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Listeria lidera os surtos investigados pelo USDA em 2025: lições para a segurança de alimentos

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O Food Safety and Inspection Service (FSIS), agência do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), divulgou seu relatório anual sobre surtos de doenças transmitidas por alimentos, investigados entre outubro de 2024 a setembro de 2025. Os dados reforçam uma preocupação recorrente: Listeria lidera os surtos e foi o principal agente causador.

Panorama geral dos surtos

Em 2025, o FSIS investigou sete surtos de doenças alimentares (leia o original aqui), todos envolvendo produtos sob sua jurisdição – carnes, aves e produtos de ovos processados. Foram acometidas 250 pessoas, entre as quais 140 precisaram de hospitalizações, um índice elevado de gravidade quando comparado a outros patógenos alimentares.

Todos os surtos foram multies­taduais, o que evidencia cadeias de produção e distribuição longas e complexas, além da necessidade de forte coordenação entre autoridades federais, estaduais e locais. Em cinco dos sete casos, o alerta inicial partiu do Centers for Disease Control and Prevention (CDC).

Listeria em destaque

Dos sete surtos investigados:

  • 4 foram causados por Listeria monocytogenes
  • 2 por Escherichia coli O157:H7
  • 1 por Salmonella Enteritidis

Apesar de menos frequente que Salmonella em números absolutos de casos nos Estados Unidos, L. monocytogenes se destaca pela alta taxa de hospitalização e letalidade, especialmente entre gestantes, idosos e pessoas imunocomprometidas. O fato de ter sido responsável pela maioria dos surtos investigados pelo FSIS em 2025 chama a atenção para a persistência desse patógeno em ambientes industriais.

Produtos envolvidos e complexidade das investigações

Os produtos investigados incluíram:

  • Carne bovina (2 surtos)
  • Produtos prontos para o consumo de carne e aves (1 surto)
  • Alimentos com múltiplos ingredientes (2 surtos)
  • Múltiplos produtos avaliados simultaneamente (2 surtos)

Os surtos associados a alimentos multi-ingredientes, como refeições prontas contendo massas, molhos e proteínas, foram destacados pelo FSIS como particularmente desafiadores.

Nesses casos, a investigação precisa determinar se a contaminação ocorreu em um ingrediente específico ou durante o processamento final do produto, exigindo ações coordenadas entre diversas agências reguladoras.

Recolhimentos e alertas à saúde pública

Três das sete investigações resultaram em recalls de produtos por estabelecimentos inspecionados pelo FSIS. Em um dos surtos por Listeria monocytogenes, além do recolhimento, foi emitido também um alerta de saúde pública, demonstrando a gravidade do risco identificado e a necessidade de comunicação rápida com os consumidores. Outro recall ocorreu por surto com E. coli O157:H7.

Lembrete importante: surtos são apenas a “ponta do iceberg”

O próprio FSIS ressalta que os surtos investigados representam apenas uma pequena fração das doenças de origens alimentares que realmente ocorrem. Muitos consumidores não procuram atendimento médico, não realizam exames laboratoriais ou não têm seus casos ligados epidemiologicamente a outros, o que impede a abertura formal de uma investigação de surto.

Lições para a indústria de alimentos

Os dados de 2025 reforçam pontos críticos já bem conhecidos:

  • A L. monocytogenes continua sendo um desafio significativo, especialmente em ambientes de processamento de alimentos prontos para o consumo;
  • Programas robustos de monitoramento ambiental e controle de nichos são essenciais;
  • Cadeias produtivas complexas exigem rastreabilidade eficiente e comunicação ágil (leia mais aqui);
  • A prevenção continua sendo a melhor estratégia para reduzir hospitalizações e mortes;
  • A chegada da L. monocytogenes ao produto final evidencia falhas nos processos e nas ações de rotina, podendo causar recolhimentos, notificações compulsórias na mídia, exposição negativa da marca e principalmente, risco de morte aos consumidores.

Para a indústria e para os profissionais de segurança de alimentos, o relatório do FSIS é mais do que um balanço estatístico: é um alerta claro sobre onde estão os riscos prioritários e onde esforços adicionais de controle e cultura de segurança dos alimentos são indispensáveis.

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Episódios de contaminação de alimentos no Brasil: causas, impactos e lições

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O Brasil é um país de dimensões continentais, marcado por uma impressionante diversidade cultural, climática e alimentar. De Norte a Sul, encontramos uma infinidade de hábitos alimentares, ingredientes típicos e formas de preparo que refletem a identidade de cada região. Essa riqueza, no entanto, também traz desafios significativos quando o assunto é a segurança dos alimentos.

Em um território tão vasto, com realidades socioeconômicas distintas e diferentes níveis de acesso à informação, fiscalização e infraestrutura, os riscos associados à contaminação de alimentos se manifestam de diversas formas — desde falhas simples na manipulação até casos graves envolvendo substâncias tóxicas, microrganismos patogênicos e fraudes alimentares.

Os surtos de doenças transmitidas por alimentos (DTA) não apenas impactam a saúde pública, como também revelam fragilidades nos sistemas de controle, na educação sanitária e na responsabilidade de todos os envolvidos na cadeia produtiva, do campo à mesa. Cada episódio carrega lições importantes e evidencia a necessidade constante de vigilância, capacitação e compromisso com a qualidade dos alimentos consumidos pela população.

Este levantamento reúne alguns dos surtos e episódios de contaminação de alimentos mais relevantes e recentes registrados em todos os estados brasileiros, evidenciando suas causas, impactos e contextos. Mais do que relatar eventos, o objetivo é promover reflexão e conscientização sobre a importância da segurança de alimentos em um país tão grande e diverso quanto o Brasil.

Acre

Em 27 de fevereiro de 2026, em Rio Branco, uma família sofreu intoxicação após ingerir uma planta tóxica, com um idoso chegando a ser intubado. A esposa dele e um adolescente de 13 anos também consumiram a planta e precisaram de atendimento médico. De acordo com relatos, o idoso encontrou a fruta no quintal de um vizinho e a levou para casa, onde os demais também a ingeriram. A planta responsável pela intoxicação é a Brugmansia, conhecida popularmente como trombeta-de-anjo. Utilizada como ornamental, possui alto potencial tóxico em todas as partes — flores, folhas e frutos. De acordo com autoridades de saúde, a planta contém substâncias como escopolamina e atropina, que atuam no sistema nervoso central. A ingestão pode causar confusão mental, alucinações, dilatação das pupilas, taquicardia, vômitos e, em situações mais graves, convulsões e até a morte.

Alagoas

Em 2025, uma grave contaminação de ração equina causou a morte de 60 cavalos no estado de Alagoas. A suspeita recaiu sobre a ração da empresa Nutrata Nutrição Animal. Investigações indicaram a presença de alcaloides tóxicos (possivelmente derivados da planta Crotalaria) na ração, resultando em insuficiência renal e hepática nos animais, ocasionando posteriormente a morte. O caso teve repercussão nacional e levou à investigação pelo Ministério da Agricultura e ao recolhimento dos produtos. Apesar de não envolver humanos, esse é considerado o episódio mais grave e emblemático de contaminação alimentar já registrado no Estado, pela escala e impacto.

Amapá

Um dos episódios mais alarmantes descritos em documento encaminhado ao Ministério Público do Amapá ocorreu no dia 23 de novembro de 2025, quando ao menos 21 internos do Instituto Penitenciário do Amapá, em Macapá, passaram mal após consumirem alimentos fornecidos por uma empresa. Os presos apresentaram sintomas como diarreia, náuseas e mal-estar generalizado, compatíveis com intoxicação alimentar. Conforme relatado, a comida apresentava sinais visíveis de deterioração, o que reforça a suspeita de fornecimento de alimentos estragados.

Amazonas

Em julho de 2021, na zona rural da cidade de Manacapuru, 30 casos foram notificados, e um menino de 8 anos morreu por suspeita de intoxicação decorrente do consumo da fruta tucumã. A causa exata da contaminação não foi totalmente confirmada pelos laudos divulgados publicamente, mas a investigação da vigilância sanitária apontou fortes suspeitas de contaminação pela possível presença das bactérias Salmonella e Staphylococcus aureus.

Bahia

Em setembro de 2024, foi registrado em boletim da Secretaria de Estado da Saúde da Bahia, um surto de botulismo nos municípios de Campo Formoso, Senhor do Bonfim e Cícero Dantas. Foram confirmados seis casos, dos quais dois evoluíram para óbito. A suspeita é de que a infecção tenha sido causada por toxina botulínica produzida pela bactéria Clostridium botulinum, presente em mortadela de frango, pois quatro pessoas relataram o consumo na véspera do início dos sintomas.

Ceará

De acordo com os autos do Tribunal de Justiça do Ceará, em 29 de março de 2017, alunos da Escola Estadual Professor Walquer Cavalcante Maia sofreram intoxicação alimentar após consumirem refeições servidas por uma empresa terceirizada, no horário do almoço, no município de Russas. A Vigilância Sanitária Municipal coletou amostras dos alimentos e da água no local de funcionamento da empresa e as enviou ao LACEN (Laboratório Central), que comprovou, em laudo, a contaminação dos alimentos pela bactéria Escherichia coli. No local, também foi observada a falta de profissionais qualificados. Ao todo, 342 pessoas foram expostas ao alimento e 57,6% delas apresentaram infecção alimentar, predominantemente estudantes. Foi identificado que panqueca com molho e guarnições de frango estavam contaminadas. Muitos alunos foram levados para atendimento médico.

Distrito Federal

Em janeiro de 2026, dois bebês foram intoxicados após consumirem fórmulas infantis de uma famosa marca conhecida no ramo alimentício (Nestlé), no Distrito Federal. O incidente ocorreu sete dias após a ANVISA proibir a venda de lotes específicos da multinacional, medida adotada após a empresa iniciar um recall global por risco de contaminação pela toxina produzida por Bacillus cereus.

Espírito Santo

Um surto alimentar ocorrido em Colatina, em 2015, afetou cerca de 40 pessoas após o consumo de lanches em uma lanchonete local. A principal suspeita foi a ingestão de maionese caseira contaminada, possivelmente por bactérias como Salmonella. Os pacientes apresentaram sintomas como diarreia, vômito, febre e mal-estar geral. Muitos precisaram de atendimento hospitalar devido à gravidade dos sintomas. A Vigilância Sanitária interditou o estabelecimento e abriu investigação. O caso chamou atenção porque a venda de maionese caseira já era proibida no município, reforçando a importância do controle sanitário e do cuidado com alimentos de alto risco.

Goiás

Em agosto de 2021, na cidade de Aparecida de Goiânia, 21 pessoas buscaram atendimento médico após apresentarem sintomas de intoxicação alimentar, como náuseas, vômito e mal-estar, depois de consumirem pastel em uma feira livre do município. A Secretaria Municipal de Saúde informou que, como as denúncias ocorreram dias após o consumo (os pastéis eram vendidos aos domingos), não foi possível realizar a coleta de amostras dos alimentos para análise, o que impediu a confirmação da causa específica do surto.

Maranhão

Em outubro de 2024, após exames, a Polícia Civil concluiu que uma bactéria foi a causa da intoxicação alimentar que levou cerca de 150 pessoas à hospitalização após uma festa na Escola Municipal Professora Leda Tajra, na cidade de Alto Parnaíba. O laudo pericial não indicou a presença de metais pesados ou produtos químicos. O bolo servido estava contaminado, sendo caracterizada contaminação cruzada, decorrente de falhas nas Boas Práticas de Fabricação. Foi confirmada contaminação microbiológica, possivelmente por Staphylococcus aureus ou Salmonella, embora o agente específico não tenha sido oficialmente divulgado.

Mato Grosso

Em 1º de dezembro de 2025, 11 estudantes de uma escola municipal em Brasnorte foram encaminhadas ao hospital após consumirem um bolo levado por uma professora. Das 11 crianças, três apresentaram mal-estar devido à intolerância à lactose. As demais tiveram quadros de ansiedade e nervosismo ao presenciarem colegas passando mal. Todas receberam atendimento médico e tiveram alta posteriormente.

Mato Grosso do Sul

Em 2011, o Laboratório Central de Saúde Pública de Mato Grosso do Sul confirmou que a bactéria Staphylococcus aureus foi a causa da intoxicação alimentar de cerca de 180 alunos de uma escola pública em Campo Grande. Os estudantes apresentaram sintomas como vômitos, diarreia e desmaios. Entre as possíveis causas apontadas estavam falhas na distribuição dos alimentos em temperatura inadequada, além de problemas na conservação e no manuseio pós-preparo.

Minas Gerais

Em Minas Gerais, o caso mais famoso foi o que envolveu a cervejaria Backer, localizada em Belo Horizonte, considerado um dos mais marcantes da história recente do estado. O episódio ocorreu entre 2019 e 2020. A cerveja produzida foi contaminada por dietilenoglicol, uma substância altamente tóxica utilizada indevidamente como anticongelante. Dezenas de pessoas foram intoxicadas, com pelo menos nove mortes confirmadas. Diversos pacientes apresentaram sequelas permanentes decorrentes da ingestão da substância.

Pará

Um surto de doença de Chagas aguda em Ananindeua, no início de 2026, resultou em pelo menos quatro mortes e 14 casos confirmados até o fim de janeiro, superando o total de óbitos dos cinco anos anteriores na região. A transmissão ocorreu predominantemente por via oral, associada ao consumo de açaí artesanal contaminado pelo protozoário Trypanosoma cruzi. As autoridades intensificaram a fiscalização e as orientações de higiene.

Paraíba

Em 15 de março de 2026, mais de 100 pessoas procuraram atendimento médico em unidades de saúde no município de Pombal  após consumirem alimentos em uma pizzaria da cidade. Uma mulher de 44 anos morreu. Os sintomas incluíam náuseas, vômitos, dores abdominais, diarreia e mal-estar. A Vigilância Sanitária identificou irregularidades como presença de insetos, condições inadequadas de conforto térmico, equipamentos oxidados e reaproveitamento de recipientes. Em 28 de março, o LACEN confirmou alta contaminação por Staphylococcus aureus e Escherichia coli nas amostras coletadas.

Paraná

Um surto de intoxicação alimentar por toxina estafilocócica ocorreu em Cascavel, em 2019, associado à contaminação de alimentos, especialmente farofa, contaminada por Staphylococcus aureus. A produção de enterotoxinas pela bactéria, decorrente de manuseio inadequado, causou sintomas rápidos como náuseas e vômitos. A farofa foi identificada como o principal alimento contaminado, apresentando alta carga bacteriana. O caso foi apresentado no 8º Simpósio Brasileiro de Vigilância Sanitária (SIMBRAVISA), destacando a importância do controle na manipulação de alimentos.

Pernambuco

Em diversas cidades do estado de Pernambuco foram registrados casos de intoxicação por metanol envolvendo bebidas adulteradas. Outros estados também foram afetados, totalizando ao menos 15 mortes no país. Até dezembro de 2025, foram confirmadas cinco mortes em Pernambuco. O caso teve ampla repercussão nacional e evidenciou falhas no controle e na fiscalização da comercialização de bebidas alcoólicas clandestinas.

Piauí

Em 6 de janeiro de 2025, exames periciais realizados pela Polícia Científica do Piauí confirmaram a presença do inseticida agrotóxico terbufós em alimentos consumidos por uma família no município de Parnaíba. A substância foi identificada no arroz, feijão e farinha ingeridos pelas vítimas. O incidente ocorreu durante a ceia de réveillon, quando a família preparou o prato típico “baião de dois”, no qual o veneno foi encontrado. Entre as vítimas fatais estavam três crianças do total de seis pessoas mortas. O episódio gerou grande comoção e reforçou a necessidade de maior controle sobre a origem e manipulação dos alimentos consumidos pela população.

Rio de Janeiro

Em dezembro de 2023, a Secretaria de Saúde monitorou surtos de gastroenterite na zona sul do Rio de Janeiro, especialmente nos bairros de Copacabana e Botafogo. Foram confirmados 46 casos. De acordo com a Vigilância Sanitária, as causas estiveram associadas ao calor e à ingestão de alimentos e bebidas mal conservados, sendo detectados diferentes patógenos.

Rio Grande do Norte

Em 19 de maio de 2025, a Vigilância Sanitária de Natal emitiu um alerta após o registro de um surto de intoxicação alimentar causado por ciguatera, doença provocada por toxinas presentes em algumas espécies de peixes, como garoupas, barracudas, arabaianas e badejos. Treze pessoas apresentaram sintomas após participarem de um encontro, sendo que três precisaram de hospitalização, e duas foram internadas em Unidade de Terapia Intensiva. Amostras do peixe servido, da espécie arabaiana, foram coletadas para análise no Laboratório Central de Saúde Pública.

Rio Grande do Sul 

Em outubro de 2020, cerca de 300 pessoas, distribuídas em sete cidades do Rio Grande do Sul, relataram sintomas como náuseas, dor abdominal, vômitos e diarreia após consumirem picolés da marca Frutibom. Aproximadamente 80% dos pacientes eram crianças. Amostras foram coletadas e analisadas pelo LACEN, sendo identificada a presença de Escherichia coli. A investigação apontou como principal hipótese a contaminação da água utilizada na fabricação dos picolés. A fábrica foi interditada pela Vigilância Sanitária.

Rondônia

Em novembro de 2025, a Vigilância Sanitária interditou o restaurante universitário da Universidade Federal de Rondônia, em Porto Velho, após mais de 100 estudantes apresentarem sintomas de intoxicação alimentar grave, como diarreia, vômito e desidratação intensa. Todos os estudantes precisaram de atendimento médico após consumirem refeições no local. O caso evidenciou falhas nas condições higiênico-sanitárias do estabelecimento.

Roraima

Em setembro de 2025, diversas denúncias foram feitas por estudantes da Universidade Federal de Roraima, em Boa Vista, sobre a qualidade das refeições fornecidas no restaurante universitário. Os relatos incluíam a presença de larvas e moscas nos alimentos, além de queixas de mal-estar após o consumo. Em resposta, a empresa responsável informou que adotou medidas corretivas, como a designação de uma técnica responsável para acompanhar os processos, reforço das práticas de higiene e treinamento da equipe.

Santa Catarina

Em 2025, na cidade de Santa Cecília, ocorreu um caso de intoxicação envolvendo refrigerante contaminado. Cerca de 11 a 12 pessoas apresentaram sintomas como náuseas, vômitos e tontura após o consumo da bebida. Não houve mortes, mas alguns pacientes necessitaram de atendimento médico. O caso chamou atenção pela suspeita de contaminação intencional, e não apenas por falha sanitária. As investigações indicaram que a contaminação provavelmente ocorreu fora da indústria, sendo tratada como possível crime.

São Paulo

Um surto de intoxicação alimentar ocorrido em Birigui, em 1998, é considerado um dos episódios mais marcantes de doenças transmitidas por alimentos no Brasil, tanto pela dimensão quanto pelo perfil das vítimas. Cerca de 1.800 pessoas foram afetadas, sendo a maioria crianças de escolas públicas. O surto foi causado pela ingestão de farofa contaminada pela bactéria Staphylococcus aureus, servida na merenda escolar.

Sergipe

Em novembro de 2024, mais de 50 pessoas apresentaram sintomas gastrointestinais, como vômito e diarreia, após almoçarem no campus Sertão da Universidade Federal de Sergipe, no município de Nossa Senhora da Glória. Entretanto, análises laboratoriais posteriores não confirmaram contaminação nos alimentos ou na água, mantendo o episódio classificado como “surto suspeito”, sem agente etiológico definido.

Tocantins

Em março de 2025, alunos da Escola Serra das Cordilheiras, em Colmeia, relataram casos de intoxicação alimentar após consumirem refeições servidas na instituição. A refeição incluía arroz, feijão, batata, peixe e ovo. Alguns estudantes necessitaram de atendimento médico. O episódio reforçou a necessidade de revisão das condições de alimentação escolar e de monitoramento constante por parte das autoridades competentes.

Diante da diversidade de episódios apresentados, fica evidente que os surtos alimentares no Brasil estão diretamente relacionados a falhas evitáveis, como deficiência nas boas práticas de fabricação, fiscalização insuficiente e falta de capacitação. Independentemente da região, os casos reforçam que a segurança dos alimentos deve ser tratada como prioridade contínua, exigindo atuação integrada entre poder público, setor produtivo e sociedade.

E você, leitor, conseguiu identificar outros casos além dos mencionados nesse texto que aconteceram no seu estado? Que ações sugere para evitar que voltem a acontecer?

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O maior surto de botulismo infantil dos EUA: lições de uma crise que atingiu mais de 50 bebês — Parte 2/3

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Sejam bem-vindos à segunda parte da trilogia sobre o surto incomum de botulismo infantil que atinge os Estados Unidos (para ler o primeiro post, clique aqui).

A seguir, examinaremos a composição da fórmula infantil, os resultados da análise laboratorial, o fabricante da fórmula e como os Estados Unidos supervisionam a fabricação desse produto.

Análise na fórmula infantil

A empresa e o FDA começaram a testar o produto, e os resultados iniciais do laboratório divulgados pelo CDPH indicaram a presença de Clostridium botulinum em uma lata aberta da fórmula infantil fornecida a um bebê diagnosticado com botulismo. A ByHeart comunicou que análises laboratoriais independentes, conduzidas nas amostras de produtos de fórmula infantil lacrados e mantidos em suas instalações, detectaram a presença de Clostridium botulinum. A maioria das amostras analisadas pela FDA apresentou resultado preliminar negativo quanto à presença da bactéria, e todos os resultados positivos em produtos finalizados começaram a ser comunicados. Desde 10 de dezembro de 2025, não houve registro de nenhum novo caso.

Em seguida, a ByHeart divulgou resultados positivos para Clostridium botulinum em seis das 36 amostras do produto final, coletadas de dois lotes que estavam no recall inicial do produto. Em 26 de janeiro de 2025, foi determinada a origem da contaminação em cepa de um ingrediente; no entanto, tanto a FDA quanto os CDC não divulgaram o nome do fabricante.

Em 23 de janeiro de 2026, a FDA confirmou que duas amostras apresentaram resultado positivo para Clostridium botulinum tipo A. A primeira amostra, obtida de uma embalagem selada de fórmula infantil da ByHeart, foi submetida à análise de sequenciamento de genoma completo (WGS). Os resultados mostraram que a bactéria identificada é geneticamente idêntica ao microrganismo isolado de um bebê internado durante o surto. Além disso, corresponde a dois isolados encontrados em leite em pó integral, ingrediente usado na fabricação da fórmula e previamente analisado pela empresa. A segunda amostra foi obtida de um fornecedor da ByHeart e examinada pelo Laboratório Wadsworth, localizado em Nova York. De acordo com a análise genética, o microrganismo encontrado é compatível com o Clostridium botulinum identificado no produto final da fórmula infantil da ByHeart. Isso reforça a conexão entre a contaminação detectada no produto e a cadeia de suprimentos.

As análises confirmam que a contaminação tem origem na cadeia de suprimentos, e provavelmente é ligada ao leite em pó integral. Isso possibilita que as autoridades façam uma ligação científica entre o bebê enfermo, o produto ingerido, o componente e o fornecedor. Apesar de esses resultados melhorarem o entendimento da FDA sobre o surto, a investigação prossegue para identificar a origem da contaminação. No entanto, a detecção de C. botulinum em fórmulas infantis ou em seus componentes é complexa, e os resultados podem demorar várias semanas. Os esporos termorresistentes necessitam de uma ativação específica para serem identificados, e os exames para esta bactéria em fórmulas infantis são especializados, com resultados finais que demandam testes confirmatórios. Ademais, há um número restrito de laboratórios que possuem equipamentos e recursos especializados.

Quem é a ByHeart e quais são os componentes da sua fórmula infantil?

Estabelecida em 2016 pelos irmãos Mia Funt e Ron Belldegrun, com sede em Nova York, a empresa lançou sua primeira fórmula infantil em março de 2022, durante uma escassez desse produto nos Estados Unidos. A companhia foi a primeira nova fabricante de fórmulas infantis registrada pela FDA em mais de 15 anos. A fórmula infantil Whole Nutrition da ByHeart é composta por uma combinação de proteínas patenteada, desenvolvida para imitar o leite materno humano, utilizando leite integral orgânico de vacas alimentadas em pasto. Ele possui lactoferrina, alfa-lactalbumina, uma relação de 80:20 entre soro e caseína similar à do colostro, lactose como único carboidrato, proteínas parcialmente hidrolisadas, prebióticos orgânicos e os ácidos graxos DHA e ARA. A fórmula não contém xarope de milho, glúten, transgênicos, maltodextrina, soja, DHA extraído de hexano, hormônios artificiais de crescimento nem óleo de palma.

A fórmula tinha como objetivo promover a inovação necessária no mercado de nutrição infantil de próxima geração – o futuro da nutrição. Ela oferecia melhorias como digestão mais simplificada, redução de regurgitação, ganho de peso mais eficiente e desenvolvimento cerebral. Além disso, recebeu milhões em financiamento. Em 2022, a empresa lançou uma plataforma própria para suporte à nutrição e alimentação.

Entre 2023 e 2024, a ByHeart expandiu rapidamente sua presença no varejo americano, passando por redes como Target, Whole Foods Market, Wegmans, Publix e Walmart, até atingir quase 12 mil pontos de venda. Em dezembro de 2024, a companhia fortaleceu sua governança com a inclusão de Denice Torres, ex-executiva da Johnson & Johnson, no conselho. Em maio de 2025, foi lançada a embalagem portátil para alimentação infantil chamada “Anywhere Pack”. De acordo com a FDA, embora os produtos da ByHeart sejam amplamente distribuídos, eles correspondem a menos de 1% do mercado de fórmulas infantis nos EUA.

Apesar de ter sido a primeira fórmula infantil nos EUA a conquistar o Prêmio de Pureza do Clean Label Project, que analisa produtos para identificar mais de 500 possíveis contaminantes, como metais pesados e pesticidas, sua fórmula esteve envolvida em outro caso de contaminação bacteriana em 2022. O contaminante foi o Cronobacter sakazakii, responsável por infecções graves e potencialmente fatais, como sepse ou meningite. A companhia efetuou um recall voluntário de cinco lotes da fórmula. Não houve registro de reclamações de consumidores relacionadas a doenças.

Entre dezembro de 2022 e fevereiro de 2023, a FDA inspecionou as instalações da ByHeart em Reading, Pensilvânia, assim como as da Mead Johnson Nutrition (Reckitt) e da Perrigo Wisconsin, LLC. Após as inspeções, foram emitidas cartas de advertência mencionando violações das normas relacionadas a fórmulas infantis. No entanto, a FDA não recomendou que pais e cuidadores descartassem ou evitassem a compra de nenhuma fórmula infantil específica. A agência não teve conhecimento de nenhum produto distribuído em que a contaminação tenha sido confirmada e considera que os recalls foram eficientes para retirar os lotes possivelmente contaminados do mercado.

A advertência indicou que a fábrica apresentava condições insalubres e apontou falhas no programa de monitoramento ambiental da instalação. Isso incluía vazamentos de águas provenientes de fora do prédio, que se dirigiam às áreas de produção por meio de uma clarabóia instalada no telhado da sala de processamento, onde o produto testou positivo para Enterobacter Sakazakii. Além disso, foi detectado outro vazamento no selante ao redor da persiana da torre de secagem, com a presença de Cronobacter spp.

Os relatórios de inspeção da Food and Drug Administration apontaram problemas graves no local da empresa nesta fábrica. Além do vazamento no telhado, foi identificado mofo em um tanque destinado à água limpa. Em 11 de dezembro de 2023, um inspetor notou que “moscas zumbiam acima de uma área crítica da produção de fórmulas”. Na mesma região, o inspetor registrou a presença de mais de 2.500 insetos voadores mortos próximos a três armadilhas de luz destinadas a insetos. Além disso, de acordo com o relatório, a fábrica descumpriu suas normas de manutenção das temperaturas essenciais para eliminar bactérias da fórmula antes de enviá-la para embalagem. No entanto, não houve notificação e a fórmula foi enviada aos clientes. A inspeção foi classificada pela FDA como tendo o mais alto nível de preocupação.

Em uma carta datada de 8 de março de 2023, a FDA expressou preocupação com as áreas de produção de fórmulas infantis em pó. Destacou que os fabricantes devem identificar e levar em consideração todos os riscos biológicos conhecidos ou razoavelmente previsíveis, incluindo a bactéria Clostridium botulinum. A Byheart foi mencionada na carta de advertência em razão da inspeção realizada em fevereiro de 2023. Em 30 de agosto de 2023, a empresa recebeu outra advertência e apresentou diversos planos de ação corretiva em resposta.

Como a FDA supervisiona a segurança e a qualidade nutricional das fórmulas infantis?

A produção de fórmulas infantis nos Estados Unidos é regulamentada pela FDA, garantindo a segurança desses produtos. Fórmulas infantis constituem uma opção ao leite materno para a alimentação de bebês de até 12 meses, podendo ser o alimento exclusivo, sendo que a maioria dos bebês nos EUA depende dessas fórmulas para sua nutrição.

Os produtores de fórmulas infantis precisam atender às exigências pertinentes da Lei Federal de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos (Federal Food, Drug, and Cosmetic Act) e às que estão presentes nos regulamentos de implementação da FDA. Um fabricante que deseja vender uma nova fórmula infantil nos Estados Unidos precisa registrá-la, notificá-la e enviar à FDA uma declaração escrita atestando sua conformidade com as regulamentações.

Apesar de a Agência não aprovar fórmulas infantis, ela é responsável por analisar os requisitos quando notificada pelos fabricantes antes da venda. Esses requisitos abrangem segurança, adequação nutricional, embalagem e rotulagem. Quando não se aplica, a fórmula pode ser considerada alterada, rotulada de forma inadequada ou ambas as opções, e, nesse caso, pode ser sujeita a medidas coercitivas, como o recolhimento obrigatório. Aproximadamente 30 nutrientes devem estar presentes em quantidades mínimas, enquanto 10 deles devem estar em quantidades máximas. Além disso, qualquer um deles deve ser seguro e apropriado para esse propósito.

Além disso, há exigências específicas para rotular fórmulas infantis, e a agência realiza inspeções anuais nas instalações das fábricas. Todos os produtos de fórmula infantil comercializados nos Estados Unidos, tanto os fabricados internamente quanto os importados, precisam cumprir todas as normas americanas. As autoridades desaconselham o uso de fórmulas caseiras, pois elas podem aumentar o risco de contaminação ou não fornecer a quantidade adequada de cálcio.

A agência está cooperando com os fabricantes, que agora precisam ter planos de contingência para riscos.

Doralice Goes é mestranda em Segurança dos Alimentos pela UFSJ, sobreviveu ao botulismo alimentar em 2022 e, desde então, dedica-se ao estudo da doença, monitora casos globais, faz palestras na indústria e é autora de livro sobre o botulismo.

 

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O maior surto de botulismo infantil dos EUA: lições de uma crise que atingiu mais de 50 bebês — Parte 1/3

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Os Estados Unidos vivem o maior surto de botulismo infantil registrado – o primeiro do mundo associado a fórmulas para bebês desde que essa doença foi categorizada em 1976. O que podemos aprender com este surto? Convido você, leitor, a aprofundar-se no tema por meio de três publicações — o caso pode estabelecer um novo precedente na fabricação de fórmulas infantis.

O surto resultou em uma investigação conjunta envolvendo a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). A investigação foi realizada em parceria com o Programa de Tratamento e Prevenção do Botulismo Infantil (IBTPP) do Departamento de Saúde Pública da Califórnia (CDPH) e outros colaboradores estaduais e locais. A investigação foi relacionada à fórmula infantil ByHeart Whole Nutrition. Além disso, a empresa está colaborando com a investigação para determinar a causa raiz.

Mas qual foi a sequência temporal deste surto? Qual é o número de bebês afetados? Como foi realizado o recall? Descobriremos neste primeiro post.

Cronologia do surto, bebês afetados e recall

O primeiro alerta foi emitido pelo FDA e CDC em novembro de 2025, após um aumento nos casos de botulismo em bebês (13 casos), com a exposição à fórmula infantil sendo um fator comum. Todos os dias, novos bebês eram internados, e a Agência atualizava as informações em seu site, incluindo-as no Boletim de Alerta de Surto.

Em 19 estados (AZ, CA, ID, IL, KY, MA, ME, MI, MN, NC, NJ, OH, OR, PA, RI, TX, VA, WA, WI), 51 bebês foram impactados. Todos os 51 bebês foram internados e receberam tratamento com BabyBIG®, a antitoxina infantil. Além disso, muitos deles precisaram ser colocados em ventiladores para auxiliar na respiração. Não houve registro de mortes. Os bebês têm entre 16 e 264 dias de idade, e 22 deles (43%) são do sexo feminino. A contagem foi estendida para incluir casos de botulismo infantil registrados a partir de 24 de dezembro de 2023.

As autoridades foram informadas sobre esse conjunto de casos no dia 6 de novembro de 2025 e iniciaram a investigação. No dia 7 de novembro, recomendaram que a empresa realizasse o recolhimento voluntário de dois lotes do produto, e no dia 8 de novembro emitiram um alerta público aos consumidores. A empresa ByHeart realizou um recall voluntário, estendendo-o a todos os lotes de fórmula infantil e a todos os produtos, incluindo latas e sachês Anywhere Pack, em todo o país. Isso incluiu lojas físicas e online. A empresa ofereceu reembolso integral aos consumidores, suspendeu a produção dos alimentos e interrompeu as atividades de marketing, publicidade e parcerias com influenciadores.

O Departamento de Saúde Pública da Califórnia disponibilizou uma linha direta para ajudar cuidadores com dúvidas sobre o surto de botulismo infantil. O atendimento está disponível de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. Foi aconselhado aos pais e responsáveis que cessassem imediatamente o uso de fórmula infantil, que observassem os bebês que a consumiram e que procurassem assistência médica imediatamente se eles apresentassem sintomas. Ademais, foi recomendado que itens e superfícies que possam ter tido contato com a fórmula fossem higienizados com água quente e sabão ou na máquina de lavar louça. Os varejistas foram encorajados a garantir a coleta dos itens, incluindo os que foram retornados pelos clientes. Foi recomendado aos médicos que, ao suspeitar de algo, entrassem em contato imediatamente com a linha de suporte clínico do CDPH, que está à disposição 24 horas por dia, 7 dias por semana.

As empresas foram instruídas a não comercializar nem utilizar a fórmula infantil ByHeart Whole Nutrition que foi recolhida, além de lavar e higienizar itens e superfícies que possam ter entrado em contato com a fórmula recolhida. Os profissionais de saúde foram informados de que o diagnóstico inicial do botulismo infantil se fundamenta em sintomas clínicos e que devem iniciar o tratamento o mais rápido possível, sem aguardar a confirmação laboratorial. O botulismo infantil é uma doença que deve ser notificada obrigatoriamente. O departamento estadual de saúde deve ser informado sobre todos os casos suspeitos.

De acordo com informações dos consumidores da Amazon, a fórmula foi distribuída internacionalmente para 22 países. Isso inclui Argentina, Brasil, Brunei, Canadá, Chile, China, Colômbia, Equador, Egito, Hong Kong, Israel, Jamaica, Japão, Coreia do Sul, Peru, Filipinas, Romênia, Singapura, África do Sul, Tailândia e Ilhas Virgens Britânicas. Este recall internacional abrange todos os produtos ByHeart.

No Brasil, o produto era veiculado em anúncios em plataformas de comércio eletrônico. A Anvisa proibiu totalmente qualquer aspecto da fórmula infantil (comercialização, distribuição, importação, propaganda e uso). Além disso, determinou a apreensão de todos os lotes do produto em 14 de novembro de 2025 por meio da Resolução-RE nº 4.620 e emitiu a Comunicação de Risco nº 144/2025 – VISA. A medida foi motivada considerando a ausência de registro sanitário no país e o alerta do FDA.”

Em certos estados, famílias em situação de rua ou vulneráveis receberam latas doadas por meio de programas de assistência alimentar e habitacional, entre esses programas está o Departamento de Serviços Humanos do Oregon. A ByHeart informou que, desde junho de 2022, distribuiu quase 24.000 latas de fórmula, posteriormente recolhidas. E ao menos 30 famílias impactadas recorreram à Justiça, representadas pelo advogado especializado em segurança alimentar Bill Marler, que pediu ao tribunal a unificação dos casos. A ByHeart supostamente mantém 10 milhões de dólares em seguro de responsabilidade civil.

Apesar do recall internacional, quatro grandes varejistas não retiraram as fórmulas de suas prateleiras. Isso levou a FDA a emitir uma carta de advertência no dia 12 de dezembro e um comunicado à imprensa no dia 15 de dezembro, convocando os líderes da indústria alimentícia a cumprirem de forma eficaz os protocolos de recolhimento de produtos alimentícios estabelecidos pela Lei Federal.

Como acontece o botulismo infantil?

Segundo o CDC, o botulismo infantil é uma toxemia intestinal que ocorre após a ingestão de esporos da bactéria Clostridium botulinum ou de espécies associadas. Esses esporos colonizam temporariamente o intestino grosso do bebê e produzem a neurotoxina botulínica, que se liga às terminações nervosas colinérgicas e cliva proteínas intracelulares essenciais para a liberação de acetilcolina. Isso pode levar a paralisias bulbares, hipotonia e paralisia flácida simétrica e descendente. Esses esporos estão presentes naturalmente no ambiente, incluindo solo e sedimentos (poeira), e conseguem ser inseridos em ambientes de fabricação de alimentos e residenciais por meio de mãos, sapatos e outras superfícies contaminadas. Bebês podem consumir esporos de Clostridium botulinum presentes na comida ou no ambiente, tornando-os uma população vulnerável com risco de vida, enquanto crianças mais crescidas e adultos com sistemas digestivos desenvolvidos e saudáveis não são afetados.

A doença é rara, mas séria, e o diagnóstico é clínico, requerendo ação imediata, pois pode ser fatal entre bebês de 3 a 26 semanas, pois o organismo da criança, ainda em formação, não consegue combater a ação dessa bactéria tão letal. Nos EUA, é a principal causa de botulismo entre os estados. Uma das principais causas é a oferta de mel de abelha nas primeiras semanas de vida, que pode ser responsável por 5% dos casos de morte súbita em lactentes. Por isso, não se pode ofertar mel a bebês menores de 1 ano. Confira aqui um artigo anteriormente publicado neste blog sobre essa questão.

Os sintomas habituais surgem tanto de forma conjunta quanto isolada, e podem levar semanas após a ingestão do alimento. Começam com constipação, dificuldade para se alimentar (sugar e engolir), redução dos reflexos de sucção e vômito, ptose (pálpebra caída), reflexos vagarosos (ritmo diferenciado), choro fraco e alterado, expressão facial inexpressiva e falta de controle da cabeça. Isso pode progredir para problemas respiratórios e parada respiratória. Alguns pais dizem que seus bebês perderam o apetite.

No segundo post da trilogia, abordaremos a composição da fórmula infantil, os resultados das análises laboratoriais e o fabricante do produto. Até breve.

Doralice Goes é mestranda em Segurança dos Alimentos pela UFSJ, sobreviveu ao botulismo alimentar em 2022 e, desde então, dedica-se ao estudo da doença, monitora casos globais, faz palestras na indústria e é autora de livro sobre o botulismo.

 

5 min leituraOs Estados Unidos vivem o maior surto de botulismo infantil registrado – o primeiro do mundo associado a fórmulas para bebês desde que essa doença foi categorizada em 1976. O […]

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A (in)segurança dos alimentos em grandes eventos: casos reais

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A segurança dos alimentos em grandes eventos é tema de fundamental relevância para evitar surtos de doenças alimentares e garantir uma experiência segura para os participantes.  Assim, trago alguns casos históricos, encontrados nos noticiários, onde a falta de segurança de alimentos teve consequências graves:

1. Woodstock (1969) – EUA

Problema: Contaminação da água e falta de higiene na manipulação de alimentos.
Consequências: Milhares de pessoas sofreram intoxicação alimentar e desidratação devido à escassez de alimentos seguros e água potável.

2. Feira Estadual de Washington (1993) – EUA

Problema: Hambúrgueres contaminados com Escherichia coli O157:H7.
Consequências: Mais de 500 pessoas adoeceram, incluindo crianças que sofreram complicações renais graves. Esse surto resultou em mudanças nas regulamentações sobre segurança de alimentos nos EUA.

3. Festival de Ostras de Britânia (1997) – Canadá

Problema: Ostras contaminadas com o vírus da hepatite A.
Consequências: Mais de 600 pessoas contraíram a doença, o que levou a reforços na fiscalização de frutos do mar.

4. Festival de Cozinha Escolar de Osaka (1998) – Japão

Problema: Contaminação por E. coli O157:H7 em um prato servido para estudantes.
Consequências: Mais de 9.000 crianças adoeceram e algumas precisaram de internação.

5. Jogos Olímpicos de Atenas (2004) – Grécia

Problema: Falta de controle sanitário em pontos de venda de alimentos.
Consequências: Diversos casos de intoxicação alimentar entre atletas e espectadores, pressionando os organizadores a reforçar normas sanitárias em eventos esportivos globais.

6. Commonwealth Games (2010) – Índia

Problema: Água contaminada e higiene precária nos refeitórios da vila dos atletas.
Consequências: Surto de febre tifoide e diarreia em diversas delegações.

7. Festival de Alimentos de Bremen (2019) – Alemanha

Problema: Sobremesas contaminadas por Salmonella.
Consequências: Mais de 400 casos de intoxicação alimentar e necessidade de recall de produtos.

8. Surtos de cólera no Haiti após a Copa do Mundo de 1974

Problema: Água e alimentos contaminados distribuídos em locais públicos.
Consequências: Milhares de casos de cólera foram relatados após eventos comemorativos, agravando a crise sanitária no país.

9. Surto de Salmonella no Festival de Sorvetes de Illinois (1985) – EUA

Problema: Leite não pasteurizado usado na produção de sorvetes.
Consequências: Mais de 16.000 pessoas foram infectadas com Salmonella, resultando em hospitalizações e uma revisão das regulamentações sobre pasteurização de leite.

10. Festa de casamento na Tailândia (1997)

Problema: Uso de carne mal armazenada e contaminada.
Consequências: Mais de 200 convidados sofreram intoxicação alimentar, resultando em algumas mortes.

11. Surto de norovírus nos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang (2018) – Coréia do Sul

Problema: Manipuladores de alimentos infectados espalharam o norovírus.
Consequências: Mais de 200 atletas e funcionários adoeceram, afetando competições e forçando uma quarentena emergencial.

12. Rock Werchter Festival (2019) – Bélgica

Problema: Falta de higiene nos food trucks e consumo de alimentos mal preparados.
Consequências: Centenas de pessoas relataram sintomas de intoxicação alimentar e diversos vendedores foram proibidos de atuar em eventos futuros.

13. Campeonato Mundial de Atletismo em Doha (2019) – Catar

Problema: Buffet contaminado servido a atletas.
Consequências: Vários competidores tiveram vômitos e diarreia, impactando seus desempenhos.

14. Casamento Real na Índia (2021)

Problema: Alimentos preparados horas antes sem refrigeração adequada.
Consequências: Mais de 100 convidados foram hospitalizados devido à intoxicação alimentar e uma investigação foi aberta contra a empresa de catering.

15. Festival de Música na Espanha (2022)

Problema: Falta de controle na temperatura de carnes servidas em hambúrgueres.
Consequências: Centenas de pessoas apresentaram sintomas de intoxicação alimentar, levando a multas para os organizadores.

16. Rock in Rio (2011 e 2013) – Rio de Janeiro

Problema: Alimentos contaminados vendidos em barracas de alimentação.
Consequências: em 2011, diversos relatos de intoxicação alimentar foram registrados após o consumo de lanches e bebidas vendidas no evento. Em 2013, a Vigilância Sanitária interditou food trucks e quiosques por condições inadequadas de higiene e armazenamento de alimentos.

17. Oktoberfest (2017) – Blumenau, SC

Problema: Salsichas e outros embutidos contaminados servidos em barracas.
Consequências: mais de 150 pessoas relataram sintomas de intoxicação alimentar, incluindo vômito, diarreia e febre. A Vigilância Sanitária reforçou inspeções em edições futuras do evento.

18. Casamento no Espírito Santo (2018) – Vila Velha, ES

Problema: Maionese caseira contaminada com Salmonella.
Consequências: 88 convidados adoeceram após consumirem alimentos contaminados. O buffet responsável foi investigado e multado por descumprir normas sanitárias.

19. Evento Corporativo em São Paulo (2019)

Problema: Buffet com alimentos armazenados em temperatura inadequada.
Consequências:

– Mais de 200 funcionários de uma grande empresa passaram mal após o evento.

– Investigação apontou que carnes e molhos estavam fora dos padrões de segurança de alimentos.

20. Festa de Formatura em Minas Gerais (2020) – Belo Horizonte

Problema: Contaminação cruzada em pratos de carne e saladas.
Consequências:

– Cerca de 80 formandos e convidados apresentaram sintomas de intoxicação alimentar.

– O serviço de catering foi fechado temporariamente para inspeção.

21. Campeonato de Surfe em Florianópolis (2022)

Problema: Água contaminada utilizada no preparo de bebidas.
Consequências:

– Mais de 50 atletas e espectadores relataram sintomas de infecção gastrointestinal.

– Medidas emergenciais foram adotadas, como substituição dos fornecedores de alimentos.

22. Carnaval de Salvador (2023)

Problema: Comida de rua mal armazenada e bebidas adulteradas.
Consequências:

– Diversos foliões relataram mal-estar e intoxicação alimentar após consumir espetinhos e sanduíches de vendedores ambulantes.

– A Vigilância Sanitária realizou operações para apreender alimentos impróprios para consumo.

23. Surto de intoxicações na África do Sul (2024)

Problema: contaminação de alimentos por pesticida organofosforado utilizado para combater infestações de ratos em áreas negligenciadas. Além disso, produtos alimentícios vencidos e falsificados também foram responsabilizados por familiares e moradores locais.

Consequências: este surto causou a morte de 23 crianças, levando o presidente Cyril Ramaphosa a adiar sua viagem ao G20 para lidar com a crise sanitária.

Diante destes exemplos e de outros casos semelhantes ocorridos em grandes eventos, ficam as lições aprendidas e alguns pontos essenciais a seguir:

1. Planejamento e Regulamentação

  • Legislação sanitária: Seguir normas da Anvisa (no Brasil) ou órgãos locais de vigilância sanitária dos países envolvidos nos escândalos.
  • Licenciamento: Obter autorizações para manipulação e venda de alimentos.
  • Treinamento: Manipuladores devem ser capacitados em boas práticas de higiene.

2. Controle na manipulação dos alimentos

  • Higienização rigorosa: Mãos, superfícies e utensílios devem ser constantemente higienizados.
  • Separação de alimentos: Evitar contaminação cruzada entre crus e cozidos.
  • Temperatura segura: Alimentos perecíveis devem ser mantidos em temperaturas adequadas (quentes acima de 60°C e frios abaixo de 5°C).

3. Armazenamento e transporte

  • Cadeia de frio: Utilizar caminhões refrigerados ou caixas térmicas para transporte seguro.
  • Validade e embalagem: Produtos devem estar bem embalados e dentro do prazo de validade.
  • Evitar exposição prolongada: Não deixar alimentos expostos ao ar livre por muito tempo.

4. Qualidade da água e bebidas

  • Água potável: Garantir que toda a água utilizada seja segura para consumo.
  • Gelo: Deve ser produzido com água tratada e armazenado corretamente.
  • Descartáveis: Copos e talheres devem ser bem armazenados e higienizados.

5. Estrutura e higiene do local

  • Pontos de venda: Devem estar organizados, limpos e equipados com pias para higienização.
  • Lixo e resíduos: Deve haver coleta regular e separação de resíduos para evitar contaminação.
  • Controle de pragas: Adotar medidas preventivas para evitar insetos e roedores.

6. Fiscalização e monitoramento

  • Inspeções regulares: Agentes sanitários devem inspecionar os pontos de venda.
  • Testes de qualidade: Monitoramento de amostras para garantir a segurança.
  • Registro de fornecedores: Trabalhar com fornecedores confiáveis e regulamentados.

Em suma, os casos de falhas na segurança de alimentos em grandes eventos no Brasil e no mundo trazem várias lições importantes para organizadores, fornecedores e autoridades sanitárias. Estes surtos de intoxicação alimentar  mostram que a segurança dos alimentos precisa ser uma prioridade absoluta. Com um planejamento adequado, treinamento rigoroso e fiscalização eficiente, é possível evitar riscos à saúde dos participantes de grandes eventos e proteger a reputação dos organizadores. Pense nisso antes de preparar alimentos em massa!

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Escherichia coli O157:H7 – entenda o surto nos EUA e as tratativas

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A bactéria E. coli, cujo nome completo é Escherichia coli, é encontrada naturalmente no intestino de pessoas saudáveis. O grande problema é que existem vários tipos de E. coli. A cepa O157:H7, especificamente, é tida como uma bactéria emergente e, quando ingerida, libera grande quantidade de toxinas que danificam a mucosa intestinal, o que tende a causar diarreia, inclusive com sangue. Alguns casos registrados apresentam também infecções no trato urinário e em outras partes do corpo, os sintomas incluem cólicas abdominais, náusea, enjoos, vômitos, desidratação, febre, diarreia com ou sem sangue, fadiga.

A doença é autolimitada, com duração de 5 a 10 dias. Quando a bactéria acomete crianças menores de cinco anos e idosos pode ocasionar uma complicação conhecida por Síndrome Hemolítica Urêmica (SHU) caracterizada por destruição das células vermelhas do sangue e falência renal e pode estar acompanhada de doença neurológica e insuficiência renal crônica. Em alguns casos pode evoluir para o óbito.

Surto nos EUA com E. coli O157:H7

As agências americanas ligadas às investigações de surtos alimentares – FDA (Food and Drugs Administration), Serviço de Inspeção e Segurança Alimentar (FSIS) do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), em colaboração com parceiros estaduais e locais –  estão investigando doenças em um surto multiestadual de infecções por E. coli O157:H7. Um ingrediente específico ainda não foi confirmado como a fonte do surto, mas a maioria das pessoas doentes relata ter comido o hambúrguer Quarteirão com Queijo do McDonald’s.

A atualização do CDC de 24 de outubro de 2024 relatou 75 ocorrências, com 22 hospitalizações e 1 morte. Os casos são relatados por pessoas de 13 estados americanos. Neste relatório, o primeiro caso é de um paciente que adoeceu no dia 27 de setembro de 2024 e o último é do dia 10 de outubro de 2024.

O processo investigativo está trabalhando para determinar o ingrediente contaminado que ocasionou o surto, sendo que a suspeita é que sejam cebolas cruas provenientes de um fornecedor. Outro ingrediente que também vem sendo investigado é a carne dos hambúrgueres.

As cebolas também são utilizadas por outras redes de fast food americanas. O fornecedor das cebolas iniciou um processo de recall voluntário e temporariamente suspendeu a venda desse insumo.

O McDonald’s parou temporariamente de usar esse ingrediente nos estados onde há casos relatados.

O FSIS está rastreando hambúrgueres servidos no McDonald’s nos estados afetados para determinar se a carne moída é uma fonte de doença. O McDonald’s também deixou temporariamente de vender os hambúrgueres Quarteirão com queijo nos estados afetados, enquanto a investigação está em andamento.

O que podemos aprender com esse surto?

Uma frase que tenho escutado bastante desde semana passada é: “mesmo os sistemas de gestão da qualidade robustos estão sujeitos a problemas com consequências graves”. Nesse comentário entende-se que a rede McDonald´s tem um processo de gestão de fornecedores bem estabelecido, o que faz parte de um SGQ forte com o intuito de prevenir agravos à saúde. E mesmo assim, um surto dessa dimensão está em trânsito.

Não é o primeiro surto com esse porte, o blog traz aqui um outro surto semelhante, de 1993, envolvendo a mesma cepa O157:H7 em uma rede de fast food.

A atuação dos órgãos americanos relacionados às investigações e tratativas de surtos de doenças transmitidas por alimentos é rápida e a comunicação com a população é clara, constante. A veiculação na imprensa, seja por televisão ou pelas redes sociais, é ampla; fala-se sobre o assunto em vários momentos, o que faz com que a população entre em contato com serviços médicos logo nos primeiros sintomas. Esse conjunto de atitudes permite maior controle da situação.

Além dessa participação ativa dos órgãos governamentais, os envolvidos no surto, como a rede McDonald’s, outras redes de fast food que compram a cebola do mesmo fornecedor e ainda o fornecedor da cebola, atuam apoiando as investigações, realizando recall e comunicando a população.

A preocupação com a saúde daqueles que podem ter consumido o produto é grande, provavelmente as sanções sofridas serão de impacto financeiro relevante, mas a não colaboração pode acarretar problemas econômicos (e humanos) ainda mais graves.

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Novo recall de alimentos por contaminação com Listeria

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Está em investigação nos EUA um novo recall de alimentos por contaminação com Listeria monocytogenes.

O recall está ativo desde 26 de julho de 2024 e envolve 71 produtos de uma determinada empresa, produzidos entre 10 de maio e 29 de julho de 2024.

A origem já foi identificada e  a contaminação aconteceu em salsichas de fígado, vendidas em vários Estados dos EUA e exportadas para as Ilhas Cayman, República Dominicana, México e Panamá.

A investigação que gerou este novo recall de alimentos começou quando o FSIS foi notificado de que uma amostra de salsicha de fígado analisada pelo Departamento de Saúde de Maryland testou positivo para L. monocytogenes. Testes moleculares adicionais, de amostras coletadas dos doentes, foram positivos para a mesma cepa do surto.

Até 22/09/2024, o surto, que está em investigação desde 19 de julho de 2024, já acometeu 57 pessoas, em 18 Estados, incluindo 57 hospitalizações e 9 mortes. Os dados são atualizados no site do CDC.

O USDA suspendeu a planta de produção de Jarratt em 31/07/2024 e em 13/09/2024 a empresa decidiu fechar a planta onde aconteceu a contaminação e descontinuar a produção da salsicha de fígado, por entender que o processo tem perigos associados, que podem gerar outros casos.

A listeriose pode levar até 10 semana para se manifestar, o que torna ainda mais difícil identificar corretamente o tamanho do surto (saiba mais em Surgem novas espécies de Listeria: quais os riscos?).

Como medida emergencial, a empresa está contratando um novo CFSO (Oficial Chefe de Segurança de Alimentos e Qualidade Assegurada), que responderá diretamente ao presidente e estabeleceu um conselho, com 4 dos maiores especialistas em segurança de alimentos dos EUA, além de criar um programa de cultura de segurança de alimentos e qualidade assegurada expandido.

Por falar nisso, você já limpou um fatiador de frios? Já viu a complexidade de desmontar? Imagine quanto resíduo de produtos pode se acumular e virar um ponto de multiplicação de microrganismos e biofilmes, caso a higienização e a sanitização não forem bem feitas. O risco de positividade para Listeria aumenta 41%!

Neste material, há ótimas dicas sobre como controlar os perigos e riscos de L. monocytogenes em produtos frios/fatiados prontos para consumo: Best Practices Guidance for Controlling Listeria monocytogenes in Retail Delicatessens | Food Safety and Inspection Service (usda.gov).

Mais um triste exemplo de como falhas no programa de segurança de alimentos e monitoramento de produtos ou ambiente  impactam a saúde pública e ceifam vidas.

Outras referências para acompanhar o recall:

Boar’s Head Provisions Co. Expands Recall for Ready-To-Eat Meat and Poultry Products Due to Possible Listeria Contamination | Food Safety and Inspection Service (usda.gov)

Investigation Update: Listeria Outbreak, Meats Sliced at Delis | Listeria Infection | CDC

Listeria Outbreak Linked to Meats Sliced at Delis | Listeria Infection | CDC

Boar’s Head Product Recall List (boarshead.com)

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Doenças transmitidas por alimentos: ainda devemos nos preocupar em 2024?

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Recentemente, foi divulgado nos canais de comunicação a notícia de que uma pessoa veio a óbito e mais seis pessoas estão internadas após uma confraternização da empresa em que laboravam. A principal suspeita frente ao ocorrido é que se trata de um episódio de intoxicação alimentar (leia aqui), ou seja, embora o caso ainda esteja sob investigação, tudo leva a crer que se trata de um tipo de doença transmitida por alimentos (DTA).

As famosas Doenças Transmitidas por Alimentos, popularmente conhecidas como DTA ou como Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA) costumam ocorrer após a ingestão de alimentos ou água contaminada. Atualmente, em âmbito mundial, são identificadas cerca de 250 DTA catalogadas e que podem ocorrer por meio de bactérias e suas toxinas, vírus, parasitas intestinais oportunistas ou substâncias químicas.

Cabe dizer que a intoxicação alimentar é diferente da infecção alimentar. A intoxicação é uma decorrência das toxinas produzidas pelos microrganismos ainda no próprio alimento. Já a infecção acontece pela proliferação dos microrganismos no hospedeiro, advindos de alimentos que contenham células destes microrganismos.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), estima-se que cerca de 600 milhões de pessoas, ou seja, quase uma em cada 10 pessoas no mundo, adoecem e 420.000 morrem todos os anos devido as Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA), resultando na perda de 33 milhões de anos de vida saudáveis. As crianças menores de 5 anos carregam 40% da carga de DTHA, com 125.000 mortes a cada ano.

No Brasil, segundo o último dado divulgado pelo Ministério da Saúde, referente ao período compreendido de 2013 a 2022, ocorreram cerca de 6.523 surtos identificados/notificados (média de 652 casos por ano), totalizando 107.513 pessoas doentes, com 12.722 hospitalizações e 112 óbitos constatados em decorrência dos surtos.

Ainda segundo o mesmo material, o top 3 dos agentes de DTA no Brasil é ocupado pela Escherichia coli, correspondente a 32,3% dos casos, Salmonella spp (10,9%) e Staphylococcus sp. (10,8%), seguido de outros, conforme podemos ver no gráfico abaixo:

Fonte: Sinan/SVS/Ministério da Saúde

* Dados preliminares, sujeitos a alterações.

Dentre as fontes mais comuns causadoras das doenças, surge o açaí, alimento campeão com 27,5% do montante, seguido da água (21,5%) e alimentos mistos (12,8%):

Fonte: Sinan/SVS/Ministério da Saúde

* Dados preliminares, sujeitos a alterações.

1. Excluídos registros ignorados, inconsistente e inconclusivos (n = 4.467)

E como podemos evitar?

  • A lavagem das mãos antes da manipulação dos alimentos é essencial;
  • O consumo de alimentos crus, malcozidos e mal-assados é desestimulado;
  • Evitar o consumo de ovo cru, ou preparos que levem ovo cru;
  • Ovos não devem ser lavados antes do armazenamento, somente antes do preparo;
  • Consuma água/ gelo somente de fontes seguras;
  • Alimentos congelados/ resfriados devem ser bem aquecidos antes do seu consumo;
  • Alimentos preparados devem ser mantidos em temperaturas adequadas, antes do consumo, sejam resfriados ou aquecidos.
  • O prazo de validade dos alimentos deve ser checado sempre, bem como o acondicionamento e suas condições físicas, como aparência, consistência e odor.
  • Atenção para pescados e mariscos, que podem conter toxinas ativas mesmo após o processo de cocção.
  • Alimentos crus devem ser separados dos alimentos cozidos ou já preparados para consumo, evitando assim a contaminação cruzada.
  • Para vegetais, frutas e verduras adquiridos, convém desinfetar utilizando uma solução preparada com hipoclorito de sódio (água sanitária).

Leia mais: 

Detalhes sobre o grupo de risco para doenças transmitidas por alimentos

Doenças transmitidas por alimentos podem ter consequências por toda a vida

Registros de doenças de transmissão hídrica e alimentar (DTHA) no Brasil

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Surto de E. coli 0157 em 11 creches canadenses

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No dia 01/11/2023 foi declarado encerrado o surto de E. coli 0157 em 11 creches canadenses, na província de Alberta, que envolveu 446 pessoas.

Foram confirmados 356 casos com exames laboratoriais e 90 outros são suspeitos.  Trinta e oito crianças e um adulto foram hospitalizados, 23 pacientes foram diagnosticados com síndrome hemolítico-urêmica (HUS) e oito precisaram de diálise. Nenhum paciente permanece no hospital e, felizmente, não houve mortes.

Alguns alunos e funcionários, que ainda apresentam E. coli nas fezes, não podem retornar às creches, sendo monitorados pelo sistema de Saúde.

Entenda melhor em: Aprendizado sobre tratamento de E.coli após surto europeu.

Suspeita-se que um bolo de carne e uma versão vegetariana do bolo servidos nas creches canadenses tenham sido a origem do surto, com base na investigação epidemiológica. No entanto, quando o surto começou, já não havia amostras de alimentos disponíveis para testes.

Durante as investigações, os fiscais encontraram várias violações de boas práticas na cozinha central que abastece as creches envolvidas, incluindo baratas, poças de água acumuladas no piso e um termômetro de alimentos armazenado em um balde com outros itens sujos.

Alimentos que deveriam ser mantidos sob refrigeração eram transportados por mais de 90 minutos em caixas de transporte sem manutenção ou controle de temperatura. A cozinha central segue interditada e só poderá reabrir após efetivação das ações corretivas, incluindo a apresentação e aprovação de um plano de segurança de alimentos.

A Escherichia coli ou E. coli foi descrita em 1885 por Theodor Escherich. É um bacilo Gram negativo, não esporulado, flagelado, com fímbrias e que forma biofilmes. Anaeróbio facultativo, está presente no ambiente e nos intestinos de diversos animais e é o melhor indicador de contaminação fecal em alimentos.

Em indivíduos saudáveis, é normal a presença de E. coli no intestino, mas algumas cepas transmitidas por alimentos contaminados podem causar doenças (saiba mais lendo Uma estrela do “Hall da Fama” dos patógenos: Escherichia coli O157:H7).

Entre as E. coli produtoras de toxinas shiga (STECs), classificam-se os sorogrupos (O) ou sorotipos (O:H), identificados através de análises laboratoriais realizadas com antissoros com base na presença de antígenos somáticos (O), flagelares (H) e capsulares (K), ou através de métodos mais modernos e sensíveis, por detecção molecular, em busca dos genes de virulência STX e EAE.

Em condições adequadas de preparo de alimentos, tais microrganismos devem ser eliminados com tratamentos térmicos acima de 70°C. Por isso é tão importante atentar-se ao cozimento, higienização, sanitização e armazenamento de alimentos.

Saiba mais em: E. coli produtoras de enterotoxinas

Para quem gosta de documentários, vale a pena conferir o post Food Safety na Netflix!, sobre um documentário que gerou calorosos debates, pois aborda casos reais de contaminações por E. coli, mas que deixou questões importantes sem respostas. Leia o post, assista o filme e tire suas conclusões!

Imagem: Food Poisoning Bulletin

2 min leituraNo dia 01/11/2023 foi declarado encerrado o surto de E. coli 0157 em 11 creches canadenses, na província de Alberta, que envolveu 446 pessoas. Foram confirmados 356 casos com exames […]

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Registros de doenças de transmissão hídrica e alimentar (DTHA) no Brasil

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A sigla DTHA significa Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar. Estas doenças podem ser infecciosas, toxinoses, toxinfecções, toxicoses, doenças alérgicas e doenças nutricionais, sendo que as notificações de casos estão associadas à ingestão de alimentos ou água contaminados, com sintomas de náuseas, vômitos e/ou diarreia, falta de apetite, presença ou ausência de febre. Em casos severos, podem levar à morte.

As siglas DTA – Doenças Transmitidas por Alimentos e/ou DVA – Doenças Veiculadas por Alimentos buscam abranger o mesmo tema, porém a sigla DTHA tem sido mais utilizada atualmente.

Existem mais de 250 tipos de DTHA e a maioria são infecções causadas por bactérias e suas toxinas, vírus, protozoários e parasitas e constituem, muitas vezes, Eventos de Saúde Pública (ESP) que podem representar ameaça à saúde pública.

As DTHA podem ser identificadas quando uma ou mais pessoas apresentam sintomas similares, após a ingestão de alimentos ou água contaminados com microrganismos patogênicos ou suas toxinas, configurando uma fonte comum.

No caso de patógenos altamente virulentos e severos como  Clostridium botulinumEscherichia coli O157:H7, apenas um caso pode ser considerado um surto.

A maioria dos surtos tem sido relacionada à ingestão de alimentos com boa aparência, sabor e odor normais, sem qualquer alteração organoléptica perceptível.

Isso ocorre porque a dose infectante de patógenos alimentares geralmente é menor que a quantidade de microrganismos necessária para degradar os alimentos. Esses fatos dificultam a rastreabilidade dos alimentos causadores de surtos, uma vez que os consumidores afetados dificilmente conseguem identificar sensorialmente os alimentos contaminados, que podem ter sido ingeridos até 72 horas antes de os sintomas surgirem.

Os sintomas digestivos, porém, não são as únicas manifestações, podendo ocorrer afecções extraintestinais em diferentes órgãos, como rins, fígado, sistema nervoso central, entre outros.

A investigação de um surto de DTHA envolve 5 etapas ou condições necessárias para se chegar a bons resultados:

  1. Planejamento para o trabalho de campo – formação de equipe e determinação do escopo de investigação;
  2. Definição de caso e investigação – coleta de dados, entrevistas e análises;
  3. Processamento dos dados da investigação – busca de nexo causal;
  4. Implementação das medidas de controle e prevenção – determinação de ações mitigadoras e de prevenção;
  5. Encerramento e conclusão da investigação – geração de dados estatísticos sobre o surto.

A Secretaria de Vigilância e em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde alimenta um relatório sobre Surtos de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar no Brasil. É um material muito rico em informações e interessante para conhecermos os principais problemas no cenário nacional. Pode ser acessado clicando aqui.

A compilação sistemática das notificações com os surtos de DTHA teve início em 1999. Surtos de DTHA ocorrem quando há 2 ou mais pessoas com quadro clínico semelhante e nexo causal com consumo de fonte comum de alimento ou água e/ ou com histórico de contato entre si ou alteração da taxas das DTHA refletindo em aumento do número de casos acima do limite esperado para a população envolvida em determinado período e território.

Seguem gráficos deste relatório:

1 – Número total de surtos de DTHA notificados

Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

Considerando que o gráfico refere-se aos casos oficialmente notificados e que temos um país de dimensões continentais com locais pouco acessíveis cobertos por órgãos de saúde pública e que muitas pessoas pessoas com sintomas mais brandos não seguem para postos de saúde ou se automedicam, estes casos podem ser a ponta do iceberg, existindo uma infinidade de outros casos não notificados.

2 – Surtos notificados por região da federação

Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

Obviamente, via de regra, regiões mais populosos acabam por ter mais notificações e assim o Sudeste se destaca, sendo que houve um pico em 2019 na região Norte, devido especialmente aos casos de açaí contaminado com o protozoário Trypanosoma cruzi veiculado pelo barbeiro.

3 – Surtos por local de ocorrência

Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

A maior parte das notificações ocorre devido ao consumo nas próprias residências, demonstrando que campanhas sobre cuidados, conservação de alimentos e higiene alimentar no lar podem ser uma estratégia importante para redução de casos de DTHA, mas claro, elas devem ser seguidas pela fiscalização em bares, padarias e restaurantes.

4 – Surtos por alimentos causadores

Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

O açaí tornou-se o campeão justamente pelos casos de contaminação com o Trypanosoma cruzi, tema que pode ser visto no artigo “É seguro tomar açaí?“. Porém, logo na sequência temos a água, refletindo uma falha no saneamento básico ainda presente em muitos municípios brasileiros.

5 – Agentes etiológicos mais identificados

Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

Neste gráfico os apontamentos referem-se aos casos em que o agente etiológico efetivamente foi identificado, o que talvez explique uma divergência com o gráfico anterior, pois supõe-se que deveria aparecer o Trypanosoma cruzi, uma vez que o açaí figura como alimento líder nas notificações.

Relatórios com dados de DTHA são uma ferramenta muito importante para profissionais que trabalham com segurança dos alimentos e em estratégias de vigilância sanitária, servindo de fonte de informações para análise de riscos que vão direcionar a tomada de decisões.

Por isso, por parte da população, é importante criar o hábito de notificar ocorrências de casos de DTHA, pois esta ação é fundamental para geração de estatísticas relevantes, que sejam capazes de representar da melhor forma possível as ocorrências nacionais.

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