafilocócica ocorreu em Cascavel, em 2019, associado à contaminação de alimentos, especialmente farofa, contaminada por Staphylococcus aureus. A produção de enterotoxinas pela bactéria, decorrente de manuseio inadequado, causou sintomas rápidos como náuseas e vômitos. A farofa foi identificada como o principal alimento contaminado, apresentando alta carga bacteriana. O caso foi apresentado no 8º Simpósio Brasileiro de Vigilância Sanitária (SIMBRAVISA), destacando a importância do controle na manipulação de alimentos.
Pernambuco
Em diversas cidades do estado de Pernambuco foram registrados casos de intoxicação por metanol envolvendo bebidas adulteradas. Outros estados também foram afetados, totalizando ao menos 15 mortes no país. Até dezembro de 2025, foram confirmadas cinco mortes em Pernambuco. O caso teve ampla repercussão nacional e evidenciou falhas no controle e na fiscalização da comercialização de bebidas alcoólicas clandestinas.
Piauí
Em 6 de janeiro de 2025, exames periciais realizados pela Polícia Científica do Piauí confirmaram a presença do inseticida agrotóxico terbufós em alimentos consumidos por uma família no município de Parnaíba. A substância foi identificada no arroz, feijão e farinha ingeridos pelas vítimas. O incidente ocorreu durante a ceia de réveillon, quando a família preparou o prato típico “baião de dois”, no qual o veneno foi encontrado. Entre as vítimas fatais estavam três crianças do total de seis pessoas mortas. O episódio gerou grande comoção e reforçou a necessidade de maior controle sobre a origem e manipulação dos alimentos consumidos pela população.
Rio de Janeiro
Em dezembro de 2023, a Secretaria de Saúde monitorou surtos de gastroenterite na zona sul do Rio de Janeiro, especialmente nos bairros de Copacabana e Botafogo. Foram confirmados 46 casos. De acordo com a Vigilância Sanitária, as causas estiveram associadas ao calor e à ingestão de alimentos e bebidas mal conservados, sendo detectados diferentes patógenos.
Rio Grande do Norte
Em 19 de maio de 2025, a Vigilância Sanitária de Natal emitiu um alerta após o registro de um surto de intoxicação alimentar causado por ciguatera, doença provocada por toxinas presentes em algumas espécies de peixes, como garoupas, barracudas, arabaianas e badejos. Treze pessoas apresentaram sintomas após participarem de um encontro, sendo que três precisaram de hospitalização, e duas foram internadas em Unidade de Terapia Intensiva. Amostras do peixe servido, da espécie arabaiana, foram coletadas para análise no Laboratório Central de Saúde Pública.
Rio Grande do Sul
Em outubro de 2020, cerca de 300 pessoas, distribuídas em sete cidades do Rio Grande do Sul, relataram sintomas como náuseas, dor abdominal, vômitos e diarreia após consumirem picolés da marca Frutibom. Aproximadamente 80% dos pacientes eram crianças. Amostras foram coletadas e analisadas pelo LACEN, sendo identificada a presença de Escherichia coli. A investigação apontou como principal hipótese a contaminação da água utilizada na fabricação dos picolés. A fábrica foi interditada pela Vigilância Sanitária.
Rondônia
Em novembro de 2025, a Vigilância Sanitária interditou o restaurante universitário da Universidade Federal de Rondônia, em Porto Velho, após mais de 100 estudantes apresentarem sintomas de intoxicação alimentar grave, como diarreia, vômito e desidratação intensa. Todos os estudantes precisaram de atendimento médico após consumirem refeições no local. O caso evidenciou falhas nas condições higiênico-sanitárias do estabelecimento.
Roraima
Em setembro de 2025, diversas denúncias foram feitas por estudantes da Universidade Federal de Roraima, em Boa Vista, sobre a qualidade das refeições fornecidas no restaurante universitário. Os relatos incluíam a presença de larvas e moscas nos alimentos, além de queixas de mal-estar após o consumo. Em resposta, a empresa responsável informou que adotou medidas corretivas, como a designação de uma técnica responsável para acompanhar os processos, reforço das práticas de higiene e treinamento da equipe.
Santa Catarina
Em 2025, na cidade de Santa Cecília, ocorreu um caso de intoxicação envolvendo refrigerante contaminado. Cerca de 11 a 12 pessoas apresentaram sintomas como náuseas, vômitos e tontura após o consumo da bebida. Não houve mortes, mas alguns pacientes necessitaram de atendimento médico. O caso chamou atenção pela suspeita de contaminação intencional, e não apenas por falha sanitária. As investigações indicaram que a contaminação provavelmente ocorreu fora da indústria, sendo tratada como possível crime.
São Paulo
Um surto de intoxicação alimentar ocorrido em Birigui, em 1998, é considerado um dos episódios mais marcantes de doenças transmitidas por alimentos no Brasil, tanto pela dimensão quanto pelo perfil das vítimas. Cerca de 1.800 pessoas foram afetadas, sendo a maioria crianças de escolas públicas. O surto foi causado pela ingestão de farofa contaminada pela bactéria Staphylococcus aureus, servida na merenda escolar.
Sergipe
Em novembro de 2024, mais de 50 pessoas apresentaram sintomas gastrointestinais, como vômito e diarreia, após almoçarem no campus Sertão da Universidade Federal de Sergipe, no município de Nossa Senhora da Glória. Entretanto, análises laboratoriais posteriores não confirmaram contaminação nos alimentos ou na água, mantendo o episódio classificado como “surto suspeito”, sem agente etiológico definido.
Tocantins
Em março de 2025, alunos da Escola Serra das Cordilheiras, em Colmeia, relataram casos de intoxicação alimentar após consumirem refeições servidas na instituição. A refeição incluía arroz, feijão, batata, peixe e ovo. Alguns estudantes necessitaram de atendimento médico. O episódio reforçou a necessidade de revisão das condições de alimentação escolar e de monitoramento constante por parte das autoridades competentes.
Diante da diversidade de episódios apresentados, fica evidente que os surtos alimentares no Brasil estão diretamente relacionados a falhas evitáveis, como deficiência nas boas práticas de fabricação, fiscalização insuficiente e falta de capacitação. Independentemente da região, os casos reforçam que a segurança dos alimentos deve ser tratada como prioridade contínua, exigindo atuação integrada entre poder público, setor produtivo e sociedade.
E você, leitor, conseguiu identificar outros casos além dos mencionados nesse texto que aconteceram no seu estado? Que ações sugere para evitar que voltem a acontecer?
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