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Recall de fórmulas infantis no Brasil, em 2026

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O ano de 2026 começou com importantes recalls de alimentos no Brasil, com destaque para a contaminação de fórmulas infantis.

Uma medida da Anvisa (Resolução 32/2026), publicada no dia 7 de janeiro, determinou a proibição da comercialização, da distribuição e do uso de alguns lotes de fórmulas infantis.

A motivação é o risco de contaminação por cereulide, uma toxina produzida pela bactéria Bacillus cereus. O consumo de alimento contaminado por essa toxina pode causar vômito persistente, diarreia, entre outros sintomas como sonolência e confusão mental.

O Bacillus cereus é um dos principais agentes causadores de doenças transmitidas por alimentos. Importante no caso dessa bactéria é que a doença é causada pela toxina gerada por ela e não pela própria bactéria.

Por se tratar de uma bactéria anaeróbica, ela pode sobreviver em condições de falta de oxigênio. Há relatos de que sua multiplicação ótima acontece no intervalo de temperatura de 30 a 40ºC e em pH entre 5-9,3.

E quando pensamos na toxina há duas características que impactam quando o assunto é segurança de alimentos: sua capacidade de sobreviver a tratamentos térmicos e se reproduzir em baixas temperaturas, o que dificulta o seu controle, uma vez que o alimento já está contaminado.

Por ser resistente a tratamento térmico, essa toxina é um perigo para indústrias de alimentos lácteos, como as fórmulas infantis, já que uma das primeiras medidas para controlar a carga bacteriana do leite é o processo de pasteurização. Se existe uma toxina resistente a essa etapa, precisamos nos cercar de medidas anteriores.

B. cereus tem o solo como habitat natural. No entanto, devido a sua capacidade de formar esporos, este microorganismo pode se espalhar facilmente contaminando ambiente, superfícies, alimentos e água.

As condições de processamento nas empresas devem ser cuidadosamente avaliadas, tanto para evitar o crescimento de B. cereus como para inativá-lo, evitando a formação de esporos nos alimentos que já estejam contaminados.

Os agentes formadores de esporos utilizam essa capacidade de produzir as toxinas quando expostos a condições desfavoráveis ao seu crescimento, portanto, o importante é trabalhar para diminuir muito a carga bacteriana e acabar com a germinação dos esporos.

Como prevenir contaminação por Bacillus cereus?

Sabendo que este micro-organismo pode estar presente em todos os lugares, o cuidado com contaminações cruzadas entre alimentos crus e processados é uma ação preventiva a ser tomada.

Além disso, é preciso considerar que se trata de um microrganismo esporulado, com resistência a diversos agentes empregados na indústria de alimentos como controladores do crescimento microbiano: elevadas temperaturas, pH baixo, agentes químicos, etc. A contaminação dos alimentos por células de Bacillus cereus ocorre principalmente devido às condições inadequadas de manuseio e armazenamento, que acabam favorecendo a germinação de esporos e o desenvolvimento das células vegetativas do microrganismo.

Dessa forma, o principal mecanismo de controle de B. cereus em alimentos é a prevenção do seu desenvolvimento. Medidas preventivas como controle de temperatura, de umidade e procedimentos higiênico-sanitários devem ser adotadas pelos estabelecimentos produtores de alimentos. Análises de matérias-primas e dos lotes antes da sua liberação fazem-se essenciais.

Quem adquiriu unidades dos produtos que estão em recall deve acessar o site da empresa para identificar se o lote em questão pode ser consumido.

Imagem: Yan Krukau

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O mito da segurança no congelamento de alimentos

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Um recall recente de blueberries congelados contaminados por Listeria monocytogenes reforça um erro comum: pensar que o congelamento de alimentos elimina riscos microbiológicos.

Em fevereiro de 2026, mais de 55 mil libras de blueberries congelados foram recolhidas nos Estados Unidos após a detecção potencial de Listeria monocytogenes. O recall, iniciado pela Oregon Potato Company e posteriormente classificado pela FDA como Classe I — o nível mais alto de risco sanitário, envolveu produtos distribuídos para a indústria de alimentos e serviços alimentícios em vários estados e no Canadá.

O episódio traz uma lição importante para a indústria: o congelamento não é uma etapa de eliminação de patógenos. Ele apenas reduz a atividade microbiana, permitindo que microrganismos sobrevivam e voltem a crescer quando o alimento é descongelado.

Congelar não é matar microrganismos

O congelamento é frequentemente percebido — inclusive por consumidores — como um mecanismo de segurança. Na realidade, sua função principal é preservar alimentos, não esterilizá-los.

Durante o congelamento:

  • a atividade de água diminui

  • o metabolismo microbiano desacelera

  • a multiplicação microbiana é praticamente interrompido

No entanto, muitos patógenos sobrevivem a essas condições.

Entre eles:

Quando o alimento é descongelado ou incorporado a uma formulação pronta para consumo, esses microrganismos podem voltar a se multiplicar.

Por que a Listeria é especialmente problemática

Entre os patógenos relevantes para alimentos congelados, a Listeria monocytogenes possui características que ampliam o risco.

1. Sobrevive ao congelamento

A bactéria consegue sobreviver em temperaturas negativas por longos períodos. Assim, o congelamento preserva o patógeno junto com o alimento.

2. Cresce em refrigeração

Mesmo após o descongelamento, a Listeria pode crescer em temperaturas de refrigeração, o que amplia o risco em produtos prontos para consumo.

3. Alta gravidade clínica

A listeriose é rara, mas potencialmente grave, especialmente para:

  • gestantes

  • idosos

  • imunocomprometidos

  • recém-nascidos

Por isso, recalls associados à bactéria frequentemente recebem classificação de maior risco pelas autoridades sanitárias.

Frutas congeladas: ingrediente de alto alcance

No caso recente das blueberries, os produtos não eram destinados diretamente ao consumidor, mas sim a distribuidores e fabricantes de alimentos. Isso revela outro ponto crítico.

Ingredientes congelados são amplamente utilizados em:

  • smoothies e bebidas

  • sobremesas e sorvetes

  • produtos de panificação

  • cereais e snacks

  • refeições prontas

Quando ocorre contaminação na matéria-prima, o risco pode se multiplicar ao longo da cadeia de processamento, atingindo diversos produtos finais.

O que a indústria precisa revisar

Casos como esse reforçam a importância de revisar premissas na análise de perigos.

Não tratar congelamento como etapa de controle

Em planos HACCP, o congelamento não deve ser considerado medida de eliminação microbiológica.

Reforçar controles no pré-processamento

Para frutas e vegetais, o risco microbiológico costuma estar associado a:

  • colheita

  • contato com solo ou água contaminada

  • equipamentos de processamento

  • ambiente de embalagem

Avaliar fornecedores com foco em patógenos ambientais

Programas robustos de controle devem incluir:

  • monitoramento ambiental

  • validação de higienização

  • rastreabilidade por lote

Aplicação prática para indústria, qualidade e laboratório

Para profissionais de segurança dos alimentos, algumas ações são especialmente relevantes:

1. Revisar análise de perigos de ingredientes congelados
Produtos congelados não devem ser classificados automaticamente como de baixo risco.

2. Validar premissas em planos HACCP 
Garantir que o congelamento não esteja sendo tratado como etapa de letalidade.

3. Intensificar controle de fornecedores agrícolas
Principalmente para frutas, vegetais e ingredientes minimamente processados.

4. Avaliar risco em produtos prontos para consumo com frutas congeladas
Especialmente smoothies, sobremesas e formulações sem etapa térmica.

Conclusão

  • Impacto: recalls recentes mostram que patógenos podem sobreviver ao congelamento e entrar na cadeia industrial.

  • Recomendação prática: revisar análise de perigos para ingredientes congelados e reforçar controle na origem da matéria-prima.

  • O que monitorar: eventos de Listeria associados a frutas e vegetais congelados e requisitos regulatórios para controle ambiental.

Imagem: Christopher Seufert

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Castanha-do-Pará: um tesouro alimentar da Amazônia e os cuidados com sua produção

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A região Norte do Brasil possui uma enorme variedade de alimentos nativos da floresta amazônica que ainda não são tão valorizados quanto deveriam ser. Entre tantos alimentos importantes, destaca-se a castanha-do-Pará, também chamada de castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa), uma semente oleaginosa altamente nutritiva e rica em selênio — um mineral essencial com propriedades antioxidantes — além de proteínas, gorduras saudáveis e outros micronutrientes que a tornam um verdadeiro superalimento.

Embora o nome “castanha-do-Pará” seja historicamente o mais conhecido no Brasil, denominações como castanha-do-Brasil ou castanha-da-Amazônia também são amplamente usadas, pois a espécie é encontrada em toda a região amazônica e não apenas no estado do Pará.

A castanha-do-Brasil é um dos maiores produtos extrativistas para fins alimentares no Brasil e é fundamental para a sobrevivência econômica de muitas famílias em áreas rurais e comunidades tradicionais amazônicas.

Por ter alto valor nutricional e internacional, a castanha tem mercado tanto no Brasil quanto no exterior, sendo um produto valorizado em dietas saudáveis e em indústrias de alimentos.

Produção nos estados do Norte

Os estados do Amazonas, Acre e Pará lideram a produção extrativa da castanha no Brasil, representando juntos a maior parte da oferta nacional. Em 2023, o Amazonas foi o maior produtor, com cerca de 11.291 toneladas, seguido pelo Acre com 9.473 toneladas e pelo Pará com 9.390 toneladas. Esses três estados juntos respondem por cerca de 80% da produção nacional.

Essa produção é principalmente extrativista e ocorre em áreas de floresta natural, pois a castanheira leva de 15 a 20 anos para atingir a maturidade e começar a produzir ouriços com castanhas.

O ouriço e a casca

A castanha-do-Brasil é produzida no interior de frutos lenhosos conhecidos como ouriços, que caem naturalmente ao solo durante a época de safra. Um ouriço típico tem formato arredondado, medindo cerca de 10 a 15 cm de diâmetro e pesando até 2,5 kg ou mais. Dentro de cada ouriço estão de 10 a 25 castanhas.

A casca do ouriço é rígida, servindo para proteger as castanhas enquanto o fruto está na árvore. Ao abrir o ouriço, encontra-se uma casca interna muito dura e lenhosa que envolve as amêndoas (as castanhas). Essa casca é extremamente resistente — razão pela qual é necessário uso de ferramentas ou processamento industrial para a retirada das sementes.

Etapas da cadeia produtiva

1 – Coleta e pós-coleta

A coleta do fruto começa quando os ouriços caem naturalmente no chão da floresta, geralmente entre os meses de dezembro e março, coincidindo com a estação mais chuvosa na Amazônia.

Os extrativistas, muitas vezes famílias ribeirinhas ou comunidades tradicionais, percorrem longas distâncias na floresta para localizar e recolher os ouriços no solo. Nessa época, a umidade relativa do ar é muito alta, o que significa que os frutos caídos podem ficar muito úmidos e suscetíveis à ação de fungos e microrganismos.

Após a coleta, os ouriços são levados para locais secos, e as amêndoas (as castanhas) são extraídas manualmente. Neste estágio, a rapidez na retirada da semente é importante para reduzir a umidade e minimizar o risco de proliferação de fungos, especialmente o Aspergillus flavus, que pode produzir aflatoxinas — toxinas altamente carcinogênicas, associadas a riscos de saúde se consumidas em excesso.

2 – Secagem

A secagem é uma etapa crítica para garantir a qualidade microbiológica da castanha­-do­-Brasil. Ela reduz a umidade e a atividade de água, criando um ambiente desfavorável à proliferação de fungos, bactérias e outros microrganismos que podem comprometer a segurança e a conservação do alimento.

A secagem pode ser feita ao sol, em fornos rotativos ou em sistemas de convecção controlada, dependendo da infraestrutura local. O objetivo é alcançar um teor de umidade seguro para o armazenamento sem comprometer as qualidades sensoriais e nutricionais da castanha.

3 – Seleção e classificação

Uma vez secas, as castanhas passam pela etapa de seleção, que consiste em retirar:

  • Castanhas mofadas ou com sinais de deterioração, que podem indicar presença de aflatoxinas;
  • Fragmentos de casca ou pedaços de casca quebrada. As cascas oferecem perigos físicos no processamento porque seus fragmentos rígidos podem danificar equipamentos ou mesmo causar ferimentos se não forem removidos adequadamente.

A seleção pode ser feita manualmente ou com auxílio de equipamentos que detectam peso, cor e tamanho. Esse processo é essencial para garantir um produto final seguro, limpo e próprio para consumo ou exportação.

A castanha-do-Pará tem enormes benefícios nutricionais e econômicos, mas precisa de cuidados específicos durante sua coleta e processamento para garantir qualidade e segurança. O conhecimento sobre esses processos, tão pouco debatido fora da região amazônica, ajuda a valorizar ainda mais esse alimento único.

Você sabia de todos esses cuidados que envolvem a produção dessa castanha tão especial?

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“Gororoba narrada”: por que um turista pode adoecer com comida de rua e um local não?

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Sempre me divirto muito assistindo aos vídeos chamados “gororoba narrada”, aqueles em que cenas de comida de rua na Ásia, especialmente na Índia, exibem preparo com higiene aparentemente duvidosa.

É tão esdrúxulo que vira comédia: bolinhos sendo moldados nas axilas, massas sendo manipuladas sobre o chão, roedores passando, alimentos expostos ao ar livre em meio à poeira urbana intensa, frituras reutilizando óleo por longos períodos, utensílios compartilhados entre ingredientes crus e prontos, recipientes de molhos abertos à beira da rua e, em alguns casos que viralizam nas redes, situações ainda mais extremas que só assistindo para acreditar.

O contraste entre essas cenas, que para muitos espectadores ocidentais soam quase como um “desafio imunológico”, e o fato de populações locais consumirem esses alimentos diariamente sem aparente alarme imediato torna-se ainda mais evidente quando viajantes que se arriscam acabam adoecendo, às vezes seriamente, enquanto os habitantes parecem sofrer pouco ou nada com isso.

Pois é justamente esse cenário que serve de ponto de partida para uma discussão técnica séria sobre exposição microbiana, adaptação imunológica e a diferença entre risco real e percepção cultural de risco sanitário. Este artigo explora os fatores que contribuem para essa discrepância, tomando como base evidências sobre a diarreia do viajante, adaptação imunológica e microbiota intestinal.

A diarreia do viajante (DV) é a doença infecciosa mais comum entre pessoas que viajam internacionalmente para regiões com níveis sanitários mais baixos.

Região / Países típicos % DV – Alto risco % DV – Turista urbano Patógenos mais comuns Observações / Fatores de risco
Sul da Ásia (Índia, Paquistão, Nepal, Sri Lanka) 50–60% 10–20% ETEC (50–60%), Campylobacter (10–15%), Shigella (5–10%), Giardia lamblia (5–10%), Norovírus (2–5%) Risco alto em áreas rurais, mercados de rua e água não tratada; turistas urbanos em hotéis seguros têm risco baixo
África Subsaariana (Quênia, Tanzânia, Nigéria) 55–70% 10–15% ETEC (50–60%), Shigella (10–15%), Salmonella (5–10%), Giardia lamblia (5–10%), Entamoeba histolytica (2–5%) Risco alto para mochileiros e viajantes rurais; surtos bacterianos e parasitários frequentes
América Latina (Peru, México, Colômbia, Bolívia) 30–50% 5–15% ETEC (50–60%), Shigella (5–10%), Salmonella (5%), Giardia lamblia (5–10%), Norovírus (2–5%) Maior risco em viajantes mochileiros; turistas urbanos têm risco intermediário; água e comida de rua são fatores principais
Oriente Médio (Egito, Jordânia, Emirados Árabes) 30–55% 5–10% ETEC (50–60%), Salmonella (5–10%), Shigella (5–10%), Giardia lamblia (2–5%), Norovírus (2–5%) Risco depende da região e tipo de hospedagem; alimentos de rua e água não tratada aumentam risco
Sudeste Asiático (Tailândia, Vietnã, Indonésia) 40–60% 10–15% ETEC (50–60%), Campylobacter (10–15%), Shigella (5–10%), Giardia lamblia (5–10%), Norovírus (2–5%) Alto risco em viajantes que consomem alimentos de rua e frutos do mar crus
Caribe / América Central (República Dominicana, Cuba, Panamá) 20–40% 5–10% ETEC (50–60%), Giardia lamblia (5–10%), Salmonella (5%), Norovírus (2–5%) Risco moderado; água e comida de rua são fatores principais
Ásia Central (Uzbequistão, Cazaquistão) 30–50% 5–10% ETEC (50–60%), Shigella (5–10%), Giardia lamblia (5%) Risco intermediário; mais em áreas rurais e pequenas cidades

Fonte: Dados compilados a partir de revisões científicas e guias de medicina de viagem, incluindo Atlas da Saúde, TravelHealth Pro, StatPearls, MSD Manuals, Ministério da Saúde do Brasil e publicações especializadas em diarreia do viajante. Os percentuais representam a incidência média estimada de diarreia em viajantes em turistas que se expõem a comida de rua durante as duas primeiras semanas em cada região (geral e área urbana), e os patógenos listados refletem os agentes bacterianos, virais e parasitários mais comumente identificados em estudos epidemiológicos. A distribuição regional considera fatores de exposição, como tipo de hospedagem, consumo de água e alimentos de rua. 

No quadro, os percentuais representam estimativas de risco médio de diarreia durante as duas primeiras semanas de viagem, não números absolutos de atendimentos clínicos e podem variar conforme a região, tipo de viagem e hábitos de consumo, mas refletem a distribuição média encontrada em estudos de medicina de viagem, sendo que % Alto Risco indica viajantes expostos a água e alimentos de risco e % Turista Urbano indica viajantes com cuidados básicos de higiene e hospedagem segura.

Estes números mostram que um turista pode adoecer apenas por entrar em contato com alimentos ou água contaminados, mesmo sem exposições extremas. Na maioria dos casos, a diarreia do viajante é causada por microrganismos transmitidos pela via fecal-oral, sendo que:

Contudo, a exposição repetida a microrganismos desde a infância estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos específicos contra agentes repetidamente encontrados, assim como uma resposta imunológica mais moderada a patógenos que para um turista seriam totalmente desconhecidos.

Pessoas que retornam frequentemente a destinos de alto risco têm menor probabilidade de apresentar DV em comparações posteriores, um sinal indireto de imunidade adaptativa adquirida pela exposição.

Além disso, a microbiota intestinal, ou seja, a comunidade de microrganismos que habita nosso intestino, também atua como um guia de defesa, uma vez que compete com microrganismos invasores e mantém equilíbrio que dificulta a colonização por patógenos. Esta microbiota varia significativamente entre populações com diferentes exposições ambientais.

Pessoas que vivem em ambientes microbiologicamente ricos tendem a ter microbiotas mais diversas e resilientes, o que reduz a chance de colonização por patógenos entéricos que causam DV.

O Índice de Diversidade de Shannon é uma métrica matemática usada para medir diversidade biológica, incluindo diversidade de microbiota intestinal. Ele considera dois componentes:

  • Riqueza: número de espécies presentes;
  • Equitabilidade: quão equilibrada é a distribuição entre essas espécies.

A fórmula é:

onde pi = proporção da espécie i na comunidade.

Figura: Conceito baseado no Índice de Diversidade (Shannon) – Diversidade Microbiana versus Tempo de Exposição Ambiental:

Interpretação técnica da figura:

  • Populações locais expostas cronicamente a ambientes com maior carga microbiana tendem a apresentar índices de Shannon frequentemente entre ~3,5 e 4,5, conforme observado em estudos comparando microbiota rural vs urbana;
  • Indivíduos provenientes de ambientes altamente higienizados podem apresentar valores médios entre ~2,0 e 3,0, dependendo da dieta e histórico de antibióticos.

Maior diversidade está associada a competição ecológica contra patógenos, maior estabilidade do ecossistema intestinal e menor probabilidade de colonização sustentada por ETEC e outros agentes de diarreia do viajante.

Esse gráfico simplificado sugere, portanto, que a microbiota local tende a ser mais diversificada devido à exposição contínua; em contraponto, a microbiota de um viajante costuma ser menos diversificada para microrganismos locais, facilitando desequilíbrios e doenças.

Por isso, o contraste entre um turista que fica doente ao comer comida de rua e um local aparentemente saudável não é sorte ou coincidência, mas o resultado de fatores biológicos reais, incluindo:

  • Imunidade adquirida ao longo do tempo;
  • Microbiota intestinal adaptada ao ambiente local;
  • Exposição repetida a agentes microbianos desde a infância.

Mesmo assim, ninguém está totalmente imune. Tanto moradores quanto visitantes podem adoecer, especialmente em surtos ou exposições intensas. A diferença principal está na probabilidade e na severidade média das respostas imunológicas.

Diante de tudo isso, imunidade adaptativa, microbiota resiliente, índice de Shannon, talvez a conclusão mais prudente seja simples: se o seu intestino foi educado em ambiente altamente pasteurizado e climatizado, talvez não seja sábio testá-lo subitamente contra um “buffet ecológico” de rua a 40°C sob poeira urbana intensa.

Viajar para países com maior risco de DV não significa evitar a culinária local, mas adotar práticas de segurança que reduzem a probabilidade de doença, o que inclui:

  1. Prefira alimentos bem cozidos e quentes – Cozinhar a altas temperaturas elimina bactérias, vírus e parasitas; pratos quentes indicam preparo recente;

  2. Evite saladas e frutas não descascadas – Podem ter sido lavadas com água contaminada; prefira frutas que você possa descascar ou alimentos cozidos;

  3. Beba água engarrafada ou purificada – Água local pode conter microrganismos perigosos; use sempre lacrada ou fervida;

  4. Lave as mãos frequentemente – Antes e depois de comer, para evitar contaminação via mãos. Use álcool em gel se não houver sabão;

  5. Evite gelo em bebidas – Gelo feito com água não confiável pode transmitir doenças, peça bebidas sem gelo ou com gelo seguro;

  6. Escolha vendedores com muitos clientes – Barracas com muitos clientes indicam rotatividade rápida, reduzindo o risco de alimentos armazenados por muito tempo;

  7. Observe higiene do local e do vendedor – Utensílios limpos, mãos limpas e ausência de insetos são bons sinais de segurança;

  8. Prefira comidas simples e locais – Pratos feitos com ingredientes locais frescos costumam ser mais seguros que misturas exóticas desconhecidas;

  9. Evite alimentos crus de origem duvidosa – Ostras, sushi, carnes mal passadas e molhos caseiros podem ser riscos elevados em países com saneamento precário;

  10. Fique atento a sinais de risco – Cheiro ruim, aparência estranha ou armazenamento em locais sujos são alertas claros para não consumir;

  11. Atenção a alimentos em expositores – Molhos ou cremes deixados fora da refrigeração entram na “zona de perigo” (5–60°C), favorecendo crescimento bacteriano. Por isso, prefira itens mantidos refrigerados ou preparados na hora.

A ciência explica muita coisa, mas não negocia com a pressa do turista faminto, portanto, se a curiosidade for maior que a coragem imunológica, a alternativa mais segura continua sendo apreciar essas aventuras gastronômicas à distância, pelo Instagram, assistindo à boa e velha “gororoba narrada”, e dar risadas confortavelmente hidratado, no ar condicionado, com seu microbioma intacto.

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Qual o risco de contaminação por Listeria monocytogenes na indústria de atomatados?

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A Listeria monocytogenes é um microrganismo patogênico amplamente distribuído no ambiente, podendo ser encontrada no solo, água, matéria orgânica em decomposição e superfícies industriais. Na indústria de alimentos, destaca-se como um perigo biológico relevante devido à sua capacidade de sobreviver em ambientes úmidos, formar biofilmes e multiplicar-se sob refrigeração.

No contexto da indústria de atomatados — como polpa de tomate, extrato, molho e tomate pelado — o risco associado a Listeria apresenta características específicas que devem ser avaliadas tecnicamente dentro da análise de perigos do APPCC.

Características do produto e impacto no risco

Os derivados de tomate são, em geral, alimentos naturalmente ácidos, com pH variando entre 4,0 e 4,5. Essa condição é um fator intrínseco de controle, pois a multiplicação de Listeria monocytogenes é inibida em pH inferior a 4,4. Além disso, os atomatados normalmente passam por tratamento térmico (pasteurização ou esterilização comercial), o que elimina células vegetativas do microrganismo.

Dessa forma, quando o processo térmico é devidamente validado e o pH é mantido dentro das especificações, o risco de presença do patógeno no produto final é considerado baixo.

Principal fonte de risco: contaminação pós-processo

Embora o produto apresente barreiras naturais e tecnológicas eficazes, o risco mais relevante está relacionado à contaminação ambiental e à possível recontaminação após o tratamento térmico, especialmente nas áreas de envase.

Listeria monocytogenes possui elevada capacidade de persistência ambiental, podendo colonizar:

  • Ralos e sistemas de drenagem
  • Pisos e áreas úmidas
  • Equipamentos de difícil higienização
  • Estruturas com condensação
  • Pontos com acúmulo de resíduos orgânicos

A formação de biofilmes aumenta a resistência do microrganismo aos procedimentos de higienização, tornando essencial a implementação de um Programa de Monitoramento Ambiental baseado em risco.

Pontos Críticos na indústria de atomatados

Os principais pontos de atenção incluem:

  • Área de descarga ao ar livre, devido ao contato com solo e matéria orgânica
  • Área de seleção e manipulação da matéria-prima
  • Área de envase, especialmente após esterilização
  • Lavagem de tambores ou embalagens retornáveis
  • Controle de condensação em ambientes fechados

A segregação entre áreas sujas e áreas limpas, o controle de fluxo de pessoas e materiais, e a higienização validada são medidas fundamentais para prevenção.

Enquadramento no Sistema APPCC e FSSC 22000

Na maioria das indústrias de atomatados esterilizados, Listeria monocytogenes é controlada principalmente por:

  • PCC: tratamento térmico validado, com monitoramento rigoroso
  • PPRO: controle sistemático de pH
  • Programas robustos de Pré-Requisitos (BPF e higienização)
  • Monitoramento ambiental estruturado, baseado em análise de risco
  • Zoneamento higiênico e controle de fluxo

A gestão adequada desses controles garante conformidade com os requisitos da segurança de alimentos e reduz significativamente o risco de contaminação do produto acabado.

Dentro do esquema FSSC 22000, o controle de Listeria está fortemente relacionado ao requisito adicional de monitoramento ambiental, especialmente quando há produção de alimentos prontos para consumo.

Resumindo: Listeria monocytogenes na indústria de atomatados não é considerado um perigo intrínseco elevado devido ao pH ácido do produto e ao tratamento térmico aplicado. Entretanto, o microrganismo representa um risco ambiental significativo, principalmente em áreas úmidas e no pós-processamento.

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O maior surto de botulismo infantil dos EUA: lições de uma crise que atingiu mais de 50 bebês — Parte 3/3

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Chegamos ao último post que nos coloca a par do maior surto de botulismo já registrado na história – apesar de ocorrer nos Estados Unidos, lembre-se de que o produto era comercializado também no Brasil. O que sabemos até o momento? Quais foram os esforços internacionais e qual o impacto deste surto no futuro? Para acessar os outros posts desse assunto, acesse aqui e aqui.

O que se sabe, esforços internacionais e perspectiva de futuro

Como resposta ao surto, a FDA está trabalhando em conjunto com especialistas internacionais e entidades de padronização para avaliar o risco do Clostridium botulinum em fórmulas infantis, enquanto investiga a origem desse surto específico. Além disso, estão analisando os ingredientes lácteos da cadeia de suprimentos e ampliando o conhecimento científico sobre esta bactéria. Já fortaleceram a comunicação com a indústria, consumidores e órgãos de saúde, visando minimizar riscos futuros e garantir a segurança das fórmulas infantis. No entanto, os resultados das investigações até agora não foram conclusivos, e o nome do fornecedor do leite em pó não foi revelado.

É sabido que os esporos de Clostridium botulinum estão presentes em baixos níveis em diversos alimentos, e a presença deles não implica necessariamente em risco, pois nem todos são viáveis para provocar a doença. No entanto, a bactéria é extremamente resistente e consegue sobreviver a pasteurização convencional e a condições ambientais desfavoráveis por longos períodos, graças a um esporo protetor, o que significa que os esporos podem não ser eliminados durante o processamento.

A Agência está empenhada em entender melhor os fatores que levaram a este surto e busca preencher as lacunas no conhecimento científico sobre o Clostridium botulinum. Na 55ª Sessão do Codex Committee on Food Hygiene, sugeriu-se que a JEMRA — reunião conjunta de especialistas da FAO e da OMS — conduza uma avaliação de risco microbiológico voltada a patógenos formadores de esporos, como Clostridium botulinum e Bacillus cereus, em fórmulas infantis em pó. Da mesma forma, foram requeridas outras orientações sobre medidas de controle na fabricação de fórmulas infantis, desde a produção inicial e embalagem até a reconstituição do produto, englobando o monitoramento ambiental. O encontro ocorreu de 15 a 19 de dezembro de 2025, na cidade de Nashville, nos Estados Unidos.

Em resposta, a FAO e a OMS fizeram um apelo internacional, inclusive com abertura de seleção de vagas de especialistas que queiram contribuir com conhecimento científico na avaliação de risco microbiológico destas fórmulas. Os dados servirão como subsídios para o desenvolvimento de pareceres científicos que orientarão a revisão dos documentos atuais do Codex Alimentarius e a elaboração dos textos pertinentes. O esforço é global para entender melhor os riscos de patógenos formadores de esporos. Além disso, busca-se estimar a carga de doenças atribuíveis a esses microrganismos e suas toxinas associadas ao consumo de fórmulas. Também se pretende determinar a prevalência e os níveis de contaminação desses patógenos desde a produção até o momento do consumo. Além disso, solicitaram que governos, indústria, academia, laboratórios e quaisquer outras organizações e indivíduos interessados enviem quaisquer dados e informações disponíveis que possam contribuir para este trabalho até 15 de maio. A avaliação dos candidatos será realizada em 15 de março de 2026, até que se tenha um número suficiente de candidatos interessados.

Com o objetivo de estabelecer estratégias para reduzir riscos e garantir a segurança da fórmula infantil em pó no futuro, a FDA lançou a página intitulada “Ações da FDA para Responder a Doenças Causadas por Clostridium botulinum Associadas ao Consumo de Fórmula Infantil em Pó”.

Todas as fórmulas infantis deverão realizar análise para Clostridium?

Os Estados Unidos iniciaram, em fevereiro, testes extensivos dos componentes utilizados em fórmulas infantis. De acordo com o FDA, ingredientes como leite em pó e concentrado de proteína de soro de leite serão analisados para identificar esporos de Clostridium botulinum. O objetivo é avaliar se a infecção bacteriana causadora do botulismo deve ser classificada como um risco previsível, permitindo que as empresas a integrem de forma proativa em seus procedimentos de inspeção. Como esses esporos nunca foram considerados contaminantes, os fabricantes de fórmulas infantis não eram obrigados a testá-los. As autoridades podem usar a análise para determinar os próximos passos.

As empresas podem ser obrigadas a verificar a presença de esporos de Clostridium botulinum. Não se sabe se houve alterações na produção desta fórmula infantil ligada ao surto ou se o risco de contaminação por essa bactéria foi ignorado ao longo do tempo. A Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) espera obter a resposta por meio desta série de testes.

Não existem detalhes sobre a continuidade da fabricação da fórmula infantil pela ByHeart. A empresa não se pronunciou sobre o assunto, porém interrompeu as operações até que a investigação seja finalizada. A fábrica foi inspecionada pela FDA, porém o resultado não foi tornado público.

Conclusão

Neste caso único de botulismo infantil nos Estados Unidos, as autoridades estão realizando uma investigação conjunta sem precedentes. Ela envolve a FDA, o CDC, o IBTPP do CDPH, além de especialistas estaduais, locais e internacionais. Isso evidencia a necessidade de um esforço coletivo no enfrentamento ao botulismo. Também evidencia que o surto poderia ter sido internacional. Os dados foram divulgados de forma transparente em sites oficiais do governo dos Estados Unidos. A empresa de fórmula infantil ByHeart Whole Nutrition participa ativamente da pesquisa.

Em 2023, a FDA expressou preocupação com as áreas de produção de fórmulas infantis em pó ao enviar uma carta à indústria alertando sobre os riscos biológicos conhecidos ou razoavelmente previsíveis, como a bactéria Clostridium botulinum. Durante o atual surto e após a realização de testes especializados na fórmula infantil ByHeart, incluindo análises genéticas, o microrganismo identificado mostrou-se compatível com o C. botulinum presente no produto final. Isso indica que a contaminação detectada pode estar relacionada à cadeia de suprimentos e aos casos de botulismo registrados, sugerindo que a origem da contaminação pode estar na cadeia de suprimentos.

O desfecho ainda é desconhecido. As investigações continuam e não se sabe se a ByHeart pretende suspender a produção da fórmula. Também não se sabe se os fabricantes de fórmulas infantis em pó terão que realizar análises de C. botulinum a partir de agora, considerando-o um risco previsível. No entanto, é provável que as autoridades de padronização avaliem este risco nessas fórmulas. Cientificamente, o entendimento sobre o Clostridium botulinum está sendo expandido com o objetivo de minimizar riscos futuros e assegurar a segurança deste produto.

O surto foi rapidamente contido e não se espalhou além dos Estados Unidos, mesmo com o produto sendo vendido em 22 países. Não houve registro de casos internacionais. O governo se manifestou publicamente, orientando pais e responsáveis a descartar todos os lotes produzidos pela empresa em um recall internacional. Além disso, forneceu instruções aos médicos sobre como diagnosticar o botulismo, demonstrando seu compromisso com a população e a saúde pública. Foi rigoroso com os varejistas que continuavam vendendo o produto mesmo após o recolhimento. Reconheceu-se a ocorrência de um surto de botulismo infantil sem precedentes no país, uma vez que nenhum país encontra-se livre. No entanto, foi demonstrado um controle ágil e eficaz. As medidas são verdadeiramente inspiradoras para qualquer país do mundo, servindo como uma aula sobre botulismo e controle sanitário para quem quiser aprender. Obrigada pelo mergulho no tema!

Doralice Goes é  mestranda em Segurança dos Alimentos pela UFSJ, sobreviveu ao botulismo alimentar em 2022 e, desde então, dedica-se ao estudo da doença, monitora casos globais, faz palestras na indústria e é autora de livro sobre o botulismo.

5 min leituraChegamos ao último post que nos coloca a par do maior surto de botulismo já registrado na história – apesar de ocorrer nos Estados Unidos, lembre-se de que o produto […]

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O maior surto de botulismo infantil dos EUA: lições de uma crise que atingiu mais de 50 bebês — Parte 2/3

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Sejam bem-vindos à segunda parte da trilogia sobre o surto incomum de botulismo infantil que atinge os Estados Unidos (para ler o primeiro post, clique aqui).

A seguir, examinaremos a composição da fórmula infantil, os resultados da análise laboratorial, o fabricante da fórmula e como os Estados Unidos supervisionam a fabricação desse produto.

Análise na fórmula infantil

A empresa e o FDA começaram a testar o produto, e os resultados iniciais do laboratório divulgados pelo CDPH indicaram a presença de Clostridium botulinum em uma lata aberta da fórmula infantil fornecida a um bebê diagnosticado com botulismo. A ByHeart comunicou que análises laboratoriais independentes, conduzidas nas amostras de produtos de fórmula infantil lacrados e mantidos em suas instalações, detectaram a presença de Clostridium botulinum. A maioria das amostras analisadas pela FDA apresentou resultado preliminar negativo quanto à presença da bactéria, e todos os resultados positivos em produtos finalizados começaram a ser comunicados. Desde 10 de dezembro de 2025, não houve registro de nenhum novo caso.

Em seguida, a ByHeart divulgou resultados positivos para Clostridium botulinum em seis das 36 amostras do produto final, coletadas de dois lotes que estavam no recall inicial do produto. Em 26 de janeiro de 2025, foi determinada a origem da contaminação em cepa de um ingrediente; no entanto, tanto a FDA quanto os CDC não divulgaram o nome do fabricante.

Em 23 de janeiro de 2026, a FDA confirmou que duas amostras apresentaram resultado positivo para Clostridium botulinum tipo A. A primeira amostra, obtida de uma embalagem selada de fórmula infantil da ByHeart, foi submetida à análise de sequenciamento de genoma completo (WGS). Os resultados mostraram que a bactéria identificada é geneticamente idêntica ao microrganismo isolado de um bebê internado durante o surto. Além disso, corresponde a dois isolados encontrados em leite em pó integral, ingrediente usado na fabricação da fórmula e previamente analisado pela empresa. A segunda amostra foi obtida de um fornecedor da ByHeart e examinada pelo Laboratório Wadsworth, localizado em Nova York. De acordo com a análise genética, o microrganismo encontrado é compatível com o Clostridium botulinum identificado no produto final da fórmula infantil da ByHeart. Isso reforça a conexão entre a contaminação detectada no produto e a cadeia de suprimentos.

As análises confirmam que a contaminação tem origem na cadeia de suprimentos, e provavelmente é ligada ao leite em pó integral. Isso possibilita que as autoridades façam uma ligação científica entre o bebê enfermo, o produto ingerido, o componente e o fornecedor. Apesar de esses resultados melhorarem o entendimento da FDA sobre o surto, a investigação prossegue para identificar a origem da contaminação. No entanto, a detecção de C. botulinum em fórmulas infantis ou em seus componentes é complexa, e os resultados podem demorar várias semanas. Os esporos termorresistentes necessitam de uma ativação específica para serem identificados, e os exames para esta bactéria em fórmulas infantis são especializados, com resultados finais que demandam testes confirmatórios. Ademais, há um número restrito de laboratórios que possuem equipamentos e recursos especializados.

Quem é a ByHeart e quais são os componentes da sua fórmula infantil?

Estabelecida em 2016 pelos irmãos Mia Funt e Ron Belldegrun, com sede em Nova York, a empresa lançou sua primeira fórmula infantil em março de 2022, durante uma escassez desse produto nos Estados Unidos. A companhia foi a primeira nova fabricante de fórmulas infantis registrada pela FDA em mais de 15 anos. A fórmula infantil Whole Nutrition da ByHeart é composta por uma combinação de proteínas patenteada, desenvolvida para imitar o leite materno humano, utilizando leite integral orgânico de vacas alimentadas em pasto. Ele possui lactoferrina, alfa-lactalbumina, uma relação de 80:20 entre soro e caseína similar à do colostro, lactose como único carboidrato, proteínas parcialmente hidrolisadas, prebióticos orgânicos e os ácidos graxos DHA e ARA. A fórmula não contém xarope de milho, glúten, transgênicos, maltodextrina, soja, DHA extraído de hexano, hormônios artificiais de crescimento nem óleo de palma.

A fórmula tinha como objetivo promover a inovação necessária no mercado de nutrição infantil de próxima geração – o futuro da nutrição. Ela oferecia melhorias como digestão mais simplificada, redução de regurgitação, ganho de peso mais eficiente e desenvolvimento cerebral. Além disso, recebeu milhões em financiamento. Em 2022, a empresa lançou uma plataforma própria para suporte à nutrição e alimentação.

Entre 2023 e 2024, a ByHeart expandiu rapidamente sua presença no varejo americano, passando por redes como Target, Whole Foods Market, Wegmans, Publix e Walmart, até atingir quase 12 mil pontos de venda. Em dezembro de 2024, a companhia fortaleceu sua governança com a inclusão de Denice Torres, ex-executiva da Johnson & Johnson, no conselho. Em maio de 2025, foi lançada a embalagem portátil para alimentação infantil chamada “Anywhere Pack”. De acordo com a FDA, embora os produtos da ByHeart sejam amplamente distribuídos, eles correspondem a menos de 1% do mercado de fórmulas infantis nos EUA.

Apesar de ter sido a primeira fórmula infantil nos EUA a conquistar o Prêmio de Pureza do Clean Label Project, que analisa produtos para identificar mais de 500 possíveis contaminantes, como metais pesados e pesticidas, sua fórmula esteve envolvida em outro caso de contaminação bacteriana em 2022. O contaminante foi o Cronobacter sakazakii, responsável por infecções graves e potencialmente fatais, como sepse ou meningite. A companhia efetuou um recall voluntário de cinco lotes da fórmula. Não houve registro de reclamações de consumidores relacionadas a doenças.

Entre dezembro de 2022 e fevereiro de 2023, a FDA inspecionou as instalações da ByHeart em Reading, Pensilvânia, assim como as da Mead Johnson Nutrition (Reckitt) e da Perrigo Wisconsin, LLC. Após as inspeções, foram emitidas cartas de advertência mencionando violações das normas relacionadas a fórmulas infantis. No entanto, a FDA não recomendou que pais e cuidadores descartassem ou evitassem a compra de nenhuma fórmula infantil específica. A agência não teve conhecimento de nenhum produto distribuído em que a contaminação tenha sido confirmada e considera que os recalls foram eficientes para retirar os lotes possivelmente contaminados do mercado.

A advertência indicou que a fábrica apresentava condições insalubres e apontou falhas no programa de monitoramento ambiental da instalação. Isso incluía vazamentos de águas provenientes de fora do prédio, que se dirigiam às áreas de produção por meio de uma clarabóia instalada no telhado da sala de processamento, onde o produto testou positivo para Enterobacter Sakazakii. Além disso, foi detectado outro vazamento no selante ao redor da persiana da torre de secagem, com a presença de Cronobacter spp.

Os relatórios de inspeção da Food and Drug Administration apontaram problemas graves no local da empresa nesta fábrica. Além do vazamento no telhado, foi identificado mofo em um tanque destinado à água limpa. Em 11 de dezembro de 2023, um inspetor notou que “moscas zumbiam acima de uma área crítica da produção de fórmulas”. Na mesma região, o inspetor registrou a presença de mais de 2.500 insetos voadores mortos próximos a três armadilhas de luz destinadas a insetos. Além disso, de acordo com o relatório, a fábrica descumpriu suas normas de manutenção das temperaturas essenciais para eliminar bactérias da fórmula antes de enviá-la para embalagem. No entanto, não houve notificação e a fórmula foi enviada aos clientes. A inspeção foi classificada pela FDA como tendo o mais alto nível de preocupação.

Em uma carta datada de 8 de março de 2023, a FDA expressou preocupação com as áreas de produção de fórmulas infantis em pó. Destacou que os fabricantes devem identificar e levar em consideração todos os riscos biológicos conhecidos ou razoavelmente previsíveis, incluindo a bactéria Clostridium botulinum. A Byheart foi mencionada na carta de advertência em razão da inspeção realizada em fevereiro de 2023. Em 30 de agosto de 2023, a empresa recebeu outra advertência e apresentou diversos planos de ação corretiva em resposta.

Como a FDA supervisiona a segurança e a qualidade nutricional das fórmulas infantis?

A produção de fórmulas infantis nos Estados Unidos é regulamentada pela FDA, garantindo a segurança desses produtos. Fórmulas infantis constituem uma opção ao leite materno para a alimentação de bebês de até 12 meses, podendo ser o alimento exclusivo, sendo que a maioria dos bebês nos EUA depende dessas fórmulas para sua nutrição.

Os produtores de fórmulas infantis precisam atender às exigências pertinentes da Lei Federal de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos (Federal Food, Drug, and Cosmetic Act) e às que estão presentes nos regulamentos de implementação da FDA. Um fabricante que deseja vender uma nova fórmula infantil nos Estados Unidos precisa registrá-la, notificá-la e enviar à FDA uma declaração escrita atestando sua conformidade com as regulamentações.

Apesar de a Agência não aprovar fórmulas infantis, ela é responsável por analisar os requisitos quando notificada pelos fabricantes antes da venda. Esses requisitos abrangem segurança, adequação nutricional, embalagem e rotulagem. Quando não se aplica, a fórmula pode ser considerada alterada, rotulada de forma inadequada ou ambas as opções, e, nesse caso, pode ser sujeita a medidas coercitivas, como o recolhimento obrigatório. Aproximadamente 30 nutrientes devem estar presentes em quantidades mínimas, enquanto 10 deles devem estar em quantidades máximas. Além disso, qualquer um deles deve ser seguro e apropriado para esse propósito.

Além disso, há exigências específicas para rotular fórmulas infantis, e a agência realiza inspeções anuais nas instalações das fábricas. Todos os produtos de fórmula infantil comercializados nos Estados Unidos, tanto os fabricados internamente quanto os importados, precisam cumprir todas as normas americanas. As autoridades desaconselham o uso de fórmulas caseiras, pois elas podem aumentar o risco de contaminação ou não fornecer a quantidade adequada de cálcio.

A agência está cooperando com os fabricantes, que agora precisam ter planos de contingência para riscos.

Doralice Goes é mestranda em Segurança dos Alimentos pela UFSJ, sobreviveu ao botulismo alimentar em 2022 e, desde então, dedica-se ao estudo da doença, monitora casos globais, faz palestras na indústria e é autora de livro sobre o botulismo.

 

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O maior surto de botulismo infantil dos EUA: lições de uma crise que atingiu mais de 50 bebês — Parte 1/3

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Os Estados Unidos vivem o maior surto de botulismo infantil registrado – o primeiro do mundo associado a fórmulas para bebês desde que essa doença foi categorizada em 1976. O que podemos aprender com este surto? Convido você, leitor, a aprofundar-se no tema por meio de três publicações — o caso pode estabelecer um novo precedente na fabricação de fórmulas infantis.

O surto resultou em uma investigação conjunta envolvendo a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). A investigação foi realizada em parceria com o Programa de Tratamento e Prevenção do Botulismo Infantil (IBTPP) do Departamento de Saúde Pública da Califórnia (CDPH) e outros colaboradores estaduais e locais. A investigação foi relacionada à fórmula infantil ByHeart Whole Nutrition. Além disso, a empresa está colaborando com a investigação para determinar a causa raiz.

Mas qual foi a sequência temporal deste surto? Qual é o número de bebês afetados? Como foi realizado o recall? Descobriremos neste primeiro post.

Cronologia do surto, bebês afetados e recall

O primeiro alerta foi emitido pelo FDA e CDC em novembro de 2025, após um aumento nos casos de botulismo em bebês (13 casos), com a exposição à fórmula infantil sendo um fator comum. Todos os dias, novos bebês eram internados, e a Agência atualizava as informações em seu site, incluindo-as no Boletim de Alerta de Surto.

Em 19 estados (AZ, CA, ID, IL, KY, MA, ME, MI, MN, NC, NJ, OH, OR, PA, RI, TX, VA, WA, WI), 51 bebês foram impactados. Todos os 51 bebês foram internados e receberam tratamento com BabyBIG®, a antitoxina infantil. Além disso, muitos deles precisaram ser colocados em ventiladores para auxiliar na respiração. Não houve registro de mortes. Os bebês têm entre 16 e 264 dias de idade, e 22 deles (43%) são do sexo feminino. A contagem foi estendida para incluir casos de botulismo infantil registrados a partir de 24 de dezembro de 2023.

As autoridades foram informadas sobre esse conjunto de casos no dia 6 de novembro de 2025 e iniciaram a investigação. No dia 7 de novembro, recomendaram que a empresa realizasse o recolhimento voluntário de dois lotes do produto, e no dia 8 de novembro emitiram um alerta público aos consumidores. A empresa ByHeart realizou um recall voluntário, estendendo-o a todos os lotes de fórmula infantil e a todos os produtos, incluindo latas e sachês Anywhere Pack, em todo o país. Isso incluiu lojas físicas e online. A empresa ofereceu reembolso integral aos consumidores, suspendeu a produção dos alimentos e interrompeu as atividades de marketing, publicidade e parcerias com influenciadores.

O Departamento de Saúde Pública da Califórnia disponibilizou uma linha direta para ajudar cuidadores com dúvidas sobre o surto de botulismo infantil. O atendimento está disponível de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. Foi aconselhado aos pais e responsáveis que cessassem imediatamente o uso de fórmula infantil, que observassem os bebês que a consumiram e que procurassem assistência médica imediatamente se eles apresentassem sintomas. Ademais, foi recomendado que itens e superfícies que possam ter tido contato com a fórmula fossem higienizados com água quente e sabão ou na máquina de lavar louça. Os varejistas foram encorajados a garantir a coleta dos itens, incluindo os que foram retornados pelos clientes. Foi recomendado aos médicos que, ao suspeitar de algo, entrassem em contato imediatamente com a linha de suporte clínico do CDPH, que está à disposição 24 horas por dia, 7 dias por semana.

As empresas foram instruídas a não comercializar nem utilizar a fórmula infantil ByHeart Whole Nutrition que foi recolhida, além de lavar e higienizar itens e superfícies que possam ter entrado em contato com a fórmula recolhida. Os profissionais de saúde foram informados de que o diagnóstico inicial do botulismo infantil se fundamenta em sintomas clínicos e que devem iniciar o tratamento o mais rápido possível, sem aguardar a confirmação laboratorial. O botulismo infantil é uma doença que deve ser notificada obrigatoriamente. O departamento estadual de saúde deve ser informado sobre todos os casos suspeitos.

De acordo com informações dos consumidores da Amazon, a fórmula foi distribuída internacionalmente para 22 países. Isso inclui Argentina, Brasil, Brunei, Canadá, Chile, China, Colômbia, Equador, Egito, Hong Kong, Israel, Jamaica, Japão, Coreia do Sul, Peru, Filipinas, Romênia, Singapura, África do Sul, Tailândia e Ilhas Virgens Britânicas. Este recall internacional abrange todos os produtos ByHeart.

No Brasil, o produto era veiculado em anúncios em plataformas de comércio eletrônico. A Anvisa proibiu totalmente qualquer aspecto da fórmula infantil (comercialização, distribuição, importação, propaganda e uso). Além disso, determinou a apreensão de todos os lotes do produto em 14 de novembro de 2025 por meio da Resolução-RE nº 4.620 e emitiu a Comunicação de Risco nº 144/2025 – VISA. A medida foi motivada considerando a ausência de registro sanitário no país e o alerta do FDA.”

Em certos estados, famílias em situação de rua ou vulneráveis receberam latas doadas por meio de programas de assistência alimentar e habitacional, entre esses programas está o Departamento de Serviços Humanos do Oregon. A ByHeart informou que, desde junho de 2022, distribuiu quase 24.000 latas de fórmula, posteriormente recolhidas. E ao menos 30 famílias impactadas recorreram à Justiça, representadas pelo advogado especializado em segurança alimentar Bill Marler, que pediu ao tribunal a unificação dos casos. A ByHeart supostamente mantém 10 milhões de dólares em seguro de responsabilidade civil.

Apesar do recall internacional, quatro grandes varejistas não retiraram as fórmulas de suas prateleiras. Isso levou a FDA a emitir uma carta de advertência no dia 12 de dezembro e um comunicado à imprensa no dia 15 de dezembro, convocando os líderes da indústria alimentícia a cumprirem de forma eficaz os protocolos de recolhimento de produtos alimentícios estabelecidos pela Lei Federal.

Como acontece o botulismo infantil?

Segundo o CDC, o botulismo infantil é uma toxemia intestinal que ocorre após a ingestão de esporos da bactéria Clostridium botulinum ou de espécies associadas. Esses esporos colonizam temporariamente o intestino grosso do bebê e produzem a neurotoxina botulínica, que se liga às terminações nervosas colinérgicas e cliva proteínas intracelulares essenciais para a liberação de acetilcolina. Isso pode levar a paralisias bulbares, hipotonia e paralisia flácida simétrica e descendente. Esses esporos estão presentes naturalmente no ambiente, incluindo solo e sedimentos (poeira), e conseguem ser inseridos em ambientes de fabricação de alimentos e residenciais por meio de mãos, sapatos e outras superfícies contaminadas. Bebês podem consumir esporos de Clostridium botulinum presentes na comida ou no ambiente, tornando-os uma população vulnerável com risco de vida, enquanto crianças mais crescidas e adultos com sistemas digestivos desenvolvidos e saudáveis não são afetados.

A doença é rara, mas séria, e o diagnóstico é clínico, requerendo ação imediata, pois pode ser fatal entre bebês de 3 a 26 semanas, pois o organismo da criança, ainda em formação, não consegue combater a ação dessa bactéria tão letal. Nos EUA, é a principal causa de botulismo entre os estados. Uma das principais causas é a oferta de mel de abelha nas primeiras semanas de vida, que pode ser responsável por 5% dos casos de morte súbita em lactentes. Por isso, não se pode ofertar mel a bebês menores de 1 ano. Confira aqui um artigo anteriormente publicado neste blog sobre essa questão.

Os sintomas habituais surgem tanto de forma conjunta quanto isolada, e podem levar semanas após a ingestão do alimento. Começam com constipação, dificuldade para se alimentar (sugar e engolir), redução dos reflexos de sucção e vômito, ptose (pálpebra caída), reflexos vagarosos (ritmo diferenciado), choro fraco e alterado, expressão facial inexpressiva e falta de controle da cabeça. Isso pode progredir para problemas respiratórios e parada respiratória. Alguns pais dizem que seus bebês perderam o apetite.

No segundo post da trilogia, abordaremos a composição da fórmula infantil, os resultados das análises laboratoriais e o fabricante do produto. Até breve.

Doralice Goes é mestranda em Segurança dos Alimentos pela UFSJ, sobreviveu ao botulismo alimentar em 2022 e, desde então, dedica-se ao estudo da doença, monitora casos globais, faz palestras na indústria e é autora de livro sobre o botulismo.

 

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É preciso guardar a manteiga na geladeira?

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A manteiga é utilizada há mais de 4.000 anos, com registros na Mesopotâmia, Índia e Europa antiga. Historicamente, sempre foi um alimento sensível à deterioração, razão pela qual técnicas empíricas de conservação como salga, clarificação e armazenamento em ambientes frios, foram adotadas muito antes do conhecimento microbiológico moderno.

A manteiga é um produto lácteo obtido pela batedura do creme de leite, resultando na inversão da emulsão original (óleo em água) para uma emulsão de água em óleo, com predominância de gordura láctea.

Tecnicamente, trata-se de uma matriz composta por gordura contínua, contendo fase aquosa dispersa, onde se concentram sais, proteínas residuais e possíveis microrganismos.

Qual a legislação de referência?

  • IN MAPA nº 146/1996 (RTIQ da manteiga): define padrões de identidade e qualidade, mas não estabelece temperatura específica de armazenamento, exigindo apenas que o acondicionamento preserve identidade, qualidade e proteção contra contaminação.
  • RIISPOA – Decreto nº 9.013/2017: estabelece que é responsabilidade do fabricante garantir e comprovar a segurança, estabilidade e adequação do produto durante toda a validade, incluindo estudos de shelf life e coerência entre processo, registro e rotulagem.

Ou seja, a ausência de temperatura explícita não equivale a autorização automática para armazenamento em temperatura ambiente.

Principais riscos em segurança dos alimentos

Embora a manteiga tenha baixo teor de água total, os riscos em food safety não são desprezíveis, pois a fase aquosa residual pode permitir:

  1. Rancificação hidrolítica (atividade de lipases endógenas ou microbianas);
  2. Rancificação oxidativa, acelerada por oxigênio, luz e temperatura;
  3. Sobrevivência microbiana, especialmente de microrganismos psicrotróficos oriundos do leite cru ou do creme;
  4. Perda de identidade sensorial (odor, sabor e cor), impactando a qualidade e a segurança percebida.

A deterioração da manteiga é predominantemente química e enzimática, mas não exclui riscos microbiológicos quando há falhas de processo.

Formas tecnológicas de conservação da manteiga

As principais estratégias de conservação incluem:

  1. Refrigeração (até 10°C) – Reduz a velocidade das reações químicas e enzimáticas, diminui a taxa de oxidação lipídica e inibe o crescimento microbiano na fase aquosa dispersa da manteiga convencional, sendo o método mais seguro para esse produto;

  2. Salga – Atua pelo aumento da força iônica da fase aquosa dispersa, gerando efeito osmótico localizado que inibe parcialmente o crescimento microbiano, sem impedir reações oxidativas ou hidrolíticas e sem substituir a refrigeração;

  3. Controle de oxigênio e luz (embalagens barreira) – Limita a exposição ao oxigênio e à luz, reduzindo a oxidação lipídica. Não interfere na umidade, na atividade de água ou na atividade enzimática, portanto não constitui sistema de conservação isolado;

  4. Processos tecnológicos com redução de água (manteiga anidra, manteiga concentrada, butter oil) – Baseiam-se na remoção física da fase aquosa, resultando em redução efetiva da atividade de água (aw) a níveis incompatíveis com crescimento microbiano e com reações hidrolíticas;

  5. Tratamento térmico – permite a inativação de enzimas naturalmente presentes ou introduzidas durante o processamento, especialmente lipases (endógenas do leite e de origem microbiana), responsáveis pela rancificação hidrolítica, e, em menor grau, esterases associadas à degradação de triglicerídeos. Também pode reduzir a atividade de fosfatases residuais e de enzimas microbianas termossensíveis que contribuem para a deterioração.

A inativação enzimática, aliada à redução de água, confere alta estabilidade microbiológica e oxidativa, permitindo, quando devidamente validado, o armazenamento em temperatura ambiente.

Manteiga fora da geladeira: há problema?

A manteiga convencional não constitui um sistema de conservação em si, e o simples envase em lata metálica não elimina os riscos de deterioração, atuando apenas como barreira à luz e, parcialmente, ao oxigênio.

Em temperatura ambiente, ocorre aceleração da oxidação lipídica, com maior probabilidade de perda de identidade, qualidade e características sensoriais ao longo do tempo.

Os frascos ou manteigueiras projetados para reduzir o contato da manteiga com o oxigênio, chamados no Brasil de manteigueira francesa, atuam apenas como barreira física à luz e ao ar, contribuindo para retardar a rancificação oxidativa e a absorção de odores, com impacto limitado na qualidade sensorial a curto prazo. 

No entanto, não interferem na umidade, não inativam enzimas e não controlam a fase aquosa da manteiga, onde se concentram os principais riscos de deterioração.

Assim, do ponto de vista técnico e de food safety, não constituem um sistema de conservação, nem substituem refrigeração ou processo tecnológico validado, sendo adequados apenas como solução doméstica temporária após a abertura do produto.

O armazenamento em temperatura ambiente só é tecnicamente justificável para produtos como manteiga concentrada, manteiga anidra ou butter oil, nos quais a fase aquosa é praticamente eliminada, ocorre inativação enzimática e a atividade de água torna-se incompatível com o crescimento microbiano, com estabilidade comprovada por estudos analíticos.

Para a manteiga convencional, a conservação é significativamente ampliada apenas sob refrigeração, preferencialmente abaixo de 10°C, condição na qual se reduzem as reações oxidativas e enzimáticas.

Conclusão

Sim, manteiga deve ser guardada na geladeira, salvo para exceções tecnológicas específicas.

Sob a ótica da segurança dos alimentos, a manteiga é um produto sensível à deterioração, cuja estabilidade depende diretamente de controle de umidade, oxidação, temperatura e processo tecnológico.

A legislação brasileira não fixa temperatura de armazenamento, mas transfere ao fabricante a responsabilidade técnica e legal pela segurança do produto.

Manter manteiga convencional fora da refrigeração, apenas com base na embalagem, não é tecnicamente robusto nem plenamente defensável, enquanto produtos com redução efetiva da fase aquosa apresentam estabilidade ambiente comprovada quando corretamente processados, registrados e rotulados.

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Surtos alimentares no Brasil – dados de 2014 a 2023

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As doenças transmitidas por alimentos, mais comumente conhecidas como DTA, são causadas pela ingestão de água ou alimentos contaminados. Existem mais de 250 tipos de DTA e a maioria são infecções causadas por bactérias, vírus e parasitas. Vale a pena relembrar que surtos por doença transmissível por alimento (DTA) são incidentes em que duas ou mais pessoas apresentam uma enfermidade semelhante após a ingestão de um mesmo alimento ou água, e as análises epidemiológicas apontam a mesma origem da enfermidade.

Doença transmitida por alimento é um termo genérico, aplicado a uma síndrome geralmente constituída de anorexia, náuseas, vômitos e/ou diarreia, acompanhada ou não de febre, relacionada à ingestão de alimentos ou água contaminados. Os sintomas digestivos não são as únicas manifestações, podendo ocorrer afecções extraintestinais em diferentes órgãos, como rins, fígado, sistema nervoso central, dentre outros.

A probabilidade de um surto ser reconhecido e notificado pelas autoridades de saúde depende, entre outros fatores, da comunicação dos consumidores, do relato dos médicos  e das atividades de vigilância sanitária das secretarias municipais e estaduais de saúde.

A ocorrência de Doenças Transmitidas por Alimentos vem aumentando de modo significativo em nível mundial. No banco de dados da EFSA é possível observar que, entre 2020 e 2024, houve um crescimento expressivo nos indicadores relacionados a surtos de origem alimentar. O número total de surtos praticamente dobrou nesse período, passando de 3.167 em 2020 para 6.660 em 2024 — um aumento de aproximadamente 110,3%. A quantidade de pessoas contaminadas apresentou uma elevação ainda mais acentuada, saltando de 22.013 para 64.064 casos, o que corresponde a um aumento de cerca de 191,0%. Em relação aos óbitos, houve 49 mortes em 2020 e 55 em 2024, indicando um acréscimo de 12,2%.

Vários são os fatores que contribuem para a emergência dos surtos alimentares: o crescente aumento das populações; a existência de grupos populacionais vulneráveis ou mais expostos; o processo de urbanização desordenado e a necessidade de produção de alimentos em grande escala. Contribui, ainda, o deficiente controle dos órgãos públicos e privados no tocante à qualidade dos alimentos ofertados às populações.

Outros determinantes para o aumento na incidência das DTA são a maior exposição das populações a alimentos destinados ao pronto consumo coletivo (fast-food), o consumo de alimentos em vias públicas, a utilização de novas modalidades de produção, o aumento no uso de aditivos e a mudanças de hábitos alimentares, sem deixar de considerar as mudanças ambientais, a globalização e as facilidades atuais de deslocamento da população, inclusive em nível internacional.

1 – Número total de surtos de DTHA notificados no Brasil 

De acordo com a Vigilância Epidemiológica das DTA no Brasil, seguem dados atualizados até março de 2024, referentes ao período de 2014 a 2023. Nesse intervalo de 9 anos, foram registrados 6.874 surtos identificados/notificados (média de 763,78 casos por ano / 63,65 casos por mês), totalizando 110.614 pessoas doentes, com 12.346 hospitalizações e 121 óbitos constatados em decorrência desses surtos.

No ano de 2023, foram registrados 1162 surtos de DTA e 19.671 pessoas doentes contra 811 surtos e 14.336 pessoas doentes no ano de 2022, ou seja, tivemos um acréscimo de 43% nos surtos, com taxa de letalidade de 0,16 ( 31 óbitos).

 

                                                                              Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

 2 – Surtos por região da federação

A região Sudeste lidera o histórico de notificações de casos de DTA no Brasil. Em seguida, vem a região Nordeste. É importante considerar que regiões mais populosas tendem a registrar maior número absoluto de notificações; por isso, o Sudeste aparece com os maiores valores. Ainda assim, observa-se um pico expressivo de casos na região Norte em 2019, especialmente relacionados a episódios envolvendo açaí contaminado pelo protozoário Trypanosoma cruzi, transmitido pelo inseto popularmente conhecido como barbeiro.

                                                                           Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

3 – Surtos por local de ocorrência

As residências continuam como o local principal de ocorrência dos surtos, com 34% de predominância, seguidas dos restaurantes e padarias com 14,6% e na sequência creches e escolas, com 12,5%.

                                                                                Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

4 – Surtos por alimentos causadores

A água lidera como causa de surtos, sendo responsável por 28,8% dos casos. Na sequência aparecem os alimentos mistos (como pizza, risoto e carne ao molho), com 21,3%. Em terceiro lugar estão os alimentos múltiplos — situações em que dois ou mais alimentos são responsáveis pelo surto — representando 13,1%. Depois vêm os produtos de leite e derivados (6,7%), a carne bovina (5,6%) e o açaí (3,9%). Essas seis categorias juntas representam 79,4% dos surtos.

                                                                     Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

5 – Agentes etiológicos mais identificados

Os principais agentes etiológicos associados aos surtos são E. coli, que representa 34,8% dos casos, seguida por Staphylococcus e Salmonella.

                                                                               Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

6 – Critério de confirmação

Entre 2014 e 2023, o critério clínico epidemiológico foi o mais utilizado (29-43% dos casos), indicando que a maioria dos surtos de DTHA é confirmada por sintomas e investigação epidemiológica, não necessariamente por exames laboratoriais. Há uma tendência preocupante de aumento de casos inconclusivos, especialmente em 2019 (30%) e 2021 (34%), o que sugere limitações na capacidade de investigação. A pandemia impactou os padrões, com redução dos métodos laboratoriais bromatológicos a partir de 2021. Por outro lado, observa-se progresso gradual no laboratorial clínico (12% para 17%), indicando melhoria na confirmação diagnóstica.

                                                                          Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

Relatórios que reúnem dados sobre DTHA desempenham um papel essencial para profissionais envolvidos na segurança dos alimentos e nas ações de vigilância sanitária. Eles fornecem informações estratégicas que subsidiam a avaliação de riscos e orientam decisões importantes para a prevenção e o controle desses eventos.

Referência: Surtos de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar

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