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Lavar frango cru (ainda) faz sentido? O que a ciência diz

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Lavar o frango cru antes do preparo é uma prática comum em muitas cozinhas brasileiras. O hábito costuma estar associado à ideia de remover sujeiras visíveis, odores ou até microrganismos indesejáveis. À primeira vista, parece uma atitude lógica e cuidadosa. No entanto, quando analisamos essa prática sob a ótica da segurança dos alimentos, a ciência aponta para uma conclusão diferente daquela que o senso comum sugere.

Do ponto de vista microbiológico, o frango cru é um alimento naturalmente associado à presença de microrganismos patogênicos, principalmente Salmonella spp. e Campylobacter spp., além de Escherichia coli em alguns casos. Essas bactérias podem estar presentes na superfície da carne, em cavidades e nos líquidos liberados durante o manuseio. É importante destacar que essa contaminação não significa, necessariamente, falha do produtor, mas sim uma característica do produto cru de origem animal.

Quando o frango cru é lavado em água corrente, ocorre um fenômeno pouco perceptível, mas altamente relevante do ponto de vista sanitário: a dispersão de microrganismos por meio de respingos e aerossóis. A água que entra em contato com a superfície contaminada do frango pode espalhar bactérias para a pia, bancada, torneira, utensílios próximos, esponjas e até outros alimentos que estejam no ambiente. Esse processo aumenta significativamente o risco de contaminação cruzada.

Estudos experimentais demonstram que lavar frango cru não reduz de forma significativa a carga microbiana presente na carne. Em contrapartida, essa prática eleva a probabilidade de espalhamento de patógenos no ambiente de preparo. Por esse motivo, diversas autoridades sanitárias internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos, a Food Standards Agency (FSA) do Reino Unido e a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), são categóricas ao afirmar que o frango cru não deve ser lavado antes do preparo.

Do ponto de vista da segurança dos alimentos, o único processo capaz de eliminar de forma eficaz os microrganismos patogênicos presentes no frango é a cocção adequada. Temperaturas internas suficientemente altas são responsáveis pela inativação de Salmonella, Campylobacter e outros agentes de doenças transmitidas por alimentos. Lavar o frango, portanto, não apenas é ineficaz, como pode criar um risco adicional ao contaminar superfícies e utensílios que não passarão por tratamento térmico.

É compreensível que muitos consumidores associem a lavagem do frango a uma sensação de maior limpeza. No entanto, segurança dos alimentos não está relacionada à aparência visual, e sim ao controle dos perigos biológicos ao longo do processo de preparo. Substituir práticas baseadas em hábitos culturais por práticas baseadas em evidências científicas é um passo fundamental para a prevenção de doenças transmitidas por alimentos no ambiente doméstico.

Como manipular frango cru com segurança: passo a passo

Embora o frango cru não deva ser lavado, alguns cuidados são essenciais para reduzir o risco de contaminação cruzada durante o preparo.

  1. Retire o frango da embalagem apenas no momento do preparo e evite colocá-lo em contato com outros alimentos.
  2. Utilize utensílios exclusivos para o frango cru, como tábuas e facas, preferencialmente identificadas para esse fim.
  3. Lave bem as mãos com água e sabão antes e após manusear o frango cru.
  4. Higienize imediatamente superfícies, utensílios e pias que entraram em contato com o frango, utilizando detergente e, quando possível, sanitizante adequado.
  5. Cozinhe o frango completamente, garantindo que toda a carne atinja temperatura interna segura.
  6. Evite reutilizar marinadas ou líquidos que tiveram contato com o frango cru, a menos que sejam fervidos antes do uso.

Essas medidas simples são muito mais eficazes para a segurança dos alimentos do que a lavagem da carne em água corrente.

Vale reforçar que o manejo seguro do frango cru não termina na etapa de preparo. O descongelamento também é um ponto crítico do processo. Métodos inadequados, como deixar o frango em temperatura ambiente ou sob água corrente, podem favorecer a multiplicação de microrganismos. Para entender quais são as práticas corretas e baseadas em evidência científica, recomendamos a leitura do artigo sobre descongelamento seguro de alimentos, já publicado aqui no Food Safety Brazil.

Em síntese, à luz das evidências científicas, lavar frango cru não faz sentido do ponto de vista da segurança dos alimentos. Essa prática não reduz a presença de microrganismos patogênicos e ainda aumenta o risco de contaminação cruzada no ambiente de preparo. A prevenção de doenças transmitidas por alimentos depende do controle adequado dos perigos microbiológicos, especialmente por meio de boas práticas de higiene e cocção correta.

Segurança dos alimentos é resultado de decisões informadas e baseadas em ciência, inclusive dentro de casa.

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Diferenças e semelhanças da rotulagem do frango nos EUA e Brasil – parte 2 de 2

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No primeiro post deste tema (rotulagem do frango), apresentamos e discutimos as informações do painel principal. Dando continuidade, agora abordaremos o leiaute e as informações do painel secundário do produto estadunidense.

Abaixo segue a foto da embalagem (painel secundário) do produto Whole Young Chicken with Giblets – Frango Inteiro com Miúdos – que será alvo das explicações adiante. O produto escolhido possui selo Orgânico, Antibiótico Free, uso de tecnologia de “resfriamento por ar – air-chilled”, OGM Free, frangos criados ao ar livre, com dieta 100% de produtos de origem vegetal.

Figura 1 – Painel Secundário – Frango Resfriado (com miúdos) – Orgânico

Painel secundário rótulo EUA
Painel secundário rótulo dos EUA – arquivo pessoal

Rotulagem Nutricional (Nutrition Facts)

Com relação à rotulagem nutricional, com a vigência da RDC nº 429/2020, que dispõe sobre a rotulagem nutricional dos alimentos embalados, e da IN 75/2020 que estabelece os requisitos técnicos para declaração da rotulagem nutricional nos alimentos embalados, podemos comparar o modelo dos EUA com o brasileiro (Figura 2).

Figura 2 – Modelo de tabela nutricional brasileira (ANVISA)

Tabela nutricional brasileira – IN 75/2020  (Imagem: O Globo)

É possível notar semelhanças e diferenças de informações entre os países:

  Brasil EUA
Informação nutricional por 100g X
Informação nutricional pela porção (xxx g) X X
Valores diários (VD) fornecidos pela porção (xxx g) X X
Frase padrão de % VD para uma dieta de 2.000 calorias por dia ou similar X
Presença de outros micronutrientes como Vitamina D (mcg), Ferro (mg), Cálcio (mg) e Potássio (mg)

X
Presença de nutrientes como carboidratos (g), açúcar total (g), açúcar adicionado (g), proteínas (g), gorduras totais (g), gorduras saturadas (g), gorduras trans (g), fibras alimentares (g), sódio (mg) X X
Colesterol (mg) X
Porção em g X – (oz)

Instrução de Manejo Seguro (Safe Handling Instruction)

Na rotulagem do frango dos EUA, temos uma declaração sobre Food Safety, que traduzida para o português, ficaria da seguinte maneira:

Este produto foi preparado com carne e/ou carne de frango inspecionada e aprovada. Alguns produtos podem conter bactéria que poderia causar doença se o produto for manejado incorretamente ou cozido de forma inapropriada. Para sua proteção, siga essas instruções abaixo de manejo seguro:

  • Mantenha refrigerado ou congelado. Descongelar na geladeira ou em micro-ondas.
  • Mantenha a carne ou carne de frango crua separada de outros alimentos. Lave a superfície de trabalho (incluindo tábuas de corte), utensílios e mãos depois de tocar carne ou carne de frango crua.
  • Cozinhe bem.
  • Mantenha alimentos quentes aquecidos. Refrigere as sobras imediatamente ou descarte.

Para essa informação com instruções de uso, preparo e conservação, temos no Brasil, de forma semelhante, as informações dispostas pela RDC 13/2001 – Regulamento Técnico para Instruções de uso, preparo e conservação na rotulagem de carne de aves e seus miúdos crus, resfriados ou congelados.

Outra informação no rótulo sobre segurança dos alimentos que encontramos é:

Cook meat thoroughly (Cozinhe bem a carne): Cook product to an internal temperature of 185ºF as verified by a meat thermometer. (Cozinhe o produto a uma temperatura de 185ºF (ou 85ºC) verificada por um termômetro de carne.

Todavia, consultando um outro rótulo de carne de frango dos EUA, observado na mesma viagem, percebi que essa informação pode variar, conforme descrição abaixo:

Uncooked (crua): For safety, MUST be cooked to an internal temperature of 165ºF as measured by used of a meat thermometer. (Por segurança, DEVE ser cozida até a temperatura interna de 165ºF (ou aproximadamente 74ºC) conforme medido pelo uso de um termômetro de carne).

Sobre essa instrução, não temos no Brasil, para rotulagem do frango, nenhuma orientação obrigatória específica sobre a temperatura interna segura para o consumo. A empresa pode até colocar isso no rótulo, mas é facultativo. A referida declaração feita nos EUA, em minha opinião, tem uma correlação direta com o HACCP/APPCC, servindo como um elo de comunicação para firmar a responsabilidade do próximo elo da cadeia em eliminar ou reduzir o perigo (Salmonella sp) a níveis seguros, conforme os termos do Codex Alimentarius.

Ingredientes 

Por estarmos comparando um produto cárneo in natura e não temperado/ industrializado, é possível não notarmos diferenças. O único ponto mais peculiar desse item é o fato de a informação sobre os miúdos contidos dentro da carcaça ter uma “possibilidade de ausência de partes”, conforme discorremos no post anterior 1/2.

Indústria Brasileira  

Enquanto no Brasil os rótulos dos produtos devem conter a expressão “Indústria Brasileira” em caracteres destacados conforme Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964 e Decreto nº 1.593, de 21 de dezembro de 1977, nos EUA, ao menos para produtos ligados ao USDA, temos a expressão HATCHED, RAISED & HARVESTED IN USA, que traduzido para o português seria NASCIDO, CRIADO e COLHIDO NOS EUA.

Conclusão

No aspecto de produção de carne de frango, considerando os assuntos regulatórios de rotulagem, o Brasil muito se assemelha aos padrões dos EUA. Embora tenha sido possível notar algumas diferenças entre ambos, é preciso afirmar que existem particularidades para cada país. Contudo, em ambos os países, nota-se a preocupação com a segurança dos alimentos em forma de alerta ao consumidor nos rótulos.

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