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Microplásticos nos alimentos: devemos nos preocupar?

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Os microplásticos são partículas plásticas com dimensão que pode variar entre 1 nm até 5 mm. Normalmente são advindas da degradação de plásticos maiores ou mesmo produzidas intencionalmente em tamanho microscópico. Os microplásticos também se degradam, alcançando a dimensão de 1 µm (nanoplásticos). Segundo o FDA, eles estão presentes em todo o mundo, desde recifes de corais no fundo do mar, bem como no ar e, inclusive, em alimentos.

Como chegam aos alimentos?

Nos últimos anos, os microplásticos foram identificados em uma vasta gama de alimentos, como frutos do mar, sal, processados e bebidas. A sua presença nos alimentos está associada, primariamente, ao ambiente em que o alimento é cultivado. Como evidência disso, em 2022, a organização sem fins lucrativos Enviromental Working Group demonstrou que o lodo de esgoto contaminou mais de 80.000 km² de terras agrícolas nos Estados Unidos.

Essa contaminação ocorreu com substâncias chamadas per e polifluoroalquílicas (PFAS). Elas são também conhecidas como substâncias químicas eternas ou poluentes orgânicos persistentes, uma vez que não se degradam em condições ambientes normais. Como descrito no Testing Food for PFAS and Assessing Dietary Exposure, o FDA já monitora a presença e concentração dessas substâncias em alimentos.

Em dezembro de 2025 o FDA publicou uma sessão de perguntas e respostas com relação a este tema. Nela, indicou que em 95% dos testes realizados não se identificou PFAS acima do limite de detecção do método aplicado. Além disso, 69% das amostras nas quais foram detectadas a presença destes compostos são de frutos do mar.

Segundo a publicação do FDA em sua página dedicada ao tema em 2024, não existe ainda evidência científica suficiente para dizer que a contaminação de alimentos esteja associada à migração a partir de embalagens plásticas. Apesar disso, estudos publicados na BBC indicam que a abertura e fechamento de garrafas plásticas de água, ou até mesmo cortar uma embalagem plástica de um alimento, pode gerar inúmeros pequenos pedaços de microplásticos.

Possíveis impactos na saúde

Como publicado na revista Emerging Contaminants – Chinese Roots Global Impact (junho de 2025), os microplásticos podem representar diversos perigos à saúde humana, entre eles o estresse oxidativo, distúrbio ao sistema imunológico, neurotoxicidade, toxicidade ao aparelho reprodutivo e possíveis consequências carcinogênicas.

Recentemente a Embrapa publicou em sua página de notícias alguns alertas para a saúde pública, reforçando as potenciais consequências da exposição prematura aos microplásticos, desde a gravidez até a puberdade.

Além disso, de acordo com a publicação Repórter SUS, da Fiocruz, em setembro de 2025, apesar das evidências científicas dos danos à saúde causados pelos microplásticos, ainda não se chegou mundialmente a um consenso.

Situação regulatória atual

Segundo a página oficial de microplásticos do FDA, plásticos para uso em contato com alimentos devem atender à legislação vigente, ou seja, devem ser compostos por materiais autorizados pelo FDA (lista positiva).

Até então, não há uma legislação específica para determinar o limite de microplásticos em alimentos. Apesar disso, estados independentes dos Estados Unidos iniciaram trabalhos de monitoramento, como é o caso da California, que estabeleceu em 2018 um requisito anual de quantificação de microplástico em água para consumo.

Enquanto isso, na Europa, em dezembro de 2025, a EFSA (European Food Safety Authority) se posicionou. Ela informou que o parlamento europeu solicitou opinião científica com respeito aos potenciais riscos à saúde ocasionados por microplásticos em alimentos, água e ar. A estimativa é publicar o estudo até o fim de 2027, contribuindo assim para minimizar as incertezas que giram em torno deste tema.

Já no Brasil, a ANVISA reforçou através de um esclarecimento formal que o uso de plásticos não está autorizado como ingrediente de alimentos. De maneira específica, alertou sobre a inadequação do uso de glitter (polipropileno micronizado) em receitas, esclarecendo que devem ser utilizados apenas aditivos alimentares, os quais estão disponíveis na lista de aditivos autorizados no Brasil.

Em janeiro deste ano, a ANVISA mandou recolher por meio da resolução nº 156 itens decorativos para alimentos que continham polímeros plásticos não aprovados.

Principais desafios científicos

Os métodos para detecção e quantificação ainda estão em desenvolvimento. Como descrito por Joel Scheuchzer em Food Packaging Forum, eles inclusive envolvem inteligência artificial para avaliação de imagens.

No entanto, a maior dificuldade na quantificação de microplásticos em alimentos é a incerteza da sua concentração. Essa concentração pode ser muito baixa, o que exige métodos subsequentes de pré-tratamento para sua separação.

Além disso, outro grande desafio é a variedade de matrizes. Elas podem ser bebidas ou alimentos sólidos diversos, sem contar que podem apresentar em sua composição outros constituintes que dificultam a separação e identificação dos microplásticos.

Perspectiva futura

Devido à falta de estudos para diversas fontes de alimentos ou bebidas, é difícil estimar o tamanho da exposição da saúde humana frente às diferentes práticas alimentares ao redor do mundo. Métodos de identificação e quantificação demonstram relativo avanço. Eles podem, inclusive, se complementar para obter melhores resultados, como é o caso da identificação via imagem microscópica associada à detecção por análise térmica.

Enquanto isso, cabe à indústria de alimentos garantir a busca de ingredientes e matérias-primas com menor exposição a este risco. Além disso, deve garantir controles em seu processo para evitar a transferência de plásticos aos produtos, bem como pensar em métodos de embalagem e acondicionamento com menor risco de incrementar essa possível contaminação.

Nos próximos anos, o levantamento de dados de contaminação por meio da evolução dos métodos de identificação e quantificação balizará os requisitos tanto via consumidores quanto regulatórios. Acompanharemos esses próximos capítulos!

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