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Surtos alimentares no Brasil – dados de 2014 a 2023

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As doenças transmitidas por alimentos, mais comumente conhecidas como DTA, são causadas pela ingestão de água ou alimentos contaminados. Existem mais de 250 tipos de DTA e a maioria são infecções causadas por bactérias, vírus e parasitas. Vale a pena relembrar que surtos por doença transmissível por alimento (DTA) são incidentes em que duas ou mais pessoas apresentam uma enfermidade semelhante após a ingestão de um mesmo alimento ou água, e as análises epidemiológicas apontam a mesma origem da enfermidade.

Doença transmitida por alimento é um termo genérico, aplicado a uma síndrome geralmente constituída de anorexia, náuseas, vômitos e/ou diarreia, acompanhada ou não de febre, relacionada à ingestão de alimentos ou água contaminados. Os sintomas digestivos não são as únicas manifestações, podendo ocorrer afecções extraintestinais em diferentes órgãos, como rins, fígado, sistema nervoso central, dentre outros.

A probabilidade de um surto ser reconhecido e notificado pelas autoridades de saúde depende, entre outros fatores, da comunicação dos consumidores, do relato dos médicos  e das atividades de vigilância sanitária das secretarias municipais e estaduais de saúde.

A ocorrência de Doenças Transmitidas por Alimentos vem aumentando de modo significativo em nível mundial. No banco de dados da EFSA é possível observar que, entre 2020 e 2024, houve um crescimento expressivo nos indicadores relacionados a surtos de origem alimentar. O número total de surtos praticamente dobrou nesse período, passando de 3.167 em 2020 para 6.660 em 2024 — um aumento de aproximadamente 110,3%. A quantidade de pessoas contaminadas apresentou uma elevação ainda mais acentuada, saltando de 22.013 para 64.064 casos, o que corresponde a um aumento de cerca de 191,0%. Em relação aos óbitos, houve 49 mortes em 2020 e 55 em 2024, indicando um acréscimo de 12,2%.

Vários são os fatores que contribuem para a emergência dos surtos alimentares: o crescente aumento das populações; a existência de grupos populacionais vulneráveis ou mais expostos; o processo de urbanização desordenado e a necessidade de produção de alimentos em grande escala. Contribui, ainda, o deficiente controle dos órgãos públicos e privados no tocante à qualidade dos alimentos ofertados às populações.

Outros determinantes para o aumento na incidência das DTA são a maior exposição das populações a alimentos destinados ao pronto consumo coletivo (fast-food), o consumo de alimentos em vias públicas, a utilização de novas modalidades de produção, o aumento no uso de aditivos e a mudanças de hábitos alimentares, sem deixar de considerar as mudanças ambientais, a globalização e as facilidades atuais de deslocamento da população, inclusive em nível internacional.

1 – Número total de surtos de DTHA notificados no Brasil 

De acordo com a Vigilância Epidemiológica das DTA no Brasil, seguem dados atualizados até março de 2024, referentes ao período de 2014 a 2023. Nesse intervalo de 9 anos, foram registrados 6.874 surtos identificados/notificados (média de 763,78 casos por ano / 63,65 casos por mês), totalizando 110.614 pessoas doentes, com 12.346 hospitalizações e 121 óbitos constatados em decorrência desses surtos.

No ano de 2023, foram registrados 1162 surtos de DTA e 19.671 pessoas doentes contra 811 surtos e 14.336 pessoas doentes no ano de 2022, ou seja, tivemos um acréscimo de 43% nos surtos, com taxa de letalidade de 0,16 ( 31 óbitos).

 

                                                                              Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

 2 – Surtos por região da federação

A região Sudeste lidera o histórico de notificações de casos de DTA no Brasil. Em seguida, vem a região Nordeste. É importante considerar que regiões mais populosas tendem a registrar maior número absoluto de notificações; por isso, o Sudeste aparece com os maiores valores. Ainda assim, observa-se um pico expressivo de casos na região Norte em 2019, especialmente relacionados a episódios envolvendo açaí contaminado pelo protozoário Trypanosoma cruzi, transmitido pelo inseto popularmente conhecido como barbeiro.

                                                                           Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

3 – Surtos por local de ocorrência

As residências continuam como o local principal de ocorrência dos surtos, com 34% de predominância, seguidas dos restaurantes e padarias com 14,6% e na sequência creches e escolas, com 12,5%.

                                                                                Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

4 – Surtos por alimentos causadores

A água lidera como causa de surtos, sendo responsável por 28,8% dos casos. Na sequência aparecem os alimentos mistos (como pizza, risoto e carne ao molho), com 21,3%. Em terceiro lugar estão os alimentos múltiplos — situações em que dois ou mais alimentos são responsáveis pelo surto — representando 13,1%. Depois vêm os produtos de leite e derivados (6,7%), a carne bovina (5,6%) e o açaí (3,9%). Essas seis categorias juntas representam 79,4% dos surtos.

                                                                     Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

5 – Agentes etiológicos mais identificados

Os principais agentes etiológicos associados aos surtos são E. coli, que representa 34,8% dos casos, seguida por Staphylococcus e Salmonella.

                                                                               Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

6 – Critério de confirmação

Entre 2014 e 2023, o critério clínico epidemiológico foi o mais utilizado (29-43% dos casos), indicando que a maioria dos surtos de DTHA é confirmada por sintomas e investigação epidemiológica, não necessariamente por exames laboratoriais. Há uma tendência preocupante de aumento de casos inconclusivos, especialmente em 2019 (30%) e 2021 (34%), o que sugere limitações na capacidade de investigação. A pandemia impactou os padrões, com redução dos métodos laboratoriais bromatológicos a partir de 2021. Por outro lado, observa-se progresso gradual no laboratorial clínico (12% para 17%), indicando melhoria na confirmação diagnóstica.

                                                                          Fonte: Sinan/ SVSA/ Ministério da Saúde.

Relatórios que reúnem dados sobre DTHA desempenham um papel essencial para profissionais envolvidos na segurança dos alimentos e nas ações de vigilância sanitária. Eles fornecem informações estratégicas que subsidiam a avaliação de riscos e orientam decisões importantes para a prevenção e o controle desses eventos.

Referência: Surtos de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar

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Intoxicação alimentar em festa de formatura atinge mais de 400 pessoas

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No início de julho de 2024, foi noticiada a intoxicação alimentar de mais de 400 convidados que estiveram presentes no jantar da festa de formatura da Faculdade de Medicina de Taubaté, município do interior de São Paulo.

Os relatos são de sintomas gastrointestinais, como vômitos, diarreia, náuseas, febre, incluindo pessoas que precisaram ser hospitalizadas. Um dos pacientes foi diagnosticado com norovírus, que passou a ser o principal suspeito como agente causador destes casos de intoxicação alimentar.

A empresa responsável pelo buffet do jantar colocou-se à disposição para acompanhar as investigações do caso, mas já respondeu em suas redes sociais e inclusive pelo site Reclame Aqui, conforme trecho abaixo:

“Protocolo de Higiene e Segurança:
A XX (nome da empresa) segue rigorosos protocolos de higiene e segurança em todos os eventos que organiza. No caso específico deste evento, uma nutricionista acompanhou todo o manuseio dos alimentos, e o fornecedor de buffet adotou todas as medidas de higiene exigidas pelas normas sanitárias. No entanto, não podemos descartar a possibilidade de que o problema tenha ocorrido fora do nosso controle.”

Os norovirus foram os primeiros agentes virais ligados a doenças de sintomas gastrointestinais, mas por muito tempo sua relevância foi secundária, sendo o rotavírus o agente de maior importância nesses casos.

Não é o primeiro relato desse vírus como agente causador de doença gastrointestinal em pessoas em eventos. No inicio de 2009, houve relato de surto de gastroenterite durante um cruzeiro de luxo.

O norovirus é transmitido através de água ou alimentos contaminados e é um importante causador de gastroenterites no Brasil. Pode ser detectado por testes moleculares, tanto em fezes de pacientes acometidos com sintomas gastrointestinais quanto em água e alimentos, possíveis fontes de contaminação.

É um vírus com presença comum em locais confinados ou de contato próximo, como eventos, asilos, hospitais, isso porque a transmissão de pessoa para pessoa ocorre com facilidade e diferentemente de outros vírus, os adultos também podem ser acometidos.

Existem poucos relatos de intoxicação alimentar em festas de formatura, com completa investigação do caso e detecção dos agentes causadores. Fazendo uma busca, encontrei:

  • Formatura da 53ª turma de direito da Faculdade de Uberlândia, em 2006, causada por Salmonella, porém o buffet defendeu-se dizendo que as amostras foram coletadas quatro dias após o evento, sendo que no dia da festa os alimentos não se apresentavam contaminados;
  • Mais de 100 pessoas com sintomas de intoxicação alimentar na cidade de Icó, no Ceará, em 2020, sem que eu encontrasse o agente causador;
  • Formatura da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Londrina, em 1998, também sem maiores informações sobre o caso.

Eventos, festas ou mesmo o caso do cruzeiro são situações em que os alimentos são preparados em grande quantidade, nem sempre respeitando processos seguros de preparação, como temperatura de cozimento, higienização de superfícies e utensílios e por pessoas que podem não ter recebido todos os treinamentos relativos às boas práticas de manipulação de alimentos. Estes fatores são possíveis causas de contaminação de alimentos que podem provocar intoxicações alimentares.

Estudos completos desses casos, com participação da Vigilância Sanitária e de outras entidades, com investigação e isolamento do agente causador, seriam importantes formas de prevenção para que novos casos não aconteçam.

Imagem: Julia Kuzenkov

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