Quando a motivação se apaga: o risco invisível nas organizações
Com o término de mais um ano, é natural que as pessoas revisitem suas trajetórias pessoais e profissionais. Esse período de balanço — em que definimos metas, estratégias e novos rumos — costuma trazer também reflexões profundas sobre o propósito do nosso trabalho. Foi nesse contexto que me deparei com um texto de Neeraj Wasanque que me chamou atenção e me fez pensar sobre a realidade de muitos profissionais de Segurança de Alimentos.
A narrativa abaixo descreve o encontro com um gerente de Controle de Qualidade e Segurança de Alimentos esgotado, sem brilho nos olhos, reduzido a um papel burocrático em vez de atuar como um agente de proteção. O texto é forte, direto, quase desconfortável — e justamente por isso tão necessário.
Ontem encontrei um gerente de Controle de Qualidade. Olhos sem vida. Assinando tudo sem olhar.
“Você não verifica mais?”
“Por quê? Eles vão ignorar de qualquer maneira.”
“Mas e a segurança dos alimentos…”
“Paga minhas contas ou me mantém seguro?”
O cronograma da transformação:
– Ano 1: Lutando todas as batalhas;
– Ano 3: Escolhendo as batalhas;
– Ano 5: Evitando as batalhas;
– Ano 7: Juntando-se ao inimigo.
Ele me mostra seu carimbo de assinatura.
“A produção usa quando não estou aqui.”
“Isso é ilegal!”
“Isso é sobrevivência.”
Seu idealismo de controle de qualidade morreu em algum lugar. Entre a centésima decisão ignorada e a milésima culpa.
Agora você não está garantindo a qualidade. Você está permitindo a quantidade.
E a parte mais triste?
Você sabe exatamente quando parou de se importar.
Mas continuou assim mesmo.
A erosão silenciosa da cultura de Segurança de Alimentos
Ao reler essa história, não pude deixar de refletir sobre o desgaste que muitos profissionais da nossa área acumulam ao longo dos anos — desgaste este que não se deve apenas à pressão das operações, mas também à falta de respaldo, à repetição de decisões ignoradas, aos confrontos diários com culturas organizacionais que priorizam produtividade imediata em detrimento da prevenção. E isso não envolve apenas gerentes: impacta monitores, inspetores, supervisores, auditores internos e externos. É uma erosão silenciosa.
E quando um profissional de Segurança de Alimentos perde o propósito, o risco deixa de ser gerenciado e passa a ser tolerado. A barreira crítica que deveria existir se enfraquece. A normalização do desvio se instala. E essa abertura — essa pequena fresta — pode ser justamente o início de um recall, de um incidente, de uma vida exposta ao perigo.
Mas precisamos lembrar de algo fundamental: ninguém escolhe a área de alimentos por falta de opção. Escolhemos porque acreditamos que nosso trabalho importa — porque sabemos que somos, literalmente, a última linha entre um processo industrial e a mesa de milhares de pessoas.
Virada de propósito: 2026 como ano de reconexão e coragem
Por isso, quando encerramos mais um ciclo, vale a pergunta: Em que momento deixamos de lutar todas as batalhas? E por que aceitamos isso?
Não para apontar culpados, mas para reconhecer que está nas nossas mãos a virada de chave. Cultura de Segurança de Alimentos não nasce de documentos impecáveis — nasce de profissionais motivados, conscientes e comprometidos, mesmo (e principalmente) quando ninguém está observando. Lembre-se: “O errado é errado”, mesmo quando todos estejam fazendo; “O certo é o certo”, mesmo que ninguém esteja fazendo.
Se 2025 foi um ano de cansaço, de conformismo, de sensação de que “sempre foi assim e nunca deu em nada”, permita-se transformar esse sentimento em combustível. Que 2026 seja o ponto de virada.
Faça diferente.
Reacenda seu propósito.
Questione o que precisa ser questionado.
Dê o exemplo que outros vão seguir.
Motive sua equipe — e permita-se ser motivado também.
Cada decisão técnica, cada desvio barrado, cada não dito na hora certa representa uma vida potencialmente protegida. E que isso nunca deixe de ser a essência do nosso trabalho, profissionais de Segurança de Alimentos!
Que 2026 seja o ano da retomada da motivação, da coragem e da cultura de Segurança de Alimentos fortalecida.
Porque você faz diferença — todos os dias, em cada detalhe, em cada batalha vencida.
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