Blog FSB

3 min leitura
0

Análise de tendências no controle de pragas: quando os gráficos são insuficientes

3 min leitura

Durante muitos anos, programas de controle de pragas em indústrias de alimentos foram avaliados por critérios relativamente simples: número adequado de armadilhas, aplicação periódica de tratamentos, uso de iscas e emissão de relatórios técnicos após cada visita. Em muitos casos, a consolidação de dados trimestrais era considerada suficiente para demonstrar conformidade sanitária.

Esse modelo antigo funciona em um contexto regulatório e de mercado menos exigente. Quando os registros eram mais simples, auditorias menos detalhadas e certos conceitos, hoje fundamentais para o setor, como rastreabilidade, cultura de segurança de alimentos e gestão integrada de riscos, ainda eram pouco desenvolvidos.

Esse cenário mudou

A evolução das legislações sanitárias, o fortalecimento dos protocolos internacionais de certificação e a pressão crescente do consumidor transformaram profundamente a forma como o controle de pragas deve ser conduzido. Estruturas de certificação amplamente adotadas na indústria de alimentos, como FSSC 22000, BRCGS, IFS Food e SQF Institute incorporaram exigências mais rigorosas relacionadas à gestão preventiva de riscos.

Nesse novo contexto, o controle de pragas deixou de ser uma atividade massivamente operacional para se tornar parte estratégica do sistema de segurança de alimentos. O foco total deve ser a prevenção.

Entre os pilares dessa nova abordagem estão:

análise de riscos, rastreabilidade, diagnóstico de causa raiz e análise de tendências.

No entanto, é justamente nesse último ponto que muitas empresas ainda apresentam fragilidades. Motivos: faltam aprofundamento na interpretação e capacidade para converter tendências em ações práticas.

Em diversas operações, aquilo que é chamado de “análise de tendências” limita-se à consolidação de dados históricos em planilhas e gráficos. Informações coletadas em armadilhas e inspeções ou registros de tratamento são compiladas em relatórios estatísticos que descrevem o comportamento passado das pragas.

Esse tipo de registro é importante, mas não representa uma verdadeira análise de tendências, pois, na verdade…

estavam apenas descrevendo o passado.

Uma análise de tendências efetiva precisa superar a leitura do histórico. Seu objetivo principal é identificar padrões e sinais que permitam antecipar riscos e orientar decisões preventivas.

Vale dizer que para nós, “análise de tendências” é o processo de interpretar dados históricos e condições operacionais para prever riscos futuros e orientar ações preventivas no controle de pragas.

Para isso, o profissional responsável pelo programa de controle deve integrar diferentes fontes de informação. Dados históricos precisam ser analisados em conjunto com fatores ambientais, operacionais e estruturais que possam influenciar a dinâmica das pragas.

Oscilações climáticas, períodos de maior precipitação, sazonalidade de matérias-primas, modificações estruturais nas instalações e alterações no fluxo de produção são exemplos de fatores que podem alterar significativamente o comportamento das populações de pragas.

Além disso, o desafio do turn over na equipe operacional do estabelecimento, variações nas rotinas de higienização, ou intervenções estruturais também podem impactar diretamente as condições sanitárias e as barreiras físicas de uma planta industrial.

Outro fator crítico está na qualidade das informações coletadas em campo. O setor de controle de pragas apresenta elevada rotatividade de profissionais, e muitas empresas ainda possuem programas de capacitação limitados para técnicos responsáveis por inspeções e registros (54% treinam menos de 8 horas/ano). Dados inconsistentes ou incompletos comprometem a confiabilidade das análises e dificultam a identificação de padrões relevantes.

O óbvio precisa ser dito

Em alguns casos, relatórios analíticos são elaborados por profissionais que não conhecem o processo produtivo ou as características ambientais da instalação avaliada. Isso reduz significativamente a capacidade de interpretação dos dados.

A escolha de insumos e métodos de controle também pode influenciar os resultados. Programas baseados exclusivamente em critérios de custo, com uso restrito de formulações ou tecnologias pouco atualizadas, tendem a apresentar menor eficiência diante de variações sazonais ou processos de resistência das pragas.

Diante desse cenário, o papel do profissional responsável pelo controle de pragas precisa evoluir, frase que nos parece tão óbvia, mas sem uma mudança de mentalidade, os erros e as suas consequências se mantêm.

Mais do que executar aplicações ou monitorar armadilhas, esse especialista deve atuar como analista de risco dentro do sistema de segurança de alimentos. Isso exige uma visão mais ampla da operação, com maior interação com áreas como produção, qualidade e manutenção.

A análise de tendências eficaz depende da capacidade de observar processos, compreender mudanças ambientais e interpretar sinais precoces de desequilíbrio sanitário.

O paradigma atual da segurança de alimentos exige um controle de pragas preditivo

E a análise de tendências, conjugada com a análise de riscos, bem conduzidos consolidam e potencializam os resultados que armadilhas, registros e praguicidas sempre entregaram…

com um pouco mais de inteligência.

3 min leituraDurante muitos anos, programas de controle de pragas em indústrias de alimentos foram avaliados por critérios relativamente simples: número adequado de armadilhas, aplicação periódica de tratamentos, uso de iscas e […]

7 min leitura
0

Publicada a 2ª versão do Documento de Posição da GFSI sobre Cultura de Segurança de Alimentos

7 min leitura

Lá em 2018 abordamos em um post a 1ª edição deste documento, traduzido por voluntário (veja aqui). Agora, no dia 26/03/26 (bem fresquinho!), a GFSI refina o arcabouço global para a cultura de segurança de alimentos ao incorporar as pesquisas acadêmicas mais recentes e o feedback dos stakeholders desde 2018, após a ampliação da compreensão de como a cultura organizacional interage com os sistemas de segurança de alimentos, reforçando-os mutuamente.

Isso não significa que todo o valioso trabalho do grupo técnico que apoiou o documento de 2018 tenha sido descartado. Em vez disso, esta edição representa uma evolução conceitual para definir e descrever a cultura de segurança de alimentos e as suas dimensões.

Ele esclarece o papel da GFSI como uma entidade de benchmarking que define “o quê” — os principais pontos de referência conceituais e dimensões que permitem o alinhamento global, enquanto deixa o “como” — as ferramentas específicas e métodos de implementação para especialistas do setor, responsáveis pelas normas reconhecidas e empresas individuais, ou seja, se concentra mais claramente na definição da estrutura central do tema e avalia se os conceitos e dimensões fundamentais permanecem válidos e relevantes, ao invés de prescrever abordagens de implementação.

Nesta atualização, o que antes era uma ideia emergente passou a ser reconhecido como um fator crítico que influencia o desempenho em segurança de alimentos, o comportamento organizacional e a proteção do consumidor. Em organizações de alto desempenho, sistemas e cultura operam em conjunto para sustentar os resultados em segurança de alimentos, ou seja, buscar preencher a lacuna entre a teoria e as exigências da prática, que possa ser usada para transformar a intenção cultural em um desempenho consistente e mensurável.

O objetivo é apoiar o alinhamento contínuo e melhorar os resultados de segurança de alimentos em todo o mundo. A quem se destina? Líderes sêniores, gestores de instalações, auditores, formadores e reguladores que necessitam de um ponto de referência comum e de um vocabulário partilhado. O que não faz? Não prescreve ferramentas de implementação, diagnósticos, modelos de maturidade ou intervenções — esses aspectos permanecem fora do escopo do Documento de Posicionamento e, portanto, do Guia.

Inicia com a nova definição sobre a Cultura de Segurança de Alimentos: “um conceito presente em todas as empresas do setor alimentício, relacionado às crenças, comportamentos, valores e pressupostos profundamente enraizados, aprendidos e compartilhados por todos os funcionários, e que se integram para impactar o desempenho da organização em segurança de alimentos.”  É visto como uma roda de dimensões interativas, organizadas em dois níveis interdependentes, conforme as figuras a seguir (estrutura dimensional do modelo evoluído):

Essa abordagem de dupla camada reconhece que a maturidade da cultura de segurança de alimentos não se expressa apenas por meio de aspectos da cultura organizacional, como visão e liderança, mas também se concretiza por meio da eficácia dos comportamentos operacionais de segurança de alimentos, incluindo as respostas à mudança.

A iniciativa reconhece que a cultura não é um conceito “abstrato”, mas sim um determinante crucial dos resultados em segurança de alimentos. Com base em mais de 180 fontes — incluindo estudos empíricos, teoria comportamental, pesquisa organizacional e normas da indústria — esta edição propõe um modelo revisado de cinco dimensões para a cultura de segurança de alimentos. Essas dimensões são organizadas em dois níveis, refletindo a distinção entre os fatores fundamentais da cultura organizacional e as manifestações culturais na prática de segurança de alimentos. Não é meramente produto de liderança ou treinamento, mas sim uma estrutura integrada de valores compartilhados, comportamentos, consciência de riscos e aprendizado organizacional. Para ser eficaz, a cultura deve ser mensurável, acionável e continuamente aprimorada. A literatura destaca ainda a interação dinâmica entre sistemas formais (como HACCP e SGSA) e elementos culturais informais (incluindo o tom da liderança, o empoderamento dos funcionários e a consistência comportamental).

A nova estrutura dimensional circular enfatiza a interação entre todas as dimensões e seus componentes críticos, além de demonstrar o foco fundamental das dimensões Pessoas e Valores da Empresa, Visão e Missão no suporte às demais dimensões. Há uma carência de pesquisas sobre as dimensões Consistência, Adaptabilidade e Melhoria Contínua na literatura sobre cultura de segurança de alimentos. Dentro destes pilares há alguns fundamentos bem demarcados, também chamados de áreas temáticas, tais como:

– a equipe de lideranças de todas as organizações, que dependendo da natureza do negócio pode incluir o proprietário e o conselho de administração, estabelece os valores, a visão e o propósito da organização. Esses valores fundamentais transcendem todos os aspectos do negócio e norteiam a cultura de segurança de alimentos;

– a coordenação consiste no alinhamento de funções, responsabilidades e comunicação entre departamentos, turnos e locais para promover resultados de segurança. O alinhamento de objetivos entre os departamentos é fundamental e é fomentado por meio de sessões colaborativas, equipes de projeto multifuncionais e comunicação eficaz. É importante ressaltar que a coordenação com as estruturas de governança de segurança de alimentos internas e externas e a integração com os parceiros da cadeia de suprimentos também contribuem para esse componente crítico;

– os membros da equipe precisam ser responsabilizados pelos resultados em segurança de alimentos que estejam dentro de suas atribuições. Isso requer coordenação, comunicação e treinamento eficazes para gerar o entendimento e o comprometimento necessários, bem como a conscientização sobre as pressões do trabalho e os recursos disponíveis dentro da organização;

– a pressão no trabalho pode ser gerenciada por meio de planejamento, programação da produção e garantia de recursos adequados em todos os momentos, incluindo pessoal, equipamentos, ingredientes e materiais. É necessário considerar o impacto de fatores externos, como auditorias e visitas externas, sobre a carga de trabalho e a pressão no trabalho, e elaborar planos para superar desafios e obstáculos;

– a comunicação precisa ser aberta, proativa e bidirecional, com a verificação do entendimento por meio de feedbacks bidirecionais como parte integrante do processo. É importante considerar a linguagem, o uso de ferramentas e materiais apropriados, os canais de comunicação adequados e como superar as barreiras de comunicação e estabelecer confiança. Para garantir uma comunicação eficaz, de cima para baixo, de baixo para cima e em toda a organização, a comunicação precisa ser planejada e estruturada, assim como os métodos e canais de comunicação com as partes interessadas externas;

– os esforços em treinamento e capacitação são essenciais para apoiar tanto a cultura organizacional quanto as iniciativas do SGSA (Sistema de Gestão de Segurança de Alimentos). Intervenções de treinamento específicas precisam ser planejadas de forma eficaz para atender às necessidades dos grupos de participantes, evitando-se abordagens genéricas;

atitudes positivas em relação à segurança de alimentos e uma cultura de segurança de alimentos são importantes, e é necessário evitar discrepâncias entre atitudes e comportamentos. Intervenções na cultura de segurança de alimentos e treinamentos em segurança de alimentos podem ter efeitos positivos sobre atitudes e comportamentos, mas todas as intervenções devem ser monitoradas para comprovar sua eficácia. O envolvimento contínuo é necessário para um engajamento sustentado e consistente e para impulsionar a mudança na cultura interna;

– a colaboração e o trabalho em equipe são importantes para a cultura de segurança de alimentos, e foi relatado que um influencia o outro. As organizações precisam desenvolver planos para fortalecer o trabalho em equipe e a colaboração por meio de iniciativas de gestão e cultura de segurança de alimentos. O aprendizado baseado em equipes e métodos participativos pode ajudar a incutir um melhor trabalho em equipe e colaboração com outros componentes críticos da cultura de segurança de alimentos em todas as dimensões, como Treinamento e Conhecimento, Comunicação e Coordenação, Comportamento e Atitude, Reconhecimento e Empoderamento, Conscientização de Riscos e compreensão das Pressões no Trabalho, o que contribui para um ambiente propício ao trabalho em equipe e à colaboração eficazes;

– o reconhecimento e o empoderamento são fatores positivos que impactam o desenvolvimento da cultura de segurança de alimentos, e abordagens como treinamento e participação de funcionários/equipes têm sido destacadas como importantes. Algumas ferramentas estão disponíveis para auxiliar na compreensão do nível atual de autonomia, de modo que estratégias para aumentar o empoderamento possam ser desenvolvidas. Promover um diálogo seguro e aberto e reconhecer os funcionários que se destacam são fundamentais para a construção de equipes mais empoderadas;

– a conscientização sobre riscos é fundamental tanto para o controle eficaz dos perigos à segurança de alimentos por meio de sistemas e programas de gestão da segurança de alimentos, quanto para o desenvolvimento de uma cultura de segurança de alimentos madura, podendo inclusive ser o resultado dela. As organizações precisam tomar medidas para avaliar o nível de conscientização sobre riscos em seus funcionários e aplicar ferramentas adequadas de educação e comunicação para manter e aumentar essa conscientização, de acordo com o setor de produtos em que atuam;

– o SGSA (Sistema de Gestão de Segurança de Alimentos) precisa ser bem projetado, desenvolvido, implementado e mantido de forma eficaz. A importância da interação entre o SGSA e a cultura de segurança de alimentos tem sido mais bem compreendida à medida que mais pesquisas e estudos sobre as dimensões culturais têm sido realizados. Dar ênfase ao planejamento de como as abordagens se apoiarão mutuamente em qualquer projeto ou ciclo de melhoria permitirá a tomada de ações apropriadas;

– os comportamentos consistentes e corretos em matéria de segurança de alimentos são essenciais em todos os níveis. Outros aspetos importantes incluem a medição do desempenho, a documentação e os sistemas de registro e sua utilização na análise de tendências. A medição de desempenho, por exemplo, por meio do monitoramento de PCCs (Pontos Críticos de Controle), permite que a empresa verifique se está atendendo aos requisitos de segurança de alimentos definidos, além de reconhecer o bom desempenho e identificar problemas. As métricas precisam ser escolhidas  cuidadosamente e normalmente incluem medidas reativas (de resultado) e proativas (de previsão);

– o ambiente de trabalho precisa atender a um bom padrão de higiene, com instalações e acabamentos que promovam práticas de segurança de alimentos e permitam que os funcionários desempenhem suas funções de forma eficaz e confortável. A literatura confirma que o ambiente impacta comportamentos, conformidade e cultura, e a falta de boas práticas ambientais tem sido associada a surtos de doenças transmitidas por alimentos. No contexto da adaptabilidade, da mudança e da melhoria contínua, a qualidade do ambiente de trabalho, incluindo acabamentos, ferramentas, equipamentos e serviços necessários para a segurança de alimentos, é fundamental não apenas para o cumprimento dos requisitos de segurança de alimentos, mas também para gerar uma cultura de melhoria contínua;

– o componente crítico de Adaptabilidade e Melhoria Contínua pode ser subdividido em vários tópicos essenciais. Agilidade e Adaptabilidade são conceitos interligados; agilidade é a capacidade de reagir, mover-se e mudar de forma rápida e fácil em resposta a um estímulo, enquanto adaptabilidade diz respeito à consideração de todas as opções e oportunidades e ao planejamento do caminho a seguir. Ambos são importantes para a capacidade de uma organização responder e se adaptar às mudanças de circunstâncias, e essa capacidade pode impactar a cultura de segurança de alimentos.

Com isto, a cultura de segurança de alimentos existe em um espectro de maturidade, que varia de mais fraca a mais forte, e isso tem sido descrito como de negativo para positivo, menos maduro para mais maduro ou reativo para proativo. Independentemente do sistema ou escala de medição utilizada, é importante poder traçar o perfil da cultura existente de uma organização para entender onde residem os pontos fortes e fracos em todas as dimensões e para desenvolver um programa de intervenções para fortalecer a cultura de segurança de alimentos na empresa.

É sobre agir. Cabe a nós aplicar modelos de maturidade, usar instrumentos certos e avaliar com profundidade — para identificar onde realmente estamos e, principalmente, onde precisamos evoluir com urgência.

7 min leituraLá em 2018 abordamos em um post a 1ª edição deste documento, traduzido por voluntário (veja aqui). Agora, no dia 26/03/26 (bem fresquinho!), a GFSI refina o arcabouço global para […]

2 min leitura
0

Recall de fórmulas infantis no Brasil, em 2026

2 min leitura

O ano de 2026 começou com importantes recalls de alimentos no Brasil, com destaque para a contaminação de fórmulas infantis.

Uma medida da Anvisa (Resolução 32/2026), publicada no dia 7 de janeiro, determinou a proibição da comercialização, da distribuição e do uso de alguns lotes de fórmulas infantis.

A motivação é o risco de contaminação por cereulide, uma toxina produzida pela bactéria Bacillus cereus. O consumo de alimento contaminado por essa toxina pode causar vômito persistente, diarreia, entre outros sintomas como sonolência e confusão mental.

O Bacillus cereus é um dos principais agentes causadores de doenças transmitidas por alimentos. Importante no caso dessa bactéria é que a doença é causada pela toxina gerada por ela e não pela própria bactéria.

Por se tratar de uma bactéria anaeróbica, ela pode sobreviver em condições de falta de oxigênio. Há relatos de que sua multiplicação ótima acontece no intervalo de temperatura de 30 a 40ºC e em pH entre 5-9,3.

E quando pensamos na toxina há duas características que impactam quando o assunto é segurança de alimentos: sua capacidade de sobreviver a tratamentos térmicos e se reproduzir em baixas temperaturas, o que dificulta o seu controle, uma vez que o alimento já está contaminado.

Por ser resistente a tratamento térmico, essa toxina é um perigo para indústrias de alimentos lácteos, como as fórmulas infantis, já que uma das primeiras medidas para controlar a carga bacteriana do leite é o processo de pasteurização. Se existe uma toxina resistente a essa etapa, precisamos nos cercar de medidas anteriores.

B. cereus tem o solo como habitat natural. No entanto, devido a sua capacidade de formar esporos, este microorganismo pode se espalhar facilmente contaminando ambiente, superfícies, alimentos e água.

As condições de processamento nas empresas devem ser cuidadosamente avaliadas, tanto para evitar o crescimento de B. cereus como para inativá-lo, evitando a formação de esporos nos alimentos que já estejam contaminados.

Os agentes formadores de esporos utilizam essa capacidade de produzir as toxinas quando expostos a condições desfavoráveis ao seu crescimento, portanto, o importante é trabalhar para diminuir muito a carga bacteriana e acabar com a germinação dos esporos.

Como prevenir contaminação por Bacillus cereus?

Sabendo que este micro-organismo pode estar presente em todos os lugares, o cuidado com contaminações cruzadas entre alimentos crus e processados é uma ação preventiva a ser tomada.

Além disso, é preciso considerar que se trata de um microrganismo esporulado, com resistência a diversos agentes empregados na indústria de alimentos como controladores do crescimento microbiano: elevadas temperaturas, pH baixo, agentes químicos, etc. A contaminação dos alimentos por células de Bacillus cereus ocorre principalmente devido às condições inadequadas de manuseio e armazenamento, que acabam favorecendo a germinação de esporos e o desenvolvimento das células vegetativas do microrganismo.

Dessa forma, o principal mecanismo de controle de B. cereus em alimentos é a prevenção do seu desenvolvimento. Medidas preventivas como controle de temperatura, de umidade e procedimentos higiênico-sanitários devem ser adotadas pelos estabelecimentos produtores de alimentos. Análises de matérias-primas e dos lotes antes da sua liberação fazem-se essenciais.

Quem adquiriu unidades dos produtos que estão em recall deve acessar o site da empresa para identificar se o lote em questão pode ser consumido.

Imagem: Yan Krukau

2 min leituraO ano de 2026 começou com importantes recalls de alimentos no Brasil, com destaque para a contaminação de fórmulas infantis. Uma medida da Anvisa (Resolução 32/2026), publicada no dia 7 de […]

4 min leitura
0

Conheça mais sobre a BRAFP e a IAFP, organizações dedicadas à segurança dos alimentos

4 min leitura

Caros leitores, neste artigo trago uma entrevista com Caio Carvalho, para que você conheça mais sobre a BRAFP e IAFP. São duas renomadas instituições que fazem muita diferença para a indústria de alimentos no Brasil e no mundo.

Caio é pós-graduado em Gestão da Segurança dos Alimentos pelo SENAC e graduado em Ciência e Tecnologia de Laticínios pela UFV. É um profissional com mais de 15 anos de experiência em microbiologia, segurança dos alimentos e qualidade, atuando em indústrias de bebidas, ingredientes, nutrição animal, equipamentos e embalagens. É o atual presidente da Associação Brasileira para Proteção dos Alimentos (BRAFP – 2026–2027) e ex-membro da diretoria da Associação Internacional Para Proteção dos Alimentos (IAFP – 2024-2025).

Cristina: Caio, como funciona a IAFP?

Caio: A IAFP é uma das mais relevantes organizações globais dedicadas à segurança dos alimentos. Seu principal objetivo é promover a proteção dos alimentos por meio da ciência, educação e networking entre profissionais da indústria, academia e setor público.

Globalmente, a IAFP oferece publicações científicas de alto impacto, como a Revista de Proteção Alimentar (Journal of Food Protection – JFP) e o Tendências em Proteção Alimentar (Food Protection Trends – FPT), além de webinars, workshops, grupos técnicos e o Encontro Anual nos Estados Unidos, que reúne mais de 3.000 profissionais do mundo todo. Regionalmente, a IAFP conta com cerca de 60 afiliadas ao redor do mundo. No Brasil, temos a Associação Brasileira para Proteção dos Alimentos (BRAFP), afiliada oficial da IAFP.

Na América Latina, também fazem parte a CAIA (Argentina), AMEPAL (México), CCFP (Chile) e CAFST (Colômbia). O IAFP Latino é realizado a cada dois anos por uma das afiliadas da região. Em 2024, foi organizado pela BRAFP em Santos, e a próxima edição acontecerá em setembro na Argentina, sob coordenação da CAIA.

Cristina:  Qual sua atual função na associação e quais os planos para 2026?

Caio: Na IAFP, atuei como Diretor das Afiliadas (Affiliate Chairperson), representando as afiliadas LATAM na Diretoria, e atualmente integro o Programa de Palestrantes da Diretoria IAFP (IAFP Extended Executive Speaker Board Program), representando a Associação em eventos estratégicos de Segurança dos Alimentos.

Na BRAFP, assumi a Presidência para o biênio 2026–2027. Em 2026, o foco será fortalecer a integração entre América Latina e IAFP Global, ampliando a presença institucional nos principais eventos da região.

Já estão programadas participações no Encontro Anual da IAFP (EUA), no IAFP Latino (Argentina) e no INOFOOD (Chile). No Brasil, daremos continuidade ao trabalho iniciado pelo Prof. Dr. Luis Augusto Nero, fortalecendo eventos próprios e colaborações estratégicas.

Já confirmamos apoio ao SIMCOPE (que será realizado em Santos, em maio/2026) e à segunda edição do Prêmio BRAFP, dentro das ações do Dia Mundial de Segurança dos Alimentos (World Food Safety Day).

Cristina: Como estão os planejamentos para o IAFP LATAM e como nossos leitores podem se inscrever para participar?

Caio: O IAFP Latino é organizado pela afiliada do país-sede, com apoio das demais afiliadas na comissão científica internacional. Este ano, a coordenação está sob responsabilidade da CAIA (Argentina).

Os preparativos estão avançados, com patrocinadores confirmados e local definido. Para informações sobre inscrições, submissão de trabalhos e programação científica, recomendo acompanhar os canais oficiais da CAIA (CAIA) e da IAFP (IAFP Latino 2026).

Cristina: Há alguma forma de patrocínio ou bolsa para estudantes ou jovens profissionais conseguirem participar?

Caio: Sim. A IAFP Global possui programas estruturados de Patrocínio de Viagens (Travel Awards) e bolsas para estudantes. Da mesma forma, eventos organizados pelas afiliadas frequentemente incluem categorias de apoio financeiro.

No IAFP Latino 2024 (saiba mais em Destaques do IAFP Latino 2024: o que fazer quando os biofilmes atacam?) e no FoodMicro Latino 2025, organizados pela BRAFP, foram disponibilizadas diferentes modalidades de incentivo para estudantes e jovens profissionais.

A orientação é acompanhar os sites e redes sociais da IAFP (Call for IAFP 2026 Award Nominations) e da BRAFP (brafp.org.br/) para não perder prazos e oportunidades.

Cristina: Como os interessados podem contribuir para o IAFP Latam, pensando em outras atividades, além do evento?

Caio: O primeiro passo é se associar. No Brasil, por meio da BRAFP, o profissional passa a integrar uma comunidade técnica ativa, com acesso a conteúdo científico, eventos e networking qualificado.

Em paralelo, a filiação à IAFP amplia ainda mais as possibilidades: acesso a uma extensa biblioteca de publicações, webinars ao vivo e gravados, além da oportunidade de atuar em comitês, conselhos e grupos de desenvolvimento profissional (Professional Development Groups – PDG).

Esse engajamento permite não apenas consumir conhecimento, mas também contribuir ativamente com discussões técnicas, organização de sessões científicas e desenvolvimento de novas iniciativas para a área.

Cristina: Quais as vantagens em participar destes eventos?

Caio: Posso afirmar, por experiência própria, que participar da IAFP e da BRAFP é um divisor de águas no desenvolvimento profissional.

Além do acesso a conteúdo técnico de excelência, o maior valor está na rede de contatos. Nos eventos das associações, é comum ver estudantes interagindo diretamente com líderes globais da indústria, pesquisadores renomados e autoridades regulatórias. Essa proximidade gera oportunidades reais de aprendizado e crescimento.

Se você atua em Segurança e Qualidade dos Alimentos, 2026 pode ser o ano de dar esse passo.

Associe-se à IAFP e à BRAFP, acompanhe os prazos de inscrição para os próximos eventos e faça parte de uma comunidade que realmente impulsiona carreiras e fortalece a proteção dos alimentos no Brasil, na América Latina e no mundo.

Cristina: Caio, agradeço sua participação e recomendo a todos que participem!

Dica da autora: já tive oportunidade de apresentar vários trabalhos científicos no encontro anual do IAFP dos EUA e palestrar no IAFP LATAM. O conhecimento adquirido e o networking valem o investimento!

4 min leituraCaros leitores, neste artigo trago uma entrevista com Caio Carvalho, para que você conheça mais sobre a BRAFP e IAFP. São duas renomadas instituições que fazem muita diferença para a […]

3 min leitura
0

O mito da segurança no congelamento de alimentos

3 min leitura

Um recall recente de blueberries congelados contaminados por Listeria monocytogenes reforça um erro comum: pensar que o congelamento de alimentos elimina riscos microbiológicos.

Em fevereiro de 2026, mais de 55 mil libras de blueberries congelados foram recolhidas nos Estados Unidos após a detecção potencial de Listeria monocytogenes. O recall, iniciado pela Oregon Potato Company e posteriormente classificado pela FDA como Classe I — o nível mais alto de risco sanitário, envolveu produtos distribuídos para a indústria de alimentos e serviços alimentícios em vários estados e no Canadá.

O episódio traz uma lição importante para a indústria: o congelamento não é uma etapa de eliminação de patógenos. Ele apenas reduz a atividade microbiana, permitindo que microrganismos sobrevivam e voltem a crescer quando o alimento é descongelado.

Congelar não é matar microrganismos

O congelamento é frequentemente percebido — inclusive por consumidores — como um mecanismo de segurança. Na realidade, sua função principal é preservar alimentos, não esterilizá-los.

Durante o congelamento:

  • a atividade de água diminui

  • o metabolismo microbiano desacelera

  • a multiplicação microbiana é praticamente interrompido

No entanto, muitos patógenos sobrevivem a essas condições.

Entre eles:

Quando o alimento é descongelado ou incorporado a uma formulação pronta para consumo, esses microrganismos podem voltar a se multiplicar.

Por que a Listeria é especialmente problemática

Entre os patógenos relevantes para alimentos congelados, a Listeria monocytogenes possui características que ampliam o risco.

1. Sobrevive ao congelamento

A bactéria consegue sobreviver em temperaturas negativas por longos períodos. Assim, o congelamento preserva o patógeno junto com o alimento.

2. Cresce em refrigeração

Mesmo após o descongelamento, a Listeria pode crescer em temperaturas de refrigeração, o que amplia o risco em produtos prontos para consumo.

3. Alta gravidade clínica

A listeriose é rara, mas potencialmente grave, especialmente para:

  • gestantes

  • idosos

  • imunocomprometidos

  • recém-nascidos

Por isso, recalls associados à bactéria frequentemente recebem classificação de maior risco pelas autoridades sanitárias.

Frutas congeladas: ingrediente de alto alcance

No caso recente das blueberries, os produtos não eram destinados diretamente ao consumidor, mas sim a distribuidores e fabricantes de alimentos. Isso revela outro ponto crítico.

Ingredientes congelados são amplamente utilizados em:

  • smoothies e bebidas

  • sobremesas e sorvetes

  • produtos de panificação

  • cereais e snacks

  • refeições prontas

Quando ocorre contaminação na matéria-prima, o risco pode se multiplicar ao longo da cadeia de processamento, atingindo diversos produtos finais.

O que a indústria precisa revisar

Casos como esse reforçam a importância de revisar premissas na análise de perigos.

Não tratar congelamento como etapa de controle

Em planos HACCP, o congelamento não deve ser considerado medida de eliminação microbiológica.

Reforçar controles no pré-processamento

Para frutas e vegetais, o risco microbiológico costuma estar associado a:

  • colheita

  • contato com solo ou água contaminada

  • equipamentos de processamento

  • ambiente de embalagem

Avaliar fornecedores com foco em patógenos ambientais

Programas robustos de controle devem incluir:

  • monitoramento ambiental

  • validação de higienização

  • rastreabilidade por lote

Aplicação prática para indústria, qualidade e laboratório

Para profissionais de segurança dos alimentos, algumas ações são especialmente relevantes:

1. Revisar análise de perigos de ingredientes congelados
Produtos congelados não devem ser classificados automaticamente como de baixo risco.

2. Validar premissas em planos HACCP 
Garantir que o congelamento não esteja sendo tratado como etapa de letalidade.

3. Intensificar controle de fornecedores agrícolas
Principalmente para frutas, vegetais e ingredientes minimamente processados.

4. Avaliar risco em produtos prontos para consumo com frutas congeladas
Especialmente smoothies, sobremesas e formulações sem etapa térmica.

Conclusão

  • Impacto: recalls recentes mostram que patógenos podem sobreviver ao congelamento e entrar na cadeia industrial.

  • Recomendação prática: revisar análise de perigos para ingredientes congelados e reforçar controle na origem da matéria-prima.

  • O que monitorar: eventos de Listeria associados a frutas e vegetais congelados e requisitos regulatórios para controle ambiental.

Imagem: Christopher Seufert

3 min leituraUm recall recente de blueberries congelados contaminados por Listeria monocytogenes reforça um erro comum: pensar que o congelamento de alimentos elimina riscos microbiológicos. Em fevereiro de 2026, mais de 55 […]

3 min leitura
0

5 paradoxos da cadeia de alimentos: entendendo as contradições do sistema e os desafios da segurança de alimentos

3 min leitura

Quem atua na área de alimentos sabe da sua complexidade e conhece na prática alguns dos desafios da cadeia produtiva. Quem já parou para imaginar quantos quilômetros um alimento pode percorrer até ser consumido conclui rapidamente que manter sua qualidade e segurança e também a credibilidade das informações ao longo dos elos é, no mínimo, desafiador.

A cadeia de alimentos conecta produção primária e seus territórios rurais com os sistemas produtivos que incluem indústria, transporte e armazenamento e seus desafios de logística até alcançar os consumidores através dos diversos tipos de pontos de venda. Lembrando que as embalagens em todos os seus formatos acompanham todo esse caminho.

Toda essa complexidade traz para a cadeia de alimentos um caminho cheio de paradoxos: global e local, industrial e rural, tecnológico e profundamente humano. Reconhecer essas aparentes contradições talvez seja um dos caminhos para construir sistemas alimentares mais seguros, transparentes e resilientes.

É claro que a produção de alimentos com toda sua dimensão tem suas particularidades, mas podemos elencar aqui 5 grandes paradoxos característicos de quaisquer segmentos da cadeia! Vamos a eles:

1 – Produzimos mais alimentos do que nunca — mas ainda existe fome

Aumento de produtividade impulsionado pelo uso de tecnologias e globalização fizeram a produção global de alimentos crescer de forma expressiva nas últimas décadas.

Ainda assim, centenas de milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar, segundo a Food and Agriculture Organization (FAO). Neste mapa interativo da FAO podemos conhecer os dados de insegurança alimentar ao redor do mundo.

O paradoxo aqui é evidente: não é apenas um problema de produção — é um problema de distribuição, acesso e gestão da cadeia alimentar, incluindo a gestão de desperdício ao longo de toda a cadeia.

2 – A cadeia de alimentos é global — mas o alimento nasce local

Existem as multinacionais e as gigantes do mercado, mas muitas delas dependem de propriedades rurais, em sua maioria médias e pequenas, ou mesmo familiares.

A cadeia alimentar começa de forma localizada: em uma propriedade de um território específico, sob determinadas condições climáticas e produtivas.

Esses elos menores podem estar também na ponta, mais próximos dos consumidores: não só os grandes varejistas são responsáveis pela distribuição de alimentos para a população, mas algumas regiões e públicos específicos ainda frequentam as feiras locais.

Por isso não podemos deixar de olhar para esses personagens tão importantes da cadeia de alimentos.

Ou seja, o paradoxo aqui é que o sistema alimentar pode ser global, mas a origem e muitos pontos de venda continuam sendo locais e influenciados pelas características culturais daquela região.

3 – O controle dos processos nunca foi tão robusto — mas a percepção de risco nunca foi tão alta

Conhecer e garantir as características do produto a fundo, mediante controle de processos, análises laboratoriais, programas preventivos e controle de perigos, além da procura por padrões internacionais é tendência nos últimos anos, assim como a percepção de riscos à saúde.

Discussões em torno da percepção de riscos e sobre o envolvimento da gestão são pautas de normas, documentos de referência internacionais e de conceitos de cultura de segurança de alimentos.

Riscos além dos operacionais, envolvendo o contexto da empresa e os riscos de Saúde Pública estão sendo colocados à mesa. O envolvimento da população em relação aos riscos também acompanha a globalização dos alimentos.

Sendo assim, podemos perceber que, mesmo com sistemas de controle mais avançados, mais atenção e percepção de risco surgem na sociedade.

4 – Quanto mais tecnologia na cadeia de alimentos, mais percebemos sua complexidade

Atualmente temos disponíveis ferramentas avançadas para rastreabilidade, monitoramentos e inteligência de dados, mas tudo isso nos revela a quantidade de detalhes, informações relevantes e variáveis que podem mudar as decisões e os caminhos possíveis da produção.

Ou seja, usamos a tecnologia, mas continuamos tendo que dominar os processos, suas nuances e desafios, além de continuar dependendo de uma palavra-chave na cadeia produtiva: a confiança nas informações geradas.

Concluímos que, apesar da tecnologia, continuamos valorizando a simplicidade de processos simples e bem executados, a capacitação das pessoas e a responsabilidade humana nas tomadas de decisão!

5 – O consumidor quer saber mais sobre o alimento — mas está cada vez mais distante da produção

Com todo esse alcance e globalização dos produtos e suas matérias-primas, muitos consumidores estão mais longe da cadeia primária e até dos processos, e talvez até por isso exista uma cobrança maior em relação à:

– origem dos produtos;

– confiança das informações (rastreabilidade) e

– sustentabilidade.

Também há interesse por outras informações, como bem-estar animal, por exemplo, nos casos que envolvem os alimentos de origem animal.

Espero que tenham gostado desses 5 paradoxos e adoraria que vocês acrescentassem outras contradições que percebem na nossa área!

3 min leituraQuem atua na área de alimentos sabe da sua complexidade e conhece na prática alguns dos desafios da cadeia produtiva. Quem já parou para imaginar quantos quilômetros um alimento pode […]

5 min leitura
0

A segurança dos alimentos está se tornando complexa demais?

5 min leitura

Nas últimas décadas, a segurança dos alimentos evoluiu de forma extraordinária. O que antes se baseava sobretudo em boas práticas e experiência acumulada passou a ser estruturado em sistemas robustos de gestão, sustentados por normas, certificações e metodologias reconhecidas internacionalmente. Assim, podemos dizer que aumentou a complexidade da segurança de alimentos.

Hoje falamos de HACCP, auditorias, indicadores de desempenho, cultura de segurança dos alimentos e, mais recentemente, de digitalização e Indústria 4.0. As empresas dispõem de ferramentas cada vez mais sofisticadas para monitorizar processos, rastrear produtos e demonstrar conformidade com requisitos legais e normativos.

Esta evolução trouxe ganhos claros: maior controle, maior transparência e maior capacidade de prevenção de riscos. No entanto, à medida que os sistemas se tornam mais completos, surge também uma questão legítima: estamos realmente ganhando mais segurança ou estamos, em alguns casos, tornando os sistemas excessivamente complexos?

Num setor onde o objetivo final continua a ser garantir alimentos seguros para o consumidor, importa refletir se toda esta complexidade está sempre a servir esse propósito — ou se, por vezes, pode estar a afastar-nos do essencial.

A evolução da segurança dos alimentos

A segurança dos alimentos não surgiu como a conhecemos hoje. Ao longo das últimas décadas, o setor foi construindo camadas sucessivas de controle e prevenção, numa evolução que trouxe maior rigor e sistematização aos processos.

Um dos marcos mais importantes foi a introdução do HACCP (Hazard Analysis and Critical Control Points), que mudou a lógica de atuação na indústria alimentar. Em vez de depender apenas da análise do produto final, passou-se a focar na identificação preventiva de perigos e no controle dos pontos críticos ao longo do processo produtivo.

Com o tempo, esta abordagem foi sendo integrada em sistemas de gestão mais abrangentes, dando origem a normas e certificações reconhecidas internacionalmente, como IFS, BRCGS ou ISO 22000. Estas estruturas permitiram harmonizar requisitos, melhorar a rastreabilidade e criar uma linguagem comum entre empresas, auditores e autoridades.

Mais recentemente, a digitalização veio acrescentar uma nova dimensão a estes sistemas. Registros eletrônicos, sensores, plataformas de monitorização e análise de dados permitem hoje acompanhar processos em tempo real e tomar decisões com base em informação mais robusta.

Cada uma destas etapas representou um avanço importante para o setor. No entanto, ao acumular ferramentas, requisitos e sistemas, é natural que surja uma questão relevante: estamos mesmo  fortalecendo a segurança dos alimentos?

Quando a complexidade começa a ser um problema

Se por um lado a evolução dos sistemas de segurança dos alimentos trouxe mais rigor e controle, por outro, em algumas organizações começa a surgir um desafio diferente: gerir a crescente complexidade desses mesmos sistemas.

Um dos pontos mais frequentemente referidos pelas equipes é o excesso de documentação. Procedimentos, registros, formulários, relatórios e evidências acumulam-se, muitas vezes com o objetivo legítimo de demonstrar conformidade perante auditorias e certificações. No entanto, quando a documentação cresce sem uma revisão crítica da sua utilidade real, corre-se o risco de transformar ferramentas de gestão em tarefas meramente burocráticas.

Outro fator é a existência de múltiplos sistemas paralelos. Empresas que implementam diferentes normas, plataformas digitais e metodologias acabam por gerir várias estruturas ao mesmo tempo. Nem sempre esses sistemas se comunicam entre si, o que pode gerar redundâncias, duplicação de registros e perda de eficiência.

A consequência direta acaba por recair sobre as equipes operacionais. Profissionais que deveriam concentrar-se na gestão de riscos e na melhoria dos processos passam grande parte do tempo a cumprir exigências administrativas, muitas vezes sob pressão de prazos e auditorias.

O paradoxo é evidente: num esforço legítimo para reforçar a segurança dos alimentos, pode-se acabar por criar sistemas tão complexos que dificultam a sua própria aplicação no dia a dia das operações.

O risco de perder o essencial

Quando os sistemas se tornam excessivamente complexos, pode surgir um risco: perder de vista o verdadeiro objetivo da segurança dos alimentos – garantir alimentos seguros.

Em alguns contextos, o foco desloca-se gradualmente da prevenção de riscos para a preparação de auditorias. Procedimentos são escritos para cumprir requisitos normativos, registros são preenchidos para demonstrar conformidade e indicadores são analisados para satisfazer critérios de certificação. Tudo isso tem o seu valor — mas não pode substituir aquilo que está na base da segurança dos alimentos: o controle real dos processos.

Este fenômeno pode levar a uma situação paradoxal: sistemas cada vez mais estruturados no papel, mas com menor ligação com a realidade operacional.

Outro desafio é o equilíbrio entre burocracia e cultura da segurança dos alimentos. A cultura de segurança não se constrói apenas com procedimentos e formulários, mas com compreensão, responsabilidade e envolvimento das equipas. Quando os profissionais entendem o porquê das regras, aplicam-nas de forma mais consistente e eficaz.

Como já discutido no artigo “Cultura de segurança dos alimentos: elo invisível que protege a cadeia produtiva”, a verdadeira força de um sistema de segurança dos alimentos não está apenas na documentação, mas na forma como as pessoas incorporam esses princípios no seu trabalho diário.

Manter este equilíbrio é talvez um dos maiores desafios atuais: garantir sistemas robustos e auditáveis sem perder a simplicidade necessária para que funcionem verdadeiramente no terreno.

O verdadeiro desafio

Reconhecer que os sistemas de segurança dos alimentos se tornaram cada vez mais complexos não significa defender um regresso ao passado ou à ausência de controle. Pelo contrário. O verdadeiro desafio está em simplificar sem perder rigor.

Os sistemas de gestão devem continuar a evoluir, mas com um princípio claro: cada requisito, cada procedimento e cada registro devem ter um propósito real na prevenção de riscos e na proteção do consumidor.

Neste contexto, a tecnologia pode desempenhar um papel fundamental. Ferramentas digitais, plataformas de monitorização e sistemas integrados de gestão têm potencial para reduzir tarefas repetitivas, melhorar a rastreabilidade e facilitar a análise de dados. No entanto, a tecnologia deve ser utilizada como um apoio à gestão da segurança dos alimentos — e não como um fator adicional de complexidade.

Nada disto acontece sem liderança. Cabe às organizações e aos responsáveis pela segurança dos alimentos garantir que os sistemas implementados são compreensíveis, aplicáveis e alinhados com a realidade das operações. Liderar neste contexto significa saber equilibrar rigor técnico com simplicidade operacional. Porque, no final, um sistema de segurança dos alimentos só é eficaz quando consegue ser robusto no papel e funcional no terreno.

Em síntese, a segurança dos alimentos transformou-se profundamente nas últimas décadas e continuará a evoluir. Normas, certificações, sistemas de gestão e novas tecnologias trouxeram avanços importantes e contribuíram para tornar a produção de alimentos mais segura, controlada e transparente.

No entanto, esta evolução não pode perder de vista o seu objetivo fundamental. A segurança dos alimentos precisa continuar robusta, sustentada por conhecimento científico, processos bem definidos e sistemas de controle eficazes, mas também precisa continuar clara, aplicável e humana.

Sistemas demasiado complexos podem tornar-se difíceis de implementar, afastar as equipes do propósito real e transformar ferramentas de prevenção em tarefas burocráticas. Por isso, o desafio para o futuro não está apenas em acrescentar novas camadas de controle, mas em garantir que os sistemas continuam a fazer sentido para quem os aplica diariamente.

No final, a segurança dos alimentos não depende apenas de normas ou tecnologias — depende sobretudo da capacidade das organizações em manter sistemas claros, eficazes e verdadeiramente integrados na realidade das operações.

5 min leituraNas últimas décadas, a segurança dos alimentos evoluiu de forma extraordinária. O que antes se baseava sobretudo em boas práticas e experiência acumulada passou a ser estruturado em sistemas robustos […]

2 min leitura
0

Estudo sobre armazenamento de swab e recuperação de alergênicos

2 min leitura

Uma publicação científica recente no Journal of Food Protection (Elsevier), conduzida por pesquisadores da Universidade do Nebraska, apresentou achados importantes sobre os efeitos do armazenamento de swab – temperatura e tempo -, nas análises de recuperação de resíduos de alergênicos.

Foram testados swabs da Neogen Environmental Swabs, para os alergênicos: amendoim, leite e glúten, em concentrações previamente conhecidas. Foram simuladas condições de temperatura (-20, 4 e 37°C) e tempo (0, 1, 3, 5, 7, 10 e 14 dias) de estocagem. Análises foram conduzidas utilizando duas metodologias ELISA: Neogen Veratox® e Morinaga.

Algumas conclusões relevantes da pesquisa:

Podem ocorrer diferentes resultados de extração entre os kits específicos para cada alergênico.

Temperaturas mais baixas preservam melhor os resíduos de alergênicos nos swabs.

  • Swabs armazenados a 4°C ou -20°C apresentaram maiores taxas de recuperação dos alergênicos ao longo do tempo;
  • Temperaturas mais altas (temperatura ambiente e 37°C) reduziram significativamente a recuperação.

O tempo de armazenamento influencia a recuperação, principalmente nas primeiras 24 h.

  • Para amendoim e leite analisados com um dos kits ELISA (Veratox), houve queda significativa na recuperação já entre o dia 0 e o dia 1. Após esse período, a redução tende a estabilizar.

O desempenho depende do método analítico utilizado (kits ELISA).

  • O kit Morinaga ELISA apresentou recuperações mais consistentes e estáveis ao longo dos 14 dias de armazenamento.
  • O kit Veratox mostrou maior variabilidade e maior perda de recuperação.

O comportamento varia entre os alergênicos testados.

  • Glúten foi o mais estável, mantendo recuperação relativamente constante ao longo do tempo.
  • Amendoim e leite foram mais sensíveis à degradação ou perda de recuperação.

Diversos fatores podem impactar os resultados de recuperação entre diferentes metodologias ELISA, como: procedimentos de amostragem, curvas de calibração de proteína, faixa de quantificação e expressão dos resultados.

É importante que as indústrias, ao realizarem análises de proteína alergênica, conheçam esses impactos e os considerem como potenciais fontes de incerteza na realização das suas análises.

O estudo completo pode ser acessado diretamente nesse link.

2 min leituraUma publicação científica recente no Journal of Food Protection (Elsevier), conduzida por pesquisadores da Universidade do Nebraska, apresentou achados importantes sobre os efeitos do armazenamento de swab – temperatura e […]

4 min leitura
0

Contaminação cruzada: o que é e como evitar

4 min leitura

A contaminação cruzada representa um dos principais riscos para a segurança dos alimentos. Ela ocorre quando microrganismos, substâncias químicas ou corpos estranhos passam de um alimento, superfície, utensílio ou manipulador para outro alimento. Esse processo pode acontecer de forma direta ou indireta. Assim, muitas vezes ele passa despercebido durante a manipulação, o armazenamento ou o preparo dos alimentos.

Por isso, compreender a contaminação cruzada e aplicar medidas preventivas é fundamental. Dessa forma, as empresas conseguem garantir alimentos mais seguros e de melhor qualidade.

Como ocorre a contaminação cruzada

A contaminação cruzada ocorre quando um alimento contaminado entra em contato com outro alimento seguro para consumo. Em geral, esse contato acontece durante as etapas de manipulação.

Um exemplo: manipuladores podem aproximar alimentos crus de alimentos prontos para consumo. Além disso, utensílios podem transferir contaminantes quando passam de um processo para outro sem higienização adequada. Da mesma forma, mãos, roupas e equipamentos podem transportar microrganismos.

A contaminação pode ocorrer, também, durante o armazenamento, o transporte ou o preparo dos alimentos. Nesse sentido, pequenas falhas de organização facilitam a transferência de contaminantes.

Tipos de contaminação cruzada

Três tipos principais de perigos podem causar contaminação cruzada: biológicos, químicos e físicos.

Primeiramente, destaca-se a contaminação biológica, que ocorre com maior frequência. Ela envolve a transferência de microrganismos patogênicos, como algumas  bactérias, vírus e fungos, que podem provocar doenças transmitidas por alimentos.

Carnes, aves, ovos e pescados crus podem carregar esses microrganismos. Portanto, o contato de alimentos crus com alimentos prontos para consumo aumenta os riscos de contaminação.

Além disso, existe a contaminação química. Ela ocorre quando substâncias químicas nocivas entram em contato com os alimentos: manipuladores podem utilizar produtos de limpeza de forma inadequada ou produtos químicos podem estar armazenados próximos aos alimentos.

Resíduos de detergentes em utensílios mal enxaguados também podem causar contaminação. Da mesma forma, o contato com materiais que liberam substâncias nocivas representa um risco.

Por fim, ocorre a contaminação física. Nesse caso, objetos estranhos entram no alimento. Entre eles, destacam-se fragmentos de vidro, plástico, metal ou madeira. Como resultado, esses materiais podem causar danos ao consumidor.

Situações que favorecem a contaminação

Diversas situações do cotidiano favorecem a contaminação cruzada. O uso inadequado de tábuas de corte é bastante comum.

Um manipulador pode cortar carne crua em um aparador. Em seguida, ele utiliza o mesmo aparador para cortar frutas ou alimentos cozidos. Se não ocorrer higienização adequada, o risco de contaminação aumenta.

Outro exemplo envolve o armazenamento incorreto em refrigeradores. Alimentos crus colocados nas prateleiras superiores podem liberar líquidos. Esses líquidos podem escorrer e contaminar alimentos prontos para consumo.

Além disso, a manipulação inadequada também aumenta os riscos. Manipuladores que não lavam as mãos entre atividades podem transferir microrganismos que vão contaminar alimentos, utensílios ou superfícies.

Uniformes sujos também representam risco e, da mesma forma, panos de limpeza e utensílios mal higienizados favorecem a disseminação de contaminantes.

Contaminação por equipamentos e superfícies

Equipamentos e superfícies de trabalho também podem atuar como fontes de contaminação. Bancadas, facas, cortadores e recipientes podem acumular microrganismos. Além disso, máquinas também podem acumular contaminantes.

Esse problema ocorre quando a equipe não realiza limpeza e sanitização adequadas. Consequentemente, os microrganismos acumulados podem contaminar diversos alimentos ao longo do processo produtivo.

Portanto, as empresas devem manter rotinas rigorosas de limpeza e sanitização. Dessa forma, conseguem manter equipamentos e superfícies em condições adequadas.

Medidas para prevenir a contaminação cruzada

A prevenção da contaminação cruzada depende da adoção de boas práticas. Em primeiro lugar, é fundamental separar alimentos crus de alimentos prontos para consumo.

Essa separação deve ocorrer no armazenamento e no preparo. Durante o armazenamento, os colaboradores devem usar recipientes fechados. Além disso, devem manter alimentos crus nas prateleiras inferiores dos refrigeradores. Assim, evitam o gotejamento sobre outros produtos.

Outra medida importante envolve a higienização correta de utensílios, equipamentos e superfícies. Após manipular alimentos crus, os colaboradores devem lavar utensílios com água e detergente. Sempre que necessário, também devem realizar a sanitização.

Adicionalmente, a equipe pode utilizar utensílios exclusivos para determinados alimentos. Por exemplo, podem usar tábuas diferentes para carnes, vegetais e alimentos prontos.

Importância da higiene dos manipuladores

A higiene pessoal dos manipuladores exerce papel fundamental na prevenção da contaminação cruzada.

Os colaboradores devem lavar as mãos com frequência, principalmente antes de iniciar a manipulação de alimentos. Além disso, devem lavar as mãos após contato com alimentos crus.

A lavagem das mãos também deve ocorrer após usar sanitários ou manipular resíduos. Dessa maneira, reduz-se o risco de transferência de microrganismos.

Os manipuladores devem utilizar uniformes limpos e manter unhas curtas e limpas. Também não devem usar adornos.

Essas práticas fazem parte das Boas Práticas de Manipulação.

Treinamento e organização do ambiente

O treinamento dos colaboradores ajuda a reduzir riscos. Por esse motivo, as empresas devem realizar treinamentos periódicos.

Esses treinamentos aumentam a conscientização sobre segurança dos alimentos e reforçam a importância das boas práticas de fabricação.

Da mesma forma, a organização do ambiente produtivo também reduz riscos. Um fluxo de produção bem definido separa alimentos crus de alimentos prontos para consumo. Assim, diminui-se a possibilidade de contaminação cruzada.

Monitoramento e controle

A equipe de qualidade deve monitorar constantemente as práticas adotadas na produção. Dessa forma, consegue identificar falhas nos processos.

Auditorias internas ajudam a verificar os procedimentos. Além disso, inspeções de rotina contribuem para manter o controle das atividades.

Os registros de controle permitem acompanhar os processos e identificar desvios com maior facilidade.

Quando necessário, a organização deve implementar ações corretivas.

Em síntese, a contaminação cruzada representa um risco importante para a segurança dos alimentos. No entanto, manipuladores e gestores podem prevenir esse problema.

A prevenção depende da aplicação de boas práticas de higiene. Além disso, exige organização adequada dos processos.

O treinamento dos colaboradores e o monitoramento das atividades também são essenciais. Assim, as empresas conseguem proteger a saúde dos consumidores e garantir alimentos mais seguros.

4 min leituraA contaminação cruzada representa um dos principais riscos para a segurança dos alimentos. Ela ocorre quando microrganismos, substâncias químicas ou corpos estranhos passam de um alimento, superfície, utensílio ou manipulador […]

4 min leitura
0

O recall da Ajinomoto nos EUA e o risco de vidro em alimentos

4 min leitura

Um recall multimarca e de grande escala nos Estados Unidos recoloca um tema incômodo no centro da segurança dos alimentos: perigos físicos continuam capazes de gerar dano ao consumidor, crise reputacional e revisão urgente de controles industriais.

Em 3 de março de 2026, o USDA/FSIS anunciou a expansão do recall da Ajinomoto Foods North America para 36.987.575 libras de alimentos congelados, após a inclusão de 33.617.045 libras adicionais por possível presença de fragmentos de vidro. O caso envolve diferentes marcas e categorias de produtos, incluindo fried rice, ramen e shu mai, e merece atenção não só pelo tamanho, mas pelo tipo de problema que ele sinaliza: quando o controle de corpo estranho falha em um ponto compartilhado do processo ou da cadeia de suprimentos, o impacto deixa de ser local e passa a ser sistêmico.

O que aconteceu no caso Ajinomoto

O recall havia começado em 19 de fevereiro de 2026, quando a empresa recolheu mais de 3,3 milhões de libras de chicken fried rice após quatro reclamações de consumidores relatarem vidro nos alimentos. Em 3 de março, o FSIS informou a expansão do caso para um volume muito maior e para um portfólio mais amplo de itens, envolvendo marcas como Ajinomoto, Kroger, Ling Ling, Tai Pei e Trader Joe’s.

Esse ponto importa porque a expansão de um recall costuma indicar que a investigação encontrou alcance maior do que o inicialmente estimado. Em termos práticos, isso sugere que o problema não estava restrito a um SKU isolado, mas possivelmente relacionado a um insumo, etapa ou condição compartilhada por diferentes produtos. Essa leitura é reforçada por coberturas que apontam as cenouras como origem da contaminação.

Por que este recall é mais relevante do que parece

Perigos físicos às vezes recebem menos atenção do que perigos microbiológicos no debate público, mas isso é um erro operacional. O próprio acervo do Food Safety Brazil destaca que corpos estranhos geram reclamações, publicidade negativa e risco real ao consumidor, além de exigirem seleção adequada de sistemas de inspeção e detecção conforme o processo.

O caso Ajinomoto é relevante porque combina quatro fatores críticos ao mesmo tempo: volume excepcional, múltiplas marcas, múltiplos produtos e um contaminante de alta severidade potencial, já que o vidro nos alimentos pode causar lesões na cavidade oral e no trato gastrointestinal. Para a indústria, isso muda a conversa: não se trata apenas de “mais um recall”, mas de um lembrete de que um desvio físico mal contido pode atravessar contratos, canais, rótulos e mercados.

Onde a indústria costuma falhar em perigos físicos

1. Confiar demais na inspeção final

Detector de metais, raio X, peneiras, filtros e separadores são importantes, mas não compensam um programa fraco de prevenção. O material do IFS citado pelo Food Safety Brazil enfatiza justamente a necessidade de uma abordagem mais ampla, com requisitos legais, avaliação de risco, tecnologias de detecção, prevenção, monitoramento, verificação e validação.

Quando um contaminante como vidro entra no sistema, a pergunta não deveria ser apenas se “o equipamento detectaria?”, mas também “por que o material chegou até aqui?”, “em que ponto ele poderia ter sido barrado?” e “quais produtos compartilharam a mesma rota de risco?” Sem essa lógica, a empresa fica dependente de barreiras tardias.

2. Tratar fornecedor como assunto só de interesse comercial

Se a origem estiver em um ingrediente ou matéria-prima compartilhada, o problema deixa de ser uma falha de linha e vira falha de governança da cadeia. Isso inclui homologação técnica insuficiente, especificações incompletas para perigos físicos, auditorias pouco orientadas a risco e verificação deficiente de mudanças no processo do fornecedor. A escala do recall mostra exatamente por que esse tema não pode ficar restrito ao setor de compras.

3. Subestimar manutenção e integridade de barreiras

O conteúdo do Food Safety Brazil sobre peneiras lembra algo básico, mas frequentemente negligenciado: malhas defeituosas, danos mecânicos, limpeza inadequada e substituições mal controladas podem introduzir ou deixar passar corpos estranhos. Em outras palavras, o sistema de controle físico também pode se transformar em fonte de risco quando não é bem gerido.

Aplicação prática para indústria, qualidade, laboratório, regulatório e gestão

Para a indústria, a lição mais imediata é revisar a análise de perigos com foco em ingredientes e etapas compartilhadas entre famílias de produto. Um recall multimarca mostra que o risco real não acompanha o organograma da fábrica; ele acompanha o fluxo do processo e da cadeia.

Para qualidade e food safety, vale reavaliar se os controles de corpo estranho estão distribuídos de forma coerente entre prevenção, detecção e resposta. Quando toda a confiança recai sobre a última barreira, a organização aceita um risco silencioso de amplificação.

Para laboratório e investigação, o caso reforça a importância de protocolos claros para triagem de reclamações, retenção de amostras, preservação de evidências e rastreio de lotes afetados. Mesmo quando a confirmação analítica do contaminante é complexa, a velocidade da investigação influencia diretamente o tamanho do dano.

Para regulatório e gestão, a principal lição é sobre prontidão de crise. Quanto maior o portfólio e mais distribuída a operação, mais decisivas se tornam a rastreabilidade, a comunicação entre áreas e a capacidade de definir rapidamente o universo potencialmente afetado. O recall da Ajinomoto é um exemplo claro de como uma resposta tardia ou estreita demais pode exigir ampliação posterior, com custo reputacional ainda maior.

O que fazer agora na prática

Revisar a análise de perigos físicos por família de produto

Não basta listar “vidro” como perigo genérico. É mais útil mapear fontes plausíveis, pontos de entrada, barreiras existentes, métodos de verificação e critérios de escalonamento quando o mesmo insumo abastece vários SKUs.

Reabrir a conversa com fornecedores críticos

Ingredientes vegetais processados, misturas prontas, componentes com múltiplos estágios e materiais recebidos já fracionados merecem perguntas mais objetivas sobre prevenção de contaminação física, inspeção, triagem, manutenção e gestão de desvios.

Testar a robustez da rastreabilidade

O caso mostra por que uma empresa precisa saber com rapidez quais produtos, clientes e datas compartilham o mesmo risco. Rastreabilidade “que funciona em auditoria” não é necessariamente rastreabilidade que funciona em recall.

Conclusão

  • Impacto: o recall ampliado da Ajinomoto mostra como um perigo físico pode sair de um evento aparentemente pontual e alcançar escala sistêmica, com efeito simultâneo em marcas, SKUs e canais.

  • Recomendação prática: revisar imediatamente gestão de fornecedores, análise de perigos físicos, integridade de barreiras e critérios de investigação quando houver ingrediente ou etapa compartilhada por diferentes produtos.

  • O que monitorar: novos desdobramentos da investigação oficial, eventual detalhamento adicional da causa raiz e sinais de resposta do mercado para controles de corpo estranho em ingredientes e congelados prontos.

4 min leituraUm recall multimarca e de grande escala nos Estados Unidos recoloca um tema incômodo no centro da segurança dos alimentos: perigos físicos continuam capazes de gerar dano ao consumidor, crise […]

Compartilhar
Pular para a barra de ferramentas