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Contaminantes formados durante processamentos de alimentos: 3-MCPD e suas estratégias de mitigação

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Estamos passando por um momento de crescente atenção da indústria e dos órgãos reguladores em torno de contaminantes formados durante processamentos térmicos de alimentos – entre eles, o 3-MCPD e seus ésteres. Exemplos disso são o código de práticas do Codex Alimentarius, o regulamento da União Europeia e o monitoramento conduzido pela FDA, além da recente inclusão deste contaminante na lista de monitoramento pela Anvisa.

Normalmente o 3-MCPD está associado a óleos vegetais, porém também se mostra potencialmente perigoso nas fórmulas infantis. Diante disso, como a indústria pode controlar esse contaminante de maneira eficaz?

O que é e qual o seu risco?

O 3-MCPDE (3-monocloropropano-1,2-diol éster) é uma molécula de éster que pode ocorrer em óleos vegetais após uma de suas etapas de produção. Durante o refino, o óleo é submetido a um processo térmico que tem como objetivo diminuir ou remover compostos que conferem sabor, odor e cor não esperados no produto terminado.

Esta molécula se transforma em 3-MCPD livre após hidrólise ácida no nosso trato digestivo. Segundo estudos realizados com roedores, o 3-MCPD causa efeitos adversos nos rins e órgãos reprodutores. Em 2013, a International Agency for Research on Cancer (IARC) classificou o 3-MCPD no grupo 2B, o que indica que é possivelmente carcinogênico para humanos.

O tema assume maiores proporções a partir do momento em que se sabe que óleos vegetais são ingredientes de proporções relevantes em fórmulas infantis. Isso levanta o alerta para a necessidade de aplicação de controles deste contaminante na indústria de alimentos, devido à vulnerabilidade deste público consumidor.

  • Como mencionado pela colega Cíntia Malagutti, a Joint Expert Committee on Food Additives (JECFA) apresentou os resultados do estudo com as consequências da ingestão de 3-MCPDE e outros compostos, reforçando a necessidade de seu controle.

Com base nisso, a comissão do Codex Alimentarius preparou uma série de recomendações importantes para a indústria de óleos refinados e alimentos, por meio de um código de práticas. Este material inclui dicas que vão desde a agricultura, passando pelo refino, pós refino e medidas de processamento e que podem ser aplicadas de modo a reduzir os níveis de 3-MCPDE e éster glicidílico (GE) em alimentos.

Recomendações e estratégias de mitigação

Antes de passarmos essas orientações é importante saber:

De acordo com este código, as plantas absorvem durante seu desenvolvimento compostos clorados do solo, da água, de fertilizantes e outros. Esses compostos são precursores do 3-MCPDE.

A formação de GE inicia-se em torno de 200°C, com maior taxa a partir de 230°C. Enquanto que a formação de 3-MCPDE ocorre na faixa de 160 – 200°C, não aumentando com o aumento da temperatura.

Devido a seus diferentes mecanismos de formação, as estratégias de mitigação tendem a ser diferentes. No caso do GE, que é formado com temperaturas mais altas, a estratégia é o controle da alta temperatura. Apesar disso, diminuir a temperatura pode alcançar a faixa de formação do 3-MCPDE.

As recomendações indicam combinar medidas para garantir maior efetividade das ações. Essa combinação pode incluir estratégias como a minimização do uso de fertilizantes, pesticidas e água que apresentam excesso de compostos com cloro.

Especificamente no caso de óleo de frutos como a palma, recomenda-se realizar a colheita no momento mais adequado, ou seja, quando apresentam menor concentração da enzima lipase, associada ao processo de formação de 3-MCPDE.

Na indústria, as recomendações envolvem o armazenamento de grãos em temperaturas inferiores a 25°C, com umidade menor que 7%, na busca dos menores índices da enzima lipase. Além disso, recomenda-se monitorar precursores como DAGs (diacilglicerois), FFAs (ácidos graxos livres) e compostos clorados nas etapas de produção do óleo bruto.

Já na etapa de branqueamento, indica-se utilizar maiores quantidades de terra branqueadora, além de evitar aquelas terras que apresentam quantidades significativas de compostos com cloro.

Na desodorização, o ideal para óleos vegetais é manter a faixa de 190 a 230°C. Além disso, recomenda-se aplicar vácuo mais forte para facilitar a remoção dos compostos voláteis, de modo a não ser necessário o aumento da temperatura, o que favoreceria a formação de GE.

  • Todas essas medidas e outras estão disponíveis no material do Codex Alimentarius de 2019 (código de referência CXC 79-2019).

No caso de indústrias alimentícias, como as de fórmulas infantis, é importante utilizar óleo com as menores concentrações de 3-MCPDE e GE, de modo a evitar a concentração deste contaminante em seu produto terminado. Isso se dá com o devido processo de homologação de fornecedores, bem como medidas de controle para o recebimento de matérias-primas.

O monitoramento e regulamentações

O FDA estabeleceu métodos laboratoriais de monitoramento de 3-MCPDE e GE, inicialmente com foco nas fórmulas infantis. Entre os anos de 2013 e 2016 foram avaliadas 98 amostras de fórmulas. A partir de então, o órgão iniciou conversas com o segmento industrial para apresentar suas preocupações.

Na sequência, entre 2017 e 2019, com o objetivo de avaliar se os fabricantes reduziram o nível de 3-MCPDE e GE nas fórmulas infantis, novas 222 amostras foram avaliadas, sendo que 3 fabricantes apresentaram sucesso na redução.

Já entre 2021 e 2023, outras 206 amostras foram analisadas, o que indicou que todos os 4 fabricantes avaliados reduziram o nível dos referidos contaminantes a níveis consistentes internacionalmente.

Apesar dos limites não serem definidos na legislação estadunidense, a União Europeia define tais limites claramente para óleo, gorduras e alimentos para lactentes através do Regulamento (EU) 2023/915.

Já no Brasil, a ANVISA publicou em março de 2025 a IN 351 que complementa a IN 160 de 2022. Ela estabelece limites máximos tolerados de contaminantes em alimentos, incluindo o 3-MCPD. Porém, por enquanto este contaminante está indicado apenas para condimentos líquidos contendo proteínas vegetais hidrolisadas ácidas, com prazo de implementação findando em março de 2026.

Notícias recentes indicam a ocorrência e a relevância desses controles não apenas nos óleos, gorduras e alimentos infantis. Em julho de 2025, a Coreia procedeu um recall de molhos de soja devido ao alto índice de 3-MCPD em sua composição.

Importante reforçar que o 3-MCPD e seus ésteres não são inevitáveis, uma vez que o controle é possível aplicando uma gestão adequada e focada. Além disso, um trabalho preventivo e sistêmico iniciando na agricultura tende a minimizar os impactos na indústria.

Essas estratégias vão ao encontro da tendência percebida globalmente no monitoramento deste contaminante. Assim, a indústria que alia a ciência, a tecnologia e um sistema de gestão direcionado garante não apenas conformidade com a legislação, como também abertura em um mercado cada dia mais exigente e informado.

Imagem: Kaboompics 

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O maior surto de botulismo infantil dos EUA: lições de uma crise que atingiu mais de 50 bebês — Parte 2/3

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Sejam bem-vindos à segunda parte da trilogia sobre o surto incomum de botulismo infantil que atinge os Estados Unidos (para ler o primeiro post, clique aqui).

A seguir, examinaremos a composição da fórmula infantil, os resultados da análise laboratorial, o fabricante da fórmula e como os Estados Unidos supervisionam a fabricação desse produto.

Análise na fórmula infantil

A empresa e o FDA começaram a testar o produto, e os resultados iniciais do laboratório divulgados pelo CDPH indicaram a presença de Clostridium botulinum em uma lata aberta da fórmula infantil fornecida a um bebê diagnosticado com botulismo. A ByHeart comunicou que análises laboratoriais independentes, conduzidas nas amostras de produtos de fórmula infantil lacrados e mantidos em suas instalações, detectaram a presença de Clostridium botulinum. A maioria das amostras analisadas pela FDA apresentou resultado preliminar negativo quanto à presença da bactéria, e todos os resultados positivos em produtos finalizados começaram a ser comunicados. Desde 10 de dezembro de 2025, não houve registro de nenhum novo caso.

Em seguida, a ByHeart divulgou resultados positivos para Clostridium botulinum em seis das 36 amostras do produto final, coletadas de dois lotes que estavam no recall inicial do produto. Em 26 de janeiro de 2025, foi determinada a origem da contaminação em cepa de um ingrediente; no entanto, tanto a FDA quanto os CDC não divulgaram o nome do fabricante.

Em 23 de janeiro de 2026, a FDA confirmou que duas amostras apresentaram resultado positivo para Clostridium botulinum tipo A. A primeira amostra, obtida de uma embalagem selada de fórmula infantil da ByHeart, foi submetida à análise de sequenciamento de genoma completo (WGS). Os resultados mostraram que a bactéria identificada é geneticamente idêntica ao microrganismo isolado de um bebê internado durante o surto. Além disso, corresponde a dois isolados encontrados em leite em pó integral, ingrediente usado na fabricação da fórmula e previamente analisado pela empresa. A segunda amostra foi obtida de um fornecedor da ByHeart e examinada pelo Laboratório Wadsworth, localizado em Nova York. De acordo com a análise genética, o microrganismo encontrado é compatível com o Clostridium botulinum identificado no produto final da fórmula infantil da ByHeart. Isso reforça a conexão entre a contaminação detectada no produto e a cadeia de suprimentos.

As análises confirmam que a contaminação tem origem na cadeia de suprimentos, e provavelmente é ligada ao leite em pó integral. Isso possibilita que as autoridades façam uma ligação científica entre o bebê enfermo, o produto ingerido, o componente e o fornecedor. Apesar de esses resultados melhorarem o entendimento da FDA sobre o surto, a investigação prossegue para identificar a origem da contaminação. No entanto, a detecção de C. botulinum em fórmulas infantis ou em seus componentes é complexa, e os resultados podem demorar várias semanas. Os esporos termorresistentes necessitam de uma ativação específica para serem identificados, e os exames para esta bactéria em fórmulas infantis são especializados, com resultados finais que demandam testes confirmatórios. Ademais, há um número restrito de laboratórios que possuem equipamentos e recursos especializados.

Quem é a ByHeart e quais são os componentes da sua fórmula infantil?

Estabelecida em 2016 pelos irmãos Mia Funt e Ron Belldegrun, com sede em Nova York, a empresa lançou sua primeira fórmula infantil em março de 2022, durante uma escassez desse produto nos Estados Unidos. A companhia foi a primeira nova fabricante de fórmulas infantis registrada pela FDA em mais de 15 anos. A fórmula infantil Whole Nutrition da ByHeart é composta por uma combinação de proteínas patenteada, desenvolvida para imitar o leite materno humano, utilizando leite integral orgânico de vacas alimentadas em pasto. Ele possui lactoferrina, alfa-lactalbumina, uma relação de 80:20 entre soro e caseína similar à do colostro, lactose como único carboidrato, proteínas parcialmente hidrolisadas, prebióticos orgânicos e os ácidos graxos DHA e ARA. A fórmula não contém xarope de milho, glúten, transgênicos, maltodextrina, soja, DHA extraído de hexano, hormônios artificiais de crescimento nem óleo de palma.

A fórmula tinha como objetivo promover a inovação necessária no mercado de nutrição infantil de próxima geração – o futuro da nutrição. Ela oferecia melhorias como digestão mais simplificada, redução de regurgitação, ganho de peso mais eficiente e desenvolvimento cerebral. Além disso, recebeu milhões em financiamento. Em 2022, a empresa lançou uma plataforma própria para suporte à nutrição e alimentação.

Entre 2023 e 2024, a ByHeart expandiu rapidamente sua presença no varejo americano, passando por redes como Target, Whole Foods Market, Wegmans, Publix e Walmart, até atingir quase 12 mil pontos de venda. Em dezembro de 2024, a companhia fortaleceu sua governança com a inclusão de Denice Torres, ex-executiva da Johnson & Johnson, no conselho. Em maio de 2025, foi lançada a embalagem portátil para alimentação infantil chamada “Anywhere Pack”. De acordo com a FDA, embora os produtos da ByHeart sejam amplamente distribuídos, eles correspondem a menos de 1% do mercado de fórmulas infantis nos EUA.

Apesar de ter sido a primeira fórmula infantil nos EUA a conquistar o Prêmio de Pureza do Clean Label Project, que analisa produtos para identificar mais de 500 possíveis contaminantes, como metais pesados e pesticidas, sua fórmula esteve envolvida em outro caso de contaminação bacteriana em 2022. O contaminante foi o Cronobacter sakazakii, responsável por infecções graves e potencialmente fatais, como sepse ou meningite. A companhia efetuou um recall voluntário de cinco lotes da fórmula. Não houve registro de reclamações de consumidores relacionadas a doenças.

Entre dezembro de 2022 e fevereiro de 2023, a FDA inspecionou as instalações da ByHeart em Reading, Pensilvânia, assim como as da Mead Johnson Nutrition (Reckitt) e da Perrigo Wisconsin, LLC. Após as inspeções, foram emitidas cartas de advertência mencionando violações das normas relacionadas a fórmulas infantis. No entanto, a FDA não recomendou que pais e cuidadores descartassem ou evitassem a compra de nenhuma fórmula infantil específica. A agência não teve conhecimento de nenhum produto distribuído em que a contaminação tenha sido confirmada e considera que os recalls foram eficientes para retirar os lotes possivelmente contaminados do mercado.

A advertência indicou que a fábrica apresentava condições insalubres e apontou falhas no programa de monitoramento ambiental da instalação. Isso incluía vazamentos de águas provenientes de fora do prédio, que se dirigiam às áreas de produção por meio de uma clarabóia instalada no telhado da sala de processamento, onde o produto testou positivo para Enterobacter Sakazakii. Além disso, foi detectado outro vazamento no selante ao redor da persiana da torre de secagem, com a presença de Cronobacter spp.

Os relatórios de inspeção da Food and Drug Administration apontaram problemas graves no local da empresa nesta fábrica. Além do vazamento no telhado, foi identificado mofo em um tanque destinado à água limpa. Em 11 de dezembro de 2023, um inspetor notou que “moscas zumbiam acima de uma área crítica da produção de fórmulas”. Na mesma região, o inspetor registrou a presença de mais de 2.500 insetos voadores mortos próximos a três armadilhas de luz destinadas a insetos. Além disso, de acordo com o relatório, a fábrica descumpriu suas normas de manutenção das temperaturas essenciais para eliminar bactérias da fórmula antes de enviá-la para embalagem. No entanto, não houve notificação e a fórmula foi enviada aos clientes. A inspeção foi classificada pela FDA como tendo o mais alto nível de preocupação.

Em uma carta datada de 8 de março de 2023, a FDA expressou preocupação com as áreas de produção de fórmulas infantis em pó. Destacou que os fabricantes devem identificar e levar em consideração todos os riscos biológicos conhecidos ou razoavelmente previsíveis, incluindo a bactéria Clostridium botulinum. A Byheart foi mencionada na carta de advertência em razão da inspeção realizada em fevereiro de 2023. Em 30 de agosto de 2023, a empresa recebeu outra advertência e apresentou diversos planos de ação corretiva em resposta.

Como a FDA supervisiona a segurança e a qualidade nutricional das fórmulas infantis?

A produção de fórmulas infantis nos Estados Unidos é regulamentada pela FDA, garantindo a segurança desses produtos. Fórmulas infantis constituem uma opção ao leite materno para a alimentação de bebês de até 12 meses, podendo ser o alimento exclusivo, sendo que a maioria dos bebês nos EUA depende dessas fórmulas para sua nutrição.

Os produtores de fórmulas infantis precisam atender às exigências pertinentes da Lei Federal de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos (Federal Food, Drug, and Cosmetic Act) e às que estão presentes nos regulamentos de implementação da FDA. Um fabricante que deseja vender uma nova fórmula infantil nos Estados Unidos precisa registrá-la, notificá-la e enviar à FDA uma declaração escrita atestando sua conformidade com as regulamentações.

Apesar de a Agência não aprovar fórmulas infantis, ela é responsável por analisar os requisitos quando notificada pelos fabricantes antes da venda. Esses requisitos abrangem segurança, adequação nutricional, embalagem e rotulagem. Quando não se aplica, a fórmula pode ser considerada alterada, rotulada de forma inadequada ou ambas as opções, e, nesse caso, pode ser sujeita a medidas coercitivas, como o recolhimento obrigatório. Aproximadamente 30 nutrientes devem estar presentes em quantidades mínimas, enquanto 10 deles devem estar em quantidades máximas. Além disso, qualquer um deles deve ser seguro e apropriado para esse propósito.

Além disso, há exigências específicas para rotular fórmulas infantis, e a agência realiza inspeções anuais nas instalações das fábricas. Todos os produtos de fórmula infantil comercializados nos Estados Unidos, tanto os fabricados internamente quanto os importados, precisam cumprir todas as normas americanas. As autoridades desaconselham o uso de fórmulas caseiras, pois elas podem aumentar o risco de contaminação ou não fornecer a quantidade adequada de cálcio.

A agência está cooperando com os fabricantes, que agora precisam ter planos de contingência para riscos.

Doralice Goes é mestranda em Segurança dos Alimentos pela UFSJ, sobreviveu ao botulismo alimentar em 2022 e, desde então, dedica-se ao estudo da doença, monitora casos globais, faz palestras na indústria e é autora de livro sobre o botulismo.

 

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O maior surto de botulismo infantil dos EUA: lições de uma crise que atingiu mais de 50 bebês — Parte 1/3

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Os Estados Unidos vivem o maior surto de botulismo infantil registrado – o primeiro do mundo associado a fórmulas para bebês desde que essa doença foi categorizada em 1976. O que podemos aprender com este surto? Convido você, leitor, a aprofundar-se no tema por meio de três publicações — o caso pode estabelecer um novo precedente na fabricação de fórmulas infantis.

O surto resultou em uma investigação conjunta envolvendo a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). A investigação foi realizada em parceria com o Programa de Tratamento e Prevenção do Botulismo Infantil (IBTPP) do Departamento de Saúde Pública da Califórnia (CDPH) e outros colaboradores estaduais e locais. A investigação foi relacionada à fórmula infantil ByHeart Whole Nutrition. Além disso, a empresa está colaborando com a investigação para determinar a causa raiz.

Mas qual foi a sequência temporal deste surto? Qual é o número de bebês afetados? Como foi realizado o recall? Descobriremos neste primeiro post.

Cronologia do surto, bebês afetados e recall

O primeiro alerta foi emitido pelo FDA e CDC em novembro de 2025, após um aumento nos casos de botulismo em bebês (13 casos), com a exposição à fórmula infantil sendo um fator comum. Todos os dias, novos bebês eram internados, e a Agência atualizava as informações em seu site, incluindo-as no Boletim de Alerta de Surto.

Em 19 estados (AZ, CA, ID, IL, KY, MA, ME, MI, MN, NC, NJ, OH, OR, PA, RI, TX, VA, WA, WI), 51 bebês foram impactados. Todos os 51 bebês foram internados e receberam tratamento com BabyBIG®, a antitoxina infantil. Além disso, muitos deles precisaram ser colocados em ventiladores para auxiliar na respiração. Não houve registro de mortes. Os bebês têm entre 16 e 264 dias de idade, e 22 deles (43%) são do sexo feminino. A contagem foi estendida para incluir casos de botulismo infantil registrados a partir de 24 de dezembro de 2023.

As autoridades foram informadas sobre esse conjunto de casos no dia 6 de novembro de 2025 e iniciaram a investigação. No dia 7 de novembro, recomendaram que a empresa realizasse o recolhimento voluntário de dois lotes do produto, e no dia 8 de novembro emitiram um alerta público aos consumidores. A empresa ByHeart realizou um recall voluntário, estendendo-o a todos os lotes de fórmula infantil e a todos os produtos, incluindo latas e sachês Anywhere Pack, em todo o país. Isso incluiu lojas físicas e online. A empresa ofereceu reembolso integral aos consumidores, suspendeu a produção dos alimentos e interrompeu as atividades de marketing, publicidade e parcerias com influenciadores.

O Departamento de Saúde Pública da Califórnia disponibilizou uma linha direta para ajudar cuidadores com dúvidas sobre o surto de botulismo infantil. O atendimento está disponível de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. Foi aconselhado aos pais e responsáveis que cessassem imediatamente o uso de fórmula infantil, que observassem os bebês que a consumiram e que procurassem assistência médica imediatamente se eles apresentassem sintomas. Ademais, foi recomendado que itens e superfícies que possam ter tido contato com a fórmula fossem higienizados com água quente e sabão ou na máquina de lavar louça. Os varejistas foram encorajados a garantir a coleta dos itens, incluindo os que foram retornados pelos clientes. Foi recomendado aos médicos que, ao suspeitar de algo, entrassem em contato imediatamente com a linha de suporte clínico do CDPH, que está à disposição 24 horas por dia, 7 dias por semana.

As empresas foram instruídas a não comercializar nem utilizar a fórmula infantil ByHeart Whole Nutrition que foi recolhida, além de lavar e higienizar itens e superfícies que possam ter entrado em contato com a fórmula recolhida. Os profissionais de saúde foram informados de que o diagnóstico inicial do botulismo infantil se fundamenta em sintomas clínicos e que devem iniciar o tratamento o mais rápido possível, sem aguardar a confirmação laboratorial. O botulismo infantil é uma doença que deve ser notificada obrigatoriamente. O departamento estadual de saúde deve ser informado sobre todos os casos suspeitos.

De acordo com informações dos consumidores da Amazon, a fórmula foi distribuída internacionalmente para 22 países. Isso inclui Argentina, Brasil, Brunei, Canadá, Chile, China, Colômbia, Equador, Egito, Hong Kong, Israel, Jamaica, Japão, Coreia do Sul, Peru, Filipinas, Romênia, Singapura, África do Sul, Tailândia e Ilhas Virgens Britânicas. Este recall internacional abrange todos os produtos ByHeart.

No Brasil, o produto era veiculado em anúncios em plataformas de comércio eletrônico. A Anvisa proibiu totalmente qualquer aspecto da fórmula infantil (comercialização, distribuição, importação, propaganda e uso). Além disso, determinou a apreensão de todos os lotes do produto em 14 de novembro de 2025 por meio da Resolução-RE nº 4.620 e emitiu a Comunicação de Risco nº 144/2025 – VISA. A medida foi motivada considerando a ausência de registro sanitário no país e o alerta do FDA.”

Em certos estados, famílias em situação de rua ou vulneráveis receberam latas doadas por meio de programas de assistência alimentar e habitacional, entre esses programas está o Departamento de Serviços Humanos do Oregon. A ByHeart informou que, desde junho de 2022, distribuiu quase 24.000 latas de fórmula, posteriormente recolhidas. E ao menos 30 famílias impactadas recorreram à Justiça, representadas pelo advogado especializado em segurança alimentar Bill Marler, que pediu ao tribunal a unificação dos casos. A ByHeart supostamente mantém 10 milhões de dólares em seguro de responsabilidade civil.

Apesar do recall internacional, quatro grandes varejistas não retiraram as fórmulas de suas prateleiras. Isso levou a FDA a emitir uma carta de advertência no dia 12 de dezembro e um comunicado à imprensa no dia 15 de dezembro, convocando os líderes da indústria alimentícia a cumprirem de forma eficaz os protocolos de recolhimento de produtos alimentícios estabelecidos pela Lei Federal.

Como acontece o botulismo infantil?

Segundo o CDC, o botulismo infantil é uma toxemia intestinal que ocorre após a ingestão de esporos da bactéria Clostridium botulinum ou de espécies associadas. Esses esporos colonizam temporariamente o intestino grosso do bebê e produzem a neurotoxina botulínica, que se liga às terminações nervosas colinérgicas e cliva proteínas intracelulares essenciais para a liberação de acetilcolina. Isso pode levar a paralisias bulbares, hipotonia e paralisia flácida simétrica e descendente. Esses esporos estão presentes naturalmente no ambiente, incluindo solo e sedimentos (poeira), e conseguem ser inseridos em ambientes de fabricação de alimentos e residenciais por meio de mãos, sapatos e outras superfícies contaminadas. Bebês podem consumir esporos de Clostridium botulinum presentes na comida ou no ambiente, tornando-os uma população vulnerável com risco de vida, enquanto crianças mais crescidas e adultos com sistemas digestivos desenvolvidos e saudáveis não são afetados.

A doença é rara, mas séria, e o diagnóstico é clínico, requerendo ação imediata, pois pode ser fatal entre bebês de 3 a 26 semanas, pois o organismo da criança, ainda em formação, não consegue combater a ação dessa bactéria tão letal. Nos EUA, é a principal causa de botulismo entre os estados. Uma das principais causas é a oferta de mel de abelha nas primeiras semanas de vida, que pode ser responsável por 5% dos casos de morte súbita em lactentes. Por isso, não se pode ofertar mel a bebês menores de 1 ano. Confira aqui um artigo anteriormente publicado neste blog sobre essa questão.

Os sintomas habituais surgem tanto de forma conjunta quanto isolada, e podem levar semanas após a ingestão do alimento. Começam com constipação, dificuldade para se alimentar (sugar e engolir), redução dos reflexos de sucção e vômito, ptose (pálpebra caída), reflexos vagarosos (ritmo diferenciado), choro fraco e alterado, expressão facial inexpressiva e falta de controle da cabeça. Isso pode progredir para problemas respiratórios e parada respiratória. Alguns pais dizem que seus bebês perderam o apetite.

No segundo post da trilogia, abordaremos a composição da fórmula infantil, os resultados das análises laboratoriais e o fabricante do produto. Até breve.

Doralice Goes é mestranda em Segurança dos Alimentos pela UFSJ, sobreviveu ao botulismo alimentar em 2022 e, desde então, dedica-se ao estudo da doença, monitora casos globais, faz palestras na indústria e é autora de livro sobre o botulismo.

 

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