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5 paradoxos da cadeia de alimentos: entendendo as contradições do sistema e os desafios da segurança de alimentos

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Quem atua na área de alimentos sabe da sua complexidade e conhece na prática alguns dos desafios da cadeia produtiva. Quem já parou para imaginar quantos quilômetros um alimento pode percorrer até ser consumido conclui rapidamente que manter sua qualidade e segurança e também a credibilidade das informações ao longo dos elos é, no mínimo, desafiador.

A cadeia de alimentos conecta produção primária e seus territórios rurais com os sistemas produtivos que incluem indústria, transporte e armazenamento e seus desafios de logística até alcançar os consumidores através dos diversos tipos de pontos de venda. Lembrando que as embalagens em todos os seus formatos acompanham todo esse caminho.

Toda essa complexidade traz para a cadeia de alimentos um caminho cheio de paradoxos: global e local, industrial e rural, tecnológico e profundamente humano. Reconhecer essas aparentes contradições talvez seja um dos caminhos para construir sistemas alimentares mais seguros, transparentes e resilientes.

É claro que a produção de alimentos com toda sua dimensão tem suas particularidades, mas podemos elencar aqui 5 grandes paradoxos característicos de quaisquer segmentos da cadeia! Vamos a eles:

1 – Produzimos mais alimentos do que nunca — mas ainda existe fome

Aumento de produtividade impulsionado pelo uso de tecnologias e globalização fizeram a produção global de alimentos crescer de forma expressiva nas últimas décadas.

Ainda assim, centenas de milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar, segundo a Food and Agriculture Organization (FAO). Neste mapa interativo da FAO podemos conhecer os dados de insegurança alimentar ao redor do mundo.

O paradoxo aqui é evidente: não é apenas um problema de produção — é um problema de distribuição, acesso e gestão da cadeia alimentar, incluindo a gestão de desperdício ao longo de toda a cadeia.

2 – A cadeia de alimentos é global — mas o alimento nasce local

Existem as multinacionais e as gigantes do mercado, mas muitas delas dependem de propriedades rurais, em sua maioria médias e pequenas, ou mesmo familiares.

A cadeia alimentar começa de forma localizada: em uma propriedade de um território específico, sob determinadas condições climáticas e produtivas.

Esses elos menores podem estar também na ponta, mais próximos dos consumidores: não só os grandes varejistas são responsáveis pela distribuição de alimentos para a população, mas algumas regiões e públicos específicos ainda frequentam as feiras locais.

Por isso não podemos deixar de olhar para esses personagens tão importantes da cadeia de alimentos.

Ou seja, o paradoxo aqui é que o sistema alimentar pode ser global, mas a origem e muitos pontos de venda continuam sendo locais e influenciados pelas características culturais daquela região.

3 – O controle dos processos nunca foi tão robusto — mas a percepção de risco nunca foi tão alta

Conhecer e garantir as características do produto a fundo, mediante controle de processos, análises laboratoriais, programas preventivos e controle de perigos, além da procura por padrões internacionais é tendência nos últimos anos, assim como a percepção de riscos à saúde.

Discussões em torno da percepção de riscos e sobre o envolvimento da gestão são pautas de normas, documentos de referência internacionais e de conceitos de cultura de segurança de alimentos.

Riscos além dos operacionais, envolvendo o contexto da empresa e os riscos de Saúde Pública estão sendo colocados à mesa. O envolvimento da população em relação aos riscos também acompanha a globalização dos alimentos.

Sendo assim, podemos perceber que, mesmo com sistemas de controle mais avançados, mais atenção e percepção de risco surgem na sociedade.

4 – Quanto mais tecnologia na cadeia de alimentos, mais percebemos sua complexidade

Atualmente temos disponíveis ferramentas avançadas para rastreabilidade, monitoramentos e inteligência de dados, mas tudo isso nos revela a quantidade de detalhes, informações relevantes e variáveis que podem mudar as decisões e os caminhos possíveis da produção.

Ou seja, usamos a tecnologia, mas continuamos tendo que dominar os processos, suas nuances e desafios, além de continuar dependendo de uma palavra-chave na cadeia produtiva: a confiança nas informações geradas.

Concluímos que, apesar da tecnologia, continuamos valorizando a simplicidade de processos simples e bem executados, a capacitação das pessoas e a responsabilidade humana nas tomadas de decisão!

5 – O consumidor quer saber mais sobre o alimento — mas está cada vez mais distante da produção

Com todo esse alcance e globalização dos produtos e suas matérias-primas, muitos consumidores estão mais longe da cadeia primária e até dos processos, e talvez até por isso exista uma cobrança maior em relação à:

– origem dos produtos;

– confiança das informações (rastreabilidade) e

– sustentabilidade.

Também há interesse por outras informações, como bem-estar animal, por exemplo, nos casos que envolvem os alimentos de origem animal.

Espero que tenham gostado desses 5 paradoxos e adoraria que vocês acrescentassem outras contradições que percebem na nossa área!

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Uso de cannabis em animais de produção: as pesquisas atuais e o impacto em bem-estar animal e segurança de alimentos

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A entrevista deste artigo é com Diogo Vitorino da Silva (foto), que é médico veterinário com uma experiência vasta e riquíssima em alimentos, sendo mestre em Saúde Animal, Produção e Meio Ambiente, além de especialista em Defesa Sanitária Animal.

Com mais de 15 anos de atuação na indústria, ele já passou pelas áreas de P&D, Qualidade e Assuntos Regulatórios em frigoríficos de bovinos e suínos. Além disso, é um excelente palestrante, realiza treinamentos corporativos a líderes e equipes, onde dissemina seu conhecimento esbanjando carisma e competência.

Conversar com ele é ter verdadeiras aulas, e quando ele comentou sobre o tema da cannabis, eu de pronto tive a ideia de compartilhar com vocês aqui no Food Safety Brazil. Ele topou na hora e inclusive sugeriu algumas perguntas cirúrgicas, como vocês podem ver na entrevista abaixo.

 1- De onde surgiu o insight e o seu interesse para estudar o uso do óleo de cannabis na produção animal e no bem-estar dos animais?

Foi a partir de uma experiência pessoal que surgiu o interesse por discutir o papel da cannabis na produção animal. O convite para conhecer uma associação canábica em Marília, SP, trouxe a oportunidade de acompanhar de perto todo o processo do plantio à colheita e à formulação de medicamentos destinados ao uso humano e animal.

Durante uma conversa com o farmacêutico da associação, veio o insight: se o óleo de cannabis poderia contribuir para o bem-estar humano, por que não explorar seu potencial também para o bem-estar animal? Essa reflexão abre espaço para uma discussão técnica e científica sobre como compostos da cannabis podem ser aplicados na produção animal, seja para reduzir o estresse, melhorar a saúde intestinal ou até mesmo diminuir a necessidade de antimicrobianos.

2- Quais você considera as principais limitações enfrentadas pela pesquisa e aplicação da cannabis na produção animal, incluindo os preconceitos sociais e os desafios regulatórios que ainda precisam ser superados?

O principal ponto a destacar é a questão regulatória, tendo em vista que não há produtos derivados de cannabis aprovados como ingrediente alimentar ou aditivo para animais.

Nos EUA, é proibida a inclusão de THC e CBD (tetrahidrocanabinol e canabidiol) como ingredientes porque são considerados compostos farmacológicos. Isso significa que qualquer uso de cannabis ou canabinoides em rações ou dietas animais ainda carece de regulamentação específica, testes de segurança e aprovação oficial antes de ser recomendado para produção de alimentos.

Outro ponto importante é o obstáculo cultural: o preconceito. Muitas vezes, a cannabis é associada exclusivamente ao uso recreativo, o que gera resistência social e desconfiança por parte de consumidores e até de profissionais da área. Esse estigma dificulta a aceitação de pesquisas sérias e atrasa a adoção de soluções inovadoras.

3- O que as pesquisas de cannabis nos revelam sobre seu uso em animais de produção?

O uso de cannabis na produção animal é uma fronteira promissora, mas deve ser tratada com rigor científico. Não se trata de uma tendência imediata, mas de um campo de estudo que precisa ser explorado com responsabilidade, para garantir segurança, bem-estar animal e transparência ao consumidor.

 4- Com todo o seu conhecimento sobre o tema, acha que o uso de cannabis na produção de carnes é viável?

Penso que o uso direto de Cannabis sativa na produção de carne ainda é uma área emergente, com estudos iniciais focados no uso de subprodutos do cânhamo industrial (variedade com baixo teor de THC). Porém, é importante ressaltar que já há pesquisas avaliando o efeito sobre a nutrição, desempenho e bem-estar animal, não tendo aplicações consolidadas e nem regulamentadas para uso direto na produção.

 5- Há algum benefício já comprovado do CBD no bem-estar animal?

Estudos experimentais têm indicado que o uso do CBD pode trazer benefícios relacionados ao bem-estar animal em suínos. Portanto, é relevante aprimorar essas pesquisas uma vez que o bem-estar impacta diretamente a qualidade de carcaça e a aceitação do consumidor.

6- Podemos dizer que a cannabis será usada para “produzir carne melhor” no futuro?

Precisamos evoluir com as pesquisas para que possamos afirmar, mas sabemos até o presente momento que os componentes funcionais da cannabis promovem uma melhoria no bem-estar animal e no desempenho nutricional. Mas precisamos comprovar a eficiência, segurança, ausência de resíduos e a viabilidade econômica, sempre sob a luz da legislação.

7- Quais partes da planta têm sido estudadas para uso na alimentação animal?

O farelo e as folhas de cânhamo que são ricos em proteína, fibras e lipídios. Alguns estudos também avaliam o uso de compostos bioativos como o canabidiol (CBD).

 8- Pensando em segurança de alimentos, há riscos de resíduos nos produtos finais?

Esse é o principal ponto de atenção. Canabinoides como THC e CBD podem se acumular nos tecidos animais, especialmente se usados de forma contínua ou sem controle.

Temos estudos em cursos investigando resíduos em carne e leite, mas enquanto não houver regulamentação clara e dados robustos sobre segurança, o uso comercial permanece proibido em diversos países.

 9- Quais são os efeitos do CBD sobre saúde, bem-estar e desempenho?

Embora a pesquisa em produção de carne ainda seja incipiente, alguns estudos (e análises de especialistas) sugerem que canabinoides como CBD (canabidiol) podem impactar positivamente:

– Apetite e conversão alimentar em suínos, levando a melhor desempenho produtivo (ganho de peso, eficiência alimentar);

– Efeitos calmantes e redução de estresse, o que pode melhorar o bem-estar animal em sistemas intensivos ou durante transporte.  Fatores que, por sua vez, influenciam a qualidade final da carne;

– Potencial para melhorar aspectos comportamentais e de bem-estar animal, fatores cada vez mais valorizados pelos mercados consumidores.

10- Para finalizar, qual mensagem você deixaria para o público técnico sobre esse tema?

O uso da cannabis na produção animal é um campo emergente e promissor, mas que ainda está em fase inicial de investigação científica. No entanto, é importante reconhecer que os dados disponíveis ainda são limitados e que não existem produtos aprovados para uso direto em dietas de animais de produção em muitos países. Por isso, qualquer avanço nessa área precisa estar sustentado em pesquisas robustas, regulamentação clara e, sobretudo, na garantia da segurança do alimento e da proteção ao consumidor.

A mensagem que fica é de cautela e esperança: a cannabis pode se tornar uma ferramenta valiosa para uma pecuária mais sustentável e centrada no bem-estar animal, mas o caminho passa necessariamente pela ciência, pela transparência regulatória e pelo diálogo aberto com a sociedade.

 Gostaram do tema? Esse é o primeiro artigo sobre uso de cannabis para animais de produção, mas há posts sobre outros usos:

Segurança de alimentos e cannabis: fabricantes criam normas próprias enquanto as leis não chegam;

– FDA alerta sobre uso do Delta-8 tetraidrocanabinol em alimentos

Segurança dos alimentos que contém maconha como ingrediente;

Preferências dos consumidores, padrões de consumo e a segurança dos alimentos

Sobre bem-estar animal, acessem aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem: Kindel Media

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Tendências da PestWorld 2025 – Marcelo Pereira comenta avanços em automação e digitalização no manejo integrado de pragas

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Criador da primeira armadilha luminosa adesiva brasileira, Marcelo Pereira fala sobre o futuro do manejo integrado de pragas e compartilha sua experiência em um dos maiores eventos mundiais do setor.

Marcelo Pereira é um profissional brasileiro que tem se destacado por conectar tecnologia, manejo de pragas e segurança de alimentos. Reconhecido por sua atuação inovadora, ele busca constantemente reduzir riscos, aprimorar ambientes produtivos e tornar o controle de pragas mais inteligente e sustentável.

Recentemente, ele participou da PestWorld 2025, realizada entre 21 e 24 de outubro em Orlando, Flórida (EUA) — o principal evento global do setor de controle de pragas. Com uma bagagem repleta de tendências, reflexões e insights sobre o que vem por aí, Marcelo aceitou com entusiasmo o convite do Food Safety Brazil para compartilhar suas percepções e aprendizados.

Confira a seguir as novidades e impressões que ele trouxe da PestWorld 2025.

Camila: Marcelo, obrigada por aceitar o convite para esta entrevista. É sempre bom estar perto de pessoas como você, sempre cheio de inovações e carisma! Conte pra gente, de forma geral, como foi o evento, o que você achou do contexto em relação ao local e formato do evento, temas das palestras, participantes e conteúdos discutidos.

Marcelo: A PestWorld 2025, realizada em Orlando, foi impressionante em todos os sentidos. O evento reuniu mais de 200 expositores de 20 países, em uma área de cerca de 9.300 m², consolidando-se como o principal encontro mundial do setor.
Além da exposição, o congresso contou com mais de 70 sessões educacionais, distribuídas em diferentes trilhas temáticas — como fumigação, saúde pública, manejo técnico, segurança, pragas de armazenagem, gestão e liderança.
Foi possível perceber claramente que o manejo de pragas está passando por uma transformação profunda — uma transição da ação corretiva para a gestão baseada em dados, tecnologia e sustentabilidade.

As palestras abordaram temas como resistência a rodenticidas, espécies invasoras, biossegurança, inteligência artificial e análise preditiva de infestações. O congresso mostrou que o controle de pragas está se tornando uma disciplina mais científica, conectada e multidisciplinar, que dialoga cada vez mais com segurança de alimentos, saúde pública e clima.

Entre as apresentações internacionais, destacou-se a palestra do pesquisador brasileiro Carlos Peçanha, do Mosquito Research & Control Unit das Ilhas Cayman e diretor da ABCVP – Associação Brasileira de Controle de Vetores e Pragas. Ele falou sobre a importância dos mosquitos na história da humanidade, os recentes casos de arboviroses e as características do Aedes aegypti que favorecem sua proliferação urbana. Apresentou ainda métodos tradicionais e novas tecnologias de controle, como a liberação de mosquitos estéreis, infectados com Wolbachia ou portadores de genes letais, ressaltando que o controle é complexo e vai muito além do uso de inseticidas.

Camila: Quando falamos de tecnologia no universo do manejo de pragas, as soluções têm que estar sempre conectadas à segurança de alimentos. Como você enxerga essa integração entre inovação e responsabilidade sanitária?

Marcelo: Essa integração é essencial. Toda inovação no manejo de pragas precisa nascer com um propósito: proteger o alimento, as pessoas e o meio ambiente.
Hoje, as tecnologias permitem o monitoramento contínuo e remoto, com sensores conectados, câmeras inteligentes e plataformas que analisam dados em tempo real. Isso representa um avanço enorme em termos de segurança preventiva.

Em ambientes produtivos, cada armadilha ou sensor se transforma em uma fonte de informação. A partir desses dados, é possível agir antes que a praga se torne um risco, garantindo rastreabilidade e comprovação de eficácia — pontos valorizados por auditorias e certificações internacionais.

Camila: Você acabou de participar de um evento muito relevante para o setor. Que tendências mais chamaram sua atenção? Há algo que o Brasil já está fazendo bem, ou algo que precisamos acelerar?

Marcelo: As principais tendências que observei são digitalização, integração e sustentabilidade.
Vimos soluções de armadilhas inteligentes conectadas à nuvem, sensores capazes de distinguir movimentos reais de falsos alarmes e plataformas que cruzam dados de temperatura, umidade e atividade de pragas para gerar alertas automáticos.

O Brasil tem profissionais altamente capacitados e empresas inovadoras, mas ainda precisamos acelerar a adoção dessas tecnologias com foco em gestão e análise de dados. O grande desafio está em transformar a informação coletada em decisões inteligentes que tragam valor real ao controle de pragas e à segurança de alimentos.

Camila: Muita gente ainda associa controle de pragas a práticas tradicionais. Como as empresas inovadoras estão usando dados, sensores e automação?

Marcelo: A automação está revolucionando o Manejo Integrado de Pragas (MIP). Hoje, já existem sistemas capazes de detectar capturas, identificar automaticamente a espécie por imagem e enviar o registro com data, hora e localização. Isso permite comprovar resultados, otimizar recursos e eliminar o “achismo”.

Essas tecnologias transformam o profissional de controle de pragas em um gestor de informação e risco, capaz de antecipar problemas e apoiar decisões estratégicas com base em evidências.

Camila: O tema sustentabilidade apareceu com força nesse evento? E como considera que a inovação tecnológica pode ajudar a reduzir impactos ambientais?

Marcelo: Sem dúvida, a sustentabilidade foi um dos grandes temas da feira. Foram apresentadas soluções que reduzem significativamente o impacto ambiental, como métodos contraceptivos para controle populacional de pombos, ainda em fase de adoção e com restrições culturais no Brasil, além de porta-iscas recicláveis e biodegradáveis para controle de roedores e armadilhas que eliminam o uso de produtos químicos.

A tecnologia permite monitorar mais e aplicar menos, ou seja, agir com precisão e inteligência. Essa é a essência da sustentabilidade no MIP: tomar decisões baseadas em dados e na real necessidade de intervenção, evitando desperdícios e reduzindo o uso de insumos químicos.

Camila: Você fala muito sobre colaboração entre diferentes áreas, da engenharia à segurança de alimentos. O que aprendeu, nesses anos, sobre trabalhar com pessoas e construir soluções que realmente funcionam na prática?

Marcelo: Aprendi que as soluções mais eficazes surgem da colaboração entre áreas e profissionais com visões diferentes. Quando um engenheiro, um biólogo e um gestor de qualidade analisam juntos o mesmo problema, a probabilidade de chegar à causa raiz aumenta exponencialmente. Por isso, acredito tanto na cultura de prevenção compartilhada, onde todos compreendem que seu trabalho impacta diretamente a segurança de alimentos e a reputação das empresas. O controle de pragas, hoje, é uma responsabilidade coletiva e compartilhada.

Camila: Pra fechar: o que podemos esperar do futuro do controle de pragas? Que tipo de inovação você acredita que vai mudar o jogo nos próximos anos?

Marcelo: O futuro do controle de pragas será definido por três pilares: dados, ética e sustentabilidade. Estamos entrando em uma nova era de monitoramento inteligente e integrado, onde sensores, IA e sistemas de análise trabalharão juntos para prever e prevenir ocorrências.

O controle de pragas deixará de ser uma atividade reativa e se consolidará como uma ciência aplicada à gestão de riscos, essencial para a segurança de alimentos, a proteção de marcas e a preservação do meio ambiente. Esse é o verdadeiro sentido do futuro do MIP — agir antes, com base em evidências e propósito.

Obrigada, Marcelo. O mundo dos alimentos espera ansioso por essas soluções! E com certeza você vai trazer ainda mais novidades para esses dois temas inseparáveis: segurança de alimentos e manejo de pragas!

Para quem quer se aprofundar no tema, há um texto do Marcelo Pereira aqui no Food Safety Brazil. Para conhecer os 10 mandamentos para utilização correta das armadilhas, acesse o post aqui.

Também tem uma postagem bem bacana de Palova com dicas do Marcelo: veja aqui como lidar com as armadilhas luminosas. E clicando aqui você lê um outro artigo em formato de entrevista com outra grande referência na área, Dr. Rezende.

E ainda existe mais sobre esse tema aqui no blog. Você pode acessar aqui, aqui e aqui, ou então faça uma busca em “pragas” no local de pesquisa do nosso site e você vai ter ideia da quantidade de posts sobre esse assunto imprescindível para garantir a segurança dos alimentos! Boa leitura.

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Tecnologia e pessoas: o encontro da cultura de segurança de alimentos com a gestão digital

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A era analógica ainda está presente nos sistemas de Gestão de Qualidade e Segurança de Alimentos, mas está com os dias contados. Há quem defenda que, em curto prazo, os processos, seus controles e monitoramentos, estarão todos sistematizados.

Creio que, mesmo que não seja assim tão rápido – uma vez que ainda não temos sistemas que integrem todos os dados que os processos geram no dia a dia operacional -, essa transição deve (e vai!) acontecer e isso é bom para todos os envolvidos.

Vamos pensar no seguinte: uma validação de uma medida de controle, por exemplo, em que os resultados de monitoramentos de 3 meses são trazidos por meio físico (registros no papel mesmo). Se estes dados fossem registrados por meio de um sistema, ao invés de ficar horas (ou dias) compilando os valores obtidos para se chegar a uma conclusão e tomar as decisões cabíveis, as informações seriam demonstradas depois de alguns poucos cliques.

E assim há mais tempo para os responsáveis agirem em outras frentes!

Importante refletir que essa otimização de tempo não significa obrigatoriamente substituição da ação humana, pelo contrário, qualquer decisão e ação tomada requer competência, avaliação dos riscos, experiência. E tudo isso, dentro de um sistema de gestão, depende ainda da avaliação dos responsáveis por outros setores relevantes.

Alguns conceitos nesse cenário são importantes para refletirmos: a diferença entre dado e informação.

Dado é o elemento bruto que representa algo e que ainda depende de uma interpretação. Funciona como a matéria-prima da informação, que é o dado trabalhado e analisado para um determinado objetivo. Dito isso, temos que o dado é a base para a informação.

Voltando ao exemplo da validação: os valores registrados obtidos daquela medida de controle são os dados que, após interpretados e devidamente analisados, vão trazer informações sobre a medida, como, por exemplo, quais os menores e maiores valores obtidos, qual a média desses valores, entre outras informações relevantes que, por fim, vão apresentar o desempenho desta medida e concluir se é eficaz ou não.

A partir dos dados e das informações, tomam-se as decisões pertinentes em relação àquele processo. Algumas interpretações também podem ser feitas, como por exemplo, analisar tendências desses resultados e suas possíveis causas.

Dessa forma podemos ver o quanto é preciso conhecimento, competência e, muitas vezes, mais do que isso, a experiência para o entendimento dessas informações.

E agora, pensando na digitalização na gestão, a pergunta a ser feita é:

“Qual o impacto que a digitalização traz para a cultura de segurança de alimentos?”

Essa é uma resposta que apenas a própria empresa poderá responder. Mas a ideia aqui é trazer a importância dessa pergunta para que o assunto seja refletido dentro da organização.

Como será gerenciada essa transição? Quais etapas, quais riscos, quais as vantagens e desvantagens? Como esse processo pode ou vai mudar as características da cultura de segurança de alimentos presentes até então?

A certeza é que esse encontro da cultura de segurança de alimentos com a digitalização requer foco em treinamento e comunicação. O investimento pode não ser apenas de recursos financeiros, mas em pessoas, tecnologia, equipamentos, treinamento, entre outros.

A tecnologia não anda sozinha e não garante por si só melhoria da cultura de segurança de alimentos. Uma cultura frágil pode continuar sendo frágil caso o responsável pela alimentação dos dados não entenda a relevância do que está registrando ou caso os dados não sejam confiáveis, rastreáveis, nem sejam devidamente controlados e armazenados.

A digitalização deve ser gerenciada como um motor para a cultura de segurança de alimentos, garantindo, além da agilidade, transparência, comprometimento com a segurança dos produtos, melhor gestão de riscos e de desempenho e posicionamento preventivo frente a tendências. Não pode ser reduzida apenas a melhor performance em auditorias ou vista como substituição do trabalho humano e ganho de tempo, sob o risco de intensificar um lado negativo da cultura de grande parte das organizações, que é a pressa e falta de cuidado com os detalhes.

Como sua empresa está no processo de digitalização?! Já consegue concluir algumas vantagens e desvantagens desse cenário? Contribua com a gente nos comentários!

Se você está lendo esse post antes do dia 8 de outubro de 2025, não perca esse webinar que vai rolar no 16º Food Safety Brazil Meeting, onde eu e a Renata Cerqueira vamos discutir a cultura de segurança de alimentos e a digitalização! Para se inscrever, basta clicar aqui.

Para quem quer relembrar alguns artigos que já abordaram o tema, uma sugestão é: como avaliar a cultura de segurança de alimentos na sua organização?. Veja outros posts sobre isso aqui, aqui e aqui.

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Controle de pragas: nos bastidores com quem entende tudo sobre o setor e lidera com paixão e propósito

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Hoje a gente abre espaço para uma conversa inspiradora com o representante de uma das empresas mais reconhecidas do setor de controle de pragas urbanas: Dr. Rezende.

Com uma trajetória admirável e muito conhecimento técnico acumulado, nosso convidado compartilha um pouco dos desafios, aprendizados e visão de futuro em um setor essencial, mas muitas vezes invisível aos olhos de quem só percebe quando o problema aparece.

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Entrevista com Dra Andrea Boanova, perita aduaneira e judicial na área de alimentos

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Muita gente já a conhece pelo trabalho ou já a ouviu em palestras e eventos. Ela é perita, grande disseminadora de conhecimento, sempre disponível e acessível para dar informações e contar casos que marcaram sua carreira.

Dra Andrea Boanova é médica veterinária, especialista em Direito Sanitário, mestre e doutora em Saúde Pública, com uma vasta experiência na área de alimentos, estando à frente da Vigilância Sanitária de Alimentos do município de São Paulo por 32 anos, além de ser perita pelo Instituto de Medicina Social e Criminologia (IMESC). Atua também como perita aduaneira, judicial e com emissão de laudos, pareceres técnicos e defesa em fiscalizações. Já publicou livros e ministra aulas e palestras para compartilhar conhecimento e contribuir para a área de alimentos.

É sempre interessante entendermos um pouco mais sobre o funcionamento dessa área, além de conhecer casos marcantes que podem contribuir para o nosso trabalho na área de alimentos, seja dentro da indústria ou nas auditorias e consultorias Brasil afora!

Dra Boanova, obrigada por aceitar esse convite! Um prazer estar mais uma vez contigo, uma profissional tão relevante para a nossa área. Como foi sua escolha pela área: o que a levou a seguir na área de perícia em alimentos?

Resposta: Primeiramente eu gostaria de agradecer a oportunidade de colaborar com esse espaço tão importante, para podermos compartilhar um pouco do nosso trabalho e contribuir com os profissionais que atuam na área de alimentos.

A experiência na Vigilância Sanitária de Alimentos de São Paulo me mostrou como a fiscalização é importante para a elucidação de possíveis causas de contaminação dos alimentos. E o ato de fiscalizar nada mais é do que uma perícia. A diferença está no fato de que, na fiscalização, o processo é administrativo.

Motivada pela minha atuação na fiscalização, senti a necessidade de fazer uma segunda faculdade, a de Direito. Nessa área conheci a perícia judicial e me encantei. Posso agora exercitar as minhas duas áreas de formação que se complementam, sempre com o objetivo de proteger a saúde do consumidor.

Pensando em quem quer seguir ou quem não imagina como é o dia a dia do perito aduaneiro em alimentos, explique como funciona, na prática, um caso de perícia aduaneira e qual é o processo para ser um perito aduaneiro?

Resposta: Eu gostaria de esclarecer a diferença entre a perícia judicial e a perícia aduaneira. A perícia judicial pode ser realizada por qualquer profissional com capacitação e expertise em determinada área ou assunto. Ele se cadastra nos tribunais e a sua indicação para perícias é feita pelo juiz. Já para a perícia aduaneira, que também deve ser realizada por profissionais que possuem capacitação e expertise em determinadas áreas de atuações, preestabelecidas pela Receita Federal do Brasil – o acesso à função é por meio de processo seletivo.

Na perícia aduaneira, o profissional vai auxiliar o fiscal ou auditor da Receita Federal do Brasil com a classificação e quantificação de mercadorias importadas ou a serem exportadas, nos casos em que ele tiver qualquer dúvida técnica que requeira a ajuda de um profissional especializado. Por exemplo: a pessoa diz que importou tomate seco. Visualmente não é possível identificar se é tomate seco mesmo ou uma pimenta desidratada. Então o perito aduaneiro recolhe a amostra, leva ao laboratório para identificação e faz o laudo para o auditor, indicando a identidade do produto. A perícia aduaneira acontece dentro de processos administrativos e de fiscalização da Receita Federal do Brasil.

Outro aspecto importante é que a perícia é realizada em portos, aeroportos e recintos alfandegados.

E na perícia judicial, o processo é parecido?

Resposta: Em alguns aspectos. O laudo, o procedimento de coleta de amostras, as análises laboratoriais e a imparcialidade e ética estarão presentes em toda e qualquer perícia.

O perito judicial, porém, é indicado pelo juiz e será seu especialista de confiança, para trazer a verdade aos autos sobre determinada demanda entre autor e réu, fornecendo a convicção para o juiz, para que ele tome uma decisão justa e fundamentada. A perícia cível acontece dentro de processos judiciais que tramitam nos Tribunais de Justiça.

Na sua experiência, diante dos casos concluídos, acha que os fabricantes de alimentos cometem mais falhas em controles de seus processos de fabricação ou realizam desvios intencionais, que podem ser considerados fraudes mesmo?

Resposta: A minha experiência tem mostrado que existem muito mais falhas de controle, mas não só do processo de fabricação. Também os transportadores, distribuidores, comerciantes e até os próprios consumidores podem contribuir com as inconformidades que são tratadas em ações judiciais. Casos de fraudes acontecem, mas na minha opinião, estão sendo tratados mais administrativamente por órgãos de fiscalização e de Defesa do Consumidor e entidades de proteção contra fraudes.

Gostaria de saber qual sua visão sobre como as exigências sanitárias brasileiras se comparam com as de outros países?

Resposta: Do meu ponto de vista, temos um repertório enorme de normas que são bastante rigorosas e creio que uma das mais exigentes de todo mundo. Além disso, temos hábitos de higiene diferenciados com relação a outros países e culturas. Situações que pude presenciar em outros países jamais seriam aceitas aqui.

No entanto, vejo que o suporte para o trabalho da vigilância sanitária e da inspeção é muito aquém do necessário e a divulgação do excelente trabalho realizado por nossos especialistas não é valorizado como deveria.

Ocorrências de surtos de intoxicação e de fraude na União Europeia e nos EUA são minhas fontes de estudo. Aqui no Brasil os dados são desatualizados e defasados, não espelhando a realidade. Infelizmente.

Como o perito deve agir para garantir que permaneça ético e imparcial quando interesses comerciais entram em conflito com critérios técnicos? Já passou por alguma situação nesse sentido?

Resposta: Sim. O profissional que quer ser perito, antes de tudo tem que ser ético e responsável. Você está representando o juiz e existem vidas envolvidas com o resultado do seu trabalho. Na perícia judicial essa situação é muito bem controlada porque os peritos procuram ter o mínimo de contato com as partes, uma vez que todas as informações necessárias estão no processo. E se não estiverem,  ele pode solicitá-las diretamente ao juiz.

No caso da perícia aduaneira existem mais interesses comerciais porque são, na maioria, mercadorias importadas em grandes quantidades e de alto valor. De qualquer maneira, somos representantes da Receita Federal do Brasil e temos que defender o que é correto e justo para o nosso país.

Temos que realizar as análises necessárias para a correta classificação fiscal das mercadorias.

Pensando no aumento da complexidade da cadeia produtiva de alimentos, com maior trânsito internacional de alimentos e com as diferenças regulatórias entre os países, quais você considera os maiores desafios na liberação ou retenção de produtos de origem animal em zonas alfandegárias?

Resposta: Eu penso que as novas tecnologias e novos produtos estão sempre desafiando a fiscalização e a legislação não consegue acompanhar essa evolução. Existem brechas na legislação em vigor que podem favorecer a liberação de mercadorias não regulamentadas. Também ações judiciais e mandados de segurança muitas vezes conseguem pareceres favoráveis para liberação dessas mercadorias. Para mim, um dos maiores desafios é a atualização constante e célere da legislação em vigor.

O trabalho que a VIGIAGRO exerce na fiscalização de produtos de origem animal é fantástico e deveria ser mais divulgado e valorizado. Eles são a primeira barreira para os produtos de origem animal irregulares. Se eles não autorizam, a Receita Federal também não autoriza a nacionalização.

Imagino que deva ser difícil selecionar apenas um caso, mas uma pergunta que nos deixa sempre muito curiosos é: na sua trajetória, qual o caso mais marcante?

Resposta: Não é difícil porque alguns casos são bem marcantes. Um caso de perícia judicial em arroz industrializado, cuja consumidora havia comprado em um supermercado. Estava envolvido nesse processo a indústria do arroz e o supermercado onde foi feita a compra, além da consumidora, autora da ação.

O arroz estava contaminado com larvas. A contaminação não foi na casa da consumidora porque ela constatou a contaminação no momento do preparo do arroz, que foi no mesmo dia da compra.

Restava saber onde havia sido a contaminação.

Para minha sorte, a consumidora havia guardado dois sacos íntegros do arroz, além do saco de arroz que ela tinha aberto para preparar.

Conhecendo um pouco do comportamento da larva e da sua fase alada, pensei em realizar a análise da embalagem plástica para ver se tinha perfurações. Mandei para um laboratório especializado em fitopatologia vegetal e eles, por sorte, tinham essa expertise.

Eles fizeram a análise da embalagem e constataram que havia perfurações somente de dentro para fora. Ou seja, o arroz foi embalado já com os ovos que evoluíram durante a cadeia de distribuição do arroz.

Essa análise eliminou a possibilidade de contaminação no supermercado ou na casa da consumidora porque, em ambos os casos, as perfurações seriam em dois sentidos: de dentro para fora e de fora para dentro.

Foi um caso muito interessante e que só deu certo porque a consumidora guardou as embalagens com muito cuidado por mais de 2 anos, evitando qualquer tipo de contaminação.

A minha experiência na vigilância sanitária foi fundamental nesse processo. E eu sou imensamente grata por isso.

Gostou do conteúdo? Muito bom saber mais sobre as atuações específicas da área de alimentos, que é tão abrangente e multidisciplinar, não é mesmo? Para ver mais entrevistas como esta, seguem algumas opções aqui no Food Safety Brazil:

Entrevista com médico veterinário perito criminal da Polícia Federal

Entrevista com Hans Philipowski, presidente da Associação Internacional de Segurança da Cadeia de Abastecimento

Segurança de Alimentos na gastronomia, com Eduardo César Tondo

Insetos como alimento: entrevista com Thelma L Cheung

Imagem: Sora Shimazaki

6 min leituraMuita gente já a conhece pelo trabalho ou já a ouviu em palestras e eventos. Ela é perita, grande disseminadora de conhecimento, sempre disponível e acessível para dar informações e […]

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Gestão de competências e andragogia em um Sistema de Gestão de Segurança de Alimentos (2 de 2)

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Voltando ao assunto do post anterior (veja aqui), vamos agora direcionar o tema de gestão de competências para além de um cronograma de treinamentos.

O termo gestão de competências dentro de uma organização pode ser entendido como a forma de identificar informações sobre as competências necessárias para os determinados setores e cargos, além de desenvolver, monitorar e gerenciar as habilidades de seus colaboradores, desde a contratação.

Alinhar estes fatores com as metas da empresa é crucial para que se alcancem os objetivos da organização.

Portanto, gerenciar competências é um planejamento estratégico para obter eficiência, competitividade e se destacar no mercado.

E o tema pode ser gerenciado de uma forma profunda, com um olhar focado do setor de pessoas para as competências, não apenas as técnicas, mas as habilidades e perfis de comportamento requeridos para determinadas atividades.

Se pensarmos em exemplos de indústria de alimentos, podemos refletir: quais as habilidades requeridas para se contratar um colaborador para a etapa de abate? Ou para aqueles que lidam com os animais vivos, em etapas anteriores ao abate?

Podemos lembrar de diversos exemplos de atividades muito específicas de determinados setores de alimentos, mas também da indústria de embalagens, cada uma com suas características exclusivas (material plástico rígido com um processo bem diferente do flexível, o metálico bem diferente do processo de produção de parafina, e assim por diante).

Também podemos incluir a cadeia primária, com suas características peculiares.

Outro fator inquestionável nesse contexto é a sistematização dos processos, que impacta o perfil de colaboradores requerido até então.

Assim, cada elo da cadeia produtiva de alimentos deve olhar com cuidado para as competências necessárias, também considerando as características da região e da população ali disponível para o mercado de trabalho.

Investir em gestão de competências pode ser feito com apoio de consultorias especializadas, ou mesmo de empresas terceiras de contratação.

Independentemente do formato, o ideal é conhecer e “desenhar” as características do processo, para assim identificar as necessidades (como educação, experiências, qualificações, habilidades e treinamentos) para cada cargo e direcionar estas informações desde as primeiras entrevistas e triagens para contratação.

Após a contratação, a gestão desses colaboradores deve ser contínua, para acompanhar, monitorar e manter o desenvolvimento destas competências, retendo os talentos e garantindo a satisfação das expectativas, tanto por parte dos colaboradores quanto da empresa.

Nesta etapa, a empresa pode gerenciar as competências de seus colaboradores de forma individual ou por setores, pela provisão de mentorias, investimento em cursos de desenvolvimento externos, com base em um plano de desenvolvimento individual/organizacional, ou outras ferramentas de gestão de competências que vão muito além da provisão de treinamentos e atualizações, atuando de uma forma mais profunda e que extrai o melhor do potencial de seus profissionais.

Além disso, as vantagens de uma boa gestão de competências incluem aumento da produtividade e diminuição da probabilidade de erros e retrabalhos, ou seja, melhoria dos processos internos e do ambiente da organização.

Este ponto tem relação direta com a cultura de segurança de alimentos, tema tão falado nos últimos anos. As pessoas são parte valiosa nesse contexto e a empresa precisa de atualização constante frente às transformações do mercado de trabalho e do mundo.

Dentre os principais desafios a serem enfrentados pensando nestas “transformações”, destaca-se com certeza a tecnologia. Artigos interessantes sobre isso podem ser acessados aqui, aqui, ou ainda em Inteligência Artificial, Inteligência das coisas e IA e controle de processos.

Portanto, a gestão de competências é uma ferramenta essencial para organizações que desejam manter-se competitivas, valorizando o capital humano e promovendo uma cultura de aprendizado e melhoria contínua.

E na sua empresa, como é feita a gestão de competências? Conte nos comentários!

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Como foi o 14º Food Safety Brazil Meeting: “Lubrificantes em foco: segurança dos alimentos e sustentabilidade”

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No mês de abril aconteceu nosso 14º Food Safety Brazil Meeting, com um recorde de mais de 400 inscritos. As discussões foram riquíssimas e as perguntas dos participantes enriqueceram ainda mais o nosso evento.

Para quem não assistiu, basta acessar esse link para assistir ao evento e conhecer o nível de detalhes das informações e esclarecimentos disseminados pelas palestrantes Vanessa Amaral e Lilian de Araújo Miakawa. Lilian é da Fuchs e muito bem representou Raúl Colombo Díaz.

Vanessa, colunista do Food Safety Brazil, que traz sempre textos muito esclarecedores (podem ser acessados aqui), introduziu o assunto com autoridade, falando da relevância dos lubrificantes nos processos de alimentos e embalagens. Ela destacou  como o APPCC deve levantar esse perigo, identificando possíveis pontos de contaminação das linhas e produtos, além de como os requisitos das normas internacionais abordam o tema dos lubrificantes nos processos de alimentos.

A multidisciplinaridade desse levantamento foi enfatizada, e essa pluralidade de competências pode ser evidenciada também no nosso público, que contou com indústrias de alimentos dos mais diversos segmentos, além de pessoal de engenharia e manutenção. Contarmos também com representantes da Agência Nacional do Petróleo, que não só assistiram o conteúdo, mas participaram ativamente do nosso chat e deram suporte a diversas dúvidas das certificações e registros de lubrificantes no Brasil, o que demonstra o alcance do 14º Food Safety Brazil Meeting.

Na sequência, Lilian de Araújo Miakawa (já temos textos sobre uma excelente palestra dela em um evento de segurança de alimentos, que podem ser acessados  aqui e aqui), nos trouxe detalhes dos lubrificantes, suas certificações e registros, além de substâncias destes produtos que são estudadas em relação à saúde do consumidor (como é o caso de MOSH, MOAH e PFAS). Ela apresentou pesquisas sobre os níveis aceitáveis e seus efeitos à saúde nas diferentes categorias de lubrificantes, incluindo as classificações destes produtos em relação ao contato direto ou não com os alimentos.

A possibilidade de uso de lubrificantes sintéticos e os avanços na fabricação dos lubrificantes com maior segurança para os consumidores também foi discutida. Lilian apresentou ainda uma imagem didática da cadeia produtiva de alimentos com seus diversos elos, direcionando quando é necessário ter lubrificantes food grade, para contato direto ou não com alimentos. Ela enfatizou a necessidade de uma boa gestão da prevenção de contaminação cruzada quando do uso de mais de uma classificação em uma mesma empresa, desde o armazenamento até o correto uso e treinamento de pessoal envolvido.

Além disso, citou as falhas grotescas que muitas vezes existem nas empresas: a lista de lubrificantes com o setor de compras é diferente dos lubrificantes usados pelo pessoal responsável pela atividade, sendo ainda diferente dos que estão no estoque, muitas vezes obsoletos e sem nenhuma gestão de armazenamento e descarte. O custo aproximado por ano de um produto em estoque também foi evidenciado, reforçando a necessidade de uma boa gestão neste tema.

Interessante como precisamos pensar além da segurança de alimentos e gerenciar outros pontos, como ela muito bem mencionou em relação à sustentabilidade. Questões ambientais e custo-benefício foram apontados como parte desta gestão em relação à seleção e aprovação dos produtos.

O evento foi um sucesso e todos ficamos muito felizes em mais uma vez contribuir com o universo da segurança de alimentos em um nível tão elevado.

Que venham os próximos eventos!

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Convite para nosso 14º Food Safety Brazil Meeting: “Lubrificantes em foco: segurança dos alimentos e sustentabilidade”

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No próximo dia 24 de abril, às 14h, teremos esse encontro imperdível, online e gratuito, que traz o tema “Lubrificantes em foco: segurança dos alimentos e sustentabilidade” e você está super convidado!

Por que participar?!

O evento conta com palestrantes renomados e com muita experiência no assunto, que com certeza vão enriquecer nossa visão sobre lubrificantes, segurança de alimentos e sustentabilidade. Veremos também a forma como esses temas interagem dentro da rotina operacional e o impacto que exercem na segurança do consumidor.

Vanessa Amaral, colunista Food Safety Brazil e Raúl Colombo Díaz, gerente de contas globais da divisão de alimentos da Fuchs falarão sobre o papel crucial dos lubrificantes na cadeia produtiva, além de tendências normativas, parâmetros já existentes e detalhes sobre o que está se falando sobre o assunto ao redor do mundo.

O que esperar?

Dando um “spoiler” para deixar vocês com água na boca, vejam o nível dos assuntos que estão rolando nos bastidores do evento:

Identificação de perigos químicos e alergênicos no universo de lubrificantes para indústria de alimentos

Impactos no APPCC e análise de risco coerente com a realidade operacional

Capacitação de pessoas envolvidas com o APPCC e planos de lubrificação

Boas Práticas de Lubrificação e de Armazenamento de Lubrificantes

Aperfeiçoamento de formulações

Tendências regulatórias

Entendendo as certificações e os certificados Food Grade

Dá para perceber o nível das discussões, não é mesmo? Não dá pra perder!

Benefícios de participar

  • Atualização de conhecimentos: mantenha-se à frente das tendências e regulamentos que impactam o setor;
  • Networking: conecte-se com profissionais, especialistas e empresas antenadas em segurança de alimentos e sustentabilidade;
  • Certificado de participação: receba um certificado que pode enriquecer seu currículo e destacar seu compromisso com a segurança de alimentos.

Como se inscrever?

Nosso 14º Food Safety Brazil Meeting será um evento online e gratuito, e para se inscrever, basta clicar neste link.

As vagas são limitadas, então não deixe para a última hora!

Venha fazer parte de uma mudança significativa em um setor vital. Juntos podemos promover a segurança dos alimentos e a sustentabilidade de maneira eficaz e inovadora. Esperamos vocês e tragam suas dúvidas!

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Gestão de competências e andragogia na gestão de Segurança de Alimentos (I)

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Vamos falar de competências?

Gestão de competências é um assunto amplo e a ideia aqui é refletir sobre o tema de forma que ele não seja reduzido apenas ao famoso “cronograma anual de treinamentos”.

Existem várias formas de gerenciar as competências dentro de uma empresa e dentro de um sistema de gestão de Segurança de Alimentos.

Para quem está de fora, fazendo uma verificação do sistema de gestão, avalia-se de praxe, diante de uma amostragem (e selecionando cargos relevantes para a segurança dos produtos), o alinhamento entre a descrição de cargo e as atividades propostas para aquele funcionário, além da coerência entre suas responsabilidades e autoridades.

Se este funcionário for responsável por ministrar algum treinamento interno, ilustrando um outro exemplo comum, avalia-se a sua capacidade de abordar o tema para os demais. Isto deve estar de alguma forma evidenciado, o que pode acontecer de diversas maneiras, não apenas apresentando um certificado de treinamentos

E o cronograma de treinamentos por si só já gera uma série de discussões:

  • frequência e duração do treinamento estão no topo do ranking quase empatados com…
  • a tal da “avaliação de eficácia” (que gera sempre bastante assunto);
  • na sequência eu diria que está se o treinamento será oferecido INTERNA ou EXTERNAMENTE, além de outras questões como:
  • quais setores devem receber determinados treinamentos;
  • em qual profundidade deve estar o conteúdo (uma dúvida clássica quando o assunto é defesa de alimentos, por exemplo, é: treinar de forma completa conceitos, histórico e requisitos ou apenas a implementação das medidas?)

O formato do treinamento também é outro critério a ser estabelecido, de acordo com o contexto, público e necessidade.

Chamo de formato não apenas se o treinamento é remoto, online ao vivo ou presencial, mas também considero o local: se é in loco, se é em um auditório, se é em forma de teatro, entre outras possibilidades.

Todas estas questões serão estabelecidas em conjunto, de forma multidisciplinar, dentro de um sistema de gestão e de acordo com a relevância do tema e do público, considerando-se também outros critérios pertinentes.

Estas são informações importantíssimas a serem avaliadas e devem ser estabelecidas exclusivamente para aquele sistema de gestão, com suas características e particularidades. E aqui gostaria de acrescentar a temática da andragogia, antes de partirmos para as outras formas de gerenciar competências dentro de um cenário empresarial.

Andragogia, segundo Malcolm Knowles, é a ciência que estuda a educação de adultos, diferentemente da pedagogia, um tanto mais conhecida, voltada para crianças e adolescentes.

Inserindo todo esse cenário de treinamentos no contexto da andragogia, quero conduzir uma reflexão sobre questões importantes que terão uma relação direta com a eficácia, o nível de absorção do conteúdo e, portanto, com o custo-benefício e o investimento de recursos feito nos treinamentos.

Vamos a alguns exemplos práticos e, infelizmente, muito comuns para o dia a dia da indústria e da experiência da grande maioria dos instrutores de treinamentos:

Uma empresa contrata um treinamento presencial, investe recursos financeiros na contratação de um instrutor competente, que tenha um bom material e boa experiência no assunto, arca com os custos de deslocamento e hospedagem desse instrutor, seleciona data e horários para que os participantes possam sair de suas rotinas e ter um bom aproveitamento do tema, maaasss…

  • na hora do treinamento ocorrem várias pausas, atrasos e interrupções!
  • pessoas chave não conseguem comparecer,
  • outras não conseguem participar de, pelo menos, 75% da duração do treinamento.

O nível de aproveitamento é muito baixo. A diferença entre “antes e depois” do treinamento é muito sutil e a avaliação de eficácia torna-se um desafio: o que fazer se o participante não passar?

Enfim, mesmo que o treinamento seja feito de forma remota (o que diminui os custos de deslocamento do instrutor, mas pode requerer maiores investimentos em tecnologia, por exemplo), essa é uma reflexão importante a ser feita.

A empresa deve sempre lidar com o tema de treinamentos com a relevância que ele merece e com o investimento de recursos disponibilizados (não apenas financeiro, mas também e principalmente de tempo, que é um recurso valioso, além de local, equipamentos de apoio, tecnologia, contratações externas, e por aí vai).

Outra situação que não é rara:

O local do treinamento tem que ser improvisado e, de última hora, todos têm que mudar de lugar, por falta de espaço ou por falta de gestão:

– Ops! O auditório já estava reservado, mas não avisaram…

Quem nunca se deparou com essa situação?! Arrisco dizer que muitos instrutores já, e lá vamos nós para uma sala improvisada, sem som, sem sinal, ou quem sabe no estoque mesmo, sem cadeiras, sem o conforto necessário para o aprendizado, mas com bastante barulho para “melhorar” a situação…

É uma cena que parece engraçada, mas que representa uma falha de gestão e comunicação, além de um desperdício de recursos. Um treinamento de 8 horas nestas condições não atende as expectativas dos envolvidos.

Mas voltando ao assunto da andragogia, gostaria de colocar alguns conceitos que podem contribuir, considerando todos estes desafios a serem enfrentados.

Quando o assunto é andragogia, o ponto inicial, uma vez que temos adultos como aprendizes, é considerar que esse aprendiz já traz uma EXPERIÊNCIA em sua trajetória, o que torna esse “aluno” não apenas um ouvinte, mas também um participante ativo no seu processo de aprendizagem. Isso faz também do instrutor um facilitador, ainda mais no momento tecnológico em que estamos vivendo, em que as informações estão em maior quantidade e são cada vez mais acessíveis.

A aprendizagem torna-se assim um movimento mais dinâmico e de “mão dupla” em relação à pedagogia, uma vez que o adulto tem menos dependência do professor do que as crianças.

Existem outros pilares importantes dentro da andragogia, que podem ser aprofundados aqui, mas gostaria de ressaltar neste texto um outro que acho de extrema relevância: a MOTIVAÇÃO para aprender.

Quais estratégias serão utilizadas para um maior envolvimento do aprendiz, fazendo-o ter uma intenção genuína de aprender, ativando uma motivação intrínseca e fazendo-o perceber as vantagens do aprendizado?

E quais os problemas que poderão ser resolvidos dali em diante por causa dessa aprendizagem?

Uma outra grande diferença, quando se trata da educação de adultos, é a consciência sobre os benefícios que aquele aprendizado terá como consequência. Ter em mente quais resultados positivos e práticos vão ser gerados na vida do aprendiz é de grande valia nesse processo, tanto para o aluno quanto para o professor.

Essas reflexões nos ajudam e orientam a como conduzir os assuntos do treinamento, quanto tempo de interação X intervalo precisamos, quais formas de interação e quais ferramentas serão utilizadas, além de como guiar estratégias de aprendizagem com assuntos relevantes e, por que não, de forma divertida.

Lembro de um “aluno” em um treinamento de APPCC que ofereci em uma grande empresa que já havia participado de 14 treinamentos sobre o tema. O grande desafio foi acrescentar algo para alguém tão experiente, e a surpresa foi tanto em relação à sua participação, contribuindo e ajudando constantemente os demais participantes, como em sua humildade, em frisar diversas vezes que a cada treinamento pode-se absorver algo novo ou ter algum insight que fará diferença.

Todos estes pontos também podem ser observados sob outros ângulos de visão dentro de um sistema de gestão, porque nem só de treinamentos vive a gestão de competências.

E como combinado no início do texto, vamos aprofundar o tema de Gestão de Competências para além dos treinamentos, mas como é um assunto vasto, vai ser assunto para a nossa parte 2. Aguardem!

Imagem: Fox

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