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Parece, mas não é – casos graves de fraudes em polpa de açaí

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Um dos alimentos mais saborosos, desejados e nutritivos originário da região Norte do Brasil, e que se popularizou nacional e internacionalmente — o açaí — veio acompanhado não apenas dos benefícios do seu consumo, mas, infelizmente, do aumento dos registros de fraudes. Essas fraudes consistem em adicionar ingredientes de baixo custo para simular a consistência cremosa e a quantidade de polpa de açaí, visando lucro financeiro.

As formas utilizadas vão desde o inofensivo acréscimo de outros ingredientes alimentares até substâncias tóxicas e perigosas para a saúde humana — muitas vezes desconhecidas pela população, em razão do pouco conhecimento sobre a produção e o beneficiamento da polpa da fruta.

Antes de listar os materiais que os fraudadores geralmente utilizam, é preciso entender a forma de comercialização deste valioso alimento.

Para ser comercializada, a polpa de açaí deve seguir os parâmetros estabelecidos pela legislação. A Instrução Normativa nº 37/2018 (MAPA) determina os parâmetros de identidade e qualidade do suco e da polpa de frutas. Ela pode ser classificada da seguinte forma:

  • Polpa de açaí fino (ou popular/Tipo C): Apresenta teor de sólidos totais (conteúdo de açaí) entre 7% e 9%. É a menos densa.
  • Polpa de açaí médio (ou regular/Tipo B): Possui teor de sólidos totais entre 11% e 14%, oferecendo densidade e sabor moderados.
  • Polpa de açaí grosso (ou especial/Tipo A): Contém teor de sólidos totais acima de 14% (podendo chegar a 40–60 g/100 g em polpas puras) e tem aparência muito densa e sabor intenso.

Levando em consideração que, quanto maior a consistência, maior é o preço cobrado — ou seja, geralmente o açaí grosso é mais valorizado que o açaí fino —, na maioria das vezes a fraude ocorre pela adição de ingredientes que aumentam a consistência.

Além disso, a cor característica do açaí é o roxo violáceo; no entanto, o produto pode apresentar alteração de cor, ficando marrom principalmente devido à oxidação — um processo natural de degradação dos pigmentos (antocianinas) causado pela exposição ao ar (oxigênio), à luz e ao calor. Esse fenômeno indica perda de nutrientes e deterioração do produto.

A seguir, estão os ingredientes já identificados e registrados em denúncias e notificações à Vigilância Sanitária:

  • Liga neutra: apesar de ser um ingrediente amplamente utilizado na fabricação de sorvetes, ocorre fraude quando a liga neutra é usada para mascarar diluição, ou seja, para esconder que o produto contém menos açaí do que deveria. Ela é adicionada ao açaí fino para fazê-lo parecer açaí grosso.
  • Farinha de mandioca: normalmente a farinha d’água (mais fina) é adicionada ao açaí já batido para engrossar a textura, aumentar o volume sem usar mais fruto e reduzir os custos de produção. Quando hidratada, deixa o açaí mais pastoso e opaco, simulando um açaí mais grosso. É um ingrediente barato e abundante na região Norte e pode enganar consumidores desatentos. Esse tipo de fraude reduz o valor nutricional do açaí e pode gerar contaminação cruzada caso a farinha esteja mal armazenada e ainda mascarar a deterioração do produto.
  • Trigo: assim como a farinha de mandioca, o trigo também é usado para engrossar o açaí, embora seja uma prática menos comum. A farinha de trigo fina pode deixar o açaí mais pastoso. Esse tipo de adulteração é perigoso para celíacos (pessoas intolerantes ao glúten), pois o ingrediente é adicionado de forma ilegal e não aparece no rótulo.
  • Papel higiênico: o papel higiênico já foi citado em denúncias como uma forma extrema e criminosa de fraude no açaí. Isso ocorre porque o papel é composto de celulose, que ao ser desintegrada em água pode gerar uma textura espessa, tentando imitar a consistência do açaí grosso. Os riscos incluem a introdução de microrganismos patogênicos, resíduos químicos e tintas. Pode causar infecções gastrointestinais, intoxicações e até contaminação fecal.
  • Acetona: é um solvente industrial inflamável, tóxico em altas concentrações e proibido em alimentos. É capaz de alterar artificialmente a cor, aumentar a fluidez e simular rendimento de polpas de baixa qualidade. Seu uso pode causar irritação gastrointestinal, intoxicação e danos ao fígado e aos rins, além de risco severo para crianças. Qualquer uso em alimentos é crime sanitário.
  • Corante: infelizmente, essa é uma das fraudes mais comuns, pois o consumidor associa cor roxa intensa à qualidade. Quando o produtor possui lotes com coloração inadequada (muito claros, castanhos ou oxidados), pode usar corantes para padronizar tudo como “roxo homogêneo”. Alguns fraudadores adicionam corantes artificiais (roxos ou vermelhos usados em sucos e refrescos) e, em casos mais graves, tintas não alimentícias, para simular a cor natural quando o açaí está diluído, oxidado ou vencido.
  • Embalagem: a fraude pode ocorrer pela falsa indicação de teor de sólidos superior ao verdadeiro (ex.: rotular como 14% quando na prática é 8%), pela falsificação de rótulos ou pelo uso de embalagens imitando empresas registradas — como ocorreu em um caso registrado no Mato Grosso, em 2024.

Como identificar se o açaí foi adulterado

  • Textura: açaí grosso é cremoso, mas não deve parecer “papa” nem ter consistência de mingau. Textura muito lisa e fina, sem fibras típicas, também indica adulteração.
  • Sabor: o açaí legítimo tem sabor característico da fruta. Polpas adulteradas têm sabor e aroma reduzidos.
  • Cheiro: cheiro azedo pode indicar mistura com outras substâncias ou início de deterioração.
  • Preço: compare valores entre fornecedores. Preços muito abaixo da média são um sinal de alerta.
  • Cor: cor excessivamente roxa, muito uniforme ou artificial. Quando diluído em água, deve ficar marrom-arroxeado, e não violeta vivo.
  • Rotulagem: rótulos mal impressos, borrados ou sem informações obrigatórias. Marcas muito baratas ou desconhecidas vendidas como “premium” também merecem atenção.

Diante da variedade de fraudes que podem comprometer a qualidade, a segurança e até a saúde do consumidor, torna-se indispensável desenvolver uma postura vigilante ao adquirir e consumir polpas de açaí. A adulteração desse produto representa um risco sanitário e um crime contra o consumidor. Por isso, ao identificar qualquer irregularidade na textura, cor, cheiro, sabor, preço ou rotulagem, é fundamental interromper o consumo imediatamente, registrar evidências como fotos e vídeos e denunciar aos órgãos fiscalizadores, como o PROCON e a Vigilância Sanitária.

Fiquem atentos e alertas: nem tudo é o que parece, especialmente quando se trata de um alimento tão importante e saboroso quanto o açaí.

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Os cuidados com a produção do açaí

É seguro tomar açaí?

Food Fraud: a perigosa realidade da fraude de alimentos

Imagem: Nicola Barts

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Como saber se um saneante é aprovado pela ANVISA

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Muitas dúvidas existem em torno do assunto “saneante”, seja na rotina das empresas ou mesmo durante as auditorias ou fiscalizações. Entretanto, o processo para saber se um saneante é aprovado é simples.

Inicialmente vale destacar que o registro de produtos saneantes é de atribuição da ANVISA. Assim como na área de alimentos, a agência também disponibiliza uma biblioteca regulatória sobre o tema.

Requisitos gerais

A legislação base que regulamenta o tema de registro de saneantes é formada pela RDC n°989/2025 e a IN n°394/2025. De forma geral, os saneantes são classificados conforme a tabela:

Note que o que define a forma como o produto será controlado é seu risco. Basicamente, o risco tem a ver com fatores como toxicologia, composição e risco à saúde do usuário. Na RDC citada, você pode conferir todos os critérios para risco 1 ou 2.

Desta forma, temos:

Produtos Risco 1: NOTIFICAÇÃO

Produtos Risco 2: REGISTRO

Em ambos os casos, é importante mencionar que, para qualquer empresa solicitar registro ou notificação de produto, ela deve possuir Autorização de Funcionamento (AFE) para fabricar ou importar produtos saneantes e deve cumprir todas as legislações de BPF aplicáveis. Algumas categorias de produtos possuem legislações específicas, que serão abordadas a seguir.

Saneantes com ação antimicrobiana

Regulamentada pela RDC n°774/23, essa categoria abrange os produtos saneantes com ação antimicrobiana destinados a diversos usos. São classificados conforme o âmbito de aplicação:

  1. uso geral: produtos para uso domiciliar e em ambientes públicos;
  2. uso hospitalar: produtos para uso exclusivo em hospitais e estabelecimentos relacionados com atendimento à saúde;
  3. uso em indústria alimentícia e afins: produtos destinados a serem utilizados em locais dedicados à produção, elaboração, fracionamento ou manipulação de alimentos; e
  4. uso específico: produtos destinados a serem utilizados com fim específico, segundo as indicações de rótulo.

No caso dos produtos para indústrias alimentícias, estes ainda podem ser classificados em:

  1. desinfetantes; e
  2. sanitizantes.

Seu uso é exclusivo para desinfecção e/ou sanitização de superfícies e equipamentos que entram em contato com o alimento. A composição destes produtos deve atender a lista do Code of Federal Regulation nº 21, parágrafo 178.1010, e as da Diretiva nº 98/8/CE, obedecendo às respectivas restrições e suas atualizações. As instruções de uso também devem indicar a necessidade de enxágue do produto.

Água sanitária

Produtos dessa categoria devem atender a RDC n°813/23.

A ANVISA define água sanitária como a “solução aquosa com a finalidade de desinfecção e alvejamento, cujo ativo é o hipoclorito de sódio ou de cálcio, com teor de cloro ativo entre 2,0% p/p e 2,5% p/p”. Tais produtos incluem a água sanitária destinada à desinfecção de hortifrutícolas e água para consumo humano.

No caso de produto para desinfecção de hortícolas e água para consumo humano, deve ser comprovada a eficácia do produto frente aos microrganismos Escherichia coli e Enterococcus faecium nas condições de uso – tempo de contato e diluição.

Desinfetante para hortifrutícolas

No caso de produtos para desinfecção de hortifrutícolas, existe a RDC n°6950/22, que determina requisitos específicos para esses produtos. A seção II determina os princípios ativos desses produtos, que podem ser:

  • ácido dicloroisocianúrico e seus sais de sódio e potássio;
  • hipoclorito de cálcio; e
  • hipoclorito de sódio.

Outros princípios podem ser usados, desde que realizados testes de toxicidade. O fabricante também deve comprovar a eficácia do produto frente aos microrganismos Escherichia coli e Enterococcus faecium.

Consulta de registro

A consulta de registro ou notificação de produtos pode ser realizada diretamente no site da ANVISA, seguindo os passos abaixo:

– Acessar a seção de CONSULTAS no site da ANVISA

  1. Clicar em SANEANTES
  2. Selecionar PRODUTOS REGISTRADOS ou PRODUTOS ISENTOS DE REGISTRO
  3. Inserir algum critério de busca relacionado ao produto
  4. Selecionar o produto desejado

Importante observar algumas questões, como avaliar se o registro está ativo ou inativo, categoria do produto em relação ao seu uso, rótulo do produto (quando disponível).

Espero que essa publicação ajude nos processos da sua empresa e na garantia da segurança dos produtos fabricados.

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Quando a fábrica se cala, o risco aumenta: o papel da escuta ativa na segurança dos alimentos

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Costumamos falar muito sobre procedimentos, controles, rotinas e auditorias, mas existe um ponto que ainda recebe menos atenção do que deveria: a forma como as pessoas se comunicam dentro da fábrica, ou melhor, como elas deixam de se comunicar. Porque quando a fábrica se cala, o risco aumenta. E aumenta rapidamente!

Não é difícil perceber isso no dia a dia. Por exemplo: um colaborador nota algo estranho na linha, mas pensa duas vezes antes de comentar, outro percebe uma falha pequena e deixa passar porque “ninguém escuta mesmo”, uma sugestão simples fica guardada na cabeça de alguém que já tentou falar outras vezes e não recebeu retorno.

Aos poucos, o silêncio vai virando parte da rotina e quando o silêncio vira rotina, a prevenção deixa de existir.

Escuta ativa não é só ouvir, é acolher, considerar e dar retorno. É estar presente de verdade, líderes que escutam criam um tipo de ambiente onde as pessoas se sentem seguras para falar e quando existe segurança para falar, os riscos aparecem antes das falhas, aí a prevenção nasce da conversa.

Já vivi situações em que o operador tinha razão o tempo todo, mas ninguém parou para ouvir com atenção. Pequenos detalhes que só quem está no dia a dia de fábrica enxerga. Muitas vezes a solução está ali, na ponta do dedo de quem executa, mas se o ambiente não estimula a fala, essa solução nunca chega. E aí viram desvios, retrabalho, reclamações e até crises que poderiam ter sido evitadas.

Criar um ambiente de escuta não exige nada complexo. Às vezes, basta um bom dia dito olhando nos olhos, uma pergunta sincera sobre como está o turno, um espaço aberto para ideias, mesmo as mais simples, pode ser até mesmo um retorno rápido mostrando que a opinião foi considerada. Tudo isso comunica o seguinte: sua voz importa!

Quando a equipe sente isso, o ciclo muda. As pessoas passam a avisar antes, relatar cedo, sugerir mais, participar de melhorias e enxergar a fábrica como um lugar onde elas têm impacto. Uma cultura de Qualidade e Segurança dos Alimentos nasce desse movimento, em um ambiente onde as pessoas falam, são ouvidas e se sentem parte do cuidado.

No fim das contas, prevenir falhas é menos sobre ferramentas e mais sobre conexões humanas. As ferramentas existem para apoiar e uma fábrica que fala é uma fábrica que aprende e é muito mais segura.

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Segurança psicológica e segurança dos alimentos: um ambiente de confiança e qualidade

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O que realmente está no seu prato? Seis realidades do sistema alimentar que você precisa conhecer

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A maioria de nós acredita que entende bem dos alimentos que compra. Conferimos rótulos, escolhemos frutas e verduras e confiamos que os produtos nas prateleiras são seguros e autênticos. Porém, por trás de cada item existe um sistema alimentar global de enorme complexidade — que está sendo rapidamente remodelado por avanços tecnológicos, desafios ocultos e descobertas surpreendentes. O caminho do campo até o prato nunca foi tão longo e intrincado.

Este artigo revela seis verdades impactantes — e muitas vezes assustadoras — sobre segurança dos alimentos, abastecimento e tecnologia nos dias de hoje. Com base em dados recentes e análises de especialistas, esses pontos mostram um sistema ao mesmo tempo mais transparente e mais vulnerável; mais avançado, mas ainda lutando contra problemas antigos. Do verdadeiro significado dos recalls alimentares aos “guardiões invisíveis” que vigiam as linhas de produção, a realidade do seu alimento é bem mais fascinante do que parece.

1. Mais recalls de alimentos podem ser, na verdade, uma boa notícia

Embora o aumento no número de recalls de alimentos — cerca de 15% entre 2020 e 2024 — pareça alarmante, isso não significa necessariamente que os alimentos estejam menos seguros. Pode indicar justamente o contrário. O impacto é gigantesco: as doenças transmitidas por alimentos custam aos Estados Unidos cerca de US$ 75 bilhões por ano em despesas médicas, perda de produtividade e mortes prematuras.

Esse aumento se deve sobretudo à tecnologia mais eficiente e a sistemas avançados de rastreabilidade. Essas ferramentas conseguem identificar problemas antes que eles atinjam um grande número de consumidores. Em um caso recente, uma empresa preparada para a Regra 204 da Lei de Modernização da Segurança dos Alimentos (FSMA) conseguiu ajudar a FDA a rastrear informações críticas em apenas alguns minutos — algo que antes podia levar dias ou semanas.

Esse movimento mostra uma mudança fundamental na segurança dos alimentos: da gestão reativa de crises para a prevenção proativa baseada em tecnologia. No fim das contas, isso torna o sistema alimentar mais seguro para todos.

2. Sua água mineral engarrafada provavelmente contém 100 vezes mais plástico do que se imaginava

Uma nova técnica de microscopia revelou um dado chocante sobre a água engarrafada. Em média, um único litro contém cerca de 240 mil fragmentos detectáveis de plástico — um valor de 10 a 100 vezes maior do que estimativas anteriores. Noventa por cento dessas partículas são nanoplásticos. Tão minúsculos que conseguem atravessar o sistema digestivo e atingir a corrente sanguínea, órgãos, células individuais e até a placenta.

Embora os efeitos à saúde a longo prazo ainda sejam desconhecidos, essa descoberta muda completamente o entendimento sobre a exposição humana aos microplásticos por meio de produtos de uso cotidiano. Abre-se, assim, um novo capítulo na pesquisa sobre contaminantes ambientais e saúde humana.

3. Um quarto dos alimentos no Brasil são reprovados de forma constante nos testes de agrotóxicos

Dados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) mostram que a taxa de amostras irregulares permanece elevada no Brasil — entre 25% e 26% de 2018 a 2025.

Uma amostra é considerada irregular quando contém resíduos acima do limite legal ou quando são detectados agrotóxicos não autorizados para aquela cultura. Apesar disso, o cenário é mais complexo do que parece. O programa apontou que o risco potencial de dano agudo à saúde, decorrente de uma única refeição, permaneceu baixo, com pico máximo de apenas 0,67% das amostras em 2023. Além disso, não foram detectados riscos crônicos nos ciclos avaliados.

4. Fraudes em alimentos são um problema antigo — e movimentam US$ 49 bilhões

Fraudes alimentares — adulteração, substituição ou rotulagem enganosa com objetivo financeiro — não são novidade. Na Roma Antiga, já se misturava água do mar ao vinho para aumentar o volume. Hoje, esse crime gera um prejuízo estimado de US$ 49 bilhões por ano à indústria global de alimentos.

Os produtos mais fraudados incluem azeite de oliva, peixes, alimentos orgânicos, leite, grãos, mel, café, especiarias e vinhos. Essa prática muda completamente o foco da segurança dos alimentos: deixa de ser apenas prevenir contaminações acidentais e passa a ser o combate a crimes intencionais por ganho econômico.

O combate à fraude exige controle baseado na identificação de vulnerabilidades na cadeia produtiva e na compreensão dos incentivos econômicos que impulsionam esse tipo de crime.

5. O Brasil atinge mínimos históricos na fome

Em um marco histórico de política pública, o Brasil alcançou em 2024 o menor nível de insegurança alimentar grave já registrado, patamar que só havia sido atingido em 2013. Em apenas dois anos, impressionantes 26,5 milhões de pessoas saíram da condição de fome grave.

Segundo o IBGE, os resultados foram rápidos e expressivos. Entre 2023 e 2024, a proporção de domicílios em insegurança alimentar grave caiu de 4,1% para 3,2%, retirando mais de 2 milhões de pessoas dessa condição em apenas um ano. No mesmo período, 8,8 milhões passaram a ter segurança alimentar plena.

Esse resultado mostra que políticas bem estruturadas e executadas podem, sim, produzir impactos reais no combate à fome.

6. A inteligência artificial está se tornando a guardiã invisível da segurança dos alimentos

Ao longo da cadeia global de alimentos, a Inteligência Artificial (IA) e o Machine Learning (ML) estão sendo aplicados silenciosamente para elevar a segurança e a qualidade dos alimentos — em níveis que antes pareciam ficção científica.

Algumas aplicações já em funcionamento:

  • Visão computacional: câmeras com IA identificam manchas, rachaduras e corpos estranhos com muito mais rapidez e precisão que o olho humano.

  • Previsão de deterioração: modelos preditivos analisam temperatura, umidade e histórico de dados para calcular com precisão a vida útil dos produtos, reduzindo perdas.

  • Gêmeos digitais: réplicas virtuais das linhas de produção permitem testar ajustes de processo sem arriscar a produção real.

Essas tecnologias estão transformando a segurança de alimentos de um modelo reativo para um sistema previsível e preventivo. Resultado: um sistema mais robusto, confiável e seguro.

Um futuro mais complexo — e mais transparente

As seis realidades apresentadas mostram um sistema alimentar em profunda transformação. Mais tecnológico, mais transparente — mas também mais exposto a riscos invisíveis e antigos problemas. Da fraude milenar à exposição moderna aos nanoplásticos, passando pelo combate à fome e pelo uso da inteligência artificial, o cenário é desafiador.

A grande pergunta permanece: serão a tecnologia e as políticas públicas suficientes para garantir um sistema alimentar realmente seguro, autêntico e justo para todos?

Se depender da ciência, o futuro é promissor.

Qual dessas realidades é mais impactante para você: os nanoplásticos na água ou os agrotóxicos na comida? Deixe nos comentários. 

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A Consulta Pública 1362/2025 e as novidades no APPCC

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O final de 2025 foi marcado pela publicação de uma série de consultas públicas pela ANVISA, alterando essencialmente diversos regulamentos sobre BPF. Uma das mais comentadas foi a Consulta Pública n° 1362/2025 (aqui), que trata de temas altamente relevantes, como: Boas Práticas de Fabricação (BPF), Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC) e dos Procedimentos Operacionais Padronizados (POP).

Essa CP também revoga legislações “clássicas” de BPF, como as Portarias 1428/1993 e 326/1997, e a RDC 275/2002.

Nestas normas “antigas” o APPCC é pouco abordado:

  • Portaria MS n° 1.428/1993: trata o APPCC de forma superficial, indicando que será alvo da inspeção sanitária e deve ser de conhecimento do responsável técnico pelo estabelecimento
  • Portaria SVS/MS n° 326/1997: não aborda o APPCC
  • RDC nº 275/2002: não aborda APPCC

Com a nova proposta de RDC, o APPCC passará a ter um papel de relevância, junto às BPF e aos POP.

Logo no Art. 4 da CP 1362 fica claro que as empresas devem “implementar adequadamente os requisitos de Boas Práticas para que sejam a base de implementação de Sistema APPCC”. Ou seja, as BPF continuam a ser a base sólida para um APPCC de sucesso (a mesma integração é reforçada em outros momentos do documento). O mesmo artigo ainda traz questões importantes:

  • Conhecer os perigos associados às matérias-primas, aos ingredientes, ao processo de produção e ao ambiente em que o alimento é produzido ou manuseado;
  • Adotar medidas de controle adicionais (quando as BPF não forem suficientes para controlar os perigos), através da identificação dos pontos críticos, validados cientificamente;
  • Monitorar e verificar as medidas de controle, aplicando ações corretivas, quando necessário;
  • Revisar periodicamente, incluindo o caso de mudança significativa e manter comunicação apropriada com os demais entes da cadeia produtiva de alimentos.

O título IV da proposta da nova RDC é totalmente dedicado ao APPCC, que se estrutura da seguinte forma:

Art. 131: deve ser implementado desde a produção primária ao consumo;

Art. 132: o estabelecimento é responsável por implementar o APPCC, de forma personalizada (nada de “copiar e colar”) e eficaz (precisa funcionar na prática);

Art. 133: BPF é a base do APPCC (para ninguém esquecer!);

Art. 134: usando uma análise de perigos, os perigos significativos identificados devem ser controlados por uma medida de controle, ou seja, um PCC, e tomadas ações corretivas no caso de não atendimento dos limites críticos (aqui é importante o uso de uma metodologia coerente e bem aplicada);

Art. 135: as medidas de controle devem ser implementadas para prevenir, eliminar ou reduzir os perigos significativos a níveis aceitáveis (o PCC deve controlar eficazmente os perigos);

Art. 136: a aplicação deve ser adequada ao tipo de empresa, como microempreendedores – MEI, empresas familiares rurais ou empreendimentos econômicos solidários (com bom senso, mas mantendo sempre a segurança do produto). Aqui, consultores ou documentos de referência podem ser usados;

Art. 137: revisar periodicamente o estudo, incluindo o caso de mudanças (não tem frequência obrigatória anual, é somente boa prática mesmo!);

Art. 138: são indicados os princípios do APPCC (“coincidentemente” sete princípios, os mesmos do Codex Alimentarius);

Art. 147: o título V cita que os registros de monitoramento devem ser mantidos (evidências são essenciais);

E não esquecendo do Art. 50, que mantém a necessidade de o RT conhecer a metodologia.

Note que, mesmo sem citar alguma metodologia específica, como o Codex Alimentarius ou a ISO 22000, a estrutura proposta do APPCC muito se assemelha à desses documentos.

Se você já quiser se preparar para implementar o APPCC na sua empresa, consulte outras postagens do blog:

     Principais mudanças no Codex Alimentarius para o HACCP 2020

     Norma da ABNT para APPCC: NBR 17183:2024 – Parte I: Estrutura e organização

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Por que o monitoramento ambiental é um alerta precoce para fábricas de alimentação animal

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O monitoramento ambiental é essencial na fabricação de alimentos para animais de estimação, pois permite identificar potenciais riscos de contaminação por patógenos como Salmonella e Listeria monocytogenes. Ele funciona como uma verificação contínua da eficácia dos controles de patógenos implementados na unidade, contribuindo para a segurança do produto, a proteção da marca e a preservação da saúde das pessoas.

Na fabricação de alimentos para animais de estimação, ameaças invisíveis podem se esconder da vista de todos. Por exemplo, a poeira de um misturador, resíduos em uma esteira transportadora ou umidade perto de uma linha de embalagem podem facilmente criar condições ideais para a persistência de Salmonella e Listeria. Diante desse risco, um programa de monitoramento ambiental, quando implementado adequadamente, atua identificando possíveis fontes de contaminação e mitigando-as de forma proativa, garantindo a segurança dos animais de estimação e das pessoas. Além disso, esse monitoramento contribui para manter a integridade da marca em todos os lotes de produção.

O que significa monitoramento ambiental

Um programa de monitoramento ambiental inclui a coleta de amostras de patógenos e/ou indicadores, conforme apropriado, para detectar riscos nas condições sanitárias dos ambientes de fabricação dos alimentos.

De acordo com o Código de Segurança de Alimentos SQF para Fabricação, o monitoramento ambiental é uma atividade de verificação fundamental que demonstra o controle contínuo do ambiente das instalações. Os dados produzidos ajudam as instalações a avaliar os controles de patógenos, identificar pontos sensíveis e tomar ações corretivas antes que a contaminação atinja o produto acabado.

Por que as fábricas de alimentos para animais enfrentam riscos únicos

Os fabricantes de alimentos para animais de estimação operam em ambientes que combinam processamento de baixa umidade com ingredientes ricos em proteínas, o que cria um cenário desafiador mesmo para instalações bem controladas. Embora a baixa atividade de água seja frequentemente associada à estabilidade, isso não garante por si só a segurança microbiológica. Na prática, a Salmonella pode entrar em um estado de elevada tolerância, dificultando sua inativação térmica e sobrevivendo por meses em frestas de equipamentos, poeira acumulada em cantos ou até ralos de piso. Somado a isso, como muitas linhas de produção incluem etapas de manuseio pós-tratamento térmico — como corte ou embalagem —, as instalações devem redobrar a atenção para evitar a contaminação cruzada. Nesse contexto, um programa eficaz de monitoramento ambiental atua justamente para preencher essa lacuna, oferecendo sinais antecipados de que algo no ambiente mudou e requer intervenção imediata.

Da descoberta à prevenção

Um programa de monitoramento ambiental nunca deve ser interpretado como um teste de “aprovação ou reprovação”. Pelo contrário, encontrar resultados positivos não representa uma falha, mas sim um valioso feedback. Isso porque resultados positivos indicam que o sistema é sensível o suficiente para detectar riscos e que a unidade está tomando decisões com base em dados, e não em suposições.

Diante de um resultado positivo, o objetivo é conduzir uma investigação metódica para:

  1. Identificar onde e por que a contaminação ocorreu;

  2. Expandir a amostragem na zona afetada;

  3. Higienizar e verificar a eficácia das ações;

  4. Analisar os resultados para prevenir recorrências.

Em conjunto, essas ações reforçam a mentalidade de melhoria contínua prevista no Código SQF e fortalecem uma cultura positiva de segurança de alimentos, na qual o foco permanece na prevenção — e não na busca por culpados.

O que os auditores esperam

Os auditores procuram programas que sejam documentados, baseados em riscos e revisados rotineiramente pela gestão da equipe de segurança de alimentos. Além disso, eles esperam ver planos de amostragem que abordem diferentes zonas (de áreas de contato com o produto a áreas sem contato), frequência de testes consistente e tendências de dados ao longo do tempo. Mais do que isso, os auditores buscam evidências de aprendizado, provas de que a unidade age, verifica e se adapta com base nos resultados encontrados no monitoramento ambiental.

Como começar

Independentemente de sua unidade já ter um Programa de Monitoramento Ambiental ou estar apenas desenvolvendo um, o segredo está na estrutura do plano: ter zonas bem definidas, um cronograma de amostragem realista e procedimentos claros de ações corretivas. A consistência gera confiança, tanto na sua equipe quanto no seu auditor e nos seus clientes.

Quer fazer uma autoavaliação e estar preparado para sua próxima auditoria? 

Você tem certeza de que suas práticas de fabricação de alimentos para animais de estimação atendem aos padrões atuais do setor?

O SQF oferece uma ferramenta gratuita para auxiliá-lo nessa avaliação. Preencha o quadro de pontuação gratuito para fabricação de alimentos para animais de estimação para obter uma visão clara da situação atual da sua empresa e do que você deve focar a seguir.

Ao preencher o quadro de pontuação, você:

  • Identifica lacunas ocultas: desde boas práticas de fabricação até preparação para emergências. Você identificará rapidamente as áreas que precisam de atenção para não ser pego de surpresa.
  • Reduz o risco, ganha confiança: uma pontuação alta significa que você está mais bem preparado para proteger a saúde dos animais de estimação, a reputação da sua marca e seus resultados financeiros.
  • Acessa recursos adicionais: depois de preencher o quadro de pontuação, você terá acesso a ferramentas adicionais, como relatórios do setor, listas de verificação e guias, para que você não apenas saiba o que precisa fazer, mas também tenha os recursos para fazê-lo.

Inicie agora a elaboração ou revisão do seu Programa de Monitoramento Ambiental com as dicas deste post!

Este post foi originalmente publicado (em inglês) no blog do SQFI, em novembro de 2025, e teve excelente repercussão. Por isso, preparei esta tradução para disponibilizá-lo também à comunidade brasileira no blog Food Safety Brazil.

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Kosher e halal: semelhanças, diferenças e aspectos culturais

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Os sistemas alimentares kosher (judaico) e halal (islâmico) são dois dos regimes dietéticos religiosos mais difundidos globalmente.

Apesar de compartilharem princípios fundamentais, como pureza, ética e respeito à vida, cada um possui regras, interpretações e implicações culturais distintas. Este artigo busca esclarecer, de modo acessível, suas convergências, diferenças e relevância para segurança dos alimentos.

Alimentação kosher

O público que consome comida kosher é majoritariamente formado por judeus que veem essa prática como parte de sua identidade religiosa, histórica e comunitária. Mesmo aqueles menos religiosos muitas vezes mantêm hábitos kosher como forma de preservar tradições familiares e memória coletiva.

Kosher significa “apropriado”, “correto” ou “adequado” segundo a lei judaica (kashrut). O termo vem do hebraico kasher, que literalmente quer dizer “próprio para o uso”.

Leia também: A alimentação kosher: origem, tradição e certificação

Nas cidades, é comum que esse público se concentre em bairros próximos a sinagogas, escolas judaicas e mercados especializados, locais onde há disponibilidade consistente de produtos com certificação rabínica. Para eles, comer kosher vai além da alimentação: é reafirmar um pertencimento cultural e religioso.

Kosher compreende um conjunto de normas que determinam quais alimentos podem ser consumidos e como devem ser preparados.

As regras têm origem em textos sagrados, principalmente a Torá e o Talmud e são aplicadas por rabinos e entidades certificadoras, que supervisionam a produção e emissão de selos de aprovação como a OU – Orthodox Union, considerada a maior certificadora kosher do mundo; a OK Kosher Certification, que também possui forte atuação internacional, sendo referência em auditorias rigorosas e certificações industriais de grande escala; e a Star-K Kosher Certification, amplamente respeitada por sua expertise técnica, especialmente em setores complexos como produção farmacêutica, tecnologia alimentícia e ingredientes industriais.

Um dos pilares da alimentação kosher é a separação entre carne e leite: não é permitido consumi-los juntos, cozinhá-los na mesma preparação ou usar os mesmos utensílios, panelas ou superfícies. Isso muitas vezes exige que a casa tenha dois conjuntos distintos de utensílios, um para carne e outro para laticínios. Exemplos típicos: cheeseburger é proibido, enquanto peixe com queijo é aceitável (pois peixe não é considerado carne no kashrut).

As normas também regulam quais animais são “puros”: entre mamíferos, apenas os que ruminam e possuem casco fendido como vaca, ovelha ou cabra são permitidos; porco, coelho, camelo, cavalo e outros estão vedados.

Entre aves, são aceitas galinha, pato, peru, ganso; aves de rapina são proibidas. Em peixes, somente aqueles com barbatanas e escamas (salmão, atum, sardinha) são permitidos; frutos do mar e peixes sem escamas são vetados.

O abate ritual (shechitá) exige que um shojet, pessoa treinada conforme a lei judaica, realize o corte de maneira rápida e precisa, seguido da drenagem completa do sangue, algo essencial já que o consumo de sangue é proibido. Também devem ser removidas gordura proibida (chelev) e partes específicas, como nervos. A carne kosher costuma ser salgada e lavada para garantir que não reste sangue.

No caso de alimentos industrializados, a certificação kosher exige que todos os ingredientes sejam permitidos, que não haja risco de contaminação cruzada com substâncias proibidas, e que todo o processo, da matéria-prima ao envase, ocorra sob supervisão rabínica.

O mercado global de alimentos kosher hoje representa várias dezenas de bilhões de dólares por ano. Segundo estimativas recentes, o valor global desse mercado ficou em aproximadamente US$ 41,68 bilhões em 2024 e está projetado para alcançar cerca de US$ 44,56 bilhões em 2025. Essa escala reflete não apenas o consumo tradicional nas comunidades judaicas, mas também a crescente demanda de consumidores não-judeus interessados em padrões de pureza e rastreabilidade.

Alimentação halal

O público da alimentação halal é mais amplo e diverso, formado por muçulmanos de diferentes origens culturais e níveis de observância religiosa, desde praticantes rigorosos até pessoas que seguem as normas mais por tradição ou costume social. Para esses consumidores, o halal é parte integrante do estilo de vida islâmico, ligado à pureza, disciplina espiritual e obediência aos preceitos da Sharia.

“Halal” significa permitido ou lícito, e seu oposto, “haram”, refere-se ao proibido.

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As regras determinam que o alimento só pode ser consumido se estiver livre de substâncias consideradas impuras, e se seu preparo e processamento respeitarem os valores e normas islâmicas.

O segmento halal também possui certificações para garantir que alimentos e produtos sigam as normas da lei islâmica (Sharia), que compreendem desde o abate ritual até ingredientes, higienização e ausência de substâncias proibidas, como álcool e derivados de porco.

Entre os certificadores halal mais importantes estão a JAKIM (Department of Islamic Development Malaysia), considerada uma das autoridades mais rigorosas do mundo; o GCC Accreditation Center (GAC), que valida certificadoras para todo o Golfo Árabe; e o Halal Food Authority (HFA), do Reino Unido, reconhecido globalmente por sua atuação em alimentos industrializados e cadeias de produção.

No caso da carne, o animal deve ser apto (por exemplo, bovinos, caprinos, aves, camelo entre outros) e abatido conforme o rito halal (zabiha). O abate exige que um muçulmano treinado faça um corte rápido no pescoço, recitando a invocação “Bismillah, Allahu Akbar”, e que o animal esteja saudável no momento do abate. O sangue deve ser drenado, embora a remoção de nervos ou gorduras proibidas não seja tão rigorosa quanto no kosher.

Além disso, bebidas alcoólicas, sangue, gelatinas de origem suína e ingredientes ou aditivos de procedência duvidosa são vedados. Qualquer contaminação com tais substâncias torna o alimento haram.

Em produtos industrializados, a certificação halal exige controle da cadeia produtiva, desde a matéria-prima até o envase e transporte, garantindo que ingredientes, utensílios, maquinário e manipulação sigam os padrões islâmicos.

Estimativas recentes apontam o tamanho global do mercado de alimentos halal como extremamente expressivo. De acordo com um relatório da IMARC Group, este mercado foi avaliado em cerca de US$ 2,7 trilhões em 2024, refletindo não apenas o consumo dentro das comunidades muçulmanas, mas também a expansão da demanda por alimentos certificados halal em mercados não-muçulmanos, motivada por fatores como preocupação com higiene, rastreabilidade, qualidade e ética na produção de alimentos.

Semelhanças e diferenças

Apesar de suas origens distintas, os sistemas kosher e halal compartilham pontos essenciais: ambos regulam o consumo de carne exigindo abates rituais, proíbem o consumo de sangue e de carne suína, e exigem certificações que atestem conformidade com normas religiosas.

Além disso, ambos incluem controles rigorosos quando se trata de alimentos industrializados, visando evitar contaminação e assegurar pureza.

Contudo, há diferenças profundas que tornam os dois sistemas não completamente equivalentes. O kosher impõe regras adicionais, como a separação entre carne e leite, a proibição de frutos do mar e a proibição de certas partes do animal. Já o halal costuma ser mais flexível nesses aspectos, mas exige a invocação do nome de Deus no abate e veta álcool e derivados.

A distinção entre utensílios e a complexidade de preparo variam bastante de um sistema para o outro, como indicado na tabela:

Tabela Comparativa: Kosher x Halal

KOSHER HALAL
Origem religiosa Leis judaicas: Torá e Talmud Lei islâmica (Sharia) / Alcorão e Hadith
Abate ritual Shechitá por shojet; corte preciso, sem atordoamento; drenagem + salga do sangue; remoção de gorduras/nervos proibidos Zabiha por muçulmano; corte no pescoço; sangue drenado; não exige salga; invocação “Bismillah” no momento do abate
Carne + leite / mistura de alimentos Proibida mistura de carne com leite; utensílios separados Não há restrição de combinação carne e laticínios
Carnes proibidas Porco, coelho, cavalo, camelo, avestruz e todos os animais que não ruminam ou não têm casco fendido; aves de rapina; grande parte dos insetos Porco e qualquer animal morto sem abate ritual; animais carnívoros ou de presas; animais considerados impuros; alguns insetos (dependendo da escola jurídica)
Frutos do mar / peixes Apenas peixes com barbatanas e escamas; mariscos proibidos Geralmente permitidos todos peixes e frutos do mar
Álcool e intoxicantes Permitidos (desde que produzidos conforme kosher), vinho kosher é regulado Proibido consumir álcool ou produtos que o contenham
Utensílios/ cozinha Utensílios devem ser dedicados (cárneo x laticínios) ou kasherizados; risco de contaminação por absorção Utensílios precisam ser limpos/ separados se usados com produtos haram; regras mais simples
Certificação de produtos industrializados Selo kosher exige auditoria rabínica, rastreabilidade e controle rigoroso dos ingredientes Selo halal exige rastreabilidade, controle de insumos, proibição de álcool e substâncias haram; auditoria islâmica

Para um judeu que segue o kashrut, alimentos halal não são automaticamente kosher. Embora ambos proíbam porco e sangue, o sistema kosher impõe camadas adicionais de regras que o tornam mais restritivo. Por exemplo: o halal não remove partes proibidas pela lei judaica, como o chelev (gordura específica) e o gid hanasheh (nervo ciático), que precisam obrigatoriamente ser retirados no preparo kosher.

Além disso, a carne halal não passa pelo processo de salga e lavagem exigido para remover qualquer resíduo de sangue, nem exige a separação completa entre carne e leite, que impacta toda a cozinha e utensílios.

Da mesma forma, utensílios usados para halal não seguem o processo de kasherização, requisito essencial no kashrut. Por esses motivos, um alimento halal pode ser 100% permitido para muçulmanos, mas ainda assim ser não kosher para judeus, a menos que receba certificação rabínica específica.

Entre muçulmanos, a situação costuma ser mais flexível: alimentos kosher, especialmente carnes, tendem a ser aceitos como halal porque o abate judaico é considerado válido por muitas escolas jurídicas islâmicas ao reconhecer judeus como parte do “Povo do Livro”.

Essa aceitação, porém, não é universal. Produtos kosher que contenham álcool (por exemplo, vinhos kosher ou alimentos cozidos com vinho) tornam-se automaticamente haram. Também há correntes islâmicas que exigem a recitação explícita de “Bismillah” durante o abate, algo que não ocorre na shechitá judaica.

Assim, embora o kosher seja geralmente mais compatível com o halal do que o contrário, a aceitação varia conforme a interpretação religiosa de cada comunidade.

Kosher e halal no Brasil

No Brasil, o mercado kosher é relativamente bem documentado e conta com estimativas recentes de fontes confiáveis. Segundo relatório da consultoria internacional IMARC Group, o segmento movimentou cerca de US$ 477,82 milhões em 2024, com projeção de crescimento para aproximadamente US$ 617,48 milhões até 2033.

Trata-se de um nicho consolidado, presente especialmente em grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro, com expansão impulsionada não apenas pelo público judeu, mas também por consumidores que associam a certificação a rigor, rastreabilidade e segurança dos alimentos.

Entre as certificadoras com maior atuação no país destacam-se BDK do Brasil, Beit Yosef, Star-K e OU (estas duas últimas atuam por meio de representantes e auditorias internacionais).

Já o mercado halal brasileiro ganha cada vez mais destaque, com crescimento expressivo tanto nas exportações quanto na certificação doméstica. Organizações do setor estimam que a indústria halal no país movimente entre US$ 5 a 6 bilhões por ano considerando carnes, derivados e produtos certificados.

O Brasil é um dos maiores produtores globais de carne halal, e uma parcela significativa dessa produção é destinada a mercados internacionais, especialmente países muçulmanos. Movimentações recentes mostram que, entre 2023 e 2024, houve aumento no número de empresas habilitadas para exportação halal, ampliando a diversidade de produtos certificados. No entanto, e isso é comum em mercados em expansão, os dados para o segmento halal ainda variam conforme a fonte e o recorte da pesquisa. As estimativas disponíveis concentram-se em exportações ou em determinados ramos (como proteína animal), o que dificulta obter um valor nacional consolidado para todo o mercado halal doméstico.

Por outro lado, a diversidade de certificadoras e o crescimento da demanda fazem com que o setor seja ativo e promissor. Entre as entidades com maior atuação no Brasil destacam-se certificadoras como CDIAL Halal, FAMBRAS Halal e SIILHALAL, responsáveis pela auditoria e certificação de numerosas unidades produtoras.

Relação kosher, halal e segurança dos alimentos

Do ponto de vista de food safety, tanto o kosher quanto o halal podem agregar valor aos processos de rastreabilidade, controle de qualidade e higiene.

A obtenção dessas certificações exige auditorias periódicas, rastreamento da cadeia produtiva, verificação rigorosa das matérias-primas e validação dos processos industriais, reduzindo o risco de contaminações cruzadas ou do uso de ingredientes proibidos. Muitas empresas que atuam em mercados internacionais adotam certificações halal ou kosher justamente para atender exigências de exportação e ampliar a confiança do consumidor.

É fundamental reconhecer que certificação religiosa não substitui normas técnicas de segurança de alimentos como HACCP, legislações sanitárias, controle de temperatura, higiene operacional, armazenamento adequado e rotulagem conforme requisitos regulatórios.

Kosher e halal atestam conformidade religiosa e oferecem, de forma secundária, uma camada adicional de qualidade e rastreabilidade, mas não garantem por si só ausência de patógenos, estabilidade microbiológica ou boas práticas sanitárias.

Por isso, a plena segurança dos alimentos depende da integração entre esses sistemas religiosos e os padrões técnicos modernos. Em síntese: kosher e halal fornecem um arcabouço valioso de ética, controle e rastreamento, apreciado tanto por consumidores religiosos quanto por mercados globais, mas precisam ser complementados pelas normas e boas práticas de higiene e segurança para assegurar alimentos realmente seguros.

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Caderno e passagem de turno na indústria de alimentos

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Quem vive o dia a dia da operação em uma fábrica de alimentos sabe que cada turno carrega sua própria rotina, seus próprios desafios e até seus próprios ritmos. O que muita gente não percebe é que essa troca de bastão entre um turno e outro pode ser um dos momentos mais importantes da fábrica e é justamente aí que o caderno de passagem e a passagem de turno ganham força.

O caderno não é um documento técnico, não é um registro formal e nem deve substituir os controles principais. Ele não nasce para virar relatório ou para competir com sistemas oficiais. O caderno existe por um motivo muito mais simples e ao mesmo tempo muito mais humano: garantir que a fábrica continue falando, mesmo quando as pessoas mudam de posição.

É impressionante como um item tão básico pode carregar tanta riqueza de informação. Ali entram pequenas percepções do turno anterior, observações rápidas, algo que chamou atenção, um comportamento estranho da máquina, uma dúvida, uma orientação pontual. Coisas que muitas vezes não aparecem nos formulários, mas fazem toda a diferença na rotina.

E a passagem de turno só funciona bem quando há comunicação de verdade, não basta “entregar a chave” e ir embora. É preciso contar o que aconteceu, explicar o que ficou pendente, avisar o que merece atenção e, principalmente, oferecer contexto para quem chega. Quem assume o próximo turno precisa enxergar o ponto de partida. O caderno ajuda nisso, ele conecta turnos que não se cruzam, cria continuidade e evita que cada equipe tenha que “começar do zero” todos os dias.

Mas vale reforçar que o caderno não substitui nenhum controle oficial. Ele não substitui checklist, não substitui sistema, não substitui procedimentos; ele complementa, ele captura aquilo que os sistemas não alcançam, ele registra o que o olhar humano percebe antes de virar um problema maior. Ele serve como apoio para que a passagem de turno seja mais clara, mais rápida e mais segura.

No fim das contas, o caderno e a passagem são meios simples, mas cheios de vida. Dão voz ao turno que está encerrando, guiam o turno que está começando e criam uma linha invisível de alinhamento entre pessoas que nem sempre se encontram. Quando essa comunicação funciona, a fábrica funciona melhor. E quando a passagem de turno é bem feita, muita coisa deixa de virar problema.

Às vezes, a informação que salva o dia está escrita ali, em uma frase curta, deixada por alguém que só queria garantir que o próximo turno tivesse um caminho mais claro. E isso, por si só, já diz muito sobre o valor dessa ferramenta.

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Indústria 4.0 na Segurança dos Alimentos: por que digitalizar?

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A chamada Quarta Revolução Industrial — ou Indústria 4.0 — já não é uma tendência: é uma realidade que está transformando profundamente a forma como produzimos, controlamos e garantimos a segurança dos alimentos. Tecnologias como Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial, big data e sistemas integrados de gestão estão a revolucionar o setor, automatizando processos, reduzindo falhas humanas e permitindo decisões mais rápidas e baseadas em dados.

Mas se por um lado a digitalização traz enormes oportunidades, por outro exige adaptação, formação e uma visão estratégica. O controle da qualidade, que sempre foi um pilar da segurança dos alimentos, ganha agora novas ferramentas — e novos desafios.

Neste artigo, compartilho como a transformação digital pode (e deve) ser aliada na construção de sistemas mais robustos, eficientes e transparentes. Porque a segurança dos alimentos começa nos dados — mas continua nas pessoas.

Por que digitalizar? Vantagens para a segurança dos alimentos

A digitalização dos processos permite um controle mais rigoroso, em tempo real, e com menos margem para erro humano. Sistemas digitais oferecem:

  • Maior rastreabilidade dos lotes e matérias-primas;
  • Monitorização contínua de parâmetros críticos, como temperatura e umidade;
  • Automação de registros e alertas, reduzindo falhas de preenchimento manual;
  • Análise preditiva, com base em dados históricos, para prevenir contaminações ou falhas de processo.

Tudo isto contribui para aumentar a confiança do consumidor e reforçar a conformidade com certificações como IFS, BRCGS ou ISO 22000.

Desafios da transformação digital no setor alimentar

Apesar dos benefícios, muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para implementar soluções digitais. Entre os principais desafios estão:

  • Custos de investimento inicial em equipamentos e software;
  • Falta de mão de obra qualificada para operar e interpretar dados;
  • Integração difícil com sistemas antigos ou manuais;
  • Resistência à mudança, especialmente em PME ou negócios familiares.

Mas talvez o maior erro na tentativa de digitalização seja impor regras e sistemas sem ouvir quem está no terreno. Quem trabalha diariamente nas linhas de produção, nas salas de embalamento ou nos armazéns tem um conhecimento valioso sobre os processos — e ignorar essa experiência é desperdiçar uma fonte essencial de melhoria.

O que muitas vezes acontece é a criação de estruturas digitais complexas, burocráticas e desajustadas da realidade, que acabam por dificultar mais do que ajudar. Isso gera frustração, resistência e, em muitos casos, faz com que o projeto de digitalização seja adiado indefinidamente ou caia no esquecimento dentro da própria empresa.

A transformação digital só acontece de forma eficaz quando as pessoas são parte do processo desde o início, sendo ouvidas, formadas e envolvidas na construção das soluções. A tecnologia deve servir o processo — e nunca o contrário.

A aceitação da Indústria 4.0 no setor alimentar: estamos preparados?

Apesar do avanço tecnológico, a adesão à digitalização no setor alimentar é desigual. Grandes indústrias têm liderado o movimento, enquanto pequenas e médias empresas ainda enfrentam barreiras.

Segundo estudos europeus recentes, as principais motivações para digitalizar estão ligadas à eficiência operacional, redução de perdas e maior rastreabilidade. Por outro lado, os principais motivos para não avançar são o custo, a complexidade técnica e o receio de depender excessivamente da tecnologia.

Ainda assim, a tendência é clara: quem investe, colhe resultados. E quem adia, corre o risco de ficar para trás — ou falhar em segurança.

Conclusão: digitalizar é inevitável — e benéfico quando bem feito

A Indústria 4.0 não é apenas uma questão de inovação, mas uma exigência para garantir alimentos mais seguros, rastreáveis e sustentáveis. No entanto, a transição deve ser feita com consciência, adaptando o processo à realidade de cada empresa.

Digitalizar não significa perder o controle — pelo contrário, é ganhar mais controle, com dados confiáveis e decisões mais rápidas. Cabe às lideranças reconhecer que o futuro da segurança dos alimentos passa, inevitavelmente, por esta transformação. E quanto mais cedo começarmos, mais preparados estaremos.

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Antes de exigir conformidade, ofereça significado para a segurança dos alimentos

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O texto que preparei para hoje é uma reflexão provocativa. Quem trabalha com Segurança dos Alimentos já vivenciou situações e conflitos relacionados a regras e comportamentos. A gente reforça procedimento, checklist, sinalização… mas às vezes o sentimento é de falta de sustentação. Talvez você já tenha vivido uma situação similar: orienta várias vezes, a pessoa balança a cabeça dizendo que entendeu, mas no dia seguinte o desvio aparece de novo. E aí fica aquela primeira sensação de que falta disciplina. Pode até ser, mas antes disso pergunto: será que não falta significado para a segurança dos alimentos?

A andragogia nos diz que um dos princípios de aprendizagem de adultos é o entendimento do porquê, ou seja, quando alguém entende de verdade o porquê de fazer algo, o jeito de agir muda.

Na prática e ciente disso já vi colaboradores transformarem a rotina depois de uma conversa simples, nada técnica, nada complexa, só atribuindo significado, mostrando que o cuidado deles chega até a casa de alguém, que o produto que passa pelas mãos deles vai diretamente para a mesa de uma família. Veja que isso muda tudo.

E é aí que está o ponto. Nós, como disseminadores de programas, filosofia e qualidade, precisamos ajudar as pessoas a enxergarem propósito no que fazem. Segurança dos Alimentos não começa no POP, começa quando alguém se percebe parte da proteção do consumidor. O POP só organiza e tabula o caminho para isso.

O mais interessante é que esse entendimento não nasce em grandes treinamentos. Muitas vezes ele aparece no corredor, no refeitório, numa conversa rápida antes do turno.

Às vezes um exemplo real faz mais diferença do que uma apresentação inteira.

Na minha percepção, quando o colaborador entende que o trabalho dele importa, a conformidade deixa de ser esforço. Ela vira consequência. A pessoa passa a cuidar porque quer entregar algo seguro, não porque tem alguém cobrando.

No fim das contas, não se trata só de seguir regras. Trata-se de dar às pessoas a chance de entender o impacto que elas têm. Quando o significado para a segurança dos alimentos aparece, o comportamento acompanha e então o atendimento aos requisitos e as conformidades tornam-se consequência.

Todos os dias, um pouquinho de cada vez.

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