Mencionei na primeira parte desse artigo a célebre frase do estatístico e professor americano William E. Deming: “O que não pode ser medido, não pode ser gerenciado”, sobre a importância das informações e do seu gerenciamento como elementos cruciais no universo do conhecimento e como isso também se aplica ao contexto da segurança de alimentos (primeira parte).
Todos somos consumidores de alimentos que são produzidos por muitas cadeias com inúmeros atores e um número quase infinito de insumos das mais variadas origens. Saber interpretar as informações que provém do vasta base de CHEFS (CompreHensive European Food Safety Database) e tirar proveito delas se torna crucial para mitigar riscos de contaminações, fazer a gestão de risco e propor melhorias nos processos, buscando elevar os níveis de segurança de todo o sistema.
Lembrando que o controle da segurança dos alimentos engloba todas as atividades e ações destinadas a garantir que os alimentos sejam seguros para o consumo, como legislações, normas e inspeção de alimentos, como mencionado neste excelente artigo. Os alimentos e seus ingredientes podem ser contaminados ao longo de todo o processo, colocando riscos à segurança, que podem ser químicos e biológicos. Os riscos químicos são resíduos de substâncias aplicadas intencionalmente, como pesticidas e contaminantes ambientais (metais pesados). Os riscos microbiológicos incluem bactérias, fungos, vírus, parasitas e príons, que podem aparecer durante o processamento, quando as práticas de produção são ineficazes ou mal geridas.
Limites máximos foram estabelecidos para uma série de riscos à segurança em ingredientes alimentares e produtos derivados para proteger a saúde humana. Nos países da União Europeia (UE) a legislação prevê o controle oficial pelos Estados-Membros (Regulamento UE 2017/625). Como resultado, os Estados-Membros têm atividades de monitoramento em vigor, nas quais coletam amostras e analisam muitos parâmetros de segurança em todos os tipos de alimentos e rações. Esses parâmetros incluem a presença de diversos riscos químicos e biológicos. Essas atividades de monitoramento, sejam elas baseadas em risco para detectar não conformidades ou aleatórias para subsidiar as avaliações de riscos, apoiam o objetivo geral de minimizar os riscos à saúde pública.
Uma contribuição a esse complexo cenário deverá ser a base de dados CHEFS, que foi concebida a partir da junção de milhões de informações disponíveis na plataforma Zenodo e apresentada no trabalho “Food safety trends across Europe: insights from the 392-million-entry CompreHensive European Food Safety (CHEFS) database”. O artigo será publicado em breve na Food Control, uma revista da European Federation of Food Science and Technology (EFFoST) e a International Union of Food Science and Technology (IUFoST).
No artigo anterior, além de discorrer sobre como essa plataforma foi criada desde o início, enfatizei o papel da European Food Safety Authority (EFSA) como centralizadora e gestora desse universo de informações e concentrei a análise no registro de todos os produtos químicos, fitofarmacêuticos e os resultantes de contaminações no processo da produção. Vimos que, ao apontar as tendências na série histórica desde o ano de 2010, ficou evidente o aumento de todas os registros de contaminações (compliance e non compliance) ao longo desse período e que, se medidas concretas e imediatas não fossem tomadas por parte de todos os elos da cadeia, medidas regulatórias, de gestão dos processos industriais, inspeções ou de boas práticas agrícolas, rastreabilidade e certificação, esses números continuariam a crescer de maneira consistente, conforme mostrado nas tendências, nos gráficos e figuras de maneira inequívoca.
Estatísticas baseadas em alimentos
Vamos agora nos aprofundar ainda mais nesse universo e mostrar os resultados obtidos das análises das informações com relação aos alimentos. O banco de dados CHEFS contém um total de 4.035 IDs de produtos medidos em contaminantes químicos, resíduos de pesticidas e VMPR. Para analisar as associações entre produto e perigo foi construída uma tabela semelhante aos resumos de perigo-produto descrito no artigo anterior. Esta análise destaca as relações produto-contaminante mais comumente monitoradas no conjunto de dados.
Com a intenção de lidar com os mesmos produtos alimentícios dispersos em uma vasta quantidade de classificações diferentes de produtos e para obter uma compreensão mais compacta das estatísticas baseadas em produtos, os IDs de produtos individuais foram novamente agrupados em categorias de alimentos mais ampla. Embora os sistemas de classificação hierárquica estivessem disponíveis para cada ID de produto da EFSA, existem diferenças que foram aparecendo ao longo dos anos à medida que as classificações de alimentos evoluíam. Isso se deve, por exemplo, à mudança do catálogo de matrizes FoodEx para o FoodEx2 e às atualizações subsequentes desse catálogo. Portanto, foi utilizada uma estratégia de agrupamento personalizada com base nessas classificações da EFSA.
Para isso, foram analisados os nomes dos produtos em seus rótulos hierárquicos completos e uma série de regras lógicas foram usadas para atribuir cada produto a uma categoria padronizada com base em sua posição dentro da hierarquia e seu tipo. Categorias como “Frutas”, “Cereais”, “Carnes e tecidos animais” e “Leite e produtos lácteos” foram definidas com base em palavras-chave e padrões nos nomes dos produtos analisados. Esses agrupamentos permitiram a agregação e a visualização dos dados de contaminação em um nível categórico significativo e mais simples para nosso entendimento.
Gráficos de barras foram gerados separadamente para as três categorias de perigo mostrando as dez categorias medidas com maior frequência para cada grupo, com o número total de resultados analíticos e o número de resultados analíticos acima dos limites legais exibidos (non compliance). Os resultados são mostrados no Gráfico 1, no mesmo formato dos gráficos do artigo anterior.

Gráfico 1. As 10 principais categorias de produtos com base no número de análises por grupo principal de contaminantes. Os gráficos de barras exibem as 10 principais categorias de contaminantes (por número total de resultados analíticos) em cada um dos três grupos de resultados analíticos: contaminantes químicos, resíduos de pesticidas e VMPR. Cada linha contém dois gráficos: à esquerda, o número total de resultados analíticos por categoria (eixo x em escala logarítmica) e, à direita, o número de resultados analíticos acima dos limites legais, com anotações de porcentagem (eixo x em escala logarítmica). Os rótulos de porcentagem indicam a proporção de resultados analíticos acima dos limites legais em relação ao número total de análises para cada categoria. Observe que cada gráfico utiliza escalas diferentes, com os eixos anotados em notação científica (potências de 10), conforme indicado ao lado de cada eixo.
Entre os 392.269.911 de resultados analíticos disponíveis para 23 categorias combinadas de produtos alimentícios, os resultados de resíduos de pesticidas para “Frutas” representaram 40,6% (159.280.616 resultados analíticos). O fato desse grupo ter o maior número de resultados tem uma explicação. A UE, como bloco econômico, é a segunda maior importadora de frutas do planeta pelo fato de não possuir aptidão para produção das frutas tropicais, que são as mais consumidas como banana, manga, abacaxi, melão, melancia, dentre outras, por fatores como clima, escassez e preço das terras, alto custo dos insumos e da mão de obra. Se analisarmos os principais países importadores de frutas veremos que Alemanha, Países Baixos, Reino Unido, França e Itália estão no topo dessa lista, segundo a Uffodin, lembrando que o Reino Unido faz parte da EFSA, embora não faça mais parte da UE.
O grupo de “Vegetais” tem o segundo maior número de resultados analíticos para pesticidas, com um total aproximado de 35%. Em ambos os grupos o percentual de amostras acima do Limite Máximo de Resíduos (LMR) permitidos para pesticidas ficou em 0,1%. Parece pouco, mas estamos falando de aproximadamente 160 mil análises positivas em “Frutas” e 130 mil análises positivas para “Vegetais” com níveis acima dos LMR permitidos. Extrapolando isso para a prática, significa que em algum momento, consumidores poderiam ter ingerido pelo menos dois alimentos contaminados com diferentes pesticidas acima dos seus LMR, que poderiam ser do grupo dos organofosforados, os mais presentes nos resultados das análises, pois frutas e verduras fazem parte da dieta diária da grande maioria das pessoas.
Ainda assim, a ração animal, produzida à base de proteínas vegetais como o farelo da soja, que pode chegar a 70% em algumas rações, do milho, do algodão, girassol, farelo de polpa cítrica e até ervilha, apresentou a maior porcentagem de resultados analíticos acima dos limites legais de resíduos de pesticidas (0,05%), em termos proporcionais. “Carnes e tecidos animais” foi o grupo mais analisado para contaminantes químicos (1.255.344 resultados analíticos, 0,3%). Entre os grupos de alimentos mais analisados, a porcentagem acima dos limites legais foi maior para “leite e laticínios” (1,83%). Ou seja, mesmo que improváveis, os riscos da ingestão de resíduos e contaminantes com todos esses produtos, em todos esses alimentos, na prática, seria possível por uma infeliz coincidência, se estivessem presentes num mesmo ponto de venda e em um mesmo momento.
Se considerarmos ainda que há um cruzamento de grupos de alimentos como soja, milho, etc, base das rações, que são também a base da dieta de proteína animal, como carnes bovina, suína e de frango, leite e seus derivados, iremos claramente entender porque a agricultura e pecuária estão dando uma guinada sem precedentes e sem volta para o universo da produção orgânica, biológica, resíduo zero e outras designações para sistemas de cultivo mais sustentáveis e que não têm apenas a ver com o que nos alimentamos, mas com a própria sobrevivência do planeta, já que se estamos contaminando nossos alimentos, estaremos certamente contaminando “por tabela” todo o sistema envolvido no processo de produção, como solos, mananciais de água, lençol freático, florestas.
Estatísticas baseadas em países
Como era de se esperar, quando estendemos a análise aos países, o maior número de resultados analíticos foi proveniente da Alemanha (121.770.822; 31%), seguido pela França (43.506.669; 11%) e Holanda (23.438.384; 6%). É importante notar que esses números refletem o local da amostragem, e não necessariamente a origem dos produtos alimentícios, lembrando que países como Alemanha e Países Baixos (onde Holanda está inserida), além de Bélgica, funcionam como “hubs” de chegada e distribuição de alimentos para toda a Europa pelas suas estruturas portuárias e logísticas, cujo exemplos clássicos são o suco de laranja e frutas tropicais. É normal que tudo que chega através desses países seja analisado no momento da recepção pois, se algum problema for detectado, são retornados à origem, redirecionados a outro destino ou mesmo incinerados, quando os custos de frete são altos.
Os diferentes tipos de principais grupos de contaminantes, ou seja, contaminantes químicos, resíduos de pesticidas e VMPR, foram examinados no gráfico 2. A Alemanha apresentou o maior número total de resultados analíticos para todos os contaminantes, com 0,17% dos resultados analíticos acima dos limites legais para contaminantes químicos, 0,01% para resíduos de pesticidas e 0,02% para VMPR. Entre os 15 países classificados pelo número total de resultados analíticos, a Irlanda apresentou a maior porcentagem de resultados analíticos acima dos limites legais para contaminantes químicos (4,94%) e VMPR (0,45%), enquanto a Bulgária apresentou a maior porcentagem de resultados analíticos acima dos limites legais para contaminantes químicos (4,94%) e VMPR (0,45%) e a Bulgária para resíduos de pesticidas (0,06%).
Entretanto, as diferenças na proporção da estratégia de amostragem de cada país por tipo de risco também devem ser observadas. Para contaminantes químicos, a Irlanda difere dos demais países com 43,2% de amostragem por conveniência. Alemanha, Bélgica e Finlândia se destacaram na amostragem de resíduos de pesticidas, com 81,6% de amostragem seletiva, enquanto nos demais países a amostragem objetiva foi geralmente a mais utilizada. Independente das estratégias de amostragem, os resultados trazem sempre um alerta para a importância de cada perigo em cada contexto e poderão, inclusive, sugerir mudanças nessas estratégias.

Gráfico 2. Os 15 principais países por total de resultados analíticos e número de resultados analíticos acima dos limites legais para contaminantes químicos, resíduos de pesticidas e resultados analíticos do VMPR, para todos os anos disponíveis no repositório da EFSA. O número total de resultados analíticos é representado no painel esquerdo e o número de resultados analíticos que ultrapassaram os limites legais é apresentado no painel direito. Observe que cada gráfico utiliza escalas diferentes, com os eixos anotados em notação científica (potências de 10), conforme indicado ao lado de cada eixo.
Visão geral
Nesses artigos procurei apresentar as tendências dos mais de 392 milhões de resultados analíticos de monitoramento da segurança de alimentos na Europa, introduzindo e analisando o Banco de Dados Europeu Abrangente de Segurança Alimentar (CHEFS), que fornecerá um recurso exclusivo para a análise das tendências na ocorrência de contaminantes alimentares ao longo dos anos, países e matrizes alimentares.
Os dados demonstraram que o número de resultados analíticos aumentou, de forma geral, entre 2000 e 2024 nas categorias de perigo de contaminantes químicos, resíduos de pesticidas e VMPR. Somente houve queda no número de resultados analíticos relatados à EFSA em 2020 e 2021 provavelmente refletindo uma menor amostragem realizada devido aos efeitos da Covid-19. Outra tendência observada ao longo dos anos é que, além do aumento no número de resultados analíticos relatados à EFSA, a qualidade dos metadados está melhorando com o passar do tempo. Por exemplo, a percentagem de amostras com origem desconhecida diminuiu dez vezes entre 2017 e 2024, o que demonstra um refinamento das informações e que o trabalho é dinâmico.
Além das tendências ao longo dos anos, foram mostrados quais os perigos que foram monitorados com maior frequência e quais foram mais frequentemente considerados acima dos limites legais. Na categoria de perigo de contaminantes químicos, os metais pesados, como o chumbo e o cádmio, e as micotoxinas, como a aflatoxina b1, foram analisados com maior frequência. Os três pesticidas mais analisados foram todos organofosforados (clorpirifós, diazinon e pirimifós-metil), enquanto os três medicamentos veterinários mais analisados foram antibióticos (eritromicina, danofloxacina e doxiciclina).
As taxas de resultados analíticos acima dos limites legais diferiram bastante entre as categorias de perigo, sendo que os contaminantes químicos apresentaram as taxas de não conformidade mais elevadas, seguidos pelos pesticidas. Os medicamentos veterinários apresentaram o menor número de resultados analíticos acima dos limites legais, apesar de terem sido utilizadas quase exclusivamente estratégias de amostragem seletiva. Isto sugere que a utilização de medicamentos veterinários em animais destinados à produção de alimentos é efetivamente regulamentada na UE. Dos alimentos analisados com maior frequência, o leite e os produtos lácteos foram os que apresentaram maior frequência de níveis acima dos limites legais no grupo de contaminantes químicos, a ração animal tendo como base a utilização de cereais, apresentou maior frequência de níveis acima dos limites legais para pesticidas. Frutas e verduras também apresentaram números significativos de resíduos de pesticidas acima dos limites legais, apesar que em menor número que os anteriormente citados.
Ao analisar as estatísticas por país, ficou evidente que existem grandes diferenças na quantidade de resultados analíticos entre eles. Deve-se notar que, com base nos dados disponíveis, não está claro se isso reflete um maior número de análises realizadas ou um maior número de resultados analíticos relatados à EFSA. Além disso, ao realizar a comparação entre países, é relevante levar em consideração a quantidade de alimentos produzidos e importados pelos países. De acordo com os dados da FAOSTAT sobre a produção total anual e por país de alimentos, a França teve a maior produção total, com 8,45 bilhões de toneladas, seguida pela Alemanha, com 7,3 bilhões de toneladas, e pela Espanha, com 4,37 bilhões de toneladas. Em países como a Polônia e a Espanha, os volumes de produção de alimentos foram relativamente altos, enquanto o número de resultados analíticos permaneceu comparativamente baixo. No entanto, o número de resultados analíticos não correspondeu necessariamente à produção nacional, uma vez que os alimentos podem ter sido amostrados em um país diferente de sua origem, tendo a ver com produção para consumo interno ou exportação para os demais países no âmbito da UE.
Além disso, a intensidade da amostragem pode ter sido influenciada por fatores além do volume de produção, como controles de importação direcionados, priorização baseada em risco ou estratégias específicas de monitoramento nacional, etc. Outra informação relevante é que as análises dos fluxos comerciais de origem e destino dos alimentos (tema para um outro artigo) mostraram uma tendência de que as amostras contaminadas se originavam com mais frequência de países fora da UE, conforme comentei no artigo anterior e isso pode demonstrar uma maior fragilidade dos sistemas de produção e legislação dos países ditos “em desenvolvimento” .
Abro aqui um parêntesis dentro desse emaranhado de informações para dizer que nenhum registro de non compliance com contaminações de pesticidas foi relacionada ao Brasil em TODA essa série histórica. Isso tem um claro motivo, o nosso país possui uma das mais avançadas legislações do mundo referentes ao tema. A lei 14.785/2023, conhecida como “Lei dos Agrotóxicos” , criticada por muitos que afirmam ser uma lei permissiva ao uso desses produtos, rege todo o setor desde a pesquisa até a comercialização, descarte de embalagem, importação e exportação. Quem conhece a produção irrigada de uvas e mangas do Vale do São Francisco ilustrada na imagem abaixo e pérola do nordeste brasileiro, sabe da seriedade do trabalho que é feito por lá por nossos colegas agrônomos e técnicos agrícolas. Os resultados estão aí comprovados em nossas exportações e tudo que é fornecido ao mercado interno, são livres de resíduos de qualquer agrotóxico, em sua quase totalidade. E isso se estende às demais áreas do agronegócio nacional, que movimentou em 2025 nada mais nada menos que 169,2 bilhões de dólares, com crescimento de 3% em relação ao ano de 2024, superavit de 149 bilhões e participação de 48,5% do total de tudo que foi exportado pelo Brasil, segundo o MAPA. Principais produtos exportados são carne, cereais, café, celulose, acúcar e álcool e suco de laranja. Para o agronegócio, esses resultados não são nenhuma novidade e, com a aprovação do acordo comercial com a União Europeia, já em vigor ainda que provisório, esses números irão aumentar e trazer ainda mais protagonismo para aqueles que madrugam e vão para a roça, faça sol ou faça chuva.

Produção de uva de mesa no Vale do São Francisco, NE do Brasil. Imagem www.jornaldosertaope.com.br
Voltando ao assunto, além da incerteza quanto à precisão do país de origem, existem várias outras limitações importantes a serem levadas em conta ao interpretar os resultados apresentados. Dependendo de sua especialização, pesquisadores, formuladores de políticas ou outros usuários finais podem preferir comparações diferentes. Como os dados foram publicados em acesso aberto, essas comparações podem ser feitas por esses usuários finais da maneira que melhor responda às suas perguntas específicas. Além disso, é provável que a EFSA, em algum momento, abra seus bancos de dados para uso público, eliminando gradualmente os arquivos no Zenodo. Até lá, o banco de dados CHEFS será uma infraestrutura única e valiosa que, talvez ainda mais importante, poderá ser facilmente expandida com outras fontes de dados.
Conclusões
Em se tratando de segurança de alimentos, qualquer esforço ou estratégia que objetive mitigar riscos e buscar soluções e políticas que tragam a nós consumidores a certeza de estarmos nos alimentando com produtos saudáveis e livres de resíduos de quaisquer naturezas, é amplamente bem-vindo. Ao integrar e harmonizar extensos dados de monitoramento, o banco de dados CompreHensive European Food Safety (CHEFS), esse complexo trabalho que tentei explicar nesses dois artigos, fornecerá uma base para análises avançadas e de previsão de risco, que irá contribuir para a salvaguarda da segurança de alimentos em toda a Europa e cujo conceito poderá também ser levado a todo mundo.
Essas análises, que até então eram difíceis ou impossíveis de se realizar, demonstram como esse banco de dados poderá servir não apenas como uma fonte centralizada de dados de monitoramento harmonizados, mas também como uma ferramenta estratégica para identificar áreas prioritárias em políticas, pesquisas e regulamentações de segurança de alimentos. Além de proporcionar transparência e acessibilidade, permitirá a avaliação sistemática de tendências ao longo do tempo, diferenças entre países e a ocorrência simultânea de contaminantes químicos em diferentes grupos de alimentos, apoiando uma mudança de avaliações fragmentadas e específicas para cada perigo em direção a uma compreensão integrada e baseada em dados do sistema alimentar europeu, no qual a EFSA tem um papel extremamente importante por ser a fiadora de todos os dados.
Em um futuro não muito distante, o banco de dados CHEFS poderá desempenhar um papel fundamental no apoio a avaliações rápidas de risco em nível da UE durante incidentes ou crises emergentes de segurança, permitindo sinais de alerta precoce com base em tendências e contexto histórico. Sua estrutura e design de acesso aberto o tornam adequado para a vinculação a conjuntos de dados complementares, como dados climáticos, comerciais ou de consumo, aprimorando assim a capacidade de modelar os fatores de contaminação e prever riscos futuros. Ou seja, as possibilidades de uso dessa ferramenta são inúmeras. Além disso, ao fornecer uma base empírica para priorizar esforços analíticos e intervenções regulatórias, o CHEFS poderá subsidiar a tomada de decisões proativas e reativas na governança da segurança de alimentos europeia. Dessa forma, o banco de dados representará uma mudança de mindset para a próxima geração de vigilância da segurança e certamente servirá como modelo para exploração do conjunto de informações que, como na UE, existem em outros países.
Que a ANVISA e os órgãos regulatórios e de segurança de alimentos no Mercosul estudem a fundo esse trabalho pois poderá servir como “estudo de caso” para implementação futura de uma agência nos moldes da EFSA e de uma plataforma com esse formato, que poderá permitir trocas valiosíssimas de informações com nosso parceiros comerciais da UE e quem sabe mitigar problemas no aceite das nossas exportações de alimentos para o bloco que é a “menina dos olhos” de toda a economia mundial.
Imagem em destaque: Alma Gabriela Luna
13 min leituraMencionei na primeira parte desse artigo a célebre frase do estatístico e professor americano William E. Deming: “O que não pode ser medido, não pode ser gerenciado”, sobre a importância […]


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