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Uso de cannabis em animais de produção: as pesquisas atuais e o impacto em bem-estar animal e segurança de alimentos

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A entrevista deste artigo é com Diogo Vitorino da Silva (foto), que é médico veterinário com uma experiência vasta e riquíssima em alimentos, sendo mestre em Saúde Animal, Produção e Meio Ambiente, além de especialista em Defesa Sanitária Animal.

Com mais de 15 anos de atuação na indústria, ele já passou pelas áreas de P&D, Qualidade e Assuntos Regulatórios em frigoríficos de bovinos e suínos. Além disso, é um excelente palestrante, realiza treinamentos corporativos a líderes e equipes, onde dissemina seu conhecimento esbanjando carisma e competência.

Conversar com ele é ter verdadeiras aulas, e quando ele comentou sobre o tema da cannabis, eu de pronto tive a ideia de compartilhar com vocês aqui no Food Safety Brazil. Ele topou na hora e inclusive sugeriu algumas perguntas cirúrgicas, como vocês podem ver na entrevista abaixo.

 1- De onde surgiu o insight e o seu interesse para estudar o uso do óleo de cannabis na produção animal e no bem-estar dos animais?

Foi a partir de uma experiência pessoal que surgiu o interesse por discutir o papel da cannabis na produção animal. O convite para conhecer uma associação canábica em Marília, SP, trouxe a oportunidade de acompanhar de perto todo o processo do plantio à colheita e à formulação de medicamentos destinados ao uso humano e animal.

Durante uma conversa com o farmacêutico da associação, veio o insight: se o óleo de cannabis poderia contribuir para o bem-estar humano, por que não explorar seu potencial também para o bem-estar animal? Essa reflexão abre espaço para uma discussão técnica e científica sobre como compostos da cannabis podem ser aplicados na produção animal, seja para reduzir o estresse, melhorar a saúde intestinal ou até mesmo diminuir a necessidade de antimicrobianos.

2- Quais você considera as principais limitações enfrentadas pela pesquisa e aplicação da cannabis na produção animal, incluindo os preconceitos sociais e os desafios regulatórios que ainda precisam ser superados?

O principal ponto a destacar é a questão regulatória, tendo em vista que não há produtos derivados de cannabis aprovados como ingrediente alimentar ou aditivo para animais.

Nos EUA, é proibida a inclusão de THC e CBD (tetrahidrocanabinol e canabidiol) como ingredientes porque são considerados compostos farmacológicos. Isso significa que qualquer uso de cannabis ou canabinoides em rações ou dietas animais ainda carece de regulamentação específica, testes de segurança e aprovação oficial antes de ser recomendado para produção de alimentos.

Outro ponto importante é o obstáculo cultural: o preconceito. Muitas vezes, a cannabis é associada exclusivamente ao uso recreativo, o que gera resistência social e desconfiança por parte de consumidores e até de profissionais da área. Esse estigma dificulta a aceitação de pesquisas sérias e atrasa a adoção de soluções inovadoras.

3- O que as pesquisas de cannabis nos revelam sobre seu uso em animais de produção?

O uso de cannabis na produção animal é uma fronteira promissora, mas deve ser tratada com rigor científico. Não se trata de uma tendência imediata, mas de um campo de estudo que precisa ser explorado com responsabilidade, para garantir segurança, bem-estar animal e transparência ao consumidor.

 4- Com todo o seu conhecimento sobre o tema, acha que o uso de cannabis na produção de carnes é viável?

Penso que o uso direto de Cannabis sativa na produção de carne ainda é uma área emergente, com estudos iniciais focados no uso de subprodutos do cânhamo industrial (variedade com baixo teor de THC). Porém, é importante ressaltar que já há pesquisas avaliando o efeito sobre a nutrição, desempenho e bem-estar animal, não tendo aplicações consolidadas e nem regulamentadas para uso direto na produção.

 5- Há algum benefício já comprovado do CBD no bem-estar animal?

Estudos experimentais têm indicado que o uso do CBD pode trazer benefícios relacionados ao bem-estar animal em suínos. Portanto, é relevante aprimorar essas pesquisas uma vez que o bem-estar impacta diretamente a qualidade de carcaça e a aceitação do consumidor.

6- Podemos dizer que a cannabis será usada para “produzir carne melhor” no futuro?

Precisamos evoluir com as pesquisas para que possamos afirmar, mas sabemos até o presente momento que os componentes funcionais da cannabis promovem uma melhoria no bem-estar animal e no desempenho nutricional. Mas precisamos comprovar a eficiência, segurança, ausência de resíduos e a viabilidade econômica, sempre sob a luz da legislação.

7- Quais partes da planta têm sido estudadas para uso na alimentação animal?

O farelo e as folhas de cânhamo que são ricos em proteína, fibras e lipídios. Alguns estudos também avaliam o uso de compostos bioativos como o canabidiol (CBD).

 8- Pensando em segurança de alimentos, há riscos de resíduos nos produtos finais?

Esse é o principal ponto de atenção. Canabinoides como THC e CBD podem se acumular nos tecidos animais, especialmente se usados de forma contínua ou sem controle.

Temos estudos em cursos investigando resíduos em carne e leite, mas enquanto não houver regulamentação clara e dados robustos sobre segurança, o uso comercial permanece proibido em diversos países.

 9- Quais são os efeitos do CBD sobre saúde, bem-estar e desempenho?

Embora a pesquisa em produção de carne ainda seja incipiente, alguns estudos (e análises de especialistas) sugerem que canabinoides como CBD (canabidiol) podem impactar positivamente:

– Apetite e conversão alimentar em suínos, levando a melhor desempenho produtivo (ganho de peso, eficiência alimentar);

– Efeitos calmantes e redução de estresse, o que pode melhorar o bem-estar animal em sistemas intensivos ou durante transporte.  Fatores que, por sua vez, influenciam a qualidade final da carne;

– Potencial para melhorar aspectos comportamentais e de bem-estar animal, fatores cada vez mais valorizados pelos mercados consumidores.

10- Para finalizar, qual mensagem você deixaria para o público técnico sobre esse tema?

O uso da cannabis na produção animal é um campo emergente e promissor, mas que ainda está em fase inicial de investigação científica. No entanto, é importante reconhecer que os dados disponíveis ainda são limitados e que não existem produtos aprovados para uso direto em dietas de animais de produção em muitos países. Por isso, qualquer avanço nessa área precisa estar sustentado em pesquisas robustas, regulamentação clara e, sobretudo, na garantia da segurança do alimento e da proteção ao consumidor.

A mensagem que fica é de cautela e esperança: a cannabis pode se tornar uma ferramenta valiosa para uma pecuária mais sustentável e centrada no bem-estar animal, mas o caminho passa necessariamente pela ciência, pela transparência regulatória e pelo diálogo aberto com a sociedade.

 Gostaram do tema? Esse é o primeiro artigo sobre uso de cannabis para animais de produção, mas há posts sobre outros usos:

Segurança de alimentos e cannabis: fabricantes criam normas próprias enquanto as leis não chegam;

– FDA alerta sobre uso do Delta-8 tetraidrocanabinol em alimentos

Segurança dos alimentos que contém maconha como ingrediente;

Preferências dos consumidores, padrões de consumo e a segurança dos alimentos

Sobre bem-estar animal, acessem aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem: Kindel Media

4 min leituraA entrevista deste artigo é com Diogo Vitorino da Silva (foto), que é médico veterinário com uma experiência vasta e riquíssima em alimentos, sendo mestre em Saúde Animal, Produção e […]

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FDA alerta sobre uso do Delta-8 tetraidrocanabinol em alimentos

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Em julho de 2023, o Food Safety News divulgou um alerta do FDA para as empresas que utilizam o aditivo Delta-8 tetraidrocanabinol em alimentos.

A FDA determinou que estas empresas estão comercializando produtos adulterados devido à presença ou inclusão do canabinóide Delta-8 (THC), considerado um aditivo alimentar inseguro.

Além disso, esses alimentos estão sendo vendidos em formatos atraentes para crianças, o que pode causar confusão por parte dos consumidores. Dessa forma, a FDA expressa preocupação com essa situação e busca garantir a segurança e a clareza na comercialização de produtos alimentares.

No mês de junho de 2022, a FDA emitiu um alerta aos consumidores sobre o risco de ingestão acidental de produtos alimentícios contendo o aditivo por parte de crianças. Entre 1º de janeiro de 2021 e 31 de maio de 2022, a agência recebeu mais de 125 relatórios de eventos adversos relacionados a crianças e adultos que consumiram produtos comestíveis contendo este aditivo. Em dez deles mencionava-se especificamente que o produto comestível era uma imitação de alimentos populares, por meio de nomes de marcas, logotipos ou imagens semelhantes. Essa semelhança poderia causar confusão com alimentos convencionais.

Devido ao potencial risco de consumo não intencional do ingrediente Delta-8 pelos consumidores, foram emitidos alertas na forma de cartas de advertência, com base na análise e revisão dos sites das empresas envolvidas.

Nas cartas de advertência, a FDA destaca os seguintes pontos de preocupação:

  • Os produtos que contém Delta-8 na sua composição não foram avaliados ou aprovados pela FDA para uso seguro e sua comercialização pode colocar a saúde pública em risco;
  • A FDA recebeu relatórios de eventos adversos envolvendo produtos com Delta-8;
  • Delta-8 tem efeitos psicoativos e intoxicantes;
  • A FDA expressa preocupações acerca dos métodos empregados na produção das concentrações de Delta-8 anunciadas no mercado.
  • A FDA está preocupada com a presença de alimentos que contêm Delta-8, os quais podem ser facilmente consumidos por crianças, devido à atratividade de suas embalagens e rótulos.

Entre as empresas notificadas estão a Delta Munchies LLC (Los Angeles, CA); North Carolina Hemp Exchange, LLC dba NC Hemp Shoppe (Raleigh, NC); Exclusive Hemp Farms/Oshipt.com (Gilroy, CA); The Haunted Vapor Room (Franklin, NJ); Dr. Smoke, LLC aka Dr. S, LLC (Kansas City, MO); Nikte’s Wholesale, LLC (Albuquerque, NM).

Afinal, o que é o Delta-8 tetraidrocanabinol?

O Delta-8 é um canabinóide emergente que tem ganhado popularidade desde a aprovação da Lei de Melhoria Agrícola dos EUA de 2018 (o cânhamo – cannabis – contendo menos de 0,3% de delta-9 foi removido do status de droga).

No entanto, ao contrário do delta-9, que é mais prevalente na Cannabis spp., o delta-8 é naturalmente produzido em quantidades mínimas. Portanto, os produtos delta-8 disponíveis no varejo são, em sua maioria, derivados sinteticamente a partir do canabidiol (CBD), por meio de conversão química.

Um aspecto problemático das moléculas análogas, que são convertidas em laboratório, é que elas podem se transformar em substâncias desconhecidas que interagem com o sistema endocanabinoide. Esse fator é preocupante considerando que os efeitos do delta-8 no corpo humano permanecem amplamente inexplorados, assim como as diferenças farmacocinéticas entre delta-8 e delta-9.

Uma recente análise de produtos delta-8 revelou que a maioria deles apresentava contaminação por metais pesados. Além disso, foram encontradas disparidades entre as composições relatadas e as composições reais desses produtos no mercado.

Cabe ressaltar que existem razões pelas quais a segurança dos alimentos com delta-8 atuais não é clara:

  • Esses produtos são frequentemente comercializados como naturais, embora a planta de maconha produza uma quantidade muito pequena de delta-8, insuficiente para obter extratos de alta concentração de forma lucrativa a partir do material vegetal. Portanto, o delta-8 presente nesses produtos é produzido sinteticamente a partir do CBD.
  • Esses produtos não são regulamentados nem testados rotineiramente por fontes independentes, o que significa que podem conter subprodutos e outros compostos indesejáveis resultantes do processo de síntese.
  • Por fim, o delta-8 não foi extensivamente estudado em relação à sua atividade em seres humanos, o que também contribui para a falta de clareza sobre sua segurança.

É válido mencionar que preocupações semelhantes surgiram em outros momentos em que houve um aumento do mercado da cannabis sem regulamentação adequada. Nessas situações, as indústrias muitas vezes se viram obrigadas a estabelecer suas próprias normas e diretrizes devido à falta de regulamentação governamental.

A notícia do alerta emitido pela FDA em relação ao aditivo Delta-8 tetraidrocanabinol destaca a preocupação da agência com a produção e comercialização de produtos que são atrativos para o consumo infantil.

A presença desse aditivo em produtos alimentares levanta preocupações quanto à segurança e à clareza na sua comercialização. A falta de regulação, testes independentes e a produção sintética do delta-8 a partir do CBD são aspectos problemáticos que contribuem para a falta de clareza sobre a segurança desses produtos. Além disso, a presença de contaminação por metais pesados e a inconsistência entre as composições relatadas e reais desses produtos são questões adicionais que destacam a necessidade de precaução ao consumi-los.

Em vista dessas preocupações, é essencial acompanhar de perto a regulamentação e as pesquisas em relação ao delta-8 tetraidrocanabinol para garantir a segurança dos consumidores.

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