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A informação que acompanha o alimento (Parte 6): Quando a informação também é segurança

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A cena é comum. Um alimento chega à mesa.

Pode ser um produto industrializado, uma refeição pronta, um pedido por delivery ou algo preparado a partir de diferentes ingredientes.

Para quem consome, aquele é o ponto final. É também o último momento de uma jornada muito mais longa. Uma jornada que não envolve apenas o alimento, mas também a informação que deveria acompanhá-lo.

O que vimos ao longo do caminho

Ao observar diferentes formas de consumo, um aspecto se torna evidente: a forma como a informação acompanha o alimento não é fixa, ela se adapta ao contexto.

  • Em alguns casos, ela está estruturada.
  • Em outros, depende da comunicação.
  • Em alguns momentos, se fragmenta.
  • Em outros, simplesmente deixa de estar presente.

O alimento muda de ambiente. E, com ele, muda também a forma como a informação se manifesta.

Um padrão que não é pontual

À primeira vista, essas situações podem parecer desconectadas.

  • Um problema no delivery;
  • Uma limitação na comunicação em restaurantes;
  • Um desafio nas doações.

Mas, quando observadas em conjunto, revelam algo maior. Não se trata de falhas isoladas. Trata-se de um padrão.

O modelo atual de circulação de alimentos evoluiu rapidamente, com novas formas de consumo, novos canais de distribuição e novas dinâmicas de acesso.

Mas a forma como a informação acompanha esses alimentos nem sempre evoluiu na mesma velocidade. E isso cria uma assimetria silenciosa: o alimento chega, mas a informação nem sempre.

Dois fluxos que nem sempre caminham juntos

A segurança de alimentos sempre foi pensada a partir de um fluxo principal, um fluxo amplamente controlado, monitorado e regulamentado, o do alimento, que passa por:

  • produção;
  • processamento;
  • transporte;
  • consumo.

Mas existe um segundo fluxo, menos visível, o fluxo da informação:

  • composição;
  • origem;
  • condições de conservação;
  • orientações de consumo.

E, diferentemente do alimento, esse fluxo nem sempre percorre todo o caminho. Em muitos casos, ele se interrompe, se fragmenta ou se adapta ao contexto.

Quando a informação se torna parte do risco

Tradicionalmente, os riscos em alimentos são associados a contaminação microbiológica, falhas de processo e condições inadequadas de conservação, mas existe um outro tipo de risco, mais sutil: o risco da ausência de informação. Sem informação adequada, o consumidor pode:

  • ingerir alergênicos sem saber;
  • armazenar de forma incorreta;
  • consumir fora do prazo seguro;
  • interpretar erroneamente o alimento.

O produto pode estar correto do ponto de vista técnico, mas a falta de informação compromete a capacidade de uso seguro.

Entre a norma e a prática

Ao longo dessa jornada, também ficou evidente que o desafio não está apenas na existência de normas.

O sistema regulatório brasileiro, conduzido por instituições como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, estabelece requisitos robustos para rotulagem, boas práticas e controle sanitário; no entanto, muitos desses requisitos foram estruturados considerando modelos tradicionais de consumo.

E o cenário atual introduziu novas formas de circulação, tais como, consumo à distância, múltiplos intermediários e contextos onde não há interação direta.

Isso não invalida a regulação existente, mas revela um espaço entre o que a norma prevê e como o alimento, de fato, circula.

Como seria o cenário ideal?

Se a informação precisa acompanhar o alimento, então vale imaginar como isso poderia acontecer na prática, em diferentes contextos, não como um modelo único, mas como uma direção.

Nos alimentos industrializados, esse cenário está mais consolidado, a rotulagem já reúne, de forma estruturada, informações sobre composição, origem, validade e conservação.

Nos serviços de alimentação, como restaurantes e buffets, o cenário ideal passa por tornar a informação acessível mesmo na ausência de rótulos. Cardápios mais descritivos, tabelas de alergênicos, equipes preparadas para orientar e canais claros de comunicação ajudam a manter essa continuidade.

No delivery, esse desafio se torna mais evidente. Aqui, o ideal é que a informação esteja disponível antes da decisão de compra, nas plataformas digitais e que acompanhe o alimento, ainda que de forma simplificada, até o momento do consumo.

Nas doações, o cenário ideal não está na complexidade, mas no essencial. Identificações básicas, datas e orientações simples já são suficientes para reduzir incertezas e ampliar a segurança para quem recebe.

Em todos esses casos, um ponto em comum emerge: a informação precisa ser pensada como parte do produto e não como um elemento acessório.

O que torna isso possível, na prática

Garantir que a informação acompanhe o alimento ao longo de toda a cadeia não depende de uma única solução. Depende da incorporação de alguns princípios ao longo do processo.

  1. A informação precisa ser pensada desde a origem, e não apenas no momento da entrega ao consumidor. Ela deve nascer junto com o alimento;
  2. Precisa ser adaptável ao contexto. Nem sempre será um rótulo completo, mas deve ser suficiente para permitir compreensão e uso seguro;
  3. Precisa ser acessível no momento da decisão. Informação que não chega a tempo perde parte de sua função;
  4. Precisa ser preservada ao longo do caminho. Cada etapa da cadeia deve evitar que ela se perca, seja na manipulação, no transporte ou na redistribuição, e por fim:
  5. Precisa ser compreensível. Não basta existir, precisa fazer sentido para quem vai utilizar o alimento.

E o que vem pela frente?

À medida que novas formas de consumo surgem, esse desafio tende a se ampliar.

Cozinhas compartilhadas, marketplaces digitais, produção descentralizada, alimentos preparados para múltiplos canais e modelos ainda em desenvolvimento adicionam novas camadas de complexidade.

O alimento continuará evoluindo em sua forma de produção e distribuição, e isso levanta um ponto inevitável: a informação precisará evoluir junto. Não apenas para atender a requisitos normativos, mas para acompanhar um consumidor que acessa alimentos de maneiras cada vez mais diversas, e muitas vezes, mais distantes da origem.

O papel de quem produz, comunica e consome

Diante desse cenário, a responsabilidade pela informação não está concentrada em um único ponto. Ela se distribui ao longo da cadeia. Envolve:

  • quem produz;
  • quem prepara;
  • quem comercializa;
  • quem entrega;
  • e também quem consome.

Garantir que a informação acompanhe o alimento passa a ser um esforço coletivo, não apenas regulatório. Como também, operacional e cultural.

Cena final: quando o fluxo se completa

Agora imagine novamente a cena inicial.

O alimento chega à mesa. Mas, desta vez, junto com ele, chegam também as informações necessárias para compreendê-lo: o que contém, como deve ser conservado, como deve ser consumido e quais cuidados devem ser observados.

Nada em excesso. Mas o suficiente. Suficiente para permitir uma escolha consciente, para reduzir riscos, para transformar o consumo em um ato informado.

Quando o alimento viaja, a informação precisa viajar junto

A forma como os alimentos circulam continuará evoluindo. Mas existe um princípio que tende a permanecer: a segurança de alimentos não depende apenas da integridade do produto. Depende também da integridade da informação que o acompanha.

E isso leva a uma conclusão simples, mas cada vez mais relevante: o alimento pode chegar com qualidade, mas é a informação que permite que essa qualidade seja compreendida.

Ao longo desta série, acompanhamos o alimento por diferentes caminhos. E, em cada um deles, observamos o que acontece com a informação.

No fim, a pergunta que permanece não é apenas técnica, é estrutural: estamos garantindo que a informação percorra o mesmo caminho que o alimento?

Porque, em um sistema cada vez mais dinâmico, essa pode ser uma das diferenças mais importantes entre consumir… e consumir com segurança.

Aprendemos a observar o alimento. Talvez seja o momento de aprender a observar também a informação que o acompanha.

Quando a informação não acompanha o alimento, a segurança deixa de ser uma característica do produto e passa a ser uma suposição do consumidor.

5 min leituraA cena é comum. Um alimento chega à mesa. Pode ser um produto industrializado, uma refeição pronta, um pedido por delivery ou algo preparado a partir de diferentes ingredientes. Para […]

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A informação que acompanha o alimento (Parte 5): Quando o alimento é doado… a informação também deveria ser

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A cena é simples.

Uma mesa sendo organizada em uma instituição social. Panelas grandes, recipientes reutilizados, pessoas se movimentando com agilidade.

Alimentos chegam de diferentes origens:

  • sobras de produção;
  • excedentes de restaurantes;
  • produtos próximos do vencimento;
  • doações organizadas por empresas ou voluntários.

Para quem observa de fora, é um gesto claro de solidariedade. E de fato é. Mas existe algo nessa cena que raramente é percebido.

Entre o momento em que o alimento sai de onde foi produzido e o momento em que é consumido, existe um elemento que nem sempre faz o mesmo percurso: a informação que acompanha esse alimento.

Quando o alimento muda de lugar e de lógica

Ao longo desta série, vimos como a informação acompanha os alimentos em diferentes contextos.

  • Nos produtos industrializados, ela está estruturada em rótulos;
  • Nos serviços de alimentação, ela depende da comunicação direta;
  • No delivery, ela pode se fragmentar;
  • Mas quando o alimento é doado, algo diferente acontece.

Ele deixa não apenas o local onde foi preparado ou comercializado, ele deixa também o modelo de relação com o consumidor. Quem recebe o alimento doado, na maioria das vezes não escolhe, não compara, não pergunta. E muitas vezes, não pode. Se, ao longo desta série, vimos a informação se fragmentar, aqui ela pode simplesmente deixar de existir.

 O que se perde no caminho

https://www.pexels.com/pt-br/foto/mulher-doacoes-dentro-de-casa-interior-6995015/

Quando alimentos entram em cadeias de doação e redistribuição, eles podem passar por diferentes etapas:

  • produção;
  • armazenamento;
  • transporte;
  • triagem;
  • repreparo.

Nesse percurso, é comum que informações importantes se tornem menos acessíveis ou simplesmente desapareçam. Entre elas:

  • ingredientes utilizados;
  • presença de alergênicos;
  • prazo seguro de consumo;
  • condições adequadas de conservação;
  • orientações de preparo ou reaquecimento;

Isso não significa, necessariamente, que o alimento doado esteja impróprio. Mas significa que quem recebe pode não ter todos os elementos necessários para avaliar com segurança o que está consumindo.

Quando a gratidão silencia as perguntas

https://www.pexels.com/pt-br/procurar/pessoa%20recebendo%20alimento/

Existe um ditado popular bastante conhecido: “a cavalo dado não se olha os dentes.”

No contexto da doação de alimentos, ele ganha um significado mais profundo. Muitas pessoas que recebem esses alimentos estão em situação de vulnerabilidade e, nesses casos, o alimento não é apenas uma escolha, é uma necessidade. E quando a necessidade fala mais alto, o questionamento muitas vezes se cala.

Perguntar sobre ingredientes, validade ou conservação pode parecer inadequado, ou simplesmente inviável. Mas existe um ponto importante aqui e talvez o mais sensível de todos: a ausência de perguntas não elimina a necessidade de informação. Ela apenas revela que quem recebe o alimento nem sempre está em posição de questionar.

O papel de quem doa e de quem organiza doações

Entre quem doa e quem consome, muitas vezes existe uma rede silenciosa de pessoas que organizam, redistribuem e tornam essa ação possível. E é nesse ponto intermediário que a informação pode se perder ou ser preservada.

No Brasil, a Lei nº 15.224/2025 representa um avanço importante ao estruturar uma política nacional voltada à redução do desperdício e ao incentivo à doação de alimentos. Mais do que viabilizar a doação, essa abordagem incentiva a construção de uma cultura de aproveitamento responsável.

A legislação amplia o olhar sobre o tema ao integrar diferentes atores da cadeia (doadores, instituições intermediárias e beneficiários) e reforça que os alimentos destinados à doação devem permanecer próprios para o consumo humano e em conformidade com as normas sanitárias.

Ainda assim, na prática, muitas das informações que ajudam a interpretar essa segurança – como preparo, conservação e composição -, continuam dependendo da forma como o processo de doação é conduzido.

E é aqui que surge uma responsabilidade silenciosa.

Sempre que possível, incluir informações simples pode fazer diferença real, pois em muitos casos, pequenas informações já são suficientes para fazer essa diferença.

  • identificação do alimento;
  • data de preparo ou recebimento;
  • orientações básicas de conservação;
  • recomendações de consumo.

Não se trata de burocratizar a doação. Trata-se de ampliar o cuidado com o alimento doado.

Quando a informação também é parte do cuidado

Em muitos contextos, segurança de alimentos é associada a controles técnicos, tais como temperatura, higiene e processos. E tudo isso é essencial. Mas ao longo desta série de artigos, um outro elemento vem se tornando evidente: a informação também faz parte da segurança.

Sem ela, o consumidor ou quem prepara o alimento perde a capacidade de tomar decisões conscientes. E, no caso do alimento doado, esse efeito pode ser ainda mais sensível. Porque quem recebe nem sempre tem a possibilidade de compensar a falta de informação com perguntas.

Cena final: quando o cuidado se completa

Agora imagine a mesma cena inicial. A mesa sendo organizada e os alimentos sendo separados para distribuição. Mas desta vez alguns recipientes trazem pequenas identificações:

  • nomes das preparações;
  • datas;
  • orientações simples.

Nada complexo, mas suficiente para orientar quem vai manipular aqueles alimentos. Suficiente para reduzir incertezas. Suficiente para transformar um gesto de solidariedade em algo ainda mais completo. O alimento chegou, e desta vez, a informação também.

Porque, no fim, doar alimento é um ato de cuidado. Mas garantir que ele seja compreendido também é.

 Quando o alimento circula, a informação também precisa circular

Ao longo desta série, vimos o alimento percorrer diferentes caminhos: da indústria ao delivery, do restaurante à mesa, e agora, da doação ao consumo.

Em cada um desses trajetos, a informação pode se manter, se transformar… ou se perder. E garantir que ela continue disponível é um desafio cada vez mais relevante.

Porque, no final das contas, segurança de alimentos não é apenas sobre produzir alimentos seguros. É também sobre garantir que as pessoas tenham condições de compreender aquilo que estão consumindo.

No próximo e último artigo desta série, o olhar se amplia. Depois de percorrer diferentes contextos de consumo, surge uma pergunta maior:

Como garantir que a informação acompanhe o alimento ao longo de toda a cadeia alimentar?

Da origem ao consumo, passando por diferentes etapas, sistemas e atores. Porque, quando o alimento viaja, a informação precisa viajar junto.

4 min leituraA cena é simples. Uma mesa sendo organizada em uma instituição social. Panelas grandes, recipientes reutilizados, pessoas se movimentando com agilidade. Alimentos chegam de diferentes origens: sobras de produção; excedentes […]

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A informação que acompanha o alimento (Parte 4) – Restaurantes, buffets e catering: quando a informação depende da conversa

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O salão está cheio. Conversas animadas se misturam ao som de pratos e talheres sendo posicionados nas mesas. No centro do ambiente, uma sequência de bandejas cuidadosamente montadas chama a atenção dos convidados. Mini- sanduíches, quiches, salgados assados, doces delicadamente decorados. Algumas pessoas se aproximam do buffet observando as opções antes de escolher o que colocar no prato. Em determinado momento, alguém aponta para uma das sobremesas e pergunta:

— Esse doce tem amendoim?

O garçom hesita por um instante. Olha para a bandeja, depois em direção à cozinha.

— Acho que não.

A resposta parece simples. Mas naquele pequeno momento surge um aspecto pouco discutido da segurança de alimentos.

Quando um alimento é servido em restaurantes, eventos ou buffets, ele geralmente chega ao consumidor sem embalagem, sem rótulo e sem descrição detalhada.

E, nesse cenário, a informação sobre o alimento depende principalmente de algo muito menos visível que um rótulo: a comunicação entre pessoas.

Quando o alimento chega sem rótulo

https://www.pexels.com/pt-br/foto/mesa-fotografia-de-alimentos-fotografia-de-comida-pratos-19659620/

Grande parte das normas de rotulagem foi desenvolvida pensando em alimentos embalados. Produtos industrializados chegam ao consumidor acompanhados de informações claras sobre:

  • Ingredientes;
  • presença de alergênicos;
  • validade;
  • orientações de conservação;
  • informações nutricionais.

Nos serviços de alimentação, a dinâmica costuma ser diferente.

Restaurantes, padarias, confeitarias e buffets trabalham principalmente com preparações culinárias prontas para consumo. O alimento é preparado e servido diretamente ao cliente, muitas vezes poucos minutos depois de sair da cozinha. Nesses ambientes, a informação sobre o alimento costuma aparecer em outros formatos:

  • descrições no cardápio;
  • explicações da equipe de atendimento;
  • comunicação direta entre consumidor e estabelecimento.

Em outras palavras, ao contrário do alimento industrializado, a informação não acompanha fisicamente o alimento. Ela circula por meio da comunicação entre quem prepara, quem serve e quem consome.

Buffets e catering: quando o alimento muda de ambiente

https://www.pexels.com/pt-br/foto/pessoa-em-pe-usando-garfo-e-faca-para-preparar-alimentos-2814828/

Esse desafio torna-se ainda mais evidente em serviços de buffet e catering. Diferentemente de um restaurante tradicional, nesses modelos o alimento muitas vezes é preparado em um local e servido em outro.

Eventos corporativos, festas e recepções frequentemente envolvem operações nas quais:

  • os alimentos são produzidos em cozinhas centrais;
  • transportados até o local do evento;
  • organizados em mesas de serviço;
  • apresentados por equipes que nem sempre participaram do preparo.

Além disso, é comum que determinados itens do cardápio sejam fornecidos por terceiros, como:

  • doces finos produzidos por confeitarias especializadas;
  • salgados encomendados de fornecedores externos;
  • bolos e sobremesas adquiridos de produtores específicos.

Nesse cenário, o alimento percorre um pequeno trajeto antes de chegar ao consumidor:

fornecedor – cozinha – buffet ou catering – equipe de serviço – convidado

Cada etapa desse percurso exige que a informação acompanhe o alimento. Quando isso não acontece, parte do conhecimento sobre aquela preparação pode simplesmente se perder.

Quando a informação fica pelo caminho

Na prática, situações como essas são relativamente comuns.

Em eventos e serviços de buffet, a equipe responsável por servir os alimentos pode não ter acesso a informações detalhadas sobre todas as preparações oferecidas. Isso pode ocorrer por diferentes motivos:

  • ausência de fichas técnicas organizadas;
  • comunicação incompleta entre fornecedores e equipe do evento;
  • mudanças de última hora no cardápio;
  • treinamento insuficiente da equipe de atendimento.

Nessas situações, perguntas simples podem se tornar difíceis de responder com segurança:

  • esse doce contém castanhas?
  • esse molho leva leite?
  • esse prato possui glúten?

Para a maioria das pessoas, essas dúvidas podem parecer pequenas, mas para consumidores que convivem com alergias alimentares ou restrições dietéticas, elas são fundamentais para uma escolha segura.

O que diz a legislação brasileira

No Brasil, os serviços de alimentação são regulamentados principalmente por normas de boas práticas sanitárias, como a RDC nº 216/2004 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

Essas normas estabelecem requisitos relacionados a aspectos essenciais para a segurança de alimentos, incluindo:

  • higiene dos manipuladores;
  • controle de temperatura;
  • armazenamento adequado;
  • organização das áreas de preparo.

Além disso, o Código de Defesa do Consumidor determina que as informações fornecidas ao público devem ser claras e suficientes para evitar riscos à saúde.

No entanto, diferentemente do que ocorre com alimentos industrializados, não existe um modelo padronizado de informações mínimas para preparações culinárias servidas em restaurantes, buffets ou eventos. Assim, nesses ambientes, a continuidade da informação alimentar depende principalmente de organização interna e comunicação eficiente entre as equipes envolvidas no serviço.

Boas práticas para restaurantes, buffets e catering

https://www.pexels.com/pt-br/foto/chef-analisa-livro-de-receitas-na-cozinha-do-restaurante-36430037/

Em estabelecimentos onde o alimento não possui rótulo, a ficha técnica das preparações torna-se uma ferramenta fundamental. Ela permite registrar informações importantes como:

  • ingredientes utilizados;
  • presença de alergênicos;
  • modo de preparo;
  • possíveis substituições de ingredientes.

Além disso, algumas medidas simples podem contribuir para melhorar a comunicação com o consumidor:

  • manter fichas técnicas atualizadas das preparações;
  • organizar o fluxo de informações com fornecedores externos;
  • treinar equipes de atendimento para lidar com dúvidas sobre ingredientes;
  • garantir que a equipe responsável pelo serviço conheça os principais componentes do cardápio.

Essas práticas ajudam a preservar a informação alimentar mesmo quando o alimento é servido diretamente ao consumidor.

O papel do consumidor

Para quem participa de eventos, frequenta restaurantes ou se serve em buffets, algumas atitudes também podem contribuir para escolhas mais seguras, especialmente em casos de alergias ou restrições alimentares:

  • informar previamente a condição ao estabelecimento quando possível;
  • perguntar sobre ingredientes relevantes antes de consumir determinado alimento;
  • evitar preparações cuja composição não possa ser esclarecida com segurança.

Perguntar sobre o alimento não precisa transformar o momento de convivência em algo desconfortável. Existe um equilíbrio possível.

Segurança de alimentos também é saber equilibrar contextos: não transformar o momento social em auditoria, mas também não ignorar a informação quando ela é necessária.

https://www.pexels.com/pt-br/foto/restaurante-mulheres-almoco-refeicao-4349785/ Algumas horas depois, o movimento no salão começa a diminuir. As bandejas do buffet já estão quase vazias. Conversas continuam entre os últimos convidados enquanto a equipe inicia discretamente a organização do espaço.

Na mesa de sobremesas, alguém observa os doces restantes e pergunta novamente:

— Esse aqui tem castanha?

Desta vez, o garçom responde com segurança:

— Sim, esse leva amêndoas, mas aquele ao lado é feito apenas com chocolate.

A pessoa agradece, escolhe o doce e volta para a mesa.

Para a maioria dos presentes, aquela foi apenas mais uma refeição compartilhada em um ambiente agradável. Mas por trás de cada prato servido existe algo que nem sempre é visível ou sequer verbalizado: a informação que acompanha o alimento.

Porque a segurança dos alimentos não termina quando o prato sai da cozinha. Ela continua na informação que acompanha aquilo que comemos, mesmo quando essa informação precisa ser transmitida de pessoa para pessoa.

Nos artigos anteriores desta série, discutimos como essa informação aparece nos rótulos e como ela pode se fragmentar em modelos modernos de consumo, como o delivery.

Em restaurantes, buffets e serviços de catering, o cenário é diferente. Aqui, muitas vezes, a informação não está impressa. Ela depende da organização de quem prepara, da comunicação de quem serve e da curiosidade de quem consome.

No próximo artigo, seguiremos essa jornada observando um cenário ainda mais desafiador: quando alimentos deixam o circuito comercial e passam a circular em doações, bancos de alimentos e outras iniciativas de redistribuição, onde garantir que a informação continue acompanhando o alimento pode ser tão importante quanto garantir sua segurança.

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Comunicação: os desafios com estrangeiros nas indústrias de alimentos

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Um dos requisitos fundamentais para o êxito de qualquer sistema de gestão da segurança de alimentos é a comunicação eficaz.

A raiz de muitos problemas observados nas unidades produtoras de alimentos está, justamente, nas falhas de comunicação entre as partes envolvidas — emissores, interlocutores e receptores. Se já é desafiador manter uma comunicação clara e eficiente entre profissionais que compartilham o mesmo idioma, esse desafio torna-se ainda maior quando envolve trabalhadores estrangeiros, que não dominam plenamente a língua local.

O Brasil é reconhecido como um dos países mais diversos do mundo, característica reforçada pelo aumento significativo da imigração internacional nas últimas décadas. Dados de órgãos oficiais, como o IBGE e o Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), indicam que, especialmente a partir da década de 2010, o país passou a receber um fluxo expressivo de imigrantes haitianos e, mais recentemente, venezuelanos. Grande parte desses trabalhadores foi absorvida por setores que demandam mão de obra intensiva, como a indústria de alimentos, frigoríficos, agroindústrias e serviços associados à cadeia produtiva de alimentos.

Os haitianos começaram a chegar em maior número ao Brasil após o terremoto de 2010, sendo direcionados principalmente para regiões industriais e agroindustriais. Já a imigração venezuelana se intensificou a partir de 2017, em decorrência da crise humanitária no país vizinho. Em ambos os casos, observa-se que a maioria desses profissionais não possui fluência em língua portuguesa, o que impõe desafios adicionais para a integração no ambiente industrial.

A absorção dessa mão de obra estrangeira representa uma oportunidade social e econômica, tanto para os imigrantes quanto para o país. No entanto, um aspecto ainda pouco discutido é a eficiência da comunicação com esses profissionais no contexto da segurança de alimentos. As barreiras linguísticas podem comprometer o entendimento de políticas da qualidade, programas de segurança de alimentos, instruções de trabalho, procedimentos operacionais padronizados (POPs), boas práticas de fabricação (BPFs) e treinamentos obrigatórios.

Na indústria de alimentos, onde a rotina é intensa e os riscos são elevados, a comunicação inadequada pode resultar em falhas operacionais, desvios de processo, contaminações e não conformidades graves. Muitas vezes, o ritmo acelerado da produção não permite um acompanhamento individualizado capaz de avaliar o real nível de compreensão e percepção dos colaboradores estrangeiros. Nessas situações, falhas recorrentes podem ser erroneamente interpretadas como desatenção ou negligência, quando, na verdade, estão associadas à dificuldade de compreensão do idioma e da cultura organizacional local.

Diante desse cenário, torna-se essencial que as empresas adotem estratégias de monitoramento contínuo do entendimento e da aprendizagem destes colaboradores. A comunicação eficaz é um pilar estratégico para garantir a segurança dos alimentos, a conformidade legal, a redução de riscos e a construção de uma cultura organizacional sólida e inclusiva.

Sugestões para melhorar a comunicação com profissionais estrangeiros na indústria de alimentos

  • Utilizar materiais visuais, como cartazes ilustrativos, pictogramas, fluxogramas e vídeos demonstrativos, reduzindo a dependência exclusiva da linguagem escrita;
  • Adaptar treinamentos com linguagem simples, objetiva e, sempre que possível, com apoio de tradutores ou mediadores bilíngues;
  • Desenvolver materiais fundamentais (regras básicas, higiene pessoal, segurança de alimentos e procedimentos críticos) em mais de um idioma, especialmente espanhol e francês/creole haitiano;
  • Realizar avaliações periódicas de entendimento, por meio de observações práticas, simulações e diálogos diretos no ambiente de trabalho;
  • Capacitar líderes e supervisores para uma comunicação intercultural, promovendo empatia, paciência e escuta ativa;
  • Incentivar programas internos de alfabetização ou ensino básico de português voltados ao contexto industrial;
  • Promover a integração cultural, criando um ambiente mais acolhedor, no qual o colaborador estrangeiro se sinta seguro para tirar dúvidas e pedir orientações.

Investir em comunicação eficaz com profissionais estrangeiros não é apenas uma ação de responsabilidade social, mas uma estratégia fundamental para a segurança de alimentos, a eficiência operacional e a sustentabilidade das indústrias alimentícias em um contexto cada vez mais globalizado.

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Caderno e passagem de turno na indústria de alimentos

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Quem vive o dia a dia da operação em uma fábrica de alimentos sabe que cada turno carrega sua própria rotina, seus próprios desafios e até seus próprios ritmos. O que muita gente não percebe é que essa troca de bastão entre um turno e outro pode ser um dos momentos mais importantes da fábrica e é justamente aí que o caderno de passagem e a passagem de turno ganham força.

O caderno não é um documento técnico, não é um registro formal e nem deve substituir os controles principais. Ele não nasce para virar relatório ou para competir com sistemas oficiais. O caderno existe por um motivo muito mais simples e ao mesmo tempo muito mais humano: garantir que a fábrica continue falando, mesmo quando as pessoas mudam de posição.

É impressionante como um item tão básico pode carregar tanta riqueza de informação. Ali entram pequenas percepções do turno anterior, observações rápidas, algo que chamou atenção, um comportamento estranho da máquina, uma dúvida, uma orientação pontual. Coisas que muitas vezes não aparecem nos formulários, mas fazem toda a diferença na rotina.

E a passagem de turno só funciona bem quando há comunicação de verdade, não basta “entregar a chave” e ir embora. É preciso contar o que aconteceu, explicar o que ficou pendente, avisar o que merece atenção e, principalmente, oferecer contexto para quem chega. Quem assume o próximo turno precisa enxergar o ponto de partida. O caderno ajuda nisso, ele conecta turnos que não se cruzam, cria continuidade e evita que cada equipe tenha que “começar do zero” todos os dias.

Mas vale reforçar que o caderno não substitui nenhum controle oficial. Ele não substitui checklist, não substitui sistema, não substitui procedimentos; ele complementa, ele captura aquilo que os sistemas não alcançam, ele registra o que o olhar humano percebe antes de virar um problema maior. Ele serve como apoio para que a passagem de turno seja mais clara, mais rápida e mais segura.

No fim das contas, o caderno e a passagem são meios simples, mas cheios de vida. Dão voz ao turno que está encerrando, guiam o turno que está começando e criam uma linha invisível de alinhamento entre pessoas que nem sempre se encontram. Quando essa comunicação funciona, a fábrica funciona melhor. E quando a passagem de turno é bem feita, muita coisa deixa de virar problema.

Às vezes, a informação que salva o dia está escrita ali, em uma frase curta, deixada por alguém que só queria garantir que o próximo turno tivesse um caminho mais claro. E isso, por si só, já diz muito sobre o valor dessa ferramenta.

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Requisitos de Comunicação: novo foco da FSSC 22000 nas indústrias alimentícias

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Os Requisitos de Comunicação passaram a ter um papel ainda mais relevante com a introdução do item 2.5.17 na norma FSSC 22000. Essa atualização reforça a importância de uma comunicação clara, eficaz e estruturada dentro das indústrias alimentícias, especialmente no que diz respeito à segurança de alimentos e à gestão de riscos.

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Como engajar a equipe na era digital?

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A vida corrida exige informações rápidas e claras. Mas como manter o conteúdo relevante e interessante em um mundo cada vez mais digital? Como engajar a equipe? A resposta está em usar a tecnologia a nosso favor.

A internet conecta-nos instantaneamente a um mar de informações. Porém, a falta de tempo e o excesso de dados podem gerar desinteresse e dificuldade de compreensão, principalmente em treinamentos.

O desafio é transformar a tecnologia em uma ferramenta para aumentar o engajamento da equipe.

Aproveite:

  • QR Codes: Crie um canal anônimo para sugestões, críticas e denúncias;
  • Telas: Use telas em locais comuns para exibir informações relevantes e atualizadas;
  • Formulários online: Faça pesquisas rápidas para avaliar o aprendizado e identificar áreas de melhoria.

Resultados esperados:

  • Maior engajamento: Colaboradores mais participativos e interessados nos objetivos da empresa;
  • Melhoria da comunicação: Troca de informações mais eficiente e transparente;
  • Aumento da produtividade: Informações relevantes e acessíveis no momento certo.

Dicas:

  • Seja objetivo: Mensagens curtas e diretas são mais eficazes;
  • Utilize imagens e vídeos: Conteúdos visuais facilitam a compreensão;
  • Incentive a interação: Crie espaços para que os colaboradores participem;
  • Adapte-se às novas tecnologias: Esteja sempre atualizado sobre as novidades;
  • Lembre-se: A tecnologia é uma aliada poderosa para o crescimento da sua empresa. Use-a com criatividade e inteligência para alcançar seus objetivos.

E você, como pode usar a tecnologia para transformar sua empresa?

Veja abaixo outro artigo sobre o tema no blog:

Treinamentos em Segurança de Alimentos: inove com a gamificação 

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Sobre o que você está falando? Linguagem da Qualidade e Segurança de Alimentos

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Naturalmente no dia a dia ouvimos diversas siglas e termos comuns ao nosso ambiente de atuação, dos mais variados tamanhos e combinações. Esta linguagem da Qualidade contém diversas abreviações de termos em inglês, português, árabe, gerando muitas “palavras”, como SGQ, FSSC, ISO, APPCC, PCC, PPR, SQF, BRC, CQ, RNC etc. Isto apenas falando do universo da qualidade e segurança. Porém, também existem tantas outras siglas nos departamentos que atuam em conjunto com a Qualidade, como a manutenção, manufatura e melhoria contínua: 5W2H, FMEA, 5S, PCP, PDCA, SDCA.

Além das siglas, também é muito comum americanizar nossa linguagem, com frases como: “Precisamos ficar atentos à possibilidade de recall”, “aquele batch precisa ser retido”, “temos que investigar esse gap”, “já sinalizamos para o time de supply e marcamos uma call”.

Será que já paramos para analisar como esses termos entraram em nossas vidas e como eles nos aculturaram de tal forma que “automaticamente” os pronunciamos em meio à loucura do dia a dia? Arrisco dizer que essa linguagem da Qualidade é uma medida de “sobrevivência” para conseguirmos nos comunicar claramente e estar “inseridos e aceitos” entre nossos pares e demais profissionais da área.

Mas e quanto aos colaboradores? O quanto nossa comunicação é clara e assertiva quando utilizamos essas “palavras”? Sei que você pode estar pensando que os termos devem ser ditos justamente porque fazem parte da cultura da empresa e sua repetição incansável fará com que essa cultura seja fortalecida – ou ainda que esses termos já podem ter sido ditos anteriormente por outras empresas nas quais o colaborador trabalhou. Mas nesse texto não digo para não utilizar os termos, não digo sobre o que é certo ou o que é errado comunicar. Pretendo trazer uma reflexão para nos preocuparmos com o como utilizar e como repassar esses termos. Será que os todos os termos que utilizamos estão presentes desde a integração? Estão visíveis na comunicação visual interna e são constantemente reforçados em reuniões de área e diálogos da qualidade?

Uma comunicação assertiva precisa considerar a clareza das informações e a forma como são comunicadas. E você, leitor, com quantas novas siglas se depara diariamente?

E se você ainda se considera perdido e quer saber mais sobre siglas e termos, aproveite para ler GFSI, FSSC, BRCGS, IFS e SQF: entenda esta sopa de letrinhas.

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O papel essencial da comunicação para a segurança dos alimentos

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A comunicação é um processo que envolve a troca de informações entre dois ou mais interlocutores por meio de signos e regras semióticas mutuamente entendíveis.

Nestes termos parece confuso, não é? Então esta é a primeira lição, uma boa comunicação requer o bom entendimento por parte de quem recebe uma mensagem, seja falada ou escrita.

Que tal agora?

A comunicação é um processo que envolve a troca de informações entre duas ou mais pessoas por meio de simbologias e regras verbais ou não verbais que sejam acordadas por convenções para entendimento mútuo.

Nas empresas, temos a comunicação organizacional, cuja eficácia está associada a conhecer os grupos de interesse (ver artigo Stakeholders do segmento de alimentos e suas expectativas) para os quais devemos escolher e determinar qual é a melhor forma de acesso, linguagem, mídia e canal de comunicação.

Existem grupos de interesse internos e externos. Entre os internos temos os empregados, as lideranças, a alta direção e os acionistas, e entre os externos, temos consumidores, clientes business to business, atacadistas, varejistas, grupos de interesse mercadológicos, governo, bancos, agências reguladoras, ONGs etc.

Por isso, a comunicação constitui, obviamente, um fator de extrema importância para que possamos transmitir informações, fatos, dados, orientações, alertas, ideias etc., tornando-se evidente que quem não se comunica de maneira eficaz, acaba por perder eficácia, e claro, fica mais exposto a riscos.

O tema, justamente pela sua importância, encontra espaço em diversas normas de gestão. Focando especificamente qualidade, por exemplo, temos requisitos associados tanto na ISO 9001 quanto na ISO 22000, como seguem:

ISO 9001 – SISTEMAS DE GESTÃO DA QUALIDADE

  • Requisito 7.4 – Trata do planejamento da comunicação interna e externa entre as partes interessadas, incluindo a definição do que comunicar, quando, com quem, como e quem deve realizar a comunicação;
  • Requisito 8.2.1 – Trata, especificamente, da comunicação com o cliente quando da definição dos requisitos de produtos e serviços, portanto, sobre o que está sendo comercializado ou contratado, incluindo consultas, pedidos, mudanças, retroalimentações, reclamações, ações de contingência etc.;
  • Requisito 8.5.3 – Trata, entre outras coisas, da comunicação com clientes ou fornecedores sobre a propriedade de terceiros que está sob responsabilidade da organização;
  • Requisito 8.7.1.e – Trata da comunicação sobre não conformidades com clientes, em especial, quando uma especificação acordada não é atendida ou é violada.

ISO 22000 – SISTEMAS DE GESTÃO DA SEGURANÇA DOS ALIMENTOS

  • Requisito 7.4 – Trata do planejamento da comunicação interna e externa entre as partes interessadas naquilo que diz respeito à segurança dos alimentos, incluindo a definição do que comunicar, quando, com quem, como e quem deve realizar a comunicação;
  • Requisito 8.9.5 – Trata de recolhimento/ recall, portanto, pressupõe uma sistemática de comunicação com os elos da cadeia de distribuição a fim de localizar e recolher produtos potencialmente inseguros já introduzidos no mercado.

Dessa forma, possuir sistemáticas planejadas de comunicação interna e externa que sejam capazes de prover uma comunicação clara, consistente, objetiva e completa até mesmo entre as cotidianas, é um fator preponderantemente necessário para o sucesso de uma organização.

Não tratarei neste artigo dos avanços nos sistemas de comunicação, especialmente porque eles saltam aos olhos, são óbvios, especialmente depois da virada do milênio, considerando que atualmente mais que 75% da população mundial já possui um smart fone com o qual fala, manda mensagens escritas ou de voz, fotos e vídeos, faz até videoconferências, e isso tudo nos permite comunicação em tempo real.

Somando-se a isso, é indiscutível o vantajoso incremento ao fluxo comunicação via o avanço das tecnologias associadas com a internet das coisas, big data, uso da inteligência artificial etc., como tratado no artigo O potencial da Indústria 4.0 favorecendo a segurança dos alimentos.

Então, os problemas atuais de comunicação, frente à enorme propagação tecnológica contemporânea, não estão necessariamente associados com os meios, mas sim com a forma que pode não ser a mais aderente para um determinado público-alvo em questão ou ao conteúdo desta comunicação.

A construção de uma comunicação eficaz, portanto, não pode ser reduzida à mera transmissão de mensagens, ela requer a criação de um ambiente que permite a interação e integração entre os dois lados que participam, fornecendo e adquirindo informações.

Já uma comunicação mal feita pode atrapalhar o processo de propagação da comunicação corporativa, permitir a geração de produtos não conformes ou inseguros, e pior, que estes fujam do controle da organização e acabem no mercado consumidor.

Diante disso, um planejamento de comunicação bem estruturado, com objetivos previamente estabelecidos, facilita as ações de comunicação, devendo ser desenhado de acordo com o público-alvo receptor.

Ao criar este planejamento de comunicação, existem três perguntas simples que são muito importantes:

1 – O quê comunicar?  2 – A quem comunicar? 3 – Como comunicar?
O que a empresa quer exatamente comunicar?

Essa pergunta serve para definir os grupos e categorias de informações que deverão ser estrategicamente trabalhadas para cada tipo de público;

Quem será o público-alvo atingido por determinadas categorias de informações de forma específica, sem que os demais sejam acionados? Como as informações serão comunicadas, por qual o canal de comunicação, usando qual metodologia, em que periodicidade, ou seja, por quais meios e formas.

A forma com que uma organização se comunica está diretamente ligada à maneira com que ela e sua alta direção trabalham sua cultura organizacional e de food safety, tema para o qual sugiro o artigo Desafios brasileiros para implantação da cultura Food Safety.

Comunicação interna

Uma comunicação interna constante e verdadeira com os empregados é fundamental para que eles se sintam importantes e reconhecidos, assim saberão claramente o que se espera deles e estarão mais dispostos para realizar suas atividades, sendo mais assertivos e gerando melhores resultados, seja no que se refere ao aumento de produtividade, qualidade ou à segurança dos alimentos.

A comunicação interna também é essencial para eficácia dos processos e a produção adequada de produtos devidamente dentro de suas especificações. Por exemplo,  no desenvolvimento de um produto, deixando claras as  especificações de matérias-primas, insumos, aditivos, coadjuvantes e embalagens para compradores, fornecendo especificações de produtos ao longo dos processos e finalizados para áreas de controle de qualidade, parâmetros de controle de variáveis operacionais para áreas industriais etc.

Em segurança de alimentos, o tema é também essencial, deixando claros aos envolvidos num processo de produção de alimentos e bebidas quais são os pontos críticos de controle, os limites críticos, ações em casos de desvio, formas de segregar produtos potencialmente inseguros para evitar que sigam para o mercado, assim como a responsabilidade e autoridade, como visto no artigo Matriz RACI aplicada na segurança dos alimentos.

Uma comunicação bem planejada e eficaz torna melhor o clima organizacional, fazendo com que os profissionais se sintam mais valorizados em seu trabalho e satisfeitos com a organização.

Para realizar a comunicação interna, uma organização poderá fazer uso de uma ou mais ferramentas como:

  • e-mail corporativo;
  • newsletter;
  • murais;
  • intranet;
  • aplicativos;
  • palestras internas;
  • workshops;
  • cursos de capacitação profissional;
  • entre outras ferramentas.

Comunicação externa

A comunicação externa atende a diversas demandas, por exemplo, clientes que querem informações ou fazer reclamações, distribuidores sobre formas de armazenamento e transporte, órgãos fiscalizadores sobre produtos, riscos, registros e formas de produção, grupos de consumidores e mercadológicos sobre propriedades nutricionais, restrição a ingredientes específicos, etc.

Um canal de comunicação direta facilita muito esta tarefa, como visto no artigo O papel estratégico do SAC para a qualidade e a segurança dos alimentos.

Para realizar a comunicação externa, uma organização poderá fazer uso de uma ou mais ferramentas como:

  • e-mail corporativo;
  • newsletter;
  • jornais e/ou revistas – impressos e/ou on-line;
  • blogs;
  • internet;
  • rede social;
  • aplicativos;
  • palestras externas;
  • workshops;
  • uso de assessoria de imprensa;
  • entre outras ferramentas.

Empresas presentes no mundo on-line, conectadas e engajadas, tendem a possuir um relacionamento de melhor solidez com fornecedores e, principalmente, com clientes, além de transmitirem melhor sua imagem e demonstrarem preocupação com a opinião de seu público-alvo, e claro, com a segurança dos alimentos.

Em casos da necessidade de uma comunicação mais contundentes, seja por motivos positivos como a divulgação de um novo produto, ou por motivos problemáticos como num caso de gestão de crises (ver artigo Emergências, gestão de crises e recall), uma organização pode recorrer a uma assessoria de imprensa.

A assessoria de imprensa é o elo entre a empresa e os veículos de comunicação como TV, rádio, jornais, blogs especializados, revistas etc., buscando uma comunicação eficaz, justamente por dominar a forma e os meios.

Esses veículos de comunicação possibilitam conquistar visibilidade positiva e confiabilidade junto aos consumidores, fortalecendo e estabelecendo a imagem da empresa, tornando-a referência no mercado, mas também, agir rápido e com foco em casos de gestão de crises.

Fica evidente que a comunicação nas organizações é um fator extremamente determinante para o seu sucesso ou fracasso.

Sem uma comunicação corporativa de qualidade, as empresas estão sujeitas a uma série de prejuízos, tanto de ordem financeira quanto de imagem e reputação, e justamente por isso, é fundamental encarar a comunicação como uma ferramenta estratégica.

Quer se aprofundar neste tema? Segue a dica de DOIS livros que foram as referências bibliográficas utilizadas:

  1. BERTOLINO, M. T. e COUTO, M. Sistemas de Gestão Integrados: ISO 9001 + ISO 14001 + ISO 45001, com foco em
  2. BERTOLINO, M. T. Gerenciamento da Qualidade na Indústria Alimentícia: Ênfase em Segurança dos Alimentos. Porto Alegre, Ed. ARTMED, 2010.

 

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Comunicação não violenta na indústria de alimentos

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A comunicação não violenta na indústria de alimentos pode contribuir bastante, pois o setor requer uma comunicação muito clara e assertiva, devido à grande responsabilidade de disponibilizar alimentos para pessoas.

São muitos os meios de comunicação que permitem interação muito rápida com o consumidor, e isso é cada vez mais valorizado pelas empresas, conseguindo dar respostas rápidas sobre o produto, muitas vezes no momento imediato ao consumo. Esta comunicação, porém, não pode estar focada somente no consumidor. Os colaboradores são os ativos mais valiosos que podem mudar a cultura de uma empresa.

Cada vez mais empresas e profissionais estão investindo em desenvolvimentos comportamentais e comunicação, sabe por quê? Porque é importante!

No texto 9 competências essenciais para a liderança na gestão da qualidade, não foi por acaso que comunicação e diálogo foi o primeiro tema abordado.

A equipe de qualidade e segurança de alimentos muitas vezes tem notícias e decisões não tão fáceis de processar, causando muito estresse para gestão e operação.

Quando um problema é discutido na indústria, muitas vezes nós o relacionamos a causas ou falhas que ocorreram em um outro momento, chegando a rotular “esse funcionário” ou “essa máquina”, o que pode interferir e muito na apuração e identificação da causa-raiz do problema.

Existe um processo desenvolvido por Marshall Bertram Rosemberg chamado Comunicação Não Violenta, que aborda a comunicação de forma empática, para interpretar e resolver conflitos em relações individuais ou em grupo, utilizando 4 princípios: Observação, Sentimentos, Necessidades e Pedido.

Refletimos em nossas falas e expressões os sentimentos que temos. Às vezes, o estresse, o medo ou mesmo o desgaste pelos problemas não nos deixa ser claros e assertivos, pois interferem em algo que queremos cuidar, como as responsabilidades que temos naquele processo, ou o receio de ser penalizado, ou o próprio julgamento dos colegas.

No meu caso, vejo muito nitidamente a interferência da comunicação durante as auditorias: os mesmos requisitos, o mesmo auditado e respostas diferentes.

Quando o auditor está disposto a ouvir e tem o cuidado de fazer um questionamento claro e sem indução, o auditado consegue ter clareza e responder adequadamente, com segurança. Outros já “tendenciam” uma resposta, causando tamanho desconforto e insegurança que isso reflete no resultado da auditoria.

Outro exemplo é quando um operador omite os fatos por medo de ser penalizado ou responsabilizado, sem nenhuma intenção real de atrapalhar o trabalho ou processo de resolução do problema.

Quando conseguimos aplicar as técnicas da comunicação não violenta, temos a oportunidade de enxergar as necessidades e atuar para que essas sejam atendidas ou consideradas. 

É natural que gestores e líderes necessitem muitas vezes determinar algumas condições, procedimentos e tarefas no ambiente de trabalho, mas quando substituímos a imposição por um pedido ou um acordo, permitimos que o outro faça parte do processo e da decisão, o que reflete no comprometimento com relação ao que é proposto.

O operador que passa o dia todo em uma atividade sabe de detalhes que podem contribuir muito para o resultado que buscamos, e quando sente que é importante para aquela etapa e pode contribuir, isso reflete diretamente no desempenho.

É claro que aplicar a Comunicação não violenta é um desafio e requer muita prática e disposição, mas podemos mudar a cultura e ter empatia por TODOS, tentando entender as necessidades de cada colaborador e respeitar o fato de cada um ser UM.

Fonte da Imagem: exame.com

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